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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Reflexões Astrológicas 2026: Eclipse Solar Anular (Lua Nova em Aquário)

 Reflexões Astrológicas

Eclipses 


Eclipse Solar Anular

(Lua Nova em Aquário)

Lisboa, 12h 11min, 17/02/2026

 

Sol-Lua

Decanato: Lua  

Termos: Saturno   

Monomoiria: Saturno    

                                           

 

   O Eclipse Solar Anular de 17 de Fevereiro ocorre no signo de Aquário, com Gémeos a marcar a hora (hora de Lisboa), no Segmento de Luz (αἵρεσις) do Sol, com os luminares acima do horizonte, na IX, no lugar de Deus, do deus Sol, mas junto do Ponto de Culminação (MC), e cerca de cinco horas após o pôr-do-sol, no decanato da Lua, nos termos e na monomoiria do Saturno, e a escassos minutos do grau anarético. Destaca-se pois, na leitura imediata de tema, o facto de Marte ser o astro mais alto, em conjunção ao Ponto de Culminação, num caminho ascendente que se inicia com Úrano em Touro, num lugar de pós-ascensão. Esta relação quadrangular torna-se assim significativa, revelando nomeadamente a ruptura entre a humanidade (Aquário) e a Mãe-Terra (Touro). A negação das alterações climáticas em oposição aos fenómenos naturais extremos revela esta dicotomia. O peso da morte (Plutão em Aquário) paira, desta forma, sobre a humanidade. 

   Este é o primeiro eclipse no eixo Aquário-Leão, ou seja, avançamos no ciclo nodal do eixo de integração Peixes-Virgem para o eixo de criação Aquário-Leão. No entanto, existe um sentido profundo que conserva a sua continuidade. A ponte entre singularidade e pluralidade é mantida em ambos os eixos, estando os dois naturalmente sobre o peso do manto umbral. No eixo Peixes-Virgem, estabelecia-se, para lá da sombra, um elemento de passagem entre o todo e a parte, já no eixo Aquário-Leão, o elemento funda-se na viagem entre a humanidade e o humano. Convém, todavia, salientar-se que o humano de Leão é, na verdade, o divino, o sol radiante. Em Leão, se o herói sacrificar o ego, a nobreza da alma reconhecerá o divino em si mesmo. Esta é uma ideia que encontramos, por exemplo, em Rumi, em Meister Eckart ou no Evangelho de Tomé. O divino não está em igrejas, mesquitas, sinagogas ou em qualquer templo de pedra está no interior de cada um. É a luz que brilha quando tudo é escuridão. É, desta forma, o reconhecimento do divino em nós que nos torna humanos e que nos permite, num elemento agregador de passagem, a criação de uma verdadeira humanidade. Este é o eixo de criação Leão-Aquário.

   No actual ciclo nodal, a sombra impõe-se agora sobre o signo de Aquário e o corpo do Dragão da Lua coloca a sua cabeça nesta constelação e a cauda na oposta, em Leão. Ora este posicionamento firma assim a sombra sobre o sentido de humano e de humanidade. Deste modo, o Dragão da Lua vai dar gravidade à Necessidade (Caput) sobre a humanidade e ao Destino (Cauda) sobre o humano. A Providência estabelece consequentemente os seus ditames ao querer refundar o sentido de humanidade no humano. Numa visão astro-mitológica, o eixo Aquário-Leão vai simbolizar a relação homoerótica entre Ganimedes e Zeus (Júpiter), algo particularmente significativo com o ingresso de Júpiter em Leão no final de Junho.

