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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Reflexões Astrológicas 2026: Eclipse Solar Anular (Lua Nova em Aquário)

 Reflexões Astrológicas

Eclipses 


Eclipse Solar Anular

(Lua Nova em Aquário)

Lisboa, 12h 11min, 17/02/2026

 

Sol-Lua

Decanato: Lua  

Termos: Saturno   

Monomoiria: Saturno    

                                           

 

   O Eclipse Solar Anular de 17 de Fevereiro ocorre no signo de Aquário, com Gémeos a marcar a hora (hora de Lisboa), no Segmento de Luz (αἵρεσις) do Sol, com os luminares acima do horizonte, na IX, no lugar de Deus, do deus Sol, mas junto do Ponto de Culminação (MC), e cerca de cinco horas após o pôr-do-sol, no decanato da Lua, nos termos e na monomoiria do Saturno, e a escassos minutos do grau anarético. Destaca-se pois, na leitura imediata de tema, o facto de Marte ser o astro mais alto, em conjunção ao Ponto de Culminação, num caminho ascendente que se inicia com Úrano em Touro, num lugar de pós-ascensão. Esta relação quadrangular torna-se assim significativa, revelando nomeadamente a ruptura entre a humanidade (Aquário) e a Mãe-Terra (Touro). A negação das alterações climáticas em oposição aos fenómenos naturais extremos revela esta dicotomia. O peso da morte (Plutão em Aquário) paira, desta forma, sobre a humanidade. 

   Este é o primeiro eclipse no eixo Aquário-Leão, ou seja, avançamos no ciclo nodal do eixo de integração Peixes-Virgem para o eixo de criação Aquário-Leão. No entanto, existe um sentido profundo que conserva a sua continuidade. A ponte entre singularidade e pluralidade é mantida em ambos os eixos, estando os dois naturalmente sobre o peso do manto umbral. No eixo Peixes-Virgem, estabelecia-se, para lá da sombra, um elemento de passagem entre o todo e a parte, já no eixo Aquário-Leão, o elemento funda-se na viagem entre a humanidade e o humano. Convém, todavia, salientar-se que o humano de Leão é, na verdade, o divino, o sol radiante. Em Leão, se o herói sacrificar o ego, a nobreza da alma reconhecerá o divino em si mesmo. Esta é uma ideia que encontramos, por exemplo, em Rumi, em Meister Eckart ou no Evangelho de Tomé. O divino não está em igrejas, mesquitas, sinagogas ou em qualquer templo de pedra está no interior de cada um. É a luz que brilha quando tudo é escuridão. É, desta forma, o reconhecimento do divino em nós que nos torna humanos e que nos permite, num elemento agregador de passagem, a criação de uma verdadeira humanidade. Este é o eixo de criação Leão-Aquário.

   No actual ciclo nodal, a sombra impõe-se agora sobre o signo de Aquário e o corpo do Dragão da Lua coloca a sua cabeça nesta constelação e a cauda na oposta, em Leão. Ora este posicionamento firma assim a sombra sobre o sentido de humano e de humanidade. Deste modo, o Dragão da Lua vai dar gravidade à Necessidade (Caput) sobre a humanidade e ao Destino (Cauda) sobre o humano. A Providência estabelece consequentemente os seus ditames ao querer refundar o sentido de humanidade no humano. Numa visão astro-mitológica, o eixo Aquário-Leão vai simbolizar a relação homoerótica entre Ganimedes e Zeus (Júpiter), algo particularmente significativo com o ingresso de Júpiter em Leão no final de Junho.

   Já tínhamos considerado a matriz etimológica do nome Ganimedes (Figueiredo, R. M., 2024, Reflexões Astrológicas 2023: Parte I, 20. Lisboa: Livros – Rodolfo Miguel de Figueiredo). Ora o nome próprio tem a sua raiz na forma verbal γάνυμαι que designa o “alegrar-se” ou o “irradiar alegria”, mas também no substantivo μήδων, ou seja, os “genitais”. Sob a forma de águia, Zeus rapta Ganimedes e leva-o para o Olimpo, tornando-o o copeiro dos deuses, aquele que verte o néctar (ou o sémen). Platão, na célebre passagem que compara a alma a um carro puxado por cavalos que exercem forças contrárias e cujo auriga terá de dominar, diz-nos o seguinte acerca do amor e do desejo, considerando o caso de Ganimedes e Zeus: Precisamente por isso, o jovem amado é servido com toda a solicitude, como um deus, não por quem finge amar, mas por quem experimenta verdadeiramente esse sentimento; ele mesmo torna-se naturalmente amigo de quem o serve. Mesmo que, no passado, tenha sido dissuadido pelos companheiros ou por torna-se naturalmente amigo de quem o serve. Mesmo que, outros quaisquer, ao dizerem-lhe que é vergonhoso aproximar- -se de quem ama, induzindo-o a repelir por isso o amoroso, com o avançar do tempo, no entanto, a juventude e a necessidade levam-no a admiti-lo na sua intimidade. Não quis o destino que o malvado fosse amigo do malvado nem que o corajoso não fosse do corajoso. Logo que o amado admite e aceita escutar a sua conversa e viver na sua companhia, a benevolência do amante, olhada de perto, causa-lhe perturbação, ao aperceber-se de que todos os outros, amigos e familiares, não oferecem qualquer parcela de amizade em confronto com o amigo que é presa da possessão de um deus. Quando persevera falei nessa conduta e se avizinha dele para o tocar nos ginásios e em outros locais de reunião, então o manancial da corrente de que e a que Zeus, enamorado de Ganimedes, deu o nome de desejo, canalizada em abundância para o amante, penetra dentro dele uma parte, e a outra, uma vez repleto, transborda para o exterior. E, qual vento ou um eco que, ressaltando nas superfícies lisas e sólidas, regressa ao ponto donde partiu, assim o fluxo vindo da beleza regressa de novo ao jovem belo através dos olhos que são a entrada natural da alma.(Platão, Fedro 255a-c, trad. J. Ribeiro Ferreira. Lisboa Edições 70, 1997).

   Primeiramente, e contrariando um pouco Platão, este caminho amoroso de descrição homoerótica é idêntico ao amor heterossexual. Lembremo-nos, por exemplo, da poesia trovadoresca e da deificação da amada nas cantigas de amigo e de amor. Já do ponto de vista astrológico dir-se-ia que este processo pertence a Vénus, ou na astrologia esotérica poderia pertencer também a Neptuno, como uma expressão de Vénus numa oitava acima, todavia na ponte do Sol a Saturno, ou vice-versa, no caminho Leão-Aquário, vamos encontrar também a dinâmica do amor. A razão é tão simples quanto a formulação: é o amor que faz o humano e é o amor que constrói a humanidade. Se considerarmos a ordem vernal depois de Aquário, o signo da humanidade, vem Peixes, o signo da totalidade e o lugar de exaltação de Vénus, logo o amor como potência do eixo de criação revela de facto o seu sentido profundo.

   Esta associação astro-mitológica entre o mito de Zeus e Ganimedes e o eixo Leão-Aquário encontra-se também numa descrição de Quinto de Esmirna, em A Queda de Tróia (8.427 e ss.), quando nos diz que, ao ver a sua cidade em chamas e seus compatriotas a serem chacinados, Ganimedes exorta amorosamente a Zeus pela sua clemência e pela sua intervenção. Ora Zeus acende às súplicas do amado e lança uma tempestade de trovões e relâmpagos que extingue o fogo e faz dispersar os exércitos gregos, obrigando-os a regressar à sua terra-natal. Ganimedes incorpora neste mito o sentido de humanidade e consequentemente o signo de Aquário, tal como Zeus (Júpiter) que, ao fazer essa passagem entre o divino e o humano, transmite o sentido profundo do signo de Leão, ou seja, a nobreza da alma. Este é um aspecto que se torna particularmente interessante se pensarmos que Zeus evitou sempre intervir no conflito da guerra da Tróia. Foi o amor que condicionou agora essa intervenção, o que lhe concede um carácter particularmente distinto.

