
segunda-feira, 1 de setembro de 2025
Calendário Astrológico: Setembro de 2025

segunda-feira, 11 de agosto de 2025
Reflexões Astrológicas 2025: Conjunção Vénus – Júpiter em Caranguejo
Reflexões Astrológicas
Trânsitos e Aspectos
Conjunção Vénus – Júpiter em Caranguejo
Lisboa,06h15min, 12/08/2025
Vénus - Júpiter
Decanato: Mercúrio
Termos: Mercúrio
Monomoiria: Lua
A
conjunção de Vénus e Júpiter em Caranguejo ocorre, no seu momento exacto, com
Leão a marcar a hora para o tema de Lisboa e, deste modo, na XII, no Lugar do Mau
Destino ou Mau Espírito (κακός
δαίμων), no decanato e termos de Mercúrio e
na monomoiria da Lua. O ingresso
dá-se assim acima do horizonte e cerca de meia hora antes do nascer-do-sol. Vénus
encontra-se no seu próprio segmento (αἵρεσις) e Júpiter fora, fazendo de Vénus o
grande benéfico do tema. Podemos estabelecer também uma via ascendente que
começa no Sol, numa posição pré-ascensão, e vai até o Úrano, o astro que mais
se aproxima do Ponto de Culminação.
A conjunção Vénus-Júpiter no signo de Caranguejo é a dádiva
que vem do mar, é o canto de Ariel, mas a Ariel de Caranguejo tem cabelos de
azeviche e olhos de obsidiana. Não é a sereia pisciana da exaltação de Vénus. Na
Pequena Sereia, Ariel para andar na terra perde a voz, para andar por entre os
homens deixa de ser quem é, sujeita-se às suas regras, às suas obrigações, e
para isso deixa de ser a mulher que vem do mar, perde a integridade do próprio
corpo, transformado a pedido, por imposição do mal. O canto de Ariel é encanto
e não é nem um canto de ninguém, nem um canto para ninguém, é um canto que
ilumina o mar profundo e que toca com encanto os seus abismos.
Para quem
tenha visto a versão de animação, mais antiga, da Pequena Sereia da Disney,
lembrar-se-á que na gruta de Ariel encontra-se um quadro de Maria Madalena. A
perda da voz ou a voz roubada é um clássico do feminino agrilhoado. Na actual
conjunção, em pleno mar, Júpiter já se encontra em Caranguejo, o masculino que coexiste
com o Divino Feminino, espera a deusa anunciada, espera o encontro com Vénus.
Este elemento é particularmente importante. Sobretudo se pensarmos que Vénus
está no seu próprio segmento e Júpiter na sua exaltação. A luz espalha-se no
masculino e espalha-se por se encontrar no lugar do feminino, no lugar da Lua,
com a Deusa do Amor. Se existe um exacerbamento da dádiva de Júpiter este nasce
da presença do Divino Feminino.
Existe uma
beleza profunda no encontro dos benéficos, uma que torna qualquer tema especial,
porém, nem sempre as suas dádivas são colhidas, nem as suas bênçãos
reconhecidas. No lugar da Lua (Caranguejo), estes dons podem adquirir um valor
de mistério primordial e, por no tema de Lisboa se encontrar na XII, ganha
também um sentido de aprisionamento. O Mau Espírito ou Mau Destino envolve esta
dádiva, tentando, dada a natureza do lugar, toldar os dons do bem. No entanto,
a persistência do bem resulta daquilo que Séneca descreve do seguinte modo: “O supremo bem não admite qualquer grau
superior a si, desde que nele se contenha a virtude, e desde que a virtude não
seja diminuída pela adversidade e permaneça intacta mesmo que o corpo sofra
alguma amputação: e de facto a virtude mantém-se! É que eu concebo a virtude
como animosa e sublime, e tanto mais ardente quanto mais obstáculos encontra.”
(Ep.71.18;
Cartas a Lucílio, 2ª ed,, trad. J. A. Segurado e Campos. Lisboa, 2004:
Fundação Calouste Gulbenkian). Se o termo virtude
desagradar o leitor contemporâneo, poder-se-á utilizar a tradução do termo grego
ἀρετή, ou seja, a excelência.