   Já tínhamos considerado a matriz etimológica do nome Ganimedes (Figueiredo, R. M., 2024, Reflexões Astrológicas 2023: Parte I, 20. Lisboa: Livros – Rodolfo Miguel de Figueiredo). Ora o nome próprio tem a sua raiz na forma verbal γάνυμαι que designa o “alegrar-se” ou o “irradiar alegria”, mas também no substantivo μήδων, ou seja, os “genitais”. Sob a forma de águia, Zeus rapta Ganimedes e leva-o para o Olimpo, tornando-o o copeiro dos deuses, aquele que verte o néctar (ou o sémen). Platão, na célebre passagem que compara a alma a um carro puxado por cavalos que exercem forças contrárias e cujo auriga terá de dominar, diz-nos o seguinte acerca do amor e do desejo, considerando o caso de Ganimedes e Zeus: Precisamente por isso, o jovem amado é servido com toda a solicitude, como um deus, não por quem finge amar, mas por quem experimenta verdadeiramente esse sentimento; ele mesmo torna-se naturalmente amigo de quem o serve. Mesmo que, no passado, tenha sido dissuadido pelos companheiros ou por torna-se naturalmente amigo de quem o serve. Mesmo que, outros quaisquer, ao dizerem-lhe que é vergonhoso aproximar- -se de quem ama, induzindo-o a repelir por isso o amoroso, com o avançar do tempo, no entanto, a juventude e a necessidade levam-no a admiti-lo na sua intimidade. Não quis o destino que o malvado fosse amigo do malvado nem que o corajoso não fosse do corajoso. Logo que o amado admite e aceita escutar a sua conversa e viver na sua companhia, a benevolência do amante, olhada de perto, causa-lhe perturbação, ao aperceber-se de que todos os outros, amigos e familiares, não oferecem qualquer parcela de amizade em confronto com o amigo que é presa da possessão de um deus. Quando persevera falei nessa conduta e se avizinha dele para o tocar nos ginásios e em outros locais de reunião, então o manancial da corrente de que e a que Zeus, enamorado de Ganimedes, deu o nome de desejo, canalizada em abundância para o amante, penetra dentro dele uma parte, e a outra, uma vez repleto, transborda para o exterior. E, qual vento ou um eco que, ressaltando nas superfícies lisas e sólidas, regressa ao ponto donde partiu, assim o fluxo vindo da beleza regressa de novo ao jovem belo através dos olhos que são a entrada natural da alma.(Platão, Fedro 255a-c, trad. J. Ribeiro Ferreira. Lisboa Edições 70, 1997).

   Primeiramente, e contrariando um pouco Platão, este caminho amoroso de descrição homoerótica é idêntico ao amor heterossexual. Lembremo-nos, por exemplo, da poesia trovadoresca e da deificação da amada nas cantigas de amigo e de amor. Já do ponto de vista astrológico dir-se-ia que este processo pertence a Vénus, ou na astrologia esotérica poderia pertencer também a Neptuno, como uma expressão de Vénus numa oitava acima, todavia na ponte do Sol a Saturno, ou vice-versa, no caminho Leão-Aquário, vamos encontrar também a dinâmica do amor. A razão é tão simples quanto a formulação: é o amor que faz o humano e é o amor que constrói a humanidade. Se considerarmos a ordem vernal depois de Aquário, o signo da humanidade, vem Peixes, o signo da totalidade e o lugar de exaltação de Vénus, logo o amor como potência do eixo de criação revela de facto o seu sentido profundo.

   Esta associação astro-mitológica entre o mito de Zeus e Ganimedes e o eixo Leão-Aquário encontra-se também numa descrição de Quinto de Esmirna, em A Queda de Tróia (8.427 e ss.), quando nos diz que, ao ver a sua cidade em chamas e seus compatriotas a serem chacinados, Ganimedes exorta amorosamente a Zeus pela sua clemência e pela sua intervenção. Ora Zeus acende às súplicas do amado e lança uma tempestade de trovões e relâmpagos que extingue o fogo e faz dispersar os exércitos gregos, obrigando-os a regressar à sua terra-natal. Ganimedes incorpora neste mito o sentido de humanidade e consequentemente o signo de Aquário, tal como Zeus (Júpiter) que, ao fazer essa passagem entre o divino e o humano, transmite o sentido profundo do signo de Leão, ou seja, a nobreza da alma. Este é um aspecto que se torna particularmente interessante se pensarmos que Zeus evitou sempre intervir no conflito da guerra da Tróia. Foi o amor que condicionou agora essa intervenção, o que lhe concede um carácter particularmente distinto.

   Com um eclipse solar neste eixo, a sombra, a ocultação da luz, vai incidir sobre este binómio humano-humanidade. Ora não é difícil de perceber esta significação, pois estamos a viver, com o avanço do populismo e da extrema-direita, um processo desumanização e de remissão do valor de humanidade. O exemplo mais assustador neste processo é o de Gaza. A forma passiva como os líderes mundiais e muita gente assiste, em directo, a um genocídio é um exemplo claro desse processo. A desmedida do ódio pelo outro, pelo estrangeiro, por aquele é que diferente, seja por que razão for, é a demonstração da falência da humanidade. Se pensarmos que o eixo Leão-Aquário está muito associado à luz, sendo Leão o domicílio do Sol e Aquário o de Saturno, tendo sido este designado pelos babilónicos como o Sol da Noite (cf. van der Sluijs, M. A. & P. James, 2013, “Saturn as the Sun of Night in Ancient Near Eastern Tradition” in Aula Orientalis 31.2, 279-321), substituindo o luminar na sua ocultação nocturna, o peso da sombra torna-se então mais expressivo.      

