segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Uma Ferida no Ar (Poesia)

Gérard, François, Cupido e Psyche, 1798.
Paris:Museu do Louvre.
Uma Ferida no Ar


Não Não ______________
Nem o mar é rude e crespo
Nem as ondas ferem o ar
Violentos são os rochedos
Os cumes em alta escarpa
E os promontórios afiados

Não Não ______________
Nem a terra é mansa e triste
Nem as árvores ferem o ar
Belicosas são as montanhas
E ainda as pedras do ocaso
Do destino firmes contendas

Não Não ______________
Nem o vento é revoltado e só
Nem as aves do céu ferem o ar
Cortante é o grito de uma brisa
A ira dançarina de um tornado
E o vendaval numa madrugada

Não Não ______________
Nem o Sol é solitário e ardente
Nem os seus lumes ferem o ar
Cruel é o céu sem luz ou estrela
O astro errante do olhar ocultado
É a vida que sobrevivente recua

_____________ perdida a alma
Da sabedoria é uma ferida no ar


6 de Julho de 2019
RMdF

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Missão (Poesia)

Coli, Giovanni, The Triumph of Wisdom, 1671.
Veneza: Convento de San Giorgio Maggiore.
Missão


Se para a tua vida
queres uma missão
Outra não terás tu
Que tudo aprender
E no fim nada saber
Não te prendas pois
Em doces ilusões
De vã grandeza
Pois no mundo
És somente
Uma partícula
De estelar
Poeira


4 de Fevereiro de 2019
RMdF


quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Orar ao Inevitável (Poesia)

Mantegna, Andrea, Introdução do Culto de Cibele em Roma, 1505-06.
Londres: National Gallery.

Orar ao Inevitável


Ó Adrasteia ninfa
Arcaica deusa
Do Inevitável fado
Para Reia, Cibele
Ou a Necessidade
Do númen o nome
De epíteto sagrado
Segue ó deusa antiga
O moderno humano
Concede à memória
Da vida e da morte
A feliz fortuna e a sorte
De um bom demiurgo


28 de Outubro de 2018
RMdF

segunda-feira, 22 de julho de 2019

O Horóscopo (Um Excerto de O Δωδεκατόπος: As Doze Casas)

Dürer, Albrecht, Apolo com o Disco Solar, c.1504.
Londres: British Museum.

O Horóscopo

Depois de se compreender o sentido que se oculta no valor das casas, é necessário pois abordar cada uma delas de forma isolada e encontrar a raiz do seu significado. A primeira casa é o Horóscopo e este termo, contrariamente ao seu uso abusivo enquanto mapa ou carta astrológica, significa somente observar o grau ascendente do Zodíaco numa natividade, pois é uma palavra que nasce da junção de ὤρα com σκοπεῖν. O termo ὤρα tem como primeiro significado período de tempo. Ora, como a totalidade do tempo transcende o humano, o tempo para ser apreendido torna-se electivo, visto que, à semelhança do que assistimos na memória, escolhe-se o tempo certo, o tempo íntimo, o tempo com valor. É neste sentido que ὤρα se torna sinónimo do grau do Ascendente. Já o verbo σκοπεῖν significa observarcontemplarassistirexaminar e investigar e, nessa linha de entendimento, também marcar, daí que se diga que o Horóscopo é um marcador da hora.

Trasilo, como já anteriormente se referiu, diz que o Horóscopo é tido como Ascensão e Ascendente (CCAG VIII/3: 100.30-1). Esta passagem é importante, pois mostra uma das raras vezes em que ἀνατέλλον aparece como sinónimo de ὡρόσκοπος, pois, de uma perspectiva filosófica, ἀνατέλλον é a qualidade da coisa e ὡρόσκοπος é a coisa em si mesma. Trasilo diz que o Horóscopo, enquanto signo operativo, é o mais benéfico de todos os ζδια e que designa a vida, ζωή (CCAG VIII/3: 101.3-4). É a partir desta noção de vida que se inicia a distinção entre a vida e o viver, pois ζωή anuncia a vida de uma perspectiva biológica, adequada ao conceito de Horóscopo, bem como ao de Parte da Fortuna, o Ascendente da Lua, e o viver. Este é expresso pelo termo βίος, que, na verdade, designa a Casa II e aponta para o modo como se vive. No entanto, no texto de Valente que aqui traduzimos (II, 15), este une no Horóscopo e na Fortuna a vida (ζωή) e o viver (βίος), contrariando uma certa tradição, mas potenciando a dimensão de vida do Horóscopo.

Trasilo define também o Horóscopo como um indicador da fortuna e da alma e o leme da natividade (CCAG VIII/3: 101.19). A ideia do Horóscopo como leme, οἴαξ, é comum à maior parte dos astrólogos antigos, vemo-la, por exemplo, na Introdução de Antíoco de Atenas (CCAG VIII/3: 117.1) e em Paulo de Alexandria (Cap. 24, Boer 54.2). O leme controla o rumo de um barco e o humano que detém o leme é o seu timoneiro, logo o Horóscopo é o leme e quem conhece e domina o leme torna-se o timoneiro da sua própria existência. Antíoco de Atenas acrescenta a esta definição de Horóscopo que este indica o rumo da vida e o seu começo e que é um indicador da alma e do carácter (CCAG VIII/3: 117.1-2).