A ideia de
supremo bem torna-se, de um ponto de vista astrológico, bastante expressiva na
conjunção dos benéficos. A questão que se coloca é que ele se aplica à
conjunção quando é considerado em si mesma, pois, de um ponto de vista
relativo, a persistência do bem terá de ser sempre colocada em contexto. No
entanto, as lições de Petosíris indicam que, mesmo num aspecto tenso com os
maléficos, a acção profícua dos benéficos supera, ou tende a superar, a dos
maléficos. Ora esta ideia da virtude ou da excelência como bem supremo assume,
na expressão astrológica, uma ponte de sentido entre os benéficos, por um lado,
e os luminares, por outro. É desta união da dádiva à luz que se pode alcançar o
supremo bem. A excelência astrológica terá de nascer desta relação primordial.
Contudo, a simples presença da conjunção dos benéficos torna-se um indicador,
por um lado, da dádiva e, por outro, da persistência do bem. Na distribuição de
raios a sua força, estará sempre reforçada.
Nesta
conjunção, as duas energias do bem fundem-se numa única expressão. Cada uma
contribui com a sua própria natureza e de acordo com o lugar que ocupa. Neste
caso, Caranguejo, o lugar da Lua, recebe os benéficos com os dons que lhe são
próprios. O lado materno de Caranguejo é diferente do lado materno, por
exemplo, de Touro que representa a Mãe Terra. Caranguejo é a Lua como mãe, é a
Mãe Divina, a luz do feminino iluminando o céu em cada um das suas faces.
Quando os planetas ocupam um lugar, os deuses estão ali, estão de passagem e
fixam-se nessa morada. Afrodite e Zeus ou Vénus e Júpiter estão no lugar da Lua,
da Mãe Divina. Ora isto remete-nos para Séneca quando diz que “Os deuses não nos desprezam nem invejam,
antes nos admitem à sua presença e nos estendem a mão para ajudar-nos a subir!
Admiras-te que um homem possa ascender à presença dos deuses? A divindade é que
vem até junto dos homens e mesmo, para lhes ficar mais próxima, penetra até ao
interior dos homens, pois sem a presença divina não é possível existir a
virtude! As sementes divinas existem dispersas no corpo humano: se forem
tratadas por quem as saiba cultivar, elas crescerão à semelhança da sua origem,
desenvolver-se-ão em plano idêntico ao da divindade de que provieram; mas se
caírem nas mãos de um mau cultivador então este, tal como um terreno estéril e
pantanoso, matá-las-á, produzindo ervas daninhas em vez de searas.” (Ep.73.15-6; Cartas a Lucílio, 2ª ed,,
trad. J. A. Segurado e Campos. Lisboa, 2004: Fundação Calouste Gulbenkian).
Se considerarmos um tema astrológico, onde os deuses se
encontram é lá que se encontram as suas sementes. Um tema que receba a
conjunção dos benéficos, seja ele natal ou mundano, será sempre um com uma dimensão
especial de dádivas. Quem quer que conheça alguém nascido com esta conjunção,
verá que se encontra ali alguém que tem algo para dar. As bênçãos do bem não se
guardam para si. Vénus e Júpiter, unidos num tema, pedem uma distribuição do
bem, ou seja, a luz recebida deve ser devolvida de acordo com os dons que
receberam. O bem recebido não se esgota em si mesmo. Pelo contrário, cresce
como semente e torna-se uma árvore robusta, uma que entregará ao mundo os
frutos e as futuras sementes. Segue o caminho do bem e lá encontrarás as suas
dádivas. Nesse caminho, encontrarás o tesouro.
Ora na actual conjunção Vénus-Júpiter firma-se e
evidencia, de forma facilmente observável, uma predominância do númen feminino.