   Na relação entre a luz e a sombra, e agora com eclipse solar no signo de Aquário, tem de se considerar a morte como elemento essencial de sentido, por duas razões: a posição de Aquário no Thema Mundi e o facto de Plutão se encontrar em Aquário. Como já observarmos, por diversas vezes, o Thema Mundi possui uma enorme riqueza significativa, infelizmente subjugada à hegemonia da ordem vernal. Ora, no Thema Mundi, Aquário ocupa o oitavo lugar, o lugar da Morte, ou da qualidade da morte como alguns referem. Este posicionamento não é inocente. Os antigos astrólogos colocaram os luminares nas duas primeiras casas, ou seja, com Caranguejo a marcar a hora, a Lua na I e, com Leão, o Sol na II, deste modo, os dois signos cujo domicílio é Saturno vão-se encontrar nos signos opostos, respectivamente Capricórnio e Aquário. Sabemos que a razão desta distribuição teria sido inspirados nos templos de Mitra e naturalmente no nascimento e morte da luz solar, confirmando-se assim a designação babilónica de Saturno enquanto Sol da Noite.    

   Na ordem vernal e com as regências modernas, Escorpião ocupa a casa VII, tendo Plutão como seu regente. É assim que se encontra a ligação e a persistência do sentido profundo da morte no actual eclipse. Séneca diz-nos o seguinte acerca da morte: “A morte não tem em si nada de nocivo, porquanto uma coisa, para ser nociva, deve primeiro existir! Se tens assim um tão grande desejo de uma vida mais longa, pensa então que nada daquilo que se escapa aos nossos olhos para mergulhar na natureza (da qual tudo proveio e à qual tudo em breve há-de regressar) se destrói por completo; as coisas cessam, mas não se perdem; a morte - que nos enche de terror, que nós nos recusamos a aceitar - interrompe a vida, mas não lhe põe termo; virá um dia em que novamente veremos a luz, num regresso à vida que muitos recusariam sem o prévio esquecimento da vida passada!” (Ep.35.9-10; Cartas a Lucílio, 2ª ed,, trad. J. A. Segurado e Campos. Lisboa, 2004: Fundação Calouste Gulbenkian). A morte surge assim como uma confirmação da continuidade e da persistência da vida. É a ideia de que a morte é semente, ou seja, uma significação atribuída a Plutão enquanto senhor do que existe sob a terra, o submundo e o lugar da semente.

   O eclipse solar de dia 17 tem o seu centro geográfico, o seu foco de escuridão, ao largo da Antárctida, entre a Davis Station e a Casey Station. Se considerarmos a importância deste continente para preservação do nosso planeta, a localização ganha uma significação importante, e se pensarmos que eclipses solares tendem a assumir um sentido político maior que os eclipses lunares, podemos assumir a relevância política da conservação da Antárctida para a emergência climática. Os governos que continuamente negam esta emergência estão a cometer um crime contra humanidade, aqui também no sentido aquariano. O manto umbral estende-se depois pelo Oceano Índico, passando também pelo continente africano, pela África do Sul, Botsuana, Moçambique, Zimbabué, Malawi, Zâmbia, Tanzânia, e mais ligeiramente pela Austrália, pela Índia pelo Sri Lanka.  

   Nas regências geográficas antigas, Vétio Valente (Antologia I, 2) diz-nos que Aquário rege sobretudo o Egipto, a Síria, a área entre o Eufrates e o Tigre (Médio Oriente), a Líbia, a região do vale do Indo (entre o Paquistão e a Índia, Tanais (nas imediações da actual Rostov-on-Don, Rússia, perto da fronteira com a Ucrânia e a Geórgia), e dos rios Eufrates e Tigre, desde os Hiperbóreas, para norte e oeste (países de leste e Escandinávia). Já Manílio designa que Aquário rege as áreas do Egipto à Fenícia, e a própria cidade de Tiro (Líbano), a Cilícia (Anatólia, Turquia) e as planícies que fazem fronteira com a Cária (Turquia), ou seja, a Lídia e Panfília (ambas na actual Turquia) (Astronomica IV, 797-9). Heféstion vai sintetizar com parte das mesmas áreas de Vétio Valente e que estão de acordo com a Sphaerica, acrescentando as referidas por Ptolemeu, ou seja, a Sauromática (do baixo rio Volga ao sul dos Montes Urais), Oaiana, Sogdiana (Usbequistão), Arábia, Azânia (zona da África, do sul da Somália, passando por Moçambique, até a África do Sul) e Germânia (Apotelesmática I, 1).