O ciclo temporal da vida humana é iniciado no Horóscopo, que indica o nascimento e a juventude. A maturidade é alcançada no Meio do Céu e a velhice, no Descendente. Por fim, a morte é guardada pelo Fundo do Céu. Esta é a disposição que encontramos em Paulo de Alexandria (Cap. 24). Manílio, por seu lado, tem um esquema diferente (II, 841-855): do Horóscopo ao Meio do Céu encontramos a primeira idade e os anos de quem acabou de nascer; do Meio do Céu ao Descendente são os anos da tenra juventude; do Descendente ao Fundo do Céu está presente a vida madura e, por fim, o espaço entre o Fundo Céu e o Horóscopo rege a trémula velhice.

Estes ciclos da existência humana, seja qual for o modelo, reforçam o valor do Horóscopo enquanto promotor inicial da vida. Paulo de Alexandria diz ainda que

Τῶν δώδεκα τόπων πρὸς πᾶσαν ἀποτελεσματογραφίαν
λαμβανομένων ἀρχὴ καὶ πρωτοστάσιόν ἐστιν ὡροσκόπος,
δι̉ οὗ πάντα τὰ πρὸς τὸν ἄνθρωπον συντείνοντα πράγματα
καταλαμβάνεται. ζωῆς γὰρ καὶ πνεύματος ὁ ὡροσκόπος
δοτήρ καθέστηκεν, ὅθεν οἴαξ καλεῖται. σημαίνει δὲ τὴν
τῆς νεότητος ἡλικίαν, ἥτις ἐστὶ πρώτη. καὶ ἐν αὐτῇ εἴτε
τὴν τῶν φαύλςν εἴτε τὴν τῶν ἀγαθῶν ἐγέργειαν ἀπο-
δείκνυσιν. ἐν δὲ τούτῳ τῷ τόπῳ μόνος ὁ τοῦ Ἑρμοῦ
ἀστὴρ παρὰ πάντας τοὺς ἀστέρας χαίρει. (…)    

O Horóscopo é utilizado em todas as representações astrológicas como a origem e a fundação das doze casas. Apreende-se, através dele, tudo o que determina as acções humanas. O Horóscopo designa portanto o dador da vida e o sopro, daí que seja chamado de leme. Indica a idade da juventude, que é a primeira. E por isso mostra as forças que operam de forma boa ou má. Neste lugar, a Estrela de Hermes é, entre todas as estrelas, a única a rejubilar
(Cap. 24, Boer 53.23 – 54.6). 

Num comentário a esta passagem, temos de destacar a primeira frase, pois é ela que determina a génese do Δωδεκατόπος cuja raiz é o Horóscopo. Paulo diz que o Horóscopo aparece nas representações astrológicas (ἀποτελεσματογραφίαν) como origem (ἀρχή) e fundação (πρωτοστάσιον) das doze casas. Ora o termo ἀποτελεσματογραφίαν resulta da junção de ἀποτελεσματικός e γράφος ou γράφω. A primeira, que é, por vezes, utilizada como título de tratados astrológicos, como, por exemplo, no de Ptolomeu ou no de Heféstion de Tebas, não pode ser traduzida num único termo, pois o sentido aponta para os efeitos ou influências da astrologia, sendo também usada como seu indicador. O segundo termo, γράφος, significa escrita, desenho, descrição ou representação. Desta forma, o Horóscopo, enquanto representação astrológica radical, surge como a origem da construção helénica de sentido que é o Δωδεκατόπος, revelando assim a natureza mimética.

Por outro lado, o Horóscopo firma-se no conceito de vida, daí que seja definido como o dador da vida (ζωῆς δοτήρ) e o sopro (πνεῦμα), mas também um indicador da idade da juventude (νεότητος ἡλικίαν) e das acções humanas (ἄνθρωπον πράγματα).  É, nesse sentido, que o Horóscopo se torna o leme (οἴαξ) da natividade e, dessa forma, gere, por via de afinidades e relações, as forças boas e más. Curiosamente, quando Paulo expressa essa ambivalência de forças ou energias (ἐνέργεια), não opõe ἀγαθός  (bom) a κάκος  (mau), mas sim a φαύλον, que, para além de mau, indica também o que é fraco ou débil, podendo portanto indicar que os aspectos negativos do Horóscopo não são maus, como se pronunciassem apenas um vaticínio nefasto, mas são sim uma debilidade do bem, tal como a ignorância é uma debilidade da sabedoria, sob a forma de ausência. 

Todos estes sentidos são reforçados pelo facto de Mercúrio rejubilar neste lugar, pois Hermes ou Mercúrio, enquanto Psicopompo, assume a função intermediária, presente no Horóscopo, entre a luz  e a sombra, entre segmento solar e o segmento lunar. O Psicopompo é um guia das almas na sua viagem pelo Hades e, na via descendente, a Casa II é a Porta do Hades, daí que se possa ver no caminho pelas doze casas, iniciado no Horóscopo, uma síntese do universo.