O Divino Feminino é, neste momento, uma luz que se vê, que surge erguida sob o
horizonte, anunciada, como proposta de transformação da humanidade. Pelo facto,
da conjunção se fixar em Caranguejo, o lugar da Lua, esse já seria por si só um
anúncio, mas os elementos não se reduzem a essa determinação. Vénus e Júpiter
em Caranguejo unem-se triangularmente à Lua e à Caput Draconis em Peixes. Do lugar da exaltação de Vénus e do domicílio
de Júpiter, a Lua e o Dragão da Lua vão contribuir e consubstanciar a expressão
do Divino Feminino nesta efeméride. Porém, não nos devemos esquecer que para o
tema de Lisboa os lugares não favorecem nem a conjunção, nem a união
triangular, pois a conjunção cai na XII e a Lua e Caput Draconis encontra-se na VIII, no lugar da Morte.
Existem também outros dois elementos de tensão que atacam
este prenúncio escatológico do Divino Feminino. Os maléficos fixam
quadrangularmente o seu olhar na conjunção dos benéficos. Marte em Balança e
Saturno (e Neptuno) em Carneiro criam dois aspectos de tensão a Vénus e Júpiter
em Caranguejo. O eixo da identidade (Carneiro-Balança) revela a dificuldade de
receber a transformação que representa o númen do Divino Feminino. Existe uma
resistência, uma oposição declarada ao elemento transformativa, ou seja, a
humano teme a desintegração da identidade e a imersão na origem. É como se a
humanidade revelasse colectivamente o medo do útero divino, o que não é difícil
de apreender dada a misoginia em que estamos envolvidos. O númen feminino tem
sido sempre alvo de oposição, de resistência. No entanto, relembrando Séneca e
Petosíris, existe, por um lado, a prevalência do bem supremo e, por outro, a
persistência dos benéficos, daí resulta a conclusão de que; apesar destes
elementos restritivos, o Divino Feminino fará o seu caminho pelo menos até
aqueles que o queiram receber.
Os elementos de tensão devem ser assim considerados de
forma distinta e específica. Saturno e Neptuno em Carneiro revelam como a práxis de uma identidade, enraizada em
estruturadas patriarcais cristalizadas e em elementos espirituais
preconceituosos que ainda persistem, tende a rejeitar a integração do númen
feminino. Saturno e Neptuno em Carneiro são uma oportunidade humana de
transformação, por meio da acção, de estruturas caducas, porém, a natureza humana
tende a resistência. Esta quadratura à conjunção dos benéficos apresenta-nos a
base dessa fortaleza dogmática. Por outro lado, mas consequentemente, a
quadratura de Marte em Balança à conjunção é bom exemplo da força debilitada,
uma força (Marte) erguida a partir das deficientes estruturas relacionais do
humano (Balança), como promotora de uma violência estrutural contra o feminino
e contra a mulher. Os nossos tempos, a realidade sombria que vivemos, continua
a ser absurdamente perigosa para uma mulher. A transformação a partir do Divino
Feminino vem contrariar a continuidade desse padrão destrutivo.
Aos raios quadrangulares, lançados a partir de Carneiro e
Balança até à conjunção dos benéficos, podemos juntar também a quadratura entre
a Lua e a Caput Draconis em Peixes e
Úrano em Gémeos. Neste elemento de tensão, face à proposta considerada pela
conjunção, vai encontrar-se uma dificuldade de conciliar as estruturais
comunicacionais da sociedade contemporânea, baseadas numa expressão líquida e
informe, e a profundidade espiritual de integração na totalidade imersiva de
uma deusa sob a água e que dá à costa. A racionalidade dedutiva, por um lado, e
a ausência de profundidade, por outro, apresenta-se como um sério obstáculo
aquilo que é proposto pela conjunção e pela sua relação com a Lua e com o seu Dragão.
Existe assim uma barreira de discurso ou de entendimento desse discurso à
proposta de transformação desta co-presença dos benéficos.
Paralelamente, sob um traço astrológico da aversão, Sol e
Mercúrio em Leão apresenta uma outra mensagem que, na verdade, se relaciona com
aquela que a conjunção quer transmitir. Quando o Sol em Leão alcança o melhor
de si, ultrapassando as pulsões narcísicas que lhe são inatas, chega àquilo que
se pode designar de nobreza da alma e com Mercúrio promove a nobreza do
discurso. Existe, porém, uma raridade neste estágio leonino, uma que não
chegará a todos por determinação geral, e que também não se limita ao Sol ou a
Mercúrio, abrangendo também outros planetas ou pontos astrológicos. A proposta
do melhor de Leão servirá, por exemplo, para atenuar a acção deletéria dos
maléficos. A união em trígono a Saturno (e Neptuno) e em sextil a Marte, os
dois em separação, faz do Sol e de Mercúrio os arautos de uma transformação
através do carácter.