   Se observarmos com atenção as regências geográficas antigas, concluímos que estão quase todas associadas a conflitos político-militares e a lugares de crise humanitária. Novamente o eixo de criação Aquário-Leão encontra a sua expressão. Já quanto à influência temporal podemos estabelecer, com base na duração do eclipse tanto umbral como penumbral, mas também pela declinação dos luminares, uma influência directa mais forte de dez meses a dois anos e dois meses e meio. Porém, existe uma influência indirecta, expressa sobretudo através dos seus efeitos, que se estender até aos treze anos, ou seja, os acontecimentos do período mais restrito vão ter consequências a longo prazo.

   O eclipse solar parcial de 17 de Fevereiro pertence à série Saros 121, sendo o 61º eclipse de um total de 71. É uma série de maior maturidade que já se encontra na fase posterior à dos eclipses totais. O período dos eclipses totais, entre 1070 e 1809, é relevante, pois estende-se do fim da Alta Idade Média até período das revoluções. Como sabemos, o eclipse inicial é a matriz de sentido para toda a série. Ora o primeiro eclipse desta série ocorreu a 25 de Abril de 944. O Sol, a Lua e Mercúrio estavam em Touro. O Dragão da Lua estendia-se no eixo Carneiro-Balança. Vénus estava em Gémeos, Marte em Sagitário e Júpiter em Carneiro e Saturno em Caranguejo. Nos transaturninos, Úrano estava em Gémeos, Neptuno em Leão e Plutão em Caranguejo. Nesta data e na hora de Lisboa, Leão marcava a hora e Carneiro culminava. A série Saros 121 terminará a 7 de Junho de 2206, com um eclipse no signo de Gémeos, o signo que agora marca a hora para o tema de Lisboa. Na análise comparada entre tema do eclipse matriz e o do actual, encontramos uma progressão significativa dos eixos de ascensão e culminação. De uma outra forma, possui também um sentido profundo o facto de Júpiter se encontrar em Carneiro, onde agora se encontra Saturno, e Saturno se encontrar em Caranguejo, onde agora se encontra Júpiter. As dinâmicas estruturantes espaço e tempo assumem esta dicotomia entre o signo da unidade (Carneiro) e o signo da origem (Caranguejo), ou seja, uma relação entre os eixos de identidade e de tempo.

   O ano de 944 foi marcado por algumas transformações políticas, religiosas e militares que definiram a Alta Idade Média. No mundo islâmico, os hamadânidas (dinastia fundada por oficiais abássidas) reforçaram o seu poder quando Sayf al‑Dawla conquistou a cidade de Edessa, até então sob influência bizantina, consolidando, desta forma, a presença da dinastia no norte da Síria e da antiga Mesopotâmia. Simultaneamente, o califado abássida atravessava um período de grande fragilidade: os buídas ampliavam a sua influência no Iraque e aproximavam‑se de assumir o controlo efectivo de Bagdad, reduzindo o califa a uma figura sobretudo simbólica. No Império Bizantino, o imperador Constantino VII Porfirogénito consolidou o seu poder ao afastar os filhos de Romano I Lecapeno, com quem ainda partilhava o trono. Constantinopla recebeu, nesse ano, uma das relíquias mais veneradas do cristianismo oriental, o Mandylion de Edessa cuja posse reforçou o prestígio religioso da capital imperial.

   Na Europa ocidental, o Reino de Inglaterra era governado por Edmundo I que continuava o esforço de unificação e defesa iniciado por Athelstan, enfrentando tensões com grupos de vikings e com reinos vizinhos. A Leste, a Rus de Kiev vivia um período de instabilidade sob o príncipe Igor cuja autoridade era contestada. A tensão crescente culminaria no ano seguinte com a sua morte às mãos dos drevlianos. Na Europa Central, os magiares prosseguiam as suas incursões e expandiam a sua influência, moldando o equilíbrio de forças na região. É interessante observarmos como muitas destas regiões continuam hoje a ser focos de atenção e de tensão.