   Com um eclipse solar neste eixo, a sombra, a ocultação da luz, vai incidir sobre este binómio humano-humanidade. Ora não é difícil de perceber esta significação, pois estamos a viver, com o avanço do populismo e da extrema-direita, um processo desumanização e de remissão do valor de humanidade. O exemplo mais assustador neste processo é o de Gaza. A forma passiva como os líderes mundiais e muita gente assiste, em directo, a um genocídio é um exemplo claro desse processo. A desmedida do ódio pelo outro, pelo estrangeiro, por aquele é que diferente, seja por que razão for, é a demonstração da falência da humanidade. Se pensarmos que o eixo Leão-Aquário está muito associado à luz, sendo Leão o domicílio do Sol e Aquário o de Saturno, tendo sido este designado pelos babilónicos como o Sol da Noite (cf. van der Sluijs, M. A. & P. James, 2013, “Saturn as the Sun of Night in Ancient Near Eastern Tradition” in Aula Orientalis 31.2, 279-321), substituindo o luminar na sua ocultação nocturna, o peso da sombra torna-se então mais expressivo.      

   Na relação entre a luz e a sombra, e agora com eclipse solar no signo de Aquário, tem de se considerar a morte como elemento essencial de sentido, por duas razões: a posição de Aquário no Thema Mundi e o facto de Plutão se encontrar em Aquário. Como já observarmos, por diversas vezes, o Thema Mundi possui uma enorme riqueza significativa, infelizmente subjugada à hegemonia da ordem vernal. Ora, no Thema Mundi, Aquário ocupa o oitavo lugar, o lugar da Morte, ou da qualidade da morte como alguns referem. Este posicionamento não é inocente. Os antigos astrólogos colocaram os luminares nas duas primeiras casas, ou seja, com Caranguejo a marcar a hora, a Lua na I e, com Leão, o Sol na II, deste modo, os dois signos cujo domicílio é Saturno vão-se encontrar nos signos opostos, respectivamente Capricórnio e Aquário. Sabemos que a razão desta distribuição teria sido inspirados nos templos de Mitra e naturalmente no nascimento e morte da luz solar, confirmando-se assim a designação babilónica de Saturno enquanto Sol da Noite.    

   Na ordem vernal e com as regências modernas, Escorpião ocupa a casa VII, tendo Plutão como seu regente. É assim que se encontra a ligação e a persistência do sentido profundo da morte no actual eclipse. Séneca diz-nos o seguinte acerca da morte: “A morte não tem em si nada de nocivo, porquanto uma coisa, para ser nociva, deve primeiro existir! Se tens assim um tão grande desejo de uma vida mais longa, pensa então que nada daquilo que se escapa aos nossos olhos para mergulhar na natureza (da qual tudo proveio e à qual tudo em breve há-de regressar) se destrói por completo; as coisas cessam, mas não se perdem; a morte - que nos enche de terror, que nós nos recusamos a aceitar - interrompe a vida, mas não lhe põe termo; virá um dia em que novamente veremos a luz, num regresso à vida que muitos recusariam sem o prévio esquecimento da vida passada!” (Ep.35.9-10; Cartas a Lucílio, 2ª ed,, trad. J. A. Segurado e Campos. Lisboa, 2004: Fundação Calouste Gulbenkian). A morte surge assim como uma confirmação da continuidade e da persistência da vida. É a ideia de que a morte é semente, ou seja, uma significação atribuída a Plutão enquanto senhor do que existe sob a terra, o submundo e o lugar da semente.

   O eclipse solar de dia 17 tem o seu centro geográfico, o seu foco de escuridão, ao largo da Antárctida, entre a Davis Station e a Casey Station. Se considerarmos a importância deste continente para preservação do nosso planeta, a localização ganha uma significação importante, e se pensarmos que eclipses solares tendem a assumir um sentido político maior que os eclipses lunares, podemos assumir a relevância política da conservação da Antárctida para a emergência climática. Os governos que continuamente negam esta emergência estão a cometer um crime contra humanidade, aqui também no sentido aquariano. O manto umbral estende-se depois pelo Oceano Índico, passando também pelo continente africano, pela África do Sul, Botsuana, Moçambique, Zimbabué, Malawi, Zâmbia, Tanzânia, e mais ligeiramente pela Austrália, pela Índia pelo Sri Lanka.  

   Nas regências geográficas antigas, Vétio Valente (Antologia I, 2) diz-nos que Aquário rege sobretudo o Egipto, a Síria, a área entre o Eufrates e o Tigre (Médio Oriente), a Líbia, a região do vale do Indo (entre o Paquistão e a Índia, Tanais (nas imediações da actual Rostov-on-Don, Rússia, perto da fronteira com a Ucrânia e a Geórgia), e dos rios Eufrates e Tigre, desde os Hiperbóreas, para norte e oeste (países de leste e Escandinávia). Já Manílio designa que Aquário rege as áreas do Egipto à Fenícia, e a própria cidade de Tiro (Líbano), a Cilícia (Anatólia, Turquia) e as planícies que fazem fronteira com a Cária (Turquia), ou seja, a Lídia e Panfília (ambas na actual Turquia) (Astronomica IV, 797-9). Heféstion vai sintetizar com parte das mesmas áreas de Vétio Valente e que estão de acordo com a Sphaerica, acrescentando as referidas por Ptolemeu, ou seja, a Sauromática (do baixo rio Volga ao sul dos Montes Urais), Oaiana, Sogdiana (Usbequistão), Arábia, Azânia (zona da África, do sul da Somália, passando por Moçambique, até a África do Sul) e Germânia (Apotelesmática I, 1).

   Se observarmos com atenção as regências geográficas antigas, concluímos que estão quase todas associadas a conflitos político-militares e a lugares de crise humanitária. Novamente o eixo de criação Aquário-Leão encontra a sua expressão. Já quanto à influência temporal podemos estabelecer, com base na duração do eclipse tanto umbral como penumbral, mas também pela declinação dos luminares, uma influência directa mais forte de dez meses a dois anos e dois meses e meio. Porém, existe uma influência indirecta, expressa sobretudo através dos seus efeitos, que se estender até aos treze anos, ou seja, os acontecimentos do período mais restrito vão ter consequências a longo prazo.

   O eclipse solar parcial de 17 de Fevereiro pertence à série Saros 121, sendo o 61º eclipse de um total de 71. É uma série de maior maturidade que já se encontra na fase posterior à dos eclipses totais. O período dos eclipses totais, entre 1070 e 1809, é relevante, pois estende-se do fim da Alta Idade Média até período das revoluções. Como sabemos, o eclipse inicial é a matriz de sentido para toda a série. Ora o primeiro eclipse desta série ocorreu a 25 de Abril de 944. O Sol, a Lua e Mercúrio estavam em Touro. O Dragão da Lua estendia-se no eixo Carneiro-Balança. Vénus estava em Gémeos, Marte em Sagitário e Júpiter em Carneiro e Saturno em Caranguejo. Nos transaturninos, Úrano estava em Gémeos, Neptuno em Leão e Plutão em Caranguejo. Nesta data e na hora de Lisboa, Leão marcava a hora e Carneiro culminava. A série Saros 121 terminará a 7 de Junho de 2206, com um eclipse no signo de Gémeos, o signo que agora marca a hora para o tema de Lisboa. Na análise comparada entre tema do eclipse matriz e o do actual, encontramos uma progressão significativa dos eixos de ascensão e culminação. De uma outra forma, possui também um sentido profundo o facto de Júpiter se encontrar em Carneiro, onde agora se encontra Saturno, e Saturno se encontrar em Caranguejo, onde agora se encontra Júpiter. As dinâmicas estruturantes espaço e tempo assumem esta dicotomia entre o signo da unidade (Carneiro) e o signo da origem (Caranguejo), ou seja, uma relação entre os eixos de identidade e de tempo.