A oposição do Sol e Mercúrio em Leão a Plutão vai adensar
esta proposta transformativa. Plutão traz o Memento
Mori à nobreza da alma. Alguém com uma alma nobre trará sempre si a
sabedoria de que se vai morrer. A presença tangível da morte permite que se dê
valor à vida. Os tolos que pensam que não vão morrer não dão valor a nada. O Memento Mori como semente plutoniana vai
contrariar a acção dos maléficos, relativizando a sua influência e mostrando-nos
que devemos colocar as nossas preocupações naquilo que controlamos e não em
eventos externos. A morte como lição tem o poder de exercer um processo de reductio, ou seja, devemos estabelecer
como lição essa redução ao essencial, àquilo que contribui para o
estabelecimento de uma via transformativa.
Em 2025, a conjunção entre Vénus e Júpiter em Caranguejo
vai trazer aquele que pode ser entendido como o dom ou a dádiva que neste ano
se anuncia. O Divino Feminino surge acima do horizonte, como estrela que guia,
como luz no caminho. Se utilizarmos como unidade simbólica o tema de lisboa,
vemos que o Sol ainda não nasceu e que Vénus e Júpiter ascendem acima do
horizonte. Nesse amanhecer olissiponense, os benéficos são Estrelas da Manhã,
guias de uma luz que rompe a escuridão. A permanência e persistência do bem é
algo que deve estar sempre presente, lembrando-nos que onde está o tesouro,
está a transformação. Na subida para o templo, é o amor que nos salvará e a
deusa do amor indicar-nos-á o caminho.
quarta-feira, 6 de agosto de 2025
Brevemente: O Resto Permanece Humano: Volume 1 (Livros I - III)
segunda-feira, 4 de agosto de 2025
Brevemente: O Resto Permanece Humano: Livro IV
sexta-feira, 1 de agosto de 2025
Calendário Astrológico: Agosto de 2025

terça-feira, 1 de julho de 2025
Calendário Astrológico: Julho de 2025

segunda-feira, 9 de junho de 2025
Reflexões Astrológicas 2025: Júpiter em Caranguejo
Reflexões Astrológicas
Ingressos
Júpiter em Caranguejo
Lisboa, 22h02min, 09/06/2025
Júpiter
Decanato: Vénus
Termos: Marte
Monomoiria: Lua
O
ingresso de Júpiter em Caranguejo ocorre, tal como acontecera em Gémeos, com Capricórnio
a marcar a hora para o tema de Lisboa e, deste modo, na VII, no Lugar do Poente
(δύσις), no decanato de Vénus, nos termos de Marte e na monomoiria da Lua. O ingresso dá-se assim
abaixo do horizonte e cerca de uma hora após o pôr-do-sol. Júpiter encontra-se,
desta forma, fora do seu próprio segmento (αἵρεσις) e abaixo do horizonte. O tema de
Lisboa confirma a regência da Lua face ao segmento de luz, pois este é também o
astro mais alto do tema, aquele que se encontra mais próximo do Ponto de
Culminação. Neste tema, só a Lua e Marte se encontram acima do horizonte. À
semelhança do tema do ingresso de Júpiter em Gémeos, o benéfico brilha sem ser
visto e não revela à luz da noite a mudança de signo. Este posicionamento
confere à acção de Júpiter um carácter de potencialidade ou de acção oculta,
discreta.