A vida, o sopro, a alma e o carácter surgem, nesta casa, como princípios de identificação e de identidade, uma vez que é no Horóscopo que a existência se torna distinta e individual, daí que Paulo de Alexandria defenda que é no Horóscopo que se determina o primeiro destino de uma criança. Se no Ascendente estiveram presentes os planetas benéficos ou os luminares ou se Mercúrio se relacionar com o Horóscopo, sem a influência dos maléficos, então a criança viverá, será bem nutrida e continuará a viver em boa fortuna. Contudo, se estiverem presentes planetas maléficos ou se estes fizeram um mau aspecto ao Sol ou à Lua, então a criança será subnutrida, terá uma vida curta ou estará predisposta a ferimentos e sofrimento e poderá ficar órfã (Cap. 24, 54).

Ptolomeu colocou também no Horóscopo alguns aspectos de fisionomia (Apotelesmática, III, 11). Segundo este, o primeiro quadrante, do Horóscopo ao Meio do Céu ou do Equinócio da Primavera ou Solstício de Verão, favorece o nativo em compleição, estatura e robustez, bem como os olhos, e revela excesso de humidade e calor. O segundo quadrante, do Meio do Céu ao Descendente ou do Solstício de Verão ao Equinócio de Outono, identifica uma compleição, altura e robustez medianas, olhos grandes, cabelos grossos e encaracolados e evidencia um excesso de calor e secura. O terceiro quadrante, do Descendente ao Fundo do Céu ou do Equinócio de Outono ao Solstício de Inverno, determina um nativo pálido, delgado, débil, com cabelo levemente encaracolado e com uns bons olhos e mostra excesso de secura e frio. Por fim, o quarto quadrante, do Fundo do Céu ao Ascendente ou do Solstício de Inverno ao Equinócio da Primavera, identifica um nativo de compleição escura e altura mediana, com cabelos lisos, poucos pêlos e com falta de graciosidade e expressa um excesso de humidade e frio. Ptolomeu refere também que quando os planetas são estrelas da manhã, ou seja, quando estão numa posição helical anterior, e quando determinam a aparência, os corpos têm um estrutura maior, logo deve observar-se sobretudo o Horóscopo, o seu regente, os planetas que nele se encontram e a Lua.

Apotelesmática de Ptolemeu determina a fisionomia consoante os posicionamentos dos astros no Ascendente e no Descendente. Os luminares condicionam o corpo pelo efeito da luz. O Sol torna os corpos robustos e impressionantes e a Lua melhora as proporções e aumenta a beleza. Com Saturno no Ascendente, a estatura é mediana e robusta, a pele é escura, os olhos são de tamanho médio, o cabelo é negro e encaracolado e os pêlos no peito abundantes e o temperamento é excessivamente húmido e frio, porém, se estiver no Descendente, o nativo tem a pele escura, o corpo, delgado e baixo, os cabelos são lisos, tem poucos pêlos no corpo, os olhos são negros e o temperamento revela um excesso de secura e frio. Já Júpiter vai dar ao nativo uma pele clara, com bom aspecto, um estatura alta, um cabelo mediamente encaracolado, olhos grandes e uma aparência de liderança, mas se estiver no Descendente, a pessoa terá uma pele clara e pálida, um cabelo fraco ou até cálvice, uma estatura média e o temperamento terá humidade em excesso. Marte traz ao nativo uma estatura alta e robusta, uma pele clara e avermelhada, olhos cinza, cabelos grossos e pouco encaracolados e o temperamento terá excesso de calor e secura, mas se o seu lugar for o Descendente, a estatura será mediana, a sua pele, avermelhada, o cabelo, loiro e liso. Vénus produz efeitos semelhantes a Júpiter, todavia, o corpo será mais gracioso, feminino ou efeminado, roliço e luxurioso e os olhos serão brilhantes e bonitos. Por último, Mercúrio, no Ascendente, determina uma estatura média, graciosa e pálida, com olhos pequenos e cabelo pouco encaracolado e mostra excesso de calor, por outro lado, no Descendente, o corpo é magro e delgado, a pele, clara, mas pouco saudável, o cabelo, liso, os olhos, brilhantes e avermelhados e a secura é excessiva.

No que ao Horóscopo diz respeito, convém ainda referir a Mathesis de Fírmico Materno, onde este diz que

(...) In hoc loco vita hominum
et spiritus continetur, ex hoc loco totius geniturae
fundamenta noscuntur, hic locus ab ea parte, in qua
fuerit horoscopus, vires suas per residuas partes XXX
extendit. Est autem cardo primus et totius geniturae
compago atque substantia.

Nesta casa, encontramos a vida e o espírito dos homens e, a partir deste lugar, determinamos a essência de toda a natividade. Esta casa estende a sua influência desde o grau onde está o Horóscopo até aos trinta graus seguintes. Por outro lado, é o primeiro ponto cardinal e a substância de toda a natividade.
(II, 19, 2, Ed. Kroll, Skutsch & Ziegler I, 61.12-17).