   O ano de 944 foi marcado por algumas transformações políticas, religiosas e militares que definiram a Alta Idade Média. No mundo islâmico, os hamadânidas (dinastia fundada por oficiais abássidas) reforçaram o seu poder quando Sayf al‑Dawla conquistou a cidade de Edessa, até então sob influência bizantina, consolidando, desta forma, a presença da dinastia no norte da Síria e da antiga Mesopotâmia. Simultaneamente, o califado abássida atravessava um período de grande fragilidade: os buídas ampliavam a sua influência no Iraque e aproximavam‑se de assumir o controlo efectivo de Bagdad, reduzindo o califa a uma figura sobretudo simbólica. No Império Bizantino, o imperador Constantino VII Porfirogénito consolidou o seu poder ao afastar os filhos de Romano I Lecapeno, com quem ainda partilhava o trono. Constantinopla recebeu, nesse ano, uma das relíquias mais veneradas do cristianismo oriental, o Mandylion de Edessa cuja posse reforçou o prestígio religioso da capital imperial.

   Na Europa ocidental, o Reino de Inglaterra era governado por Edmundo I que continuava o esforço de unificação e defesa iniciado por Athelstan, enfrentando tensões com grupos de vikings e com reinos vizinhos. A Leste, a Rus de Kiev vivia um período de instabilidade sob o príncipe Igor cuja autoridade era contestada. A tensão crescente culminaria no ano seguinte com a sua morte às mãos dos drevlianos. Na Europa Central, os magiares prosseguiam as suas incursões e expandiam a sua influência, moldando o equilíbrio de forças na região. É interessante observarmos como muitas destas regiões continuam hoje a ser focos de atenção e de tensão.

   A conjunção ou co-presença da sizígia umbral a Marte e a Plutão, e tendo já se observado a relação com o sentido de morte, percebemos como a destruição paira sobre a humanidade, lançando com cada vez maior frequência os raios de alerta. Marte e Plutão, os regentes de Escorpião, lançam assim os seus raios que se conjugam com os dos luminares, agora sob o peso da sombra. A humanidade está a ser avisada, os gritos de alerta ecoam pelo mundo, mas a sombra impede a visão. Tudo está à vista de todos e continua sem ser visto. Este aspecto astrológico relaciona-se com outro, também facilmente observável: a conjunção quase exacta da Vénus exaltada em Peixes à Caput Draconis, ambas co-presentes a Mercúrio exilado. A potência agregadora do amor universal encontra a sombra da necessidade e a sua palavra de consenso jaz inaudível. O caso de Francesca Albanese é o melhor exemplo, dizendo-nos “Não matem o mensageiro”. Com uma enorme coragem, ela denuncia o genocídio que todos ignoram e por isso tem sido perseguida. De facto, estamos num tempo em que temos de repensar o humano se queremos ser uma verdadeira humanidade. O humanismo está perder-se na história. A agressão de Marte tem contaminado o amor como derradeira finalidade e só o amor nos pode salvar. Essa é a verdade.      

   No entanto, o trígono de Vénus, Mercúrio e da Caput Draconis em Peixes a Júpiter em Caranguejo surge como redescobrimento da pérola do Eterno Feminino. É como se a concha de onde nasceu Afrodite se reabrisse para uma nova era. O regresso da deusa renegada aparece no horizonte como possibilidade. Porém, vivemos o tempo em que o ódio para com o feminino e para com as mulheres está vez mais presente. O direito de ser mulher continua a ser fortemente ameaçado por uma sociedade patriarcal e uma mentalidade machista. O sextil destes a Úrano em Touro, a par da quadratura deste à sizígia umbral e a Marte e Plutão em Aquário, revela, por um lado, a liberdade que existe na defesa do feminino e da Mãe-Terra, ou seja, existe a possibilidade de escolha, o humano pode seguir a revolução do Eterno Feminino, a revelação do seu retorno, ou seguindo essa tensão quadrangular, consolidar a destruição do espírito do humano, da nobreza da alma, impedindo a criação de uma verdadeira humanidade.

   No tema do eclipse, e tendo em conta o facto dos ingressos ou reingressos terem acontecidos pouco tempo antes desta efeméride, é impossível não destacar a importância da presença de Saturno e Neptuno no signo de Carneiro. Contrariando a tendência astrológica contemporânea de dizer sempre “Agora é que é” quando um planeta ingressa num signo de Ar e Fogo e que, na verdade, resume de forma subtil um certo patriarcalismo interpretativo, o período em que estes planetas se encontrarem em Carneiro não será fácil. Não nos podemos esquecer que deixam um signo onde existia uma potência benévola maior. Deixam o signo onde os benéficos estão favorecidos (domicílio de Júpiter e exaltação de Vénus) e regido por Neptuno para entrarem na casa de Marte, o lugar onde o Sol arde e queima (exaltação). A tradução desta hostilidade vai-se verificar em extremismos ideológicos e populistas, basta ver o crescimento da extrema-direita, mas também em duas outras vertentes, o aumento dos cultos de personalidade e da misoginia. Por outro lado, vai permitir, sendo o signo da Práxis, uma renovação conceptual da resistência democrática que se vai expressar em novas formas de luta. Os ideais e as estruturas terão sobre elas uma acção renovada. As novas gerações trazem à humanidade uma esperança de cura e renascimento. Carneiro vai dizer para criar, para renovar, para agir, fazendo do sonho um lugar no tempo, isto é, um acontecimento. O sextil entre os luminares e estes planetas é um sinal claro dessa liberdade de acção.

   Este é, todavia, um eclipse de grande tensão e mensageiro de destruição. As quadraturas entre Marte e Plutão, juntamente com a sizígia umbral, em Aquário a Úrano em Touro e a quadratura de Júpiter em Caranguejo a Saturno e Neptuno em Carneiro são um marco desse potencial nefasto. A astrologia não revela só flores e incenso é preciso ser claro e dizer que nem tudo é bom e que sim existem acontecimentos nefastos e que o humano encerra em si uma potência de destruição. O sextil entre os planetas no lugar do eclipse e Saturno e Neptuno em Carneiro vai acentuar essa realidade como potência de destruição e não como efectivação da destruição, ou seja, seguindo a inspiração estóica, nós não determinamos os acontecimentos, mas definimos o carácter. O mal é uma escolha. Toda a quadratura entre Júpiter e Saturno pede, ou melhor dizendo obriga, a uma restruturação da realidade e a uma nova aplicação das ideias-matriz, dos valores essenciais.

   O eclipse solar de dia 17, no signo de Aquário, surgindo no céu como um anel de fogo, vai colocar sobre o humano e sobre a humanidade o peso da sombra. A Providência traz assim à realidade a gravidade do retorno. Ser-nos-á portanto impossível ignorar a causalidade como consequência das nossas acções. Neste eclipse, e partir dele, a humanidade será progressivamente chamada à realidade, tendo assim de se repensar, de se recriar. A destruição levará necessariamente à criação.


quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Lançamento: Reflexões Astrológicas 2025


Lançamento de Livro

Reflexões Astrológicas 2025


Sinopse

Desde 2021 que, nas Reflexões Astrológicas, se procura analisar uma selecção de efemérides astrológicas. O objectivo é examinar e explorar em cada ano diferentes aspectos do sistema astrológico, de modo a apresentar uma compilação interpretativa o mais ampla possível. No ano de 2025, as Reflexões Astrológicas focam-se nos seguintes fenómenos astrológicos: o Novo Ano Astrológico, os Eclipses, Ingressos e Aspectos. Inclui-se assim, à semelhança dos anos anteriores, uma interpretação um pouco mais extensa dos eclipses de 2025: dois eclipses solares e dois eclipses lunares.