Júpiter, ao estar cerca de um ano em cada signo,
apresenta um ciclo completo de cerca de doze anos, o que faz dele um marcador
do tempo e uma expressão do próprio Zodíaco e do número doze como unidade
temporal. As doze horas abstractas do dia e da noite servem também esta ideia. Deste
modo, as doze horas de luz solar, os doze signos e os doze anos do ciclo
Júpiter unem e encerram este sentido. Na verdade, os benéficos possuem ambos,
em maior grau que os maléficos, esta expressão íntima e simbólica do tempo. O
bem é uma condição natural ou essencial, enquanto o mal é uma condição
acidental, ou seja, não determina a natureza primeira. A ignorância, como maior
dos males, é exemplo desta condição, surgindo por acidente externo ou interno,
por desconhecimento da sabedoria como finalidade natural. O tempo dos benéficos
é natural. No caso de Júpiter, a cada ano, recebemos a dádiva da sua viagem por
um templo zodiacal. Em 2025, será Caranguejo. Júpiter ingressa neste signo a 9
de Junho. A 11 de Novembro iniciará a sua retrogradação e a 19 de Março de 2026
retomará ao movimento directo, deixando Caranguejo a 30 de Junho do mesmo ano
quando ingressar em Leão.
O Thema Mundi,
com Caranguejo (Lua) a marcar a hora, faz deste lugar e desse signo o ventre do
mundo, a matriz da realidade. É a partir desse lugar que o Sol emerge (Leão, a
II). Passa-se da Vida (I) ao Viver (II) por intermédio do Divino Feminino. O Thema Mundi conserva, deste modo, uma
herança espiritual profunda. Ao colocar Caranguejo na I, os lugares de Júpiter
passam a ser aqueles com os quais os luminares se unem triangularmente, ou
seja, Sagitário na V e Peixes na IX. A Boa Fortuna (V) e o Lugar de Deus (IX) são
os templos de Júpiter e aqueles que recebem as bênçãos lunares e solares a
partir do Leme da Natividade (I) e do Lugar do Viver (II). O deus mais velho e
barbudo foi, na verdade, uma criança, filho de sua Mãe. Com Júpiter em Touro,
vemos a criança e o jovem Zeus em Creta e a sua relação com a Grande Mãe, com
Reia, mas com Júpiter em Caranguejo assistimos ao deus que quer conhecer os
mistérios do Divino Feminino e através dele chegar ao poder, passar à luz.
Hesíodo, na Teogonia,
descreve que, antes de casar com Hera, Zeus teve outras esposas (886 e ss.). A primeira foi
Métis, a mais sábia entre deuses e mortais. Face a um oráculo que previa que o filho
de ambos o destronaria, Zeus ludibria Métis e leva-a a transformar-se numa gota
de água que depois engole. Ora Métis estava grávida e assim da cabeça de Zeus
nasce já armada Atena, a deusa sem mãe. Depois desta união, Zeus vai ter como
esposas sucessivas: Témis, Eurínome, Deméter, Mnemósine, Leto e, por fim, Hera.
É através destas deusas e de outras uniões que Zeus reforça os seus poderes e é
daí que se pode concluir que a ascensão de Zeus é matrilinear. O deus derruba o
pai, mas é através da mãe, da Grande Deusa, nas suas várias formas, que assume
o poder. Na mitologia egípcia, Hórus reina no Egipto por subir ao trono de seu
pai, Osíris, e esse trono é Ísis, a sua mãe. O hieróglifo que representa a
deusa é um trono. A astrologia mitológica pode, deste modo, conciliar a
astrologia e a mitologia e confirmar, neste ponto, a representação astrológica
que coloca Júpiter a exaltar-se no grau 15 de Caranguejo.
É preciso, no entanto, reforçar que a ascensão de
Zeus/Júpiter marca também a hegemonia do patriarcalismo. Os mitógrafos vão
transformar a proeminência do feminino na ascensão de Zeus/Júpiter num certo
marialvismo mitológico que procura impor uma visão androcêntrica e patriarcal.
Naturalmente, esta hegemonia conduziu a uma corrupção do Divino Feminino e a
dessacralização da Grande Mãe. Se pensarmos no exemplo de Hera, isto é
particularmente evidente. A corrupção de Hera fez com que se passasse de uma
deusa-mãe, com um culto enraizado e mais antigo que o de Zeus, para uma esposa
ciumenta e vingativa. Existem, todavia, dois elementos mitológicos de Hera que
definem a sua proeminência: o hieros
gamos, ou seja, o casamento sagrado e o nascimento divino.