Neste excerto, Fírmico Materno sintetiza muitos dos aspectos que aqui desenvolvemos. A união da vida e do espírito, ou da vida e da alma ou carácter, no Horóscopo, aponta também para o que hoje designamos por personalidade ou mesmo consciência, pois o primeiro ponto cardeal determina a vida, sobretudo a vida biológica, mas também a vida interior, a que anima a existência e permite o acto inaugural de alguém se reconhecer como singular e único. Todos esses elementos primários que vinculam a vida ocorrem no Horóscopo. 

Por outro lado, Fírmico Materno expressa a ideia de casa quando diz que a influência do Horóscopo se estende aos trinta graus seguintes. Aqui encontrarmos tanto uma referência ao sistema de casa-signo como a fixação do conceito de casa. A ideia de que o sentido da cúspide se prolonga à restante casa permite que a sua substância seja tanto temporal como espacial. A casa adquire assim um valor maior que o grau que a determina, pois é, por um lado, um segmento de tempo e, por outro, uma porção de espaço. Conclui-se portanto que o Horóscopo é, neste sentido, a mais importante das casas, aquela resume a essência e a substância de uma natividade.

Manílio, embora apresente um modelo diferente de Δωδεκατόπος, descreve o Horóscopo em concordância com os outros autores. Acerca deste lugar, afirma o seguinte:

Tertius, aequali terris in parte, nitentem
qui tenet exortum, qua primum sidera surgunt,
unde dies redit et tempus describit in horas,
hinc inter Graias horoscopos editur urbes,
nec capit externum, proprio quia nomine gaudet.
Hunc penes arbitrium virae est, hic regula morum,
fortunamque dabit rebus, ducetque per artes,
qualiaque excipiant nascentis tempora prima,
quos capiant cultus, quali sint sede creati,
utcumque admixtis subscribent viribus astra.

A terceira, igual à terra na parte brilhante,
ocupa o ascendente, por onde primeiro surgem as estrelas,
de onde o dia retorna e o tempo se divide em horas.
Por isso é, nas cidades gregas, designado de horóscopo 
e, no estrangeiro, não assume outro nome, pois com o seu se apraz.
Nele está o juízo sobre a vida e a matriz do carácter.
A todas as coisas concederá fortuna e os ofícios guiará.
Assim como determinará, para os primeiros anos após o nascimento,
a educação que receberão e a qualidade do lugar onde serão criados,
misturando as forças conforme os astros indicarão.
(II, 826 – 835, Goold 55).

Manílio acentua, primeiramente, a natureza do Horóscopo enquanto ascendente, pois este é lugar onde o Sol nasce para um novo dia e onde as estrelas surgem, o que confirma a razão do seu nome. A etimologia, como já foi observado, valida o seu valor e declara a precedência interpretativa do termo Horóscopo em detrimento do termo Ascendente. A infância firma-se também nesta casa, revelando-se assim a sua qualidade, ou seja, a natureza da educação e da casa onde se cresce, daí que o seu sentido se estenda à acção e à sua fortuna. Manílio frisa também uma atribuição que representa uma afinidade que continuará no tempo, pois coloca, nesta casa, a vida e o carácter. Ora é a afinidade entre o carácter e o destino que cria uma ponte de sentido para a natureza humana. Essa relação surge em Heraclito e prolonga-se no tempo até Walter Benjamin. Desta forma, o Horóscopo e as Doze Casas conservam uma profundidade sapiencial para além das considerações comuns.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

A Dodecatemoria segundo Fírmico Materno: Tradução

Tabuleta de Shamash, British Library, Sala 55


A Dodecatemoria segundo Fírmico Materno: Tradução


Fírmico Materno, Mathesis, Livro II, 13, Ed. Kroll, Skutsch & Ziegler.



XIII. DE DUODECATEMORIIS.

1 Nunc, de duodecatemoriis [a] qua ratione perquiras, breviter ostendam; quidam enim ex his putant totam se posse geniturae substantiam invenire et, quicquid in decreto celatur, ex duodecatemoriis p56 posse prodi significant. 

2 Quid autem sint duodecatemoria, hoc dicetur exemplo. Cuiuscumque stellae volueris duodecatemorion quaerere, partem eius duodecies computas et, quantae fuerint, divides eas triginta signis singulis reddens, ab ipso signo incipiens, in quo stella est, cuius duodecatemorion quaeritur; et in quocumque signo ultimus venerit numerus, ipse tibi partem duodecatemorii ostendit. Sed ut manifestius intellegas, etiam exemplum huius rei dicimus. 

3 Pone Solem in Ariete esse parte quinta et minutis quinque; duodecies V. faciunt partes sexaginta, et duodecies quina faciunt minuta LX; <LX> minuta unam faciunt partem, ac per hoc fiunt partes LXI; das Arieti, in quo Solem esse diximus, XXX, Tauro XXX: invenitur duodecatemorion in parte prima Geminorum. 