A interpretação astrológica que aqui se apresenta sustenta-se nas vertentes que o autor elegeu como as suas especialidades: a Astrologia Antiga, a Astrologia Hermética e a Astrologia Mitológica. Paralelamente, procura-se criar uma ponte entre a astrologia e a filosofia, visando o desenvolvimento de uma Filosofia da Astrologia e de uma Astrosofia, baseada na filosofia prática e nos exercícios espirituais e tendo como pano de fundo o estoicismo, cujos pressupostos permitem uma estrutura conceptual de passagem entre estas bases e a leitura hermética da astrologia.

Em suma, ao longo dos vários capítulos, pretende-se conjugar a interpretação astrológica com uma leitura filosófica e espiritual, mas não subordinada às modas esotéricas das últimas décadas. Dessa união, dessa exigência do pensar, pode nascer uma nova astrologia, uma astrologia refundada.

Livro
Edição Comum
(Paperback)
Edição: Janeiro de 2026
Páginas: 142
ISBN: 9798277374115
Preço: 9,00€ (UE)

Ebook Gratuito

Saiba mais acerca deste ou de outros títulos em https://rodolfomfigueiredo.wixsite.com/livros

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Brevemente. Reflexões Astrológicas 2025


Sairá, em breve, o meu 21º livro, Reflexões Astrológicas 2025.Este livro pertence a um conjunto de obras que procura analisar algumas das efemérides astrológicas anuais. Podem encontrar-se neste livro todas as reflexões astrológicas de 2025.



Saiba mais acerca deste ou de outros livros em https://rodolfomfigueiredo.wixsite.com/livros

sábado, 20 de setembro de 2025

Reflexões Astrológicas 2025: Eclipse Solar Parcial (Lua Nova em Virgem)

Reflexões Astrológicas

Eclipses 




Eclipse Solar Parcial 

(Lua Nova em Virgem)

Lisboa, 20h 43min, 21/09/2025

 

Sol-Lua

Decanato: Mercúrio  

Termos: Saturno   

Monomoiria: Lua    

                                           

 

   O Eclipse Solar Parcial de 21 de Setembro ocorre no signo de Virgem, com Carneiro a marcar a hora (hora de Lisboa), no Segmento de Luz (αἵρεσις) da Lua, com os luminares abaixo do horizonte, na VI, no lugar do Má Fortuna (κάκη τύχη), e cerca de uma hora após o pôr-do-sol, no decanato de Mercúrio, nos termos de Saturno e na monomoiria da Lua, no grau anarético deste signo. Manílio define o lugar onde se dá o eclipse do seguinte modo: “porta laboriis erit: scandendum est atque cadendum” (Astronomica II, 870: “a porta do trabalho serão: por uma se sobe e pela outra se desce”). A tensão do incumprimento é a mais intensa do todo o δωδεκατόπος (doze lugares), pois não se une ao Horóscopo e está sob o horizonte. No entanto, a união triangular ao lugar da Práxis, a X, permite que se efective, mas só através do esforço, do labor. A sombra terá de ser trabalhada.

   Paulo de Alexandria define o sexto lugar como ἀπόκλιμα φαῦλον (declínio débil) e designa-o de ποινέ, ou seja, retribuição, castigo ou vingança (Introdução, cap. 24). Fírmico Materno, por seu lado, considera-o uma infelix regio (região funesta) ou diz que é rebusque inimica futuris (inimiga das acções futuras), fazendo dela vitio fecunda nimis (demasiado fecunda em maldade). A VI é assim definida como um locus piger, um lugar passivo (Mathesis, II, 19, 7). Esta qualificação do sexto lugar é importante, pois, segundo a ordem vernal, é neste lugar que recai o signo de Virgem, já segundo a ordem do Thema Mundi este signo ocupa o terceiro lugar, designado tradicionalmente por Deusa, ou por lugar da Deusa da Lua. Consequentemente a união destes dois sentidos torna-se fundamental para compreensão da natureza do actual eclipse.

   A análise astro-mitológica do signo de Virgem estabelece uma ponte de sentido entre estas duas qualificações. O signo de Virgem, segundo a tradição, representa Astreia, filha de Astraeus e Eos (Aurora) ou de Zeus e Témis, ou Dikê (Némesis, na sua forma de retribuição). Na astrologia moderna ou contemporânea, tendemos a colocar o conceito de justiça mais associado ao signo de Balança que ao de Virgem. No entanto, das constelações zodiacais, o signo de Balança foi o último a ser definido, pois pertenceria inicialmente ao Grande Escorpião, do qual representaria as suas pinças. Da sua divisão nasceria o signo de Balança, as pinças tornaram-se escalas, e o signo Escorpião que ficaria com o resto do corpo do Grande Escorpião. Esta origem é importante, pois mostra como o signo de Balança, o único representado por um objecto, representa apenas o instrumento que repousa nas mãos da deusa, no signo de Virgem. Está portanto mais associado à aplicação da justiça.

   A deusa da Justiça é, segundo o mito das idades do mundo, a última a permanecer na terra. Todos os outros deuses subiram ao Olimpo. No entanto, à medida que a perfídia humana cresce, a Deusa começa a ser ignorada. Hesíodo, em Os Trabalhos e os Dias, conta-nos o seguinte: “E ela segue-os, chorando pela cidade e pelas moradas dos povos, / vestida da névoa, trazendo desventura aos homens que a baniram e a não distribuem com rectidão” (222-4, trad. A. Elias Pinheiro & J. Ribeiro Ferreira, 100. Lisboa, 2005: INCM). Progressivamente a deusa abandona a humanidade. Esta ideia de ausência do Divino Feminino é assim associada ao signo de Virgem. Numa perspectiva mais determinada pelos ciclos da natureza e pela agricultura, a deusa Deméter, após o rapto de Cora (Perséfone), sua filha, deixa o mundo e refugia-se numa gruta na Arcádia, deixando a natureza perecer e levando todos à miséria. Ora o somatório destes elementos demonstra a associação do signo Virgem aos lugares indicados, ou seja, à III enquanto Deusa e à VI enquanto Má Fortuna, a miséria da ausência do feminino.

   Como o actual eclipse ocorre no signo de Virgem, a sombra dracôntica assume também, sob o véu do obscurecimento, esta ausência do feminino enquanto degradação do humano e corrupção da natureza. Na sua forma de retribuição, a sua face mais severa, Dikê revela-se como Némesis. Foi a acção humana que levou a deusa a tomar esta forma que é tradicionalmente associada a Saturno. Segundo o mito das idades, Saturno rege a idade de ouro quando a justiça ainda existia entre os humanos. Hoje, aquando do eclipse solar de dia 21, Saturno olha de frente (oposição) para o encontro umbral dos luminares. A partir de Peixes, trazendo consigo o peso do destino (Cauda Draconis), Saturno fita esta ausência, esta negação da harmonia.

   Este abandono ou esta ausência não é, porém, definitiva, passada a sombra, renascido o humano, a deusa voltará. Vergílio, nas Bucólicas, diz o seguinte: “A última idade do canto cumeio chegou já;/ a grande ordem dos séculos nasce de novo./ Já regressa a Virgem, regressam os reinos saturninos; /já do céu alto uma nova progénie é enviada.” (IV, 4.7: itima Cumaei uenit iam cļńs aetas;/magnus ah integro saeclorum nascitur ordo./ iam redit et Virgo, redeunt Satumia regna, /iam noua progenies caelo demittitur alto. Trad. Frederico Lourenço, 109-10. Lisboa, 2021: Quetzal Editores). No entanto, o retorno da deusa, considerando o que motivou o seu afastamento, nascerá de duas razões: ou porque a perfídia recuou entre os humanos; ou porque a deusa quer ajudar o humano nesse recuo. As duas razões não se excluem e obrigam ambas à transformação do humano, ao seu regresso à excelência original. Esta ideia insere-se naturalmente na conceptualização do eixo de integração que une Virgem a Peixes, ou seja, a parte ao todo. Diante da sombra que oculta a luz, a parte não vê, não alcança o todo. O humano não vê a deusa, não se integra na sua totalidade.