   A conjunção ou co-presença da sizígia umbral a Marte e a Plutão, e tendo já se observado a relação com o sentido de morte, percebemos como a destruição paira sobre a humanidade, lançando com cada vez maior frequência os raios de alerta. Marte e Plutão, os regentes de Escorpião, lançam assim os seus raios que se conjugam com os dos luminares, agora sob o peso da sombra. A humanidade está a ser avisada, os gritos de alerta ecoam pelo mundo, mas a sombra impede a visão. Tudo está à vista de todos e continua sem ser visto. Este aspecto astrológico relaciona-se com outro, também facilmente observável: a conjunção quase exacta da Vénus exaltada em Peixes à Caput Draconis, ambas co-presentes a Mercúrio exilado. A potência agregadora do amor universal encontra a sombra da necessidade e a sua palavra de consenso jaz inaudível. O caso de Francesca Albanese é o melhor exemplo, dizendo-nos “Não matem o mensageiro”. Com uma enorme coragem, ela denuncia o genocídio que todos ignoram e por isso tem sido perseguida. De facto, estamos num tempo em que temos de repensar o humano se queremos ser uma verdadeira humanidade. O humanismo está perder-se na história. A agressão de Marte tem contaminado o amor como derradeira finalidade e só o amor nos pode salvar. Essa é a verdade.      

   No entanto, o trígono de Vénus, Mercúrio e da Caput Draconis em Peixes a Júpiter em Caranguejo surge como redescobrimento da pérola do Eterno Feminino. É como se a concha de onde nasceu Afrodite se reabrisse para uma nova era. O regresso da deusa renegada aparece no horizonte como possibilidade. Porém, vivemos o tempo em que o ódio para com o feminino e para com as mulheres está vez mais presente. O direito de ser mulher continua a ser fortemente ameaçado por uma sociedade patriarcal e uma mentalidade machista. O sextil destes a Úrano em Touro, a par da quadratura deste à sizígia umbral e a Marte e Plutão em Aquário, revela, por um lado, a liberdade que existe na defesa do feminino e da Mãe-Terra, ou seja, existe a possibilidade de escolha, o humano pode seguir a revolução do Eterno Feminino, a revelação do seu retorno, ou seguindo essa tensão quadrangular, consolidar a destruição do espírito do humano, da nobreza da alma, impedindo a criação de uma verdadeira humanidade.

   No tema do eclipse, e tendo em conta o facto dos ingressos ou reingressos terem acontecidos pouco tempo antes desta efeméride, é impossível não destacar a importância da presença de Saturno e Neptuno no signo de Carneiro. Contrariando a tendência astrológica contemporânea de dizer sempre “Agora é que é” quando um planeta ingressa num signo de Ar e Fogo e que, na verdade, resume de forma subtil um certo patriarcalismo interpretativo, o período em que estes planetas se encontrarem em Carneiro não será fácil. Não nos podemos esquecer que deixam um signo onde existia uma potência benévola maior. Deixam o signo onde os benéficos estão favorecidos (domicílio de Júpiter e exaltação de Vénus) e regido por Neptuno para entrarem na casa de Marte, o lugar onde o Sol arde e queima (exaltação). A tradução desta hostilidade vai-se verificar em extremismos ideológicos e populistas, basta ver o crescimento da extrema-direita, mas também em duas outras vertentes, o aumento dos cultos de personalidade e da misoginia. Por outro lado, vai permitir, sendo o signo da Práxis, uma renovação conceptual da resistência democrática que se vai expressar em novas formas de luta. Os ideais e as estruturas terão sobre elas uma acção renovada. As novas gerações trazem à humanidade uma esperança de cura e renascimento. Carneiro vai dizer para criar, para renovar, para agir, fazendo do sonho um lugar no tempo, isto é, um acontecimento. O sextil entre os luminares e estes planetas é um sinal claro dessa liberdade de acção.