4 Quaere itaque, ne Luna plena per diem in finibus Martis duodecatemorion mittat, ne minuta idest deficiens in Saturni aut ne Mars in occasu . . . aut ne Venus in Martis et Mars in Veneris . . . . . . . 

5 et a finibus et a decanis et a conditionibus, ut prosint vel ut noceant, accipiant potestatem. Deficit Iovis benignitas, cum infirmitate signi vel partium vel decani vel conditionis inmutatione benignitas eius fuerit impedita. Sed et malitia Saturni fortius crescit, cum ex loci qualitate vel ex finium vel ex decani vel ex signi vel ex conditione provocatam ad nocendum acceperit potestatem; simili modo etiam ceterae stellae.

6 Unum tamen sciendum est quod, licet benivola sit Iovis stella, tamen contra inpugnationem Martis et Saturni, si eam violenti radiatione constringant, resistere sola non possit; essent enim inmortales homines, si numquam in genituris p57 hominum Iovis benignitas vinceretur. Sed quia sic artifex deus hominem fecit, ut substantia eius transacto certo vitae spatio solveretur, necesse fuit, ut detento Iove, per quem vitae confertur hominibus salutare praesidium, in extinguendo homine malivolarum stellarum malitiosa vel perniciosa potestas cum augmento malitiae permaneret, ut malivolis radiationibus inpugnata compago corporis solveretur.



Tradução


II, 13: Acerca das Duodecatemoria (as Décimas Segundas Partes)


  1. Agora, apresentarei, de seguida, a razão a partir qual deves examinar as duodecatemoria. Na verdade, alguns acreditam que, através delas, se pode encontrar toda a essência da natividade e defendem que o que nela se esconde pelas duodecatemoria se pode revelar.

  2. No entanto, o que quer que sejam as duodecatemoria, com o exemplo se afirmará. Para qualquer estrela cuja duodecatemorion queiras procurar, multiplicas o seu grau por doze e, quantos eles sejam, divide-os, entregando trinta graus a cada um dos signos, com início no próprio signo em que a estrela está e da qual se está a procurar a duodecatemorion.

  3. Coloca o Sol em Carneiro a 5 graus e 5 minutos. 12 vezes 5 perfaz 60 graus e 12 vezes 5 perfaz 60 minutos. 60 minutos perfazem 1 grau e, por isso, se chegam a 61 graus. Entregas a Carneiro, no qual dissemos estar o Sol, 30, a Touro, 30: encontra a duodecatemorion no primeiro grau de Gémeos.

  4. Procura, desta forma, se a Lua Cheia não envia a duodecatemorion para os termos de Marte, ou se nem o Quarto Minguante recai nos de Saturno ou Marte no Ocaso ... Ou se nem Vénus nos de Marte e Marte nos de Vénus ....

  5. ... e para os termos, para os decanatos e para os segmentos, de modo a que, quer contribuam ou prejudiquem, recebam o poder. A natureza benéfica de Júpiter termina quando essa natureza benéfica estiver cercada por a fraqueza do signo, da parte ou do decanato ou por a mudança de segmento. Por outro lado, a natureza maléfica de Saturno torna-se mais forte quando recebe o poder de prejudicar a qualidade do lugar, dos termos, do decanato, do signo ou do segmento. É também de igual modo para as restantes estrelas.

  6. Uma coisa deve, contudo, ser observada, embora a estrela de Júpiter seja benéfica, quando sob o ataque de Marte e de Saturno unem com violência os seus raios, ele não consegue resistir sozinho; de facto, os seres humanos seriam imortais, se, nas natividades humanas, a natureza benéfica de Júpiter nunca fosse derrotada. Mas, uma vez que o deus criador gerou o ser humano de modo a que, concluída uma certa extensão de vida, a substância se dissolva, foi necessário manter Júpiter controlado, através do qual se confere a protecção benéfica à vida humana. Com o aumento da maldade, o poder perverso ou destrutivo das estrelas maléficas persiste e [essa protecção] com o ser humano se deve extinguir, de forma a que, com a união inatacável dos raios maléficos, a composição do corpo se dissolva. 



Edição Utilizada:
Kroll, W., F. Skutsch & K. Ziegler, 1968 (1897-1913), Julius Firmicus Maternus, Matheseos libri VIII., 2 Vols. Leipzig: B. G. Teubner.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

O Mito como Sentido das Estrelas - Manílio, Astronomica, II, 433-452 (Um Outro Excerto)


Manílio, Astronomica, II, 439-452:


  Hic animadversis rebus quae proxima cura?
noscere tutelas adiectaque numina signis
et quae cuique deo rerum natura dicavit,
cum divina dedit magnis virtutibus ora,
condidit et varias sacro sub nomine vires,
pondus uti rebus persona imponere posset.
Lanigerum Pallas, Taurum Cytherea tuetur,
formosos Phoebus Geminos; Cyllenie, Cancrum,
Iuppiter, et cum matre deum regis ipse Leonem;
spicifera est virgo Cereris fabricataque Libra
Vulcani; pugnax Mavorti Scorpios haeret;
venantem Diana virum, sed partis equinae,
atque angusta fovet Capricorni sedera Vesta;
e Iovis adverso Iunonis Aquarius astrum est
agnoscitque suos Neptunus in aethere Pisces.
hinc quoque magna tibi venient momenta futuri,
cum ratio tua per stellas et sidera curret
argumenta petens omni de parte viasque
artis, ut ingenio divina potentia surga
exaequentque fidem caelo mortalia corda. 