O casamento sagrado, não a celebração dos deuses, terá
ocorrido em Creta segundo Diodoro Sículo (Biblioteca da História 5.72.4).Lembro-nos que
Caranguejo é o signo feminino que se segue a Touro, podendo-se ver aqui uma
continuidade astro-mitológica. Calímaco diz-nos que Zeus, referindo-se ao
mistério nupcial, amou Hera apaixonadamente durante trezentos anos (Aetia fragm. 2.3). Para além da
lubricidade do deus, podemos encontrar aqui a importância do hieros gamos como união harmoniosa do
feminino e do masculino. É o derradeiro mistério da realidade. Na verdade, no hieros gamos, é o feminino que consagra
o masculino. De uma outra forma, Aristófanes louva o aspecto de donzela de
Hera, do primeiro aspecto da deusa tríplice (Aves
1720 e ss.). Hera é uma virgem-mãe, uma
deusa que renova a virgindade num ritual que pode ser encontrado em Samos e na
Argólida. Neste ponto, o cristianismo não inventou nada. Ora todos estes
aspectos mitológicos e astro-mitológicos definem a passagem de Júpiter pelo
signo de Caranguejo e a sua exaltação neste lugar.
Marco Aurélio diz-nos, nos seus Pensamentos, que “Todas as
coisas se encadeiam entre si e a sua conexão é sagrada” (VII, 9
trad. J. Maia. Lisboa: Relógio D’Água, 1995).
Temos de procurar os sentidos que se escondem e por entre os fragmentos da
realidade encontrar uma unidade. A união da astrologia à mitologia encerra, à
semelhança da união da astrologia à filosofia, um potencial imenso. A
consonância entre a astrologia e a psicologia ou com outras áreas científicas
já trilhou muitos caminhos, mas com a mitologia e com a filosofia ainda existe
muito para fazer. Júpiter e Saturno trazem em si a gravidade moral dos
conceitos planetários. Já observámos anteriormente, a correspondência de
Júpiter e Saturno com o poder e o dever, ora a estes podemos acrescentar a
justiça e a necessidade e a forma como estes dois conceitos se conjugam numa única
unidade de sentido. O mito de Er, na República
de Platão, é um excelente exemplo desta conjugação (614b-621d).
O destino guarda aquilo que é nosso por justiça e
necessidade e estas são atribuições de Júpiter e Saturno. Não existe um
determinismo externo, existe uma responsabilidade e uma finalidade individual. A
passagem de Júpiter por Caranguejo vai conciliar o conceito de justiça com o de
origem, daí que Marco Aurélio diga que “Tudo
o que te acontece estava-te destinado desde a origem como devendo inserir-se no
conjunto e tecer a trama dos teus dias” (IV, 2). Existe uma justiça na origem que se confirma na
continuidade da vida ao longo das sucessivas reencarnações. Porém, Júpiter vai
dar à expressão da origem um valor de finalidade, um impulso de realização ou
progresso. Ora Séneca afirma o seguinte: “Uma coisa ainda incompleta está
necessariamente sujeita a oscilar, a progredir, a recuar ou mesmo a ruir. E
ruirá certamente, se não houver vontade e esforço em andar para a freme! Se
abrandamos um pouco que seja a aplicação e o esforço constante, andaremos certamente
para trás. E ninguém conseguirá retomar o progresso no mesmo ponto em que o
interrompeu! Só há uma solução, portanto: ser firme e avançar sem descanso. O
caminho que resta percorrer é mais longo que o já percorrido, mas grande parte
do progresso consiste na vontade de progredir.” (Ep.71.35-6; Cartas a
Lucílio, 2ª ed,, trad. J. A. Segurado e Campos. Lisboa, 2004: Fundação
Calouste Gulbenkian).
Júpiter em Caranguejo vai, desta forma, dar um impulso de
progresso a uma realidade enraizada na origem. As linhas tecidas pelas Meras vêem
reforçado o carácter teleológico dos desígnios que unem no destino justiça e
necessidade. Sobressai assim na matriz da Providência a derradeira finalidade.
