Reflexões Astrológicas
Eclipses
Lisboa, 11h33min, 03/03/2025
Lua
Decanato: Vénus
Termos: Vénus
Monomoiria: Vénus
Sol
Decanato: Júpiter
Termos: Júpiter
Monomoiria: Saturno
O Eclipse Lunar Total de dia 3 de Março
ocorre com a Lua no signo de Virgem e com o Sol no de Peixes, com Gémeos a
marcar a hora e cerca de quatro horas e meia após o nascer-do-sol (hora de
Lisboa), logo no Segmento de Luz (αἵρεσις) do Sol, estando este acima do
horizonte, na X, no lugar da Práxis (πράξις), daquilo que se faz e da efectivação da possibilidade, já
a Lua está abaixo do horizonte, na IV, no lugar sob a Terra (ὑπόγειον), no submundo, embora o eixo de Culminação se encontra
entre a IX e a III. A Lua encontra-se pois no decanato, nos termos e na monomoiria de Vénus, enquanto o Sol
encontra-se no decanato e nos termos de Júpiter e na monomoiria de Saturno. Com esta última excepção, a monomoiria do Sol ser a de Saturno, a
três dignidades estão sob a regência dos benéficos, respectivamente Júpiter
para o Sol e Vénus para a Lua.
Numa análise imediata, para além da
questão das dignidades, devemos também ter consideração que, à semelhança do
tema do eclipse solar, Gémeos marca hora e Aquário culmina e Marte é igualmente
o astro mais alto, no mesmo caminho que se inicia em Úrano. No entanto, existe
uma diferença substantiva. No eclipse anterior, Marte encontrava-se em Aquário
e Úrano em Touro, marcando assim um aspecto quadrangular e uma dinâmica de
tensão, enquanto agora com Marte já em Peixes o aspecto passa a ser hexagonal e
a dinâmica benigna, apelando a uma iniciativa que congregue a ideia de vida taurina
com a ideia de totalidade pisciana. Sendo os dois signos femininos, e estando
Vénus em exaltação, a universalidade do amor e da compaixão e a sua integração
com a defesa do planeta, da vida torna-se mais expressiva.
Com o eclipse solar de dia 17 de
Fevereiro iniciou-se a passagem no ciclo nodal do eixo Virgem-Peixes para o
eixo Leão-Aquário. De facto, em termos de eclipses solares essa passagem já
terminou, todavia, no que aos eclipses lunares concerne a passagem ainda está
em curso. O eclipse actual é o penúltimo com a Lua em Virgem, o próximo será a
20 de Fevereiro de 2027, e o antepenúltimo do eixo, ou seja, existirá ainda um
eclipse com a Lua em Peixes, a 28 de Agosto do corrente ano. Se pensarmos que
os eclipses lunares têm uma maior relação com os fenómenos naturais e as
dinâmicas do planeta que os eclipses solares, com um peso maior sobre a
realidade civilizacional, seja ela política, social ou militar, podemos
observar que o eixo de integração (Virgem-Peixes) vê ainda uma incidência da
sombra sobre a sua relação com a natureza e com o planeta. O eixo de integração
que contempla a relação da parte com o todo verifica pois uma ocultação do seu
potencial transformador face à gravidade da sombra.
Pela própria natureza dos signos e,
neste caso, pela especificidade astro-mitológica do signo de Virgem, já
analisada por diversas vezes, é facilmente verificável o peso do manto umbral
sobre o feminino, sobre o Divino Feminino. Um outro aspecto observável no tema
de Lisboa é a dupla ocultação da Lua. Por um lado, temos a ocultação própria de
um eclipse lunar e, por outro, temos primeiro a ocultação via segmento de luz,
ou seja, o segmento dominante é o do Sol e a Lua encontra-se abaixo do
horizonte e, em segundo, ela encontra-se no quarto lugar, o Lugar sob a Terra,
a casa do submundo, do Tártaro. Em termos de pronoia astrológica, esta forte ocultação da Lua, considerando a
sua influência sobre o planeta, poderá ter um impacto significativo em
fenómenos naturais extremos. Os sismos e as erupções vulcânicas estarão
altamente potenciados. Não só por esta condição da Lua, mas também pela relação
quadrangular entre Úrano em Touro e Plutão em Aquário e por Marte ser o astro
mais alto. Claro que com Marte em Peixes as tempestades e os tufões, ou sismos
com origem no mar, devem também ser considerados.