   Séneca apresenta um percurso para aquilo que deverá ser, segundo o espírito de Virgem, a sanidade da alma: “Dir-te-ei agora o que significa uma alma sã: é cada um contentar-se consigo mesmo, ter confiança em si próprio, saber que todos os votos feitos pelos homens, todos os benefícios que trocam entre si não têm a mínima importância para a obtenção da felicidade. Uma coisa passível de acréscimo não é uma coisa perfeita; o homem que quer vir a possuir uma permanente alegria, tem de fruir apenas do que efectivamente lhe pertence. Ora rodos os bens a que o comum dos mortais aspira são, de uma forma ou outra, transitórios, pois de coisa alguma a fortuna nos permite a posse para sempre. Mesmo esses bens transitórios, contudo, podem ser-nos agradáveis se estiverem sujeitos ao controlo e à influência da razão; apenas a razão pode tornar recomendáveis esses bens, cujo usufruto se revela nocivo a quem os ambiciona por si mesmos.” (Ep.72.7; Cartas a Lucílio, 2ª ed,, trad. J. A. Segurado e Campos. Lisboa, 2004: Fundação Calouste Gulbenkian). Este itinerário da alma é, na verdade, uma negação do que conduziu ao afastamento da deusa, é uma rejeição da Má Fortuna, tornando-se assim o sentido do actual eclipse.

   A influência temporal deste eclipse deve ser analisada com alguma ponderação, pois, como veremos mais adiante, este eclipse pertence a uma série Saros recente, iniciada em 1917, logo a sua assinatura mundana de sentido ainda se está estruturar. Por um lado, por ser um eclipse parcial com uma tipologia rara, a sua duração, bem como a ascensão recta, é maior, logo a influência também será. No entanto, por a sua significação ainda se estar a estabelecer, a influência temporal poderá ser maior, mas o efeito tenderá a ser mais ténue ou até difuso. A duração fixaria assim a influência em cerca de quatro anos e meio e a ascensão recta em mais de uma década, já a declinação dos luminares colocaria em destaque uma influência maior entre os quatro e os cinco meses.     

   A influência geográfica do eclipse de dia 21 tem o seu centro no mar, entre o sul da Austrália e a Antárctida, perto também da Nova Zelândia, sendo visível nas ilhas Fiji, Tuvalu, Tonga, Samoa, Samoa Americana, Ilhas Cook, Tahiti e Polinésia Francesa. A área geográfica como podemos ver é restrita. Já segundo as regências geográficas antigas, Vétio Valente (Antologia I, 2) diz-nos que Virgem rege a Mesopotâmia, a Babilónia, a Grécia, a Acaia (Grécia), Creta, Cíclades (Grécia), Peloponeso, Arcádia, Cirene (Líbia), Dória (Grécia), Sicília e Pérsia ou Parsa (Irão). Manílio, por seu lado, afirma que a Jónia (Turquia), a Cária (Turquia), Rodes e a Grécia estão sob a sua influência (Astronomica IV, 763-8).

   O eclipse solar parcial de 21 de Setembro pertence à série Saros 154, sendo o 7º eclipse de um total de 71. O próximo vai iniciar uma fase de eclipses anulares. O primeiro eclipse total só ocorrerá em 2404. O eclipse inicial é a matriz de sentido para toda a série. O primeiro eclipse desta série ocorreu a 19 de Julho de 1917. O Sol e a Lua estavam em Caranguejo e o Dragão da Lua estendia-se no eixo Caranguejo-Capricórnio. Mercúrio e Vénus estavam em Leão, Marte e Júpiter em Gémeos e Saturno em Leão. Nos transaturninos, Úrano estava em Aquário, Neptuno em Leão e Plutão em Caranguejo. Nesta data e na hora de Lisboa, Gémeos marcava a hora e Aquário culminava. A série Saros 154 terminará a 25 de Agosto de 3179, com um eclipse no signo de Virgem, tal como o actual.

   No ano 1917, antes do eclipse, deu-se, a 5 de Fevereiro, a Revolução Mexicana que com a nova constituição, vai ser a primeira a instituir os direitos sociais, dois anos antes da Constituição de Weimar, nela estavam inscritos direitos como o direito à greve, o voto feminino, liberdade de expressão, a separação entre estado e igreja, entre outros. Este é o ano das aparições de Fátima, tendo sido a primeira a 13 de Maio e as 13 de Outubro já depois do eclipse. Na Rússia, dá-se a Revolução de Outubro que leva Lenine e o Partido Bolchevique ao poder. O mês de Dezembro será um mês de grande instabilidade. Em Espanha, assistir-se-á a três mudanças no presidente do governo. Não nos podemos esquecer que estávamos na Primeira Guerra Mundial e, neste mês, os Estados Unidos da América entram na guerra. É também de assinalar a 6 de Dezembro o choque entre dois cargueiros em Halifax, no Canadá, que vai dar origem a uma grande explosão que, por sua vez, provocará um tsunami. Em Mondane (França), o descarrilamento de um comboio com mil soldados provocará a morte de oitocentos deles.   

   Uma informação que é também relevante é que o actual eclipse dá-se com o Sol no último grau de Virgem, o grau anarético. Ora isto serve primeiramente para desfazer um erro que infelizmente é muito comum. É grau anarético e não anorético, ou seja, é o grau destruidor e não o grau com falta de apetite. O primeiro provém de anareta (ἀναιρέτης) e o segundo é o adjectivo de anorexia, do prefixo negativo ana que indica aqui falta ou ausência e o substantivo orexis (ὄρεξις), fome ou apetite ou desejo. Pela internet este erro é muito comum. A destruição neste caso ocorre por força do limite e imposição do limiar do lugar onde aquele signo se perde e o seguinte já se avista. Um eclipse solar neste lugar vai adensar o peso sobre o sentido da sombra. Curiosamente, a sizígia umbral encontra-se a trinta de graus de Marte que também se encontra num grau anarético, mas neste caso o de Balança. Em ambos os casos, devemos considerar que esta destruição é limite de algo.

   Face ao tema do eclipse lunar de dia 7, deve-se destacar as duas grandes diferenças nas posições planetárias: Mercúrio deixa o seu signo de domicílio e exaltação, Virgem, para ingressar em Balança e Vénus deixa o signo de Leão para entrar no signo de Virgem. Vénus em Virgem assume-se como Estrela da Manhã e encontra-se numa posição já para além dos raios abrasivos do Sol. Mercúrio, embora no signo seguinte ao do Sol, encontra-se sob os raios e numa posição helíaca posterior, adquirindo desta forma uma expressão feminina e um carácter mais emotivo, sentimental e intuitivo.

   Apesar de Marte estar a deixar o signo de Balança, onde se encontrar em detrimento, para entrar em Escorpião, o seu domicílio, vai ainda oferecer, durante cerca de um dia, os seus raios maléficos ao recém-chegado Mercúrio. Já a Vénus em Virgem, no domicílio e exaltação de Mercúrio, não espalha todas as suas qualidades, algo que só acontecerá quando entrar em Balança, o seu domicílio masculino e diurno. Vénus em Virgem assume na Deusa Tríplice a sua face de Donzela, da jovem que ainda não se iniciou no mistério da maternidade. No entanto, apesar de estar fora do alcance dos raios solares, Vénus está numa posição conjunta e a fazer aplicação à sizígia umbral, logo participa deste sentido profundo de ocultação e obscurecimento.