Este aspecto vai pedir, em termos individuais, que a exigência das raízes seja
também o valor do fruto. Temos de saber de onde vimos para saber para onde
vamos. A tradição ganha também uma nova importância, não num sentido de um conservadorismo
obsoleto, mas sim no sentido de história íntima, de permanência de valor, de herança
colectiva. Caranguejo fixa esse lugar de memória e Júpiter confere-lhe o valor
de bem. É preciso, no entanto, incluir
nestas considerações o ingresso recente de Saturno em Carneiro.
Nesta posição, Júpiter e Saturno vão passar a olhar-se
quadrangularmente, ou seja, o sentido desse olhar e das suas posições adquire
um valor de tensão estruturante. É o peso, a gravidade, de um processo de
construção da realidade. Quando Saturno regressar a Peixes e depois, quando
Júpiter passar para Leão, esse olhar será triangular e, nesses momentos, o
valor do destino sobre a realidade humana tornar-se-á mais expressivo. A
concórdia entre Júpiter e Saturno confere sempre um valor de criação de
realidade, de construção. O espaço e o tempo envolvem na sua harmonia. No entanto,
no tema do ingresso, por estarem fora do seu segmento de luz, o poder benéfico
de Júpiter está diminuído e o poder maléfico de Saturno está aumentado, daí que
a acção do bem prefira um labor de bastidores, um trabalhar sem ser visto.
Se, por um lado, a acção de Saturno em Carneiro pode
brutalizar e embrutecer a realidade, e os exemplos estão por aí, por outro
lado, Júpiter em Caranguejo em conjunção a Mercúrio vão permitir que a dádiva
da origem, do âmago de quem verdadeiramente somos e de quem podemos vir a ser,
continue o seu caminho. Mercúrio, como Estrela da Tarde, adquire um carácter
feminino, reforçando assim o lado lunar do lugar que ocupa. Nesta posição, é a
palavra que cuida, o discurso que protege e conforta e, por estar em
co-presença a Júpiter, torna-se um bem e um promotor de justiça. Os tempos
sombrios que vivemos defendem o oposto. Tudo se move pela palavra que fere e
que divide. O verbo cuidar está ausente. Entre os humanos, o amor incondicional
que em Caranguejo é uma expressão da Grande Mãe é quase inexistente. Neste
ingresso, os luminares estão num eixo masculino, o que une Gémeos a Sagitário,
e o Sol afunda-se na sua morte, na sua ocultação. É a Lua em Sagitário que
espalha a sua luz. A sabedoria do centauro torna-o o seu guerreiro, aquele que
lutara para a proteger. Porém, os guerreiros da sabedoria sabem que estão
inferioridade numérica e que terão de escolher muito bem as suas batalhas. A
união de Mercúrio e Júpiter em Caranguejo vai pedir que se defendam os Filhos
da Mulher, os Filhos de Divino Feminino, pois são todos filhos da sua mãe
celeste, da Lua.
Quando vemos defender como humanos, e bem, os ucranianos
e vemos colocados como outros os palestinianos, secundarizando o seu sofrimento
e relativizando os actos agressores, está-se a fazer o oposto da mensagem
proposta por este ingresso. Dividir os humanos é impedir a existência de uma
humanidade. A união de Saturno e Neptuno em Carneiro, confundindo na acção
forças que condensam e dispersam, fomenta através dos extremismos a desumanização,
a anulação da identidade. A ideia de povo escolhido e terra eleita é perversa,
pois anula a dignidade humana do outro, daquele que não pertence, que é
diferente, que vive numa terra que alguns julgam ser sua. A quadratura entre
Úrano em Touro e Plutão em Aquário vai também reforçar os perigos dos
nacionalismos e da xenofobia. Neste caso, a difusão de mensagens de ódio, assente
nesta visão disruptiva da pertença ou não de um outro que é como nós e de um
outro que é radicalmente o outro, traz necessariamente a morte do humano.