   Este é, todavia, um eclipse de grande tensão e mensageiro de destruição. As quadraturas entre Marte e Plutão, juntamente com a sizígia umbral, em Aquário a Úrano em Touro e a quadratura de Júpiter em Caranguejo a Saturno e Neptuno em Carneiro são um marco desse potencial nefasto. A astrologia não revela só flores e incenso é preciso ser claro e dizer que nem tudo é bom e que sim existem acontecimentos nefastos e que o humano encerra em si uma potência de destruição. O sextil entre os planetas no lugar do eclipse e Saturno e Neptuno em Carneiro vai acentuar essa realidade como potência de destruição e não como efectivação da destruição, ou seja, seguindo a inspiração estóica, nós não determinamos os acontecimentos, mas definimos o carácter. O mal é uma escolha. Toda a quadratura entre Júpiter e Saturno pede, ou melhor dizendo obriga, a uma restruturação da realidade e a uma nova aplicação das ideias-matriz, dos valores essenciais.

   O eclipse solar de dia 17, no signo de Aquário, surgindo no céu como um anel de fogo, vai colocar sobre o humano e sobre a humanidade o peso da sombra. A Providência traz assim à realidade a gravidade do retorno. Ser-nos-á portanto impossível ignorar a causalidade como consequência das nossas acções. Neste eclipse, e partir dele, a humanidade será progressivamente chamada à realidade, tendo assim de se repensar, de se recriar. A destruição levará necessariamente à criação.


quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Lançamento: Reflexões Astrológicas 2025


Lançamento de Livro

Reflexões Astrológicas 2025


Sinopse

Desde 2021 que, nas Reflexões Astrológicas, se procura analisar uma selecção de efemérides astrológicas. O objectivo é examinar e explorar em cada ano diferentes aspectos do sistema astrológico, de modo a apresentar uma compilação interpretativa o mais ampla possível. No ano de 2025, as Reflexões Astrológicas focam-se nos seguintes fenómenos astrológicos: o Novo Ano Astrológico, os Eclipses, Ingressos e Aspectos. Inclui-se assim, à semelhança dos anos anteriores, uma interpretação um pouco mais extensa dos eclipses de 2025: dois eclipses solares e dois eclipses lunares.

A interpretação astrológica que aqui se apresenta sustenta-se nas vertentes que o autor elegeu como as suas especialidades: a Astrologia Antiga, a Astrologia Hermética e a Astrologia Mitológica. Paralelamente, procura-se criar uma ponte entre a astrologia e a filosofia, visando o desenvolvimento de uma Filosofia da Astrologia e de uma Astrosofia, baseada na filosofia prática e nos exercícios espirituais e tendo como pano de fundo o estoicismo, cujos pressupostos permitem uma estrutura conceptual de passagem entre estas bases e a leitura hermética da astrologia.

Em suma, ao longo dos vários capítulos, pretende-se conjugar a interpretação astrológica com uma leitura filosófica e espiritual, mas não subordinada às modas esotéricas das últimas décadas. Dessa união, dessa exigência do pensar, pode nascer uma nova astrologia, uma astrologia refundada.

Livro
Edição Comum
(Paperback)
Edição: Janeiro de 2026
Páginas: 142
ISBN: 9798277374115
Preço: 9,00€ (UE)

Ebook Gratuito

Saiba mais acerca deste ou de outros títulos em https://rodolfomfigueiredo.wixsite.com/livros

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Hairesis ou o Segmento de Luz: A Primeira Dignidade Astrológica


   
   No século I da Era do Comum, Trasilo, o astrólogo e amigo do Imperador Tibério, dizia o seguinte: "Determina também as setes zonas de acordo com a tradição de Petosíris e Nechepso, tal como a própria defende. E determina a natureza das errantes e quais as que são apropriadas para cada um dos signos; assim como que a Cronos e Zeus seguem o Sol, já Ares e Afrodite, a Lua, portanto afirma que uns são do segmento do Sol, os outros do da Lua, enquanto Hermes é comum" (Tábua ou Pínax in Catalogus Codicorum Astrologicum Graecorum, VIII/3: 99-101).

   Esta que é umas das mais antigas descrições deste modelo e que resume uma divisão simples, mas que, no entanto, era a primeira a se ter em consideração na análise de qualquer tema. Dia ou Noite? Esta é primeira de todas as questões. Se o tema for diurno, o Sol domina. Se o tema for nocturno, é a Lua que domina. Esta divisão é a base do modelo astrológico. Curiosamente, a Hairesis (αἵρεσις) que optei por traduzir por Segmento de Luz, o sect of light anglo-saxónico ou a seita como traduzem os nossos amigos brasileiros, seguindo a vertente religiosa-espiritual do termo e que foi chegar à nossa heresia, deixou de ser tida em consideração.