Tradução

Observadas estas coisas, qual a próxima diligência?
Conhecer de cada signo as divindades tutelares
e que deus a sua natureza lhes consagra,
quando dá às magnas virtudes a divina face
e coloca sob o sagrado nome as várias forças,
para que cada pessoa lhes imponha gravidade.
Guarda o Lanígero Palas e Touro, a Citereia,
os formosos Gémeos, Febo; o Cileno, Caranguejo,
Júpiter, com a mãe dos deuses, reges tu Leão,
A da espiga é da Virgem Ceres, forjada a Balança
é de Vulcano; ao bélico Marte Escorpião se junta;
protege Diana o caçador, mesmo com equina parte,
e as estreitas estrelas de Capricórnio favorece Vesta;
e, oposta a Jovis, é de Juno a constelação de Aquário,
já Neptuno reconhece no céu os seus Peixes.
Daqui surgirá o que se destaca no teu futuro,
quando a tua razão seguir as estrelas e as constelações,
procurando por toda a parte o método e as evidências
desta arte, para até ao poder divino elevar o engenho
e igualar à verdade do céu o coração humano.


Nota: Todas as traduções do grego e do latim, excepto quando em contrário indicadas, são da responsabilidade do autor. 


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O Mito como Sentido das Estrelas

...

Continuação do Excerto

O Mito como Sentido das Estrelas - Manílio, Astronomica, II, 433-452 (Excerto)


Ao observamos estas associações, constatamos que existe uma superveniência mítico-filosófica do sentido dos conceitos astrológicos, dos quais a formulação astronómica é meramente formal. Por exemplo, Júpiter indica mais as qualidades do deus dos gregos e dos romanos e as ideias de espaço e de justiça que as propriedades do quinto planeta a contar do Sol. É nesse sentido que Manílio afirma que é necessário impor gravidade aos nomes divinos (II, 444). O termo pondus, aqui traduzido por gravidade, tem o sentido de peso ou de massa, mas também de importância, influência ou autoridade, o que revela o sentido metafórico de enriquecimento conceptual que Manílio descreve. É a profundidade dessa transferência que confere o valor e a tradição aos conceitos astrológicos, pois foi, por exemplo, a gravidade conceptual que, na Antiguidade, se deu aos corpos celestes e aos fenómenos naturais que permitiu o desenvolvimento teórico de certos arquétipos ou complexos na psicanálise e na psicologia analítica. A raiz do mito na astrologia sustenta-se numa metáfora, entendida aqui na sua génese etimológica e no seu sentido filosófico. 


A metáfora, enquanto processo de transferência e condição de passagem de valor, resulta numa significação da realidade, pois, seguindo uma mediação de sentidos, permite a união dos opostos numa síntese simbólica. É por essa via que, partindo de uma base astronómica, as estrelas, os planetas, as várias formas de divisão de eclíptica, os aspectos e todos os outros componentes de cálculo e análise tornam-se metáforas, transferências simbólicas de sentido. Desta forma, a astrologia torna-se um sistema de representação, pois ao desenvolver-se uma teoria a partir das enunciações de Manílio pode-se reduzir muitas das críticas de que a astrologia foi alvo. A aproximação entre a astrologia e a filosofia permite dar à primeira um maior suporte conceptual. Na verdade, é isso que encontramos em Manílio. O seu poema didáctico é de facto um poema filosófico. Ramelli, embora desvalorize a astrologia, defende o aspecto filosófico do poema e também que o material mais técnico serve o discurso filosófico (162). Esse pressuposto comprova portanto a influência de Lucrécio em Manílio, onde no seu poema também esse material está dependente do discurso filosófico.


O pensamento filosófico de Manílio, que é também o astrológico, assenta primeiramente em três pilares: a ideia de deus, o conceito de destino e o valor do humano. Ora esses princípios estão sintetizados na última parte do excerto aqui traduzido (II, 448-452; Cf. Albrecht II: 975-977; Colish I: 313-314). Manílio começa por definir o acto de "stellas et sidera curret" como uma arte, o que está de acordo com a teoria da representação. De seguida, como anteriormente observámos, impõe a essa arte uma metodologia racional, ou seja, torna a arte uma ciência de rigor. Naturalmente, nesta alusão husserliana, sustentamos o conceito de ciência na sua origem etimológica e clássica e não na sua corrupção iluminista e positivista, pois, graças a Nietzsche, o irracional também serve a verdade. Na visão de Manílio, porém, a faculdade que permite alcançar o conhecimento do céu, que é também o conhecimento de deus, é o intelecto ou a inteligência, daí que diga "ut ingenio divina potentia surgat". Ora o ingenium, aqui traduzido por engenho, tem também, entre outros, o sentido de capacidade ou disposição natural, génio, carácter ou inteligência, estando portanto de acordo com uma faculdade noética. O intelecto tem assim em Manílio uma natureza demiúrgica. Por fim, o poeta dá ao conhecimento e à arte de seguir o céu e as constelações a possibilidade de exaequentque fidem caelo mortalia corda. O último verso introduz a concepção maniliana de fazer do humano um microcosmo do divino.