De um ponto de vista mitológico ou
astro-mitológico, a ausência da Deusa, o seu abandono da terra devido à
perfídia humana traduz a inquietação planetária da Mãe-Terra. Gaia, nesta caso
sob a forma de Astreia ou de Dikê,
traz à humanidade o peso da desmedida. A Terra, como um único organismo vivo, e
se quisermos divino, transporta consigo um princípio de causalidade. As
agressões que têm sido cometidas, a destruição e utilização desenfreada dos
recursos têm necessariamente um efeito, uma consequência, ou seja, o planeta, a
Mãe-Terra, reage. A sombra sobre a luz do feminino é um alerta claro para esse
princípio de causalidade. A passagem de Hesíodo, em Os Trabalhos e os Dias, já citada anteriormente, afirma o seguinte:
“E ela segue-os, chorando pela cidade e
pelas moradas dos povos, / vestida da névoa, trazendo desventura aos homens que
a baniram e a não distribuem com rectidão” (222-4 / trad. A. Elias Pinheiro & J. Ribeiro Ferreira. 2005: 100. Lisboa:
INCM). Existe uma negação do princípio
feminino, uma rejeição. No entanto, a Deusa não sobe logo para o Olimpo,
primeira refugia-se na montanha, ou seja, apesar da rejeição, a Astreia tem
relutância em abandonar a humanidade. No fundo, a Deusa acredita no humano e na
sua transformação. A esperança, a compaixão e a solidariedade são tudo aquilo
que salva a humanidade. A exaltação de Vénus de Peixes aponta para essa fé no
humano.
O eclipse lunar de dia 3 terá uma influência temporal
mais intensa entre um a três meses que, se atentarmos à declinação dos
luminares e à duração do período penumbral, poderá estender-se até aos seis
meses. Devemos, todavia, estabelecer uma influência mais acentuada até eclipse
lunar de 28 de Agosto. Quanto à influência geográfica do eclipse, o meridiano
que lhe serve de centro é particamente aquele que separa a Ásia da América, ou
seja, os territórios russos e norte-americano do Alasca. Este aspecto
geográfico é significativo sobretudo se tivermos em consideração que a relação
entre a América de Trump e a Rússia de Putin é algo sombria ou obscura. Os
territórios abrangidos por este eclipse são vastos, tanto no manto umbral como
penumbral, exclui-se apenas a África e a Europa e Ásia ocidental.
Segundo as regências geográficas antigas, Vétio Valente (Antologia I, 2) diz-nos que Virgem rege a
Mesopotâmia, a Babilónia, a Grécia, a Acaia (Grécia), Creta, Cíclades (Grécia),
Peloponeso, Arcádia, Cirene (Líbia), Dória (Grécia), Sicília e Pérsia ou Parsa
(Irão). Manílio, por seu lado, afirma que a Jónia (Turquia), a Cária (Turquia),
Rodes e a Grécia estão sob a sua influência (Astronomica IV, 763-8). Já Peixes exerce influência sobre o
Eufrates e o Tigre, a Síria, o Mar Vermelho e o Mar Arábico, a Índia, a
Média-Pérsia e as regiões circundantes, o rio Borístenes ou Boristene
(Dniepre), a Trácia, a Ásia e a Sardenha. Manílio, por seu lado, concede a
Peixes o Eufrates, o Tigre e o Mar Vermelho, as terras da Pártia, a Báctria, a
Etiópia, a Babilónia, Susa e Nínive (Astronomica IV, 800-6).
O eclipse lunar de 3 de Março
pertence à série Saros 133, sendo o 27º eclipse de um total de 73. O período de
eclipses totais iniciou-se a 28 de Dezembro de 1917 e só terminará a 3 de
Agosto de 2278. Como já é sabido, o eclipse inicial serve de matriz de sentido
para toda a série. Ora o primeiro eclipse desta série ocorreu a 13 de Maio de
1557 (Calendário Juliano). A Lua estava em Sagitário e o Sol em Gémeos, já o
Dragão da Lua estendia-se de Escorpião (Cauda)
a Touro (Caput). Mercúrio, Vénus e
Saturno estavam em Touro, Marte retrógrado em Balança e Júpiter retrógrado em
Capricórnio. No transaturninos, Úrano retrógrado estava em Escorpião, Neptuno
em Touro e Plutão em Peixes. Nesta data e na hora de Lisboa, Leão marcava a
hora e Carneiro culminava. A série Saros 133 terminará a 29 de Junho de 2819,
com um eclipse no eixo Gémeos-Sagitário, ou seja, com a Lua em Sagitário e o
Sol em Gémeos.