   Do ponto de vista astro-mitológico, seria o momento em que Cora (Perséfone) seria raptada por Hades, conduzindo assim ao lamento de Deméter. O sextil da sizígia umbral, de Vénus e da Cauda Draconis em Virgem a Júpiter em Caranguejo vai trazer a dádiva da origem, o bem que se encontra no começo da viagem, a esta relação, ou seja, a procura do estado anterior de abundância de modo a recuperar, a restaurar esse bem. O retorno à natureza e aos seus bens é hoje um exemplo dessa relação.

   A oposição Saturno em Peixes ao lugar do eclipse, o trígono dele a Júpiter em Caranguejo, lembrando a lição de Petosíris de que nem todos os trígonos são bons, nem todas as quadraturas são más, e a quadratura de Saturno e do lugar umbral a Úrano em Gémeos é a marca dos tempos sombrios em que vivemos. O humano está escolher o seu lugar na história. Estamos à assistir a um genocídio em tempo real, com toda a informação, com imagens, sim porque há imagens de Gaza, da destruição, da fome, do infanticídio, do massacre de gentes à procura de comida, de um povo, e a maioria permanece num estado de absoluta dormência, como se nada fosse, com uma cumplicidade absurda para com os algozes de Israel. O conceito de humanidade assenta numa premissa primordial: um humano é um humano, isto é, os seres humanos têm todos o mesmo valor. Desta premissa decorre, segundo o espírito que agrega o conceito de humanidade, a solidariedade, ou seja, quem sofre, quem precisa deve ser a força da acção humana para reparar, para mitigar esse sofrimento, essa necessidade. Enquanto permitirmos as ideias de que um humano vale mais do outro e de que existem terras prometidas, a humanidade cairá no seu próprio abismo. E aqueles que não fazem nada, que nem uma opinião expressam, permitem essas atrocidades.

   A posição fragilizada de Úrano em Gémeos, onde a palavra devia ser revolução permanente, bem como a quadratura de Mercúrio em Balança a Júpiter em Caranguejo, onde o espírito nacionalista da extrema-direita corrompe a justiça e harmonia entre as gentes, entre os povos, vão mostrar como a inteligência e a palavra se afundam na sombra da ignorância. A quadratura de Mercúrio em Balança a Júpiter em Caranguejo e a oposição a Neptuno em Carneiro são uma marca da transmissão das novas ideologias populistas, nacionalista, xenófobas e misóginas que existem na extrema-direita, nos novos totalitarismos.

   Já os trígonos de Mercúrio (e de Marte, embora já por pouco tempo) em Balança a Úrano em Gémeos e a Plutão em Aquário trazem, sob os desígnios da providência e da necessidade, toda uma proposta de transformação da palavra, do discurso e do conhecimento. Porém, devido à retrogradação de Úrano e de Plutão, este é o gérmen de uma criação que pode florescer nuns e desaparecer noutros ou nunca sequer existir, ficando como mera potencialidade não efectivada. Este grande trígono não deixa de ser o vendaval do Anjo da História que coloca o humano e o seu carácter sob avaliação.                            

   A semelhança do que se referiu no eclipse lunar, o trígono entre Júpiter exaltado em Caranguejo e Saturno em Peixes que traz consigo a dádiva da Água. Curiosamente, nos tempos líquidos que vivemos essa é uma dádiva frequentemente desvalorizada. As sociedades actuais e a natureza humana expressam hoje muito mais os espectros do criar (Terra), do pensar (Ar) e do agir (Fogo) que os do sentir (Água). Os sentimentos e a intuição, o amor e a fé como via de sabedoria, perdem-se no frenesim dos dias e na superficialidade das relações. A retrogradação de Saturno e o seu derradeiro estágio no signo de Peixes é uma proposta de sentido profundo onde a dádiva da Água será veículo de transformação.

   A Vénus em Virgem, unindo-se hexagonalmente a Júpiter em Caranguejo, quadrangularmente a Úrano em Gémeos e opondo-se a Saturno em Peixes, relembra-nos o verso de Séneca que “não há caminho fácil da terra até às estrelas (Hercules Furens 437: non est ad astra mollis e terris via). Vénus, neste lugar, traz consigo a lição de Pigmalião e os perigos do ideal de perfeição sem humanidade, porque se apenas divino é perfeito, mas sem humanamente divino contrasta com o ideal os espectros de luz e sombra que caracterizam a humanidade. Nós devemos aprender a ser humanos. A perfeição no amor está no gesto e no cuidado, não no ideal. Colhemos a dádiva do bem onde ele existe.

   O sextil entre os benéficos mostra como a acção humana, fruto do seu carácter, nos coloca entre o reconhecimento da origem, do que lá existia e a perfeição que é a realização do amor, não como finalidade, mas como viagem. Já quadratura entre Vénus em Virgem e Úrano em Gémeos vem destruturar a rigidez das estruturas comunicacionais e transformar os ideais de beleza e perfeição. Este encontro entre os signos regidos por Mercúrio será um marco de revolução nas próximas semanas. A oposição Vénus-Saturno, no eixo Virgem-Peixes, firma a ponte, o elemento de passagem, entre o amor e o tempo, entre o amor e o destino, ou seja, a roda gira mesmo para os amantes e por a roda girar existe amor.

   O eclipse solar de dia 21 apresenta, como vimos, uma proposta de sentido que se estenderá pelos próximos tempos, marcando com transformação, em especial, os signos da cruz mutável, sobretudo aquando de presença planetárias temporalmente mais extensas. Nos próximos eclipses da série Saros 154, a significação do actual eclipse será recuperada, pois existem elementos de sentido que ainda se estão a formar e que se irão relacionar com outras efemérides. Desta forma, entre a luz e a sombra, o lugar onde colocámos as sementes da nossa humanidade será determinante e marcará o nosso futuro.     

sábado, 6 de setembro de 2025

Reflexões Astrológicas 2025: Eclipse Lunar Total (Lua Cheia Peixes-Virgem)

 Reflexões Astrológicas

Eclipses 




Eclipse Lunar Total

(Lua Cheia: Virgem-Peixes)   

Lisboa, 19h12min, 07/09/2025

 

Lua

Decanato: Júpiter 

Termos: Júpiter

Monomoiria: Lua       

 

Sol

Decanato: Vénus

Termos: Vénus

Monomoiria: Marte   

 

  O Eclipse Lunar Total de dia 7 de Setembro ocorre com a Lua no signo de Peixes e com o Sol no de Virgem, com Aquário a marcar a hora e a cerca de uma hora e meia do pôr-do-sol (hora de Lisboa), logo no Segmento de Luz (αἵρεσις) do Sol, estando este acima do horizonte, na VIII, no lugar da Morte (θάνατος), já a Lua está abaixo do horizonte, na II, no lugar do Viver (δύσις). A Lua encontra-se pois no decanato e nos termos de Júpiter e na sua monomoiria, enquanto o Sol encontra-se no decanato e nos termos de Vénus e na monomoiria de Marte.

  No caso das dignidades, afirma-se o facto de os luminares serem regidos, tanto no decanato como nos termos, pelo benéfico que rege o segmento de luz contrário, ou seja, Vénus para o Sol e Júpiter para a Lua. Daqui que se depreende um certo reforço benéfico da qualidade dos lugares onde se encontra o eixo umbral. No entanto, convém salientar-se que, devido a troca de regências, essa valoração do bem só ocorre se o feminino integrar o masculino e o masculino, o feminino. Esta inversão de regentes serve pois um sentido profundo.

