terça-feira, 15 de janeiro de 2019

O Monstro e o Caminhante (Poesia)


O Monstro e o Caminhante

Canova, Antonio, Teseu e o Minotauro, 1781-83. 
Londres: Victoria and Albert Museum.
Fere o monstro
Leal caminhante
Que sua sombra
Rude te conquista
Sem o alto espírito
Não te deixes cair
Nas afiadas garras
Dos teus temores
Nem no abismo
Dos teus demónios

Fere o monstro
Leal caminhante
Conhece a sombra
Que em ti avança
Sem a nobre alma
Não te deixes cair
Nas firmes teias
De erro e ilusão
De tentacular
Ignorância

Fere o monstro
Leal caminhante
Abraça a sombra
Que é modo de ver
Reflexo de ti mesmo
Sem o santo corpo
Não te deixes cair
Na febre da vaidade
Na trama do desejo
Da ilusão de possuir

Fere o monstro
Leal caminhante
Desfere o golpe
Lança o gume
Que o caminho
Já era teu
E o monstro
És tu

RMdF 01/12/2018

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Iniciação (Poesia)

Aachen, Hans von, Alegoria, 1598. Munique: Alte Pinakothek.
Iniciação

Sê a escada esfumada
Perdida entre as estrelas
A via oculta do peregrino

Sê o raio trovante da fé
Que do crente é símbolo
Concordante via ou sinal

Sê a douta anciã serpente
Da sabedoria viril amante
E do tempo eterno círculo

Vivei pois como agrilhoado
Manso servil espectador

Ou tornai-vos a iniciação
A escada o raio a serpente

02/01/2019
RMdF

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Cálculo do Ascendente


O cálculo do Ascendente ou Horóscopo é um dos primeiros passos para a elaboração de uma natividade. Esta tabela, embora não permita o rigor do grau, permite, por um lado, um conhecimento imediato do signo ascendente e, por outro, possibilita a consciência de uma visão global, a qual revelará que o tempo e o sentido são indicadores de uma constância cíclica. Para utilizar a tabela, o leitor que não conheça os cálculos e procedimentos astrológicos deverá ter em consideração o fuso horário e a hora de Verão, somando ou subtraindo esses mesmos valores à hora universal aqui apresentada.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Dignidades: O Sistema Helenístico de Matriz Hermética


  O sistema de dignidades é um modelo indispensável para o estudo de qualquer tema astrológico. A astrologia helenística, sobretudo a de matriz hermética, fixa uma estrutura interpretativa que difere daquela que é utilizada pela astrologia dita tradicional, que descende sobretudo de Ptolomeu e do seu empírico-cepticismo. Curiosamente, o mesmo Ptolomeu que desdenhava dos sistemas astro-numerológicos de tradição hermética, que hoje são perfeitamente aplicáveis, vai ser o antecessor de um sistema que atribui pontos à ocorrência de determinadas dignidades, algo que não era utilizado pelos antigos astrólogos da tradição greco-egípcia. No entanto, independentemente da forma desse modelo, a matriz de sentido é coerente e estendeu-se no tempo. 

  Depois da análise do segmento, haíresis, e do regente do tema, a análise das dignidades segue, desde da primeira da fase da astrologia helenística (séculos III AEC a I EC) até aos nossos dias, a mesma sequência: domicílio, exaltação, triplicidade, termos e decanatos. A estes últimos, segundo o sistema hermético, acrescentar-se-ia a monomoiría, a última dignidade, já aqui abordada em Os Dois Esquemas de Monomoiria de Paulo de Alexandria I: Tradução do Grego e em Os Dois Esquemas de Monomoiría de Paulo de Alexandria II: Tradução do Grego. Esta sequência é aquela que encontramos em diversos horóscopos antigos, tanto em papiro como em ostraca, e dos quais podemos inferir a estrutura interpretativa dos mesmos. 

As dignidades helenísticas e herméticas diferem de outros modelos, pois, por um lado, preferem o sistema de termos egípcio e, por outro, por não darem o relevo que será dado mais tarde ao detrimento e à queda dos planetas nos signos. Este último factor deve-se ao facto de o conceito de oposição não ter na Antiguidade o sentido estrito de tensão que pode ter hoje, pois, tanto em grego como latim, o termo para oposição tem o sentido literal e profundo de diâmetro, que, na verdade, não é exactamente a mesma coisa que oposição. Contudo, poder-se-ia afirmar, sem grandes divergências, que as fundações conceptuais deste sistema não sofreram grandes alterações e, sendo este modelo mais antigo, é também aquele que é mais utilizado. As dignidades tornaram-se, deste modo, a base da interpretação astrológica.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

A Humanidade em Tempos Sombrios (Poesia)

Yáñez de La Almedina, Fernando, Santa Catarina, 1505-10. 
Madrid: Museu do Prado.
A Humanidade em Tempos Sombrios

À minha filha Maria Madalena.

Quando o ódio galgar o humano
Pratica a nobre arte da contenção
Mede a palavra cultiva o pensar
Não dês lume ao fogo ignorante

Quando a ética for apenas nome
Palavra perdida num livro morto
Sê somente o melhor de ti mesma
E não deixes nunca que a sombra
Do passado te devore o amanhã

Quando tudo for líquido superficial
Efémero como a espuma da vaidade
Firma a gravidade no que é eterno
E acredita que sozinha serás o humano

Quando a sombra se estender em ti
Ergue a candeia no obscurantismo
E diante do mal comum ou universal
Sê o colosso da nossa humanidade
Um baluarte de bondade e concórdia

Quando a ignorância semear caminho
Concede o sal à terra e sê a fertilidade
De uma sábia via deixando à história
Às páginas revisitadas a lição do futuro

Quando os tempos forem sombrios
Permite ao Sol a luz da humanidade
E se tudo estiver perdido tombado
Sobre a profundidade do seu abismo
Não te percas tu permanece sempre
Humanamente humana e acredita

RMdF 15/11/2018

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

O Mistério da Morte

A Morte
Tarot Rider-Waite

A Morte é aquele elemento de passagem que parece destruição, mas, na verdade, é apenas desaparecer do olhar.

A Morte é o dom do esquecimento, o processo de purgar o superficial e de chamar a si o que dá profundidade à alma.

A Morte é aquela presença que, no universo, se funda na dualidade e que, com o Amor, reunida e separada, cria e destrói.

A Morte é a mudança, o eterno fluxo de um rio que corre, que, com a Vida, alternadamente governa e é governada.

A Morte é aquela sábia lição que nos adverte que o amanhã pode ser seu, devemos portanto colher os frutos do agora.

A Morte é o aviso constante que relembra que na dança da morte todos vão participar, relativizando pois todas as acções.

A Morte é a representação do reinado do Senhor do Tempo, aquele que num momento dá e noutro tira, levando consigo reis e plebeus.