A comparação do tema do eclipse com o tema do
eclipse-matriz revela uma conjunta de particularidades que servem especialmente
para demonstrar como o eclipse apresenta uma activação de toda a série e do
sentido original. Primeiro, o eixo dos luminares encontra-se onde hoje se
encontra o eixo de ascensão, ou seja, no eixo Gémeos-Sagitário. Em segundo
lugar, o Ponto de Culminação do eclipse-matriz onde hoje se encontra Saturno e
Neptuno, em Carneio. Em terceiro, existe uma forte presença planetária na
relação Touro-Peixes tanto na matriz como agora. Estes são apenas alguns
aspectos que revelam essa activação do sentido da série e uma efectivação da
sua mensagem.
Do ponto de vista histórico, o ano de 1557, o ano do eclipse-matriz, foi marcado
por intensos confrontos entre as grandes potências europeias, por avanços
significativos da expansão espanhola nas Américas e por um ambiente político‑religioso
cada vez mais tenso. Em Inglaterra, a declaração de guerra à França inseriu-se
no jogo de alianças dinásticas entre Maria I e Filipe II de Espanha,
contribuindo para o agravamento dos conflitos que já opunham franceses e
espanhóis. Esse clima culminou na decisiva Batalha de São Quintim, a 10 de Agosto,
onde as forças dos Habsburgo derrotaram as francesas e reforçaram o seu domínio
no continente.
No mesmo ano, a Europa assistiu
também a debates teológicos em Worms que reflectiam a profunda da divisão
provocada pela Reforma Protestante. No continente americano, o Império Espanhol
consolidava a sua presença. Foram fundadas cidades como Cuenca, no actual
Equador, e Trujillo, na Venezuela, reforçando a malha administrativa colonial.
No Chile, a resistência indígena enfrentou momentos decisivos: a morte do líder
mapuche Lautaro, na Batalha de Mataquito, enfraqueceu temporariamente a luta
contra os conquistadores, enquanto confrontos como o de Lagunillas mostravam a
persistência da resistência araucana. As explorações marítimas também
avançaram, com Juan Ladrillero a alcançar a Ilha da Desolação, contribuindo
para o conhecimento europeu das rotas austrais.
No norte da Europa, movimentos políticos e religiosos continuavam a ganhar força. A formação do Primeiro Pacto dos Protestantes Escoceses marcou um passo importante na afirmação do protestantismo na Escócia, enquanto nos Países Baixos a reunião dos Estados Gerais evidenciava tensões que, mais tarde, culminariam na revolta contra o domínio espanhol. Os factos históricos em torno do eclipse são particularmente revelantes, pois não só revelam a significação de toda a série como apresentam indicadores de sentido muito relevantes para a análise do eclipse actual. As tensões de 1557 não são muito diferentes das actuais. O acumular de situações, a guerra na Ucrânia, o genocídio na Palestina, as invasões da Venezuela e do Irão em nome da democracia, mas com capitalismo selvagem e a ganância do petróleo como pano de fundo, é um claro sinal desta comparação dos tempos e do sentido da série Saros. A desmedida autocrática é a demonstração do lado maligno da conjunção de Saturno e de Neptuno em Carneiro. No entanto, se pensarmos o avanço de Marte de Aquário para Peixes permitindo um aspecto benéfico a Úrano em Touro, traz consigo um potencial de escolha sobre a agressão, sobre a desmedida no mundo.
Ora esses aspectos, a par da retrogradação de Mercúrio em
Peixes e da concentração planetária neste signo (Marte, Caput Draconis, Sol, Mercúrio e Vénus), permitem ao humano uma
reformulação da sua forma de estar no mundo, de como lidar com a ofensa, de
como agir e de como não dar poder a quem ofende. Epicteto, nas Diatribes, diz-nos: “Homem, não contemples o espectáculo e não te
oprimas. Qual é o problema? Ou espera um pouco e, quando terminar o
espectáculo, senta no lugar dos senadores e toma um banho de sol. Em geral,
pois, lembra-te disto: nós mesmos nos afligimos, nós mesmos nos colocamos em
aperto – isto é: as nossas opiniões nos afligem e nos põe em aperto. O que é
ser ofendido? Põe-te diante de uma pedra e ofende-a. O que obténs? Se alguém
escutar como uma pedra, que vantagem há para quem ofende? Mas se possuir uma
fraqueza, aquele que ofende, ao ofender, terá um meio de acesso e, então,
conseguirá algo.” (I.25, 27-9, trad.