Como sempre, quando o mal avança, o bem cerra fileiras e
resiste, provando que existem forças benévolas. A conjunção de Vénus a Úrano em
Touro, unindo-se depois hexagonalmente a Júpiter e Mercúrio em Caranguejo, traz
consigo uma bênção, uma que culmina no verbo nutrir. Este é o bem que cuida,
que conforta e que protege. Porém, existe nesta união de raios um parceiro
fragilizado. Úrano, a fazer o caminho de despedida do signo de Touro,
encontra-se nos termos de Marte e no decanato de Saturno. A proposta de
revolução da terra está-se a perder. Os discursos bélicos e as propostas de
corrida a armamento, tornando um inimigo específico num medo universal,
secundarizaram o discurso ecologista e a defesa do planeta. As alterações
climáticas e as agressões à Terra deixaram de ser, se é que alguma vez o foram,
uma prioridade. O avanço dos transaturninos para signos masculinos também não
irá favorecer o discurso de defesa da Mãe-Terra.
Júpiter em Caranguejo apresenta uma proposta própria de
sentido. Ora, com uma forte tendência planetária masculina, esta passagem de
Júpiter por Caranguejo será tendencialmente dissonante. É um oásis no deserto,
uma floresta entre o betão. Já observámos que em relação a Saturno existirá um
período em que relação será harmoniosa, quando este regressar a Peixes. No
entanto, no que concerne aos transaturninos, a relação com Júpiter em
Caranguejo será tendencialmente tensa ou, no mínimo, adversa. A única excepção
é Úrano em Touro, com quem se une em sextil, mas só até 7 de Julho, quando
ingressar em Gémeos e passar a uma condição de aversão, regressará, todavia,
devido à retrogradação, a Touro a 8 de Novembro. Com Neptuno em Carneiro,
existe uma união quadrangular de raios e com Plutão em Aquário, outra condição
de aversão. Conclui-se, deste modo, que este carácter relacional do actual
trânsito de Júpiter por Caranguejo terá uma certa unicidade electiva.
No ingresso de Júpiter em Caranguejo, devemos destacar
ainda a relação deste com o corpo do Dragão da Lua. Júpiter em Caranguejo
une-se triangularmente à Caput Draconis
em Peixes, unindo-se consequentemente por sextil à Cauda Draconis em Virgem. Ora, sabendo-se que o Dragão é a ponte, a
passagem da Providência ente o destino e a necessidade, esta conexão com
Júpiter em Caranguejo torna-se particularmente significativa. Se a maioria das
configurações se apresenta visceralmente masculina, esta vem reforçar, como já
observarmos, a presença do Divino Feminino e do seu grande propósito na
evolução da humanidade.
O trígono entre Júpiter em Caranguejo e a Caput Draconis em Peixes traz-nos a
possibilidade de integrar a necessidade, a sua visão de totalidade, no bem que
surgiu na origem do mundo, na justiça divina como forma de educação. Contudo, os
luminares olham quadrangularmente para o Dragão da Lua e, embora não no grau
exacto do ângulo recto, estabelecem uma posição que, segundo os autores
antigos, é considerada particularmente maléfica. A proposta de sentido que une
Júpiter ao Dragão da Lua conserva uma luz rara, uma que terá dificuldade em
iluminar o mundo. Existe uma rejeição humana dessa proposta e só alguns,
infelizmente poucos, vão acolher essa expressão.
Marte, caindo no horizonte, prepara-se para a despedida
do signo de Leão, pois ingressará em Virgem a 17 de Junho. O maléfico deixará
assim de olhar quadrangularmente para Saturno e diametralmente para Plutão.
Estes dois aspectos têm sido particularmente nefastos. No entanto, ao ingressar
em Virgem, vai trazer o mal à proposta do Divino Feminino e de Júpiter em
Caranguejo. Porém, por Marte pertencer ao segmento da Lua e por passar a formar
um sextil a Júpiter, o mal será colocado como opção de carácter e acção e,
também por Marte passar a estar em co-presença com a Cauda Draconis, seguir-se-á a herança heraclitiana de que o
carácter será o nosso destino, ou seja, nós não mudamos os acontecimentos, mas
mudamos a nossa reacção aos acontecimentos e isso define o nosso carácter.
Em suma, Júpiter em Caranguejo marcará um período em que a proposta de sentido que une a origem à finalidade, ao progresso, será mais expressiva. Contudo, a via do progresso será aquela nutre e cuida. Esse será o bem. Essa será a justiça. É um tempo da Grande Mãe, do Divino Feminino, e quem procurar, encontrará.