Manílio reforça essa ideia tríplice de deus, destino e humano, bem como de procura do conhecimento, quando diz: 

quod quaeris, deus est: conaris scandere caelum 

 fataque fatali genitus cognoscere lege 

 et transire tuum pectus mundoque potiri.



 O que procuras, deus é: tentas escalar o céu,

 sob o destino nascido, queres conhecer o destino

 e, ao passar pelo teu espírito, obter o mundo

(IV, 390-392).

Nestes versos, a influência estóica é explícita e, embora se encontrem na Astronomica vestígios da influência dos pré-socráticos, de Platão e Aristóteles, esta é a principal fonte de Manílio. Encontramos várias referências ao estoicismo antigo, em especial, a Cleantes de Assos e a Crisipo de Solis, mas também ao estoicismo intermédio, sobretudo a Posidónio de Apameia (Colish I: 315; Ramelli: 166-168). Cícero, embora não seja um estóico, foi provavelmente uma fonte de Manílio, através do qual pode ter conhecido Lucrécio. No entanto, de Cícero não parece ter conhecido a tradução de Arato, que deve ter lido no original grego, nem do seu amigo e astrólogo Nigídio Figulo, a Sphaera Graecanica et barbarica (Albrecht II: 974; Ramelli: 176). Contudo, o pensamento de Manílio não se limita a reproduzir as teses dos filósofos estóicos, pelo contrário, encontramos, à semelhança da diversidade da filosofia estóica, passagens de profunda originalidade, com por exemplo em duas das suas digressões antropológicas (IV, 387-407; 866-935; Albrecht II: 982).


O poeta procura estabelecer uma identificação entre aquilo que se procura e o divino, ou seja, existe um paralelismo entre a acção do intelecto e deus. Este aspecto é também revelador do optimismo de Manílio, sobretudo no que concerne à disposição para a aprendizagem, docilis sollertia (I, 95: dócil inteligência; Ramelli: 176). Porém, refere também que impendendus homo est, deus esse ut possit in ipso (IV, 407: sacrificado é o humano, para que deus nele possa existir). O ser humano deve sacrificar-se, entregar-se ao conhecimento e escalar o céu, para que a divindade habite nele. A vontade de conhecer aplica-se também ao destino. Manílio, nestes últimos versos, apresenta uma dupla relação do ser humano com o destino, pois, por um lado, temos a determinação dos seus decretos aquando do nascimento e, por outro lado, a vontade de conhecer as suas leis. Ora ambos os aspectos são consentâneos com a aceitação estóica da astrologia natal ou genetlíacal. 


Em Manílio, o conceito de divindade é o sustentáculo conceptual do seu pensamento filosófico e astrológico. Encontramo-lo, em especial, nos proémios de cada livro. Por exemplo, no Livro II, o autor da Astronomica afirma o seguinte:

namque canam tacita naturae mente potentem

infusumque deum caelo terrisque fretoque

ingentem aequali moderantem foedere molem,

totumque alterno consensu vivere mundum

et rationis agi motu, cum spiritus unus

per cunctas habitet partes atque irriget orbem

omnia pervolitans corpusque animale figuret.



Cantarei pois da tácita natureza, do intelecto governada,

o deus que permeia o céu, as terras e o mar

e que, com a mesma moderada lei, rege a matéria imensa;

e como todo o universo vive em mútua concórdia 

e a razão lidera o movimento, com um único espírito 

por todas as partes habita e o mundo inunda,

por tudo passando, com a forma de um corpo animado

(II, 60-66).

A teologia de Manílio revela-se assim nestes versos. O seu deus permeia o mundo. Está presente no céu, na terra e no mar e inunda toda e qualquer parte do cosmos com o seu espírito, com o seu intelecto. Zenão de Cítio, o fundador do estoicismo, defende que a substância de deus é todo universo e, em particular, o céu  (SVF I, 163 = Diógenes Laércio, VII, 142). O misticismo de Manílio tem como modelo o Hino a Zeus de Cleantes, sobretudo quando identifica Zeus com a phýseōs archēgé e o koinón lógon, ou seja, a causa primeira da natureza e o logos universal (SVF I, 537 = Long e Sedley: 54 I; cf. Albrecht II: 975; Ramelli: 163). A divindade, embora não seja transcendente, não deixa de ser o agente activo. Porém, Manílio não invoca o deus olímpico como Cleantes, pois para ele o principal rosto de deus é o céu. Deus é o mundo, é a sua faculdade dominante (hēgemonikón), a sua razão (De Natura Deorum I, 39 = SVF II, 1077). 