Dinucci, 153. Coimbra, 2020: IUC).
Perante os grandes acontecimentos do mundo, o olhar para dentro, para a
cidadela interior, e transformar a sua própria realidade pode ser a chave que
abre no peito, no coração, o verdadeiro poder. A Imperatriz torna o coração,
faz do amor, uma romã que espalha as suas sementes no mundo
O trígono de Marte em Peixes a
Júpiter retrógrado em Caranguejo, estando este no tema de Lisboa na II, no
lugar da vida e do valor, vem alertar para uma realidade social que permeia as sociedades
e, face ao ódio, à agressão, à diminuição do outro, parece sempre esquecida, ou
disfarçada sob o véu da caridade dominical. A pobreza e as desigualdades
sociais são o verdadeiro inimigo da humanidade. Séneca
questiona-nos, afirmando o seguinte: “O
mais rico de todos os povos não será aquele em que é impossível encontrar um
pobre?” (Ep.90.38; Cartas a Lucílio,
2ª ed,, trad. J. A. Segurado e Campos. Lisboa, 2004: Fundação Calouste
Gulbenkian). O sextil dos planetas em
Peixes a Úrano em Touro exorta a um renovado espírito revolucionário. No caso
português, enquanto existir pobreza e desigualdade social Abril estará por
cobrir. Para o humano, a revolução tem de ser permanente e não um mero estado
transitório, não apenas um epifenómeno civilizacional ou pessoal, mas sim um
processo permanentemente em curso. O espírito revolucionário é também a nobreza
do espírito.
Como
estamos a viver um eclipse, o peso da sombra, a gravidade da ocultação tem
necessariamente a sua influência. O destino, uma vez que a Lua se une à Cauda Draconis em Virgem, vem trazer a sombra aos aspectos da vida
pessoal e colectiva que pedem reflexão e transformação. O próprio trígono entre
a Lua umbral e Úrano serve esse propósito. Neste caso, existe todavia um certo
esforço, ou seja, a Necessidade vem pedir restruturação e para isso é preciso
quebrar as velhas estruturas. Face ao tema de Lisboa, pode ser necessário
destruir a casa para construir um lar. Se a sombra cai sobre a parte (Lua em
Virgem), a luz solar no alto do tema (Sol em Peixes) clama por totalidade, por
envolvimento amoroso (Vénus exaltada). No fim, só o amor faz o humano.
A análise dos aspectos, das relações que formam o tema
deste eclipse mostra-nos que, para além da oposição umbral e das conjunções ou
das co-presenças que os antigos não designariam exactamente como um aspecto,
existe uma maior predominância de sextis e trígonos que de quadraturas,
revelando essa ponte entre o destino e a acção, a liberdade de fazer do
carácter o seu próprio destino. Porém, existem sempre os dois lados e, a par da
transformação interior, existe uma restruturação exterior, infelizmente pela
via da tensão e da destruição que clama, como um tambor de guerra, pela criação
de uma verdadeiramente humanidade.
A quadratura de Saturno e Neptuno em Carneiro a Júpiter
retrógrado em Caranguejo e quadratura de Úrano em Touro a Plutão em Aquário
trazem consigo essa força motriz. Como a astrologia deve representar a
realidade e não transformá-la numa alucinação em que tudo é maravilhoso, estes
aspectos transportam um potencial de destruição imenso. No entanto, o sentido,
tendo o Tarot como pano de fundo, não é tanto a relação entre o Diabo e a
Torre, mas sim entre a Torre e a Estrela. É preciso encontrar, entre as ruínas
do passado, a esperança no futuro. Existe sempre na realidade um tesouro, algo
que nos faz acreditar e continuar a caminhar. Há um perigo todavia a pairar
sobre o horizonte que é colocar a fé numa corrupção do humano, num falso ideal.
A conjunção Saturno-Neptuno em Carneiro alerta para o perigo do endeusamento
dos líderes.
Em suma, este eclipse de dia 3 de Março, por acontecer com a Lua em Virgem, e estando o seu regente, Mercúrio, retrógrado e no signo contrário, Peixes, coloca a sombra sobre a palavra, sobre aquilo que se transmite. A distorção da palavra, dos conceitos, das ideias, corrompe a realidade e o projecto universal de transformação do humano e de criação de uma verdadeira humanidade. Falta pois compaixão na palavra e palavra na acção.
.png)

.png)