  Os eixos umbral e nodal encontram-se no eixo de sentido da integração, existindo assim uma união significativa entre a sombra do eclipse e a integração do todo (Peixes) na parte (Virgem), uma vez que a Lua se encontra em Peixes. No δωδεκατόπος (doze lugares), a Lua encontra-se no lugar do Viver, βίος (II). Paulo de Alexandria designa este lugar de Porta do Hades, ιδου πύλη (Introdução, cap. 24), devido à sua posição junto ao Ascendente e abaixo do horizonte. Encontramos o valor do modo de vida e da morte neste eixo (II-VIII), pois como diria Trasilo, a II é um “indicador de esperanças”, ἐλπίδων σημαντικήν (CCAG VIII/3: 101.20), já a VIII é nas palavras de Paulo de Alexandria indicadora da “realização da morte”, θανάτου τελευτήν (Introdução, cap. 24). Consequentemente, os sentidos cruzados de todos estes eixos ganham uma unidade significativa.

  É necessário também considerar-se a ponte de sentido no eixo Peixes-Virgem que se estabelece entre o actual eclipse lunar e o eclipse solar de dia 21 de Setembro. Em certa medida, neste ano de 2025, o sentido já havia sido iniciado pelo eclipse lunar de 14 de Março, todavia, é neste período de 7 a 21 de Setembro que a proposta significativa da sombra sobre o eixo de integração se torna mais intensa. Com a sombra a cair sobre a totalidade ou sobre a integração do sentido de totalidade (Lua em Peixes no eclipse lunar), quando o manto umbral cobrir os luminares, a parte poderá sentir uma maior dificuldade de integração tanto da sua própria natureza e condição como do seu lugar no todo. Desta forma, e à semelhança do que se afirmara aquando do eclipse lunar de 14 de Março, o obscurecimento dracôntico recai sobre o sentido da parte e o valor da totalidade. No entanto, no actual eclipse, é o valor da totalidade que se encontra sob uma maior tensão umbral.   

  A integração da totalidade obriga a uma consciência do todo, daquilo que engloba a alma humana na Alma do Mundo. Ora para que isso aconteça o indivíduo deverá primeiramente reconhecer a liberdade da sua própria alma face a tudo aquilo que não lhe diz respeito. Epicteto diz-nos o seguinte: “Ao vires alguém preferido em honras, ou muito poderoso, ou mais estimado, presta atenção para que jamais creias – arrebatado pela representação – que ele seja feliz. Pois se a essência do bem está nas coisas que são encargos nossos, não haverá espaço nem para a inveja, nem para o ciúme. Tu mesmo não irás querer ser nem general, nem prítane ou cônsul, mas homem livre. E o único caminho para isso é desprezar o que não é encargo nosso.(Encheiridion 19b, trad. A. Dinucci & A. Julien, 2014: 46-7. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra). A sombra na totalidade pisciana é um alerta para a dificuldade de ver esta liberdade e de encontrar a felicidade apenas naquilo que é encargo nosso. Sê feliz porque amas e grato porque és amado. Existe aqui uma diferença substancial entre o amor que damos que depende de nós, e que por isso resulta em felicidade, do amor recebido que depende do outro, e logo deverá gerar gratidão.

  A integração da parte no todo e do todo na parte está, como podemos observar nesta máxima de Epicteto, intimamente relacionada com a liberdade que é fixarmos a nossa existência apenas naquilo nos compete, mas com um outro aspecto enunciado por Séneca. O filósofo diz-nos o seguinte: “Frequentemente dá-se o caso de um exército temer o inimigo sem motivo e de o itinerário que lhe parecera mais perigoso ser afinal o mais seguro. A ignorância, essa, está sempre em sobressalto; os perigos assaltam-na quer de cima quer de baixo; à direita e à esquerda há razões de pânico; os perigos quer a atacam pelas costas quer se lhe levantam na frente; qualquer situação a enche de medo, a encontra impreparada, a tal ponto que o próprio socorro a apavora! O sábio, porém, sempre alerta, sempre pronto a responder a qualquer assalto, não recuará um passo mesmo que sobre ele caiam a pobreza, a desgraça, a ignomínia ou a dor; impertérrito, o sábio afrontará estes males, passará pelo meio deles.” (Ep.59.8; Cartas a Lucílio, 2ª ed,, trad. J. A. Segurado e Campos. Lisboa, 2004: Fundação Calouste Gulbenkian).

  O comportamento do sábio, oposto ao daquele que se move por ignorância, é essencialmente uma integração da parte no todo e uma consciência da totalidade. Ao observarmos a acção do sábio, vemos que este cruza uma visão holística com o olhar da montanha, daí que não se deixe perturbar. A premeditação do mal serve o sábio que, contemplando o mal possível, se preparara para todas as suas vicissitudes. Ora, num eclipse como o actual, as duas propostas, a de Epicteto e de Séneca, estão ameaçadas. A sombra invade o carácter humano e impede esta integração. A parte segue a parte em vez de entrar no mar da totalidade.

  O derradeiro ingresso de Saturno em Peixes que só daqui a quase três décadas voltará a este signo veio adensar o peso da necessidade sobre o manto umbral. As estruturas conservadoras, por um lado, e a dificuldade de integração dos valores piscianos, por outro lado, confirmam o peso de um mundo em decadência. Assistimos no conforto dos lares dos países mais desenvolvidos a um genocídio, no qual a fome se tornou arma de guerra, levado a cabo por um estado intocável. A alegada dívida histórica está a ser cobrada com a vida de inocentes, sobretudo crianças, e nós permitimos. É a total anulação do humanismo e dos valores essenciais e primitivos do cristianismo. O actual eclipse que, para o tema de Lisboa, faz justamente a Lua cair no lugar do Viver (II), do valor da vida, e devia servir de alerta, neste caso aos portugueses, para a cumplicidade desumana da sua inacção.           

  A influência geográfica do eclipse de dia 7 tem o seu centro no Oceano Índico, ao largo do Sri Lanka e à entrada da Baía de Bengala. O manto umbral e penumbral alastrar-se-á pela Ásia, pela África, pela Europa e pela Austrália. Segundo as regências geográficas antigas, Vétio Valente (Antologia I, 2) diz-nos que Peixes exerce influência sobre o Eufrates e o Tigre, a Síria, o Mar Vermelho e o Mar Arábico, a Índia, a Média-Pérsia e as regiões circundantes, o rio Borístenes ou Boristene (Dniepre), a Trácia, a Ásia e a Sardenha. Manílio, por seu lado, concede a Peixes o Eufrates, o Tigre e o Mar Vermelho, as terras da Pártia, a Báctria, a Etiópia, a Babilónia, Susa e Nínive (Astronomica IV, 800-6). Já Virgem rege a Mesopotâmia, a Babilónia, a Grécia, a Acaia (Grécia), Creta, Cíclades (Grécia), Peloponeso, Arcádia, Cirene (Líbia), Dória (Grécia), Sicília e Pérsia ou Parsa (Irão). Manílio, por seu lado, afirma que a Jónia (Turquia), a Cária (Turquia), Rodes e a Grécia estão sob a sua influência (Astronomica IV, 763-8).

  A influência temporal será, devido à duração do período total, de cerca de um mês e meio. No entanto, dada à duração do período umbral, poderá estender-se até cerca de três meses e meio e de uma forma já ténue, sustentada no período penumbral, poderia ir até ao limite de cinco meses e meio, o que estaria em concordância com o cálculo baseado nas declinações dos luminares. Devemos numa análise da influência temporal voltar a reforçar que, no período até ao eclipse solar de dia 21 de Setembro, o sentido profundo deste eclipse terá uma maior intensidade que progressivamente irá diminuindo.