Em Manílio e no estoicismo, devido à imanência de deus, a teologia e a cosmologia fundem-se numa única forma de conhecimento. Essa unidade é perceptível nos seus próprios textos. Nesta última passagem, deus é a mente, o intelecto do universo e esse é o princípio dominante que rege a matéria. Ora Crisipo, no Livro I da sua obra Sobre a Providência (SVF II, 644), e Posidónio, no Livro V da sua obra Sobre os Deuses (Frag. 23), defendem que o princípio dominante do universo é o céu, mas, por seu lado, Cleantes diz que é Sol (SVF I, 499) e Antípatro de Tiro que é o aethēr (Diógenes Laércio, VII, 139). A divindade está assim presente, sem mediação, no próprio universo e, em especial, num determinado princípio. Encontramos, no Livro II do De Natura Deorum de Cícero, uma das melhores sínteses da teologia estóica. Cícero enumera, por exemplo, as seis razões que, segundo Cleantes, permitem a concepção de deus na mente humana (II, 12-15 = Long e Sedley: 54 C). Destas, a sexta resulta da observação do movimento, da revolução dos céus, da individualidade, utilidade, beleza e ordem do Sol, da Lua e das estrelas. Manílio expressa a mesma ideia quando diz:

quis caelum posset nisi caeli munere nosse,

et reperire deum, nisi qui pars ipsi deorum est?



Quem pode conhecer o céu sem ser pelas suas dádivas 

e encontrar deus sem ser ele mesmo parte de deus?

(II, 115-116).


A concepção de deus enquanto alma do mundo (Manílio, I, 247-254; Albrecht II: 975) não é contrária à mitologia, desde que esta, porém, não seja entendida de forma literal, pois no politeísmo os deuses são acima de tudo expressões da natureza. Um outro fragmento estóico mostra isso mesmo, pois une o nome das divindades a uma derivação etimológica ou conceptual (SVF II, 1021 = Diógenes Laércio VII, 147; Long e Sedley: 54 A). Nesse fragmento, a respeito do conceito de deus, Zeus (Día) é a causa de todas as coisas (di'hón); Zēna é a causa da vida (zēn); Atena estende o seu princípio dominante até ao aēther (aithéra); Hera espalha pelo ar esse princípio (aéra); Hefesto impregna o fogo (pýr), que é seu instrumento, desse princípio; Poseídon concede a sua mistura (hugrón); e Démeter permeia a terra (gēn) com ele. 


Da alma cósmica enquanto princípio divino e intelecto do universo, derivam duas concepções que estão intimamente ligadas: o princípio da mudança permanente e o princípio da simpatia. Manílio acolhe os dois princípios na sua obra. Na verdade, no que à mudança cósmica concerne, Manílio é único autor latino a incluir os conceitos de ekpýrōsis e diakósmēsis (III, 818-865; Colish I: 315; Ramelli: 163). No entanto, no fim da Astronomica, Manílio rejeita a ekpýrōsis. Convém também salientar que o ciclo cósmico estóico (SVF I, 28, 98 e 102; II, 581, 605; Posidónio, Frag. 13) é um herdeiro natural e legítimo das cosmogonias de Heraclito, Pitágoras e Empédocles (Hahm: 187-199). O tempo cósmico enquanto movimento harmonioso e circular de destruição, nomeadamente pelo fogo, e criação, de fundação de uma nova ordem, é um importante marco da cosmologia antiga, logo Manílio não lhe podia ser indiferente. Contrariamente, o princípio de simpatia cósmica podia ser naturalmente acolhido, pois, por um lado, é concordante com uma divindade imanente e, por outro, está relacionado com a noção estóica de providência ou destino (Manílio, II, 63-86; SVF II, 441 e 719; Cf. Hahm: 123 e 163). É também de um ponto vista astrológico que este sistema filosófico se expressa, pois todos estes conceitos permitem que se aprofunde o próprio sistema filosófico. Desta forma, o valor astrológico da obra de Manílio adquire uma outra qualidade, pois concede à astrologia um sistema filosófico que se coaduna com a sua prática, proporcionando-lhe uma teoria conceptual de base.


....

Fim do Excerto


Bibliografia


Fontes

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Edição Crítica Utilizada:

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2) Outros

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quarta-feira, 26 de junho de 2019

O Mapa Astrológico de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa nasceu a 13 de Junho de 1888, pelas 15 horas, em Lisboa. A hora exacta do nascimento é um elemento sobre o qual Pessoa se debruçou. Encontramos, no seu espólio, mapas astrológicos e  textos que variam entre as 15 horas exactas e as 15 horas e 20 minutos, porém Pessoa aponta, numa primeira instância, para as 15 horas e 15 minutos. Primeiro faz ele próprio a rectificação do Ascendente, apontando para antes das 15 horas e 15 minutos, cerca do minuto 12; depois irá encomendar o mesmo procedimento a um astrólogo do British Journal of Astrology, que responde como sendo às 15 horas, 11 minutos e 49 segundos (cf. Paulo Cardoso, Fernando Pessoa - Cartas Astrológicas, pp. 41-3. Lisboa: Bertrand Editora, 2011). 



Mapa Astrológico Rectificado