    Esta dignidade foi utilizada como base do sistema interpretativo consistentemente até Abu Mashar, ou seja, até à grande astrologia árabe. Na era moderna, caiu em desuso e desapareceu do sistema astrológico. Foi, porém, reabilitada com a releitura dos textos astrológicos gregos e latinos. Se olharmos com atenção, ou seja, com olhos de ver, torna-se incompreensível que a distinção dia e noite não seja considerada desta forma, pois a leitura mais imediata.

    A presença do Segmento de Luz no sistema astrológico torna-se assim consequente e necessária, pois não só tem raízes profundas na leitura astrológico como tem uma validade interpretativa facilmente comprovável. Para o astrólogo tradicional, mesmo que não helenístico, esta presença é natural. Resta saber se o astrólogo de uma linhagem contemporânea está disponível para essa reposição.   
    


Síntese do Modelo Astrológico do Segmento de Luz

 

O !, ) e * pertencem ao segmento diurno e são considerados masculinos. Pode-se considerar também ) masculino e * feminino (acerca de Saturno feminino leia-se o meu livro Fragmentos Atrológicos).    

 

O #, & and ( pertencem ao segmento nocturno e são considerados femininos. Pode-se considerar também & feminino e ( masculino.

 

Se $ nasce antes do ! (Estrela da Manhã), pertence ao segmento diurno e é considerado masculino.

 

Se $ nasce depois do ! (Estrela da Tarde), pertence ao segmento nocturno e é considerado feminino.


 

Um planeta do segmento diurno num tema diurno está no seu próprio segmento por natureza.

 

Um planeta do segmento diurno num tema nocturno está fora do seu próprio segmento por natureza.

 

Um planeta do segmento nocturno num tema nocturno está no seu próprio segmento por natureza.

 

Um planeta do segmento nocturno num tema diurno está fora do seu próprio segmento por natureza.

 


Força Benéfica de &.

& pertence ao segmento nocturno. Num tema nocturno, é um benéfico forte. Num tema diurno, é um benéfico fraco.

& no seu próprio segmento é mais benéfico. & fora de segmento é menos benéfico.

 

Força Benéfica de ).

) pertence ao segmento diurno. Num tema diurno, é um benéfico forte. Num tema nocturno, é um benéfico fraco.

) no seu próprio segmento é mais benéfico. ) fora de segmento é menos benéfico.

 

Força Maléfica de (.

( pertence ao segmento nocturno. Num tema nocturno, é um maléfico forte, ou seja, menos destruidor. Num tema diurno, é um maléfico fraco, ou seja, mais destruidor.

( no seu próprio segmento é menos maléfico. ( fora de segmento é mais maléfico.

 

Força Maléfica de *.

* pertence ao segmento diurno. Num tema diurno, é um maléfico forte, ou seja, menos destruidor. Num tema nocturno, é um maléfico fraco, ou seja, mais destruidor.

* no seu próprio segmento é menos maléfico. * fora de segmento é mais maléfico.

 

De dia ou de noite, o planeta em posição superior, ou seja, acima do horizonte (eixo Ascendente-Descendente) torna-se mais proeminente e mais activo. Contrariamente, os planetas abaixo do horizonte têm uma expressão mais contida e menos activa. No entanto, os lugares que ocupem podem exponenciar ou mitigar essa condição. 

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Redescobrir o Thema Mundi: A Origem dos Domicílios Planetários




Os computadores parecem, por vezes, abismos de informações. Encontrei estas imagens de uma antiga lição, de 2019, acerca do Thema Mundi. Entretanto já fiz outros gráficos. Na astrologia, como em qualquer área do saber, temos a tendência para cristalizar posições, sem investigarmos a origem e o sentido do que está por detrás dessas posições. A ideia conceptual da ordem vernal, começando com Carneiro e associando os signos às casas (lugares na terminologia antiga), está tão enraizada na astrologia contemporânea que se tende a rejeitar outra realidade, nomeadamente o verdadeiro sentido das ordens e sobretudo da estrutura domiciliar.

Ora sabemos que as exaltações planetárias tiveram origem babilónica e sabemos também que os domicílios tiveram origem egípcia. Dos textos que dispomos, e neste caso não nos podemos queixar, pois temos diversidade textual, concluímos que a estrutura de sentido a partir da qual nascem ou se expressam os domicílios é o Thema Mundi e não a disposição vernal a partir de Carneiro, inexistente nos textos antigos com referência aos domicílios. Esta, na verdade, pode até parecer estranha ou forçada para a astrologia no hemisfério sul, mas isso é outro assunto (a hegemonia de um sistema configurado para o hemisfério norte). E já nem se fala do absurdo contemporâneo que é associação absoluta da significação entre signos e casas. O astrólogo antigo sobrepunha as rodas (signos e lugares) sem confundir os sentidos.