  É necessário frisar, uma vez mais, a ligação que existe entre os eclipses lunares e as dinâmicas do planeta Terra, nomeadamente o que designamos por desastres naturais. Dada a natureza deste eclipse, podemos observar, por exemplo, como o tufão Kajiki no Vietname foi um prenúncio da sua sombra. Os sismos e tempestades com origem no mar estão potenciadas, podendo originar tsunamis e tufões. A lua em Peixes, com a regência moderna de Neptuno, agora em Carneiro com uma força mais destrutiva, e com o Júpiter, regente antigo ou tradicional, em Caranguejo, outro signo de água e com o qual forma um trígono, potencia estes fenómenos. A co-presença da Lua e Saturno também firma uma vibração mais tensa. Lembremo-nos que Cronos/Saturno foi preso no lugar mais profundo do submundo, após ter sido derrotado por Zeus/Júpiter. No Tártaro, lutava contra as correntes que os sustinham, ou seja, fazia vibrar as profundezas da Terra.   

  O eclipse lunar total de 7 de Setembro pertence à série Saros 128, sendo o 41º eclipse de um total de 71. É o 11º eclipse dos 15 eclipses totais da série, o que transmite um certo desenvolvimento da sua proposta significativa. O eclipse inicial, como sabemos, serve de matriz de sentido para toda a série. Ora o primeiro eclipse desta série ocorreu a 18 de Junho de 1304 (Calendário Juliano). A Lua estava em Capricórnio e o Sol em Caranguejo e o Dragão da Lua estendia-se no eixo Sagitário-Gémeos. Mercúrio e Marte estavam em Gémeos, Vénus em Touro, Júpiter em Leão e Saturno em Balança. Nos transaturninos, Úrano estava em Balança, Neptuno em Escorpião e Plutão em Aquário. Nesta data e na hora de Lisboa, Virgem marcava a hora e Touro culminava. A série Saros 128 terminará a 2 de Agosto de 2566, com um eclipse no eixo Leão-Aquário, ou seja, com a Lua em Carneiro e o Sol em Balança.

  A análise comparada dos dois temas, face ao seu ciclo planetário, faria logo sobressair o facto de Plutão se encontrar em Aquário no eclipse-matriz tal como hoje se encontra. Naturalmente, isto adensa esta ligação entre o signo da humanidade e o planeta da morte. Em tempos sombrios como os que vivemos, resgatar a semente da morte, o memento mori, da consciência do humano recupera esse sentido primário e matricial que encontramos em toda a série Saros. Por outro lado, temos Neptuno em Escorpião e agora em Carneiro, os dois domicílios de Marte recebem o planeta da imaginação. A força de Marte tende, por um lado, a intensificar a imaginação criativa, se for recebida como dom, ou, por outro lado, pode com uma força bélica e disruptiva trazer uma ilusão massificada. Os populismos e os avanços da extrema-direita traduzem essa realidade. A ideologia vai-se tornar progressivamente violência.

  Úrano e Saturno em Balança, estando este último na sua exaltação, favorecem a criação e estruturação de modelos de pensamento. Algo que será transmitido pelos raios triangulares ao actual Úrano em Gémeos. A comunicação pede um sentido renovado que tanto pode dar origem a novas formas de conhecimento como de desinformação. Do ponto vista histórico, aquando do eclipse-matriz, é de se assinalar o início do conclave papal, após a morte de Bento XI a 7 de Julho de 1304, que só terminará no ano seguinte, a 5 de Junho de 1305, com eleição de Clemente V e que marcará o início de período conhecido como o Papado ou o Cativeiro de Avinhão (1309-1377). É também de assinalar a primeira guerra pela independência da Escócia.

  O eclipse-matriz revela para um eclipse lunar uma forte influência política e militar. De facto, se pensarmos bem o início do século XIV, marca um período de intensas mudanças tanto políticas como filosóficas e espirituais. A conjunção de Mercúrio, Marte e a Cauda Draconis vai assinalar o carácter disruptivo de muitas dessas transformações. As heresias ou heterodoxias cristãs ou o crescimento do poder do Santo Ofício da Inquisição são dois elementos de destaque, bem como as profundas alterações políticas. O sextil Júpiter em Leão a Saturno e Úrano em Balança é também revelador dessas transições. Um eclipse lunar com a Lua exilada em Capricórnio traz consigo uma forte dinâmica saturnina que lhe confere uma influência semelhante à de um eclipse solar e, sendo um eclipse-matriz, essa significação vai estender-se a toda a série.

  Convém, no entanto, salientar-se que, por neste eclipse a Lua estar em Peixes, vamos encontrar um certo sentido de destruturação desse sentido-matriz. A imersão no todo que o Peixes tende a apresentar com candura vai agora tomar outras formas. A sombra vai apresentar rudemente a despersonalização como inevitável e a ilusão da realidade tornará tudo mais confuso. Lembremo-nos que a sombra vai incidir sobre o signo de Virgem que a guardará até ao eclipse solar. Com Sol e Mercúrio exaltado em Virgem, e com a quadratura a Úrano em Gémeos, tudo o que é representado pela razão, pelo pensamento, pela palavra, pela organização das estruturas comunicacionais está sob pressão. A sombra dracôntica quer levar tudo o que está estabelecido até ao grande oceano e mostrar que aquilo que a mente humana produz não chega a ser um grau de areia na totalidade que é a Alma do Mundo e o seu Intelecto.    

  Se de Peixes vem uma totalidade assombrada, Júpiter em Caranguejo com o trígono à Lua, a Saturno e à Caput Draconis e o sextil ao Sol, a Mercúrio e à Cauda Draconis vem contribuir com a expansão do sentido da origem. Na verdade, a totalidade e a origem são duas expressões ou conceitos para a mesma realidade inefável que não cabe em nenhum conceito. Esta é, porém, a via para conhecimento de si. O Eu perde-se na totalidade do oceano da origem e surge renovado como o Si. A dificuldade para o humano é o medo de entrar no oceano e perder-se. Está tão agarrado ao que julga ser importante que não vê que ao perder-se encontra-se. Terá pois de olhar para o fundo do mar e encarar as sombras que se movem na escuridão.    

  Marte em Balança, exilado, ameaça as estruturas relacionais, contudo, o sextil a Vénus em Leão e a quadratura a Júpiter em Caranguejo trazem alguma moderação ou progressividade a disrupção interpessoal. O trígono entre Vénus em Leão e Neptuno em Carneiro contribui também com certa elevação do fogo do amor, se for vivido dessa forma. Vénus em Leão pode elevar o amor na beleza de alma nobre ou pode afundá-la num narcisismo patológico. Algo que pode ser potenciado, para o bem e para o mal, pela oposição a Plutão em Aquário. Os trígonos de Úrano em Gémeos e Plutão em Aquário a Marte em Balança trazem, sob a égide do destino, uma força transformadora à forma que como lemos e pensamos a realidade. Essa força não é, porém, voluntária, pois traz consigo os ditames da providência e necessidade.   

  Se considerarmos a sistema antigo de leitura de aspectos, ou seja, pelos conceitos de aplicação e separação, temos de destacar três deles pela força da aplicação. Primeiramente, o trígono entre Júpiter exaltado em Caranguejo e Saturno em Peixes que traz consigo a dádiva da Água. Depois, a quadratura de Saturno em Peixes a Úrano em Gémeos e o trígono entre Úrano e Plutão em Aquário são, na verdade, duas faces da mesma moeda. O primeiro traz, com alguma tensão, a criação de novas estruturas e a necessidade de romper com certas formas de estar e pensar, já o segundo que se estenderá ao longo de vários anos marcará esse ponte de sentido entre revolução e transformação, entre progresso e morte. Se pensarmos que nestes dois aspectos Úrano está presente, este é o vendaval do Anjo da História.

  O eclipse lunar total de 7 de Setembro encerra assim um sentido intermédio entre o eclipse de lunar de 14 de Março e o eclipse solar de 21 de Setembro. Em 2025, a sombra alongar-se-á no eixo Virgem-Peixes, no eixo de integração da parte no todo, e com um foco particular no signo de Virgem. Não devemos portanto perder esta oportunidade enquanto humanidade de colher as suas lições. Se esquecermos a solidariedade, o melhor do humano, viveremos sempre na escuridão.