O Thema Mundi coloca Caranguejo na I, dizendo que é o Horóscopo (o Ascendente) do Mundo, por uma razão muito simples. A I é a vida, o nascimento. Bem sei que a misoginia dos nossos tempos gostaria muito que tivéssemos nascido todos do falo de Marte, mas lamento dizer que foi da vulva da Lua que todos nascemos. É o feminino a Mãe do Mundo, e é o feminino a mãe do humano. A restante ordem do Thema Mundi tem um sentido muito explícito e que, com a significação antiga dos lugares, se adensa. Naturalmente, ninguém diz para se rejeitar outras ordens, pois a pluralidade de sentidos é sempre bem vinda e fazia parte da astrologia antiga, mas a origem das regências domiciliares encontra-se no Thema Mundi.

sábado, 20 de setembro de 2025

Reflexões Astrológicas 2025: Eclipse Solar Parcial (Lua Nova em Virgem)

Reflexões Astrológicas

Eclipses 




Eclipse Solar Parcial 

(Lua Nova em Virgem)

Lisboa, 20h 43min, 21/09/2025

 

Sol-Lua

Decanato: Mercúrio  

Termos: Saturno   

Monomoiria: Lua    

                                           

 

   O Eclipse Solar Parcial de 21 de Setembro ocorre no signo de Virgem, com Carneiro a marcar a hora (hora de Lisboa), no Segmento de Luz (αἵρεσις) da Lua, com os luminares abaixo do horizonte, na VI, no lugar do Má Fortuna (κάκη τύχη), e cerca de uma hora após o pôr-do-sol, no decanato de Mercúrio, nos termos de Saturno e na monomoiria da Lua, no grau anarético deste signo. Manílio define o lugar onde se dá o eclipse do seguinte modo: “porta laboriis erit: scandendum est atque cadendum” (Astronomica II, 870: “a porta do trabalho serão: por uma se sobe e pela outra se desce”). A tensão do incumprimento é a mais intensa do todo o δωδεκατόπος (doze lugares), pois não se une ao Horóscopo e está sob o horizonte. No entanto, a união triangular ao lugar da Práxis, a X, permite que se efective, mas só através do esforço, do labor. A sombra terá de ser trabalhada.

   Paulo de Alexandria define o sexto lugar como ἀπόκλιμα φαῦλον (declínio débil) e designa-o de ποινέ, ou seja, retribuição, castigo ou vingança (Introdução, cap. 24). Fírmico Materno, por seu lado, considera-o uma infelix regio (região funesta) ou diz que é rebusque inimica futuris (inimiga das acções futuras), fazendo dela vitio fecunda nimis (demasiado fecunda em maldade). A VI é assim definida como um locus piger, um lugar passivo (Mathesis, II, 19, 7). Esta qualificação do sexto lugar é importante, pois, segundo a ordem vernal, é neste lugar que recai o signo de Virgem, já segundo a ordem do Thema Mundi este signo ocupa o terceiro lugar, designado tradicionalmente por Deusa, ou por lugar da Deusa da Lua. Consequentemente a união destes dois sentidos torna-se fundamental para compreensão da natureza do actual eclipse.

   A análise astro-mitológica do signo de Virgem estabelece uma ponte de sentido entre estas duas qualificações. O signo de Virgem, segundo a tradição, representa Astreia, filha de Astraeus e Eos (Aurora) ou de Zeus e Témis, ou Dikê (Némesis, na sua forma de retribuição). Na astrologia moderna ou contemporânea, tendemos a colocar o conceito de justiça mais associado ao signo de Balança que ao de Virgem. No entanto, das constelações zodiacais, o signo de Balança foi o último a ser definido, pois pertenceria inicialmente ao Grande Escorpião, do qual representaria as suas pinças. Da sua divisão nasceria o signo de Balança, as pinças tornaram-se escalas, e o signo Escorpião que ficaria com o resto do corpo do Grande Escorpião. Esta origem é importante, pois mostra como o signo de Balança, o único representado por um objecto, representa apenas o instrumento que repousa nas mãos da deusa, no signo de Virgem. Está portanto mais associado à aplicação da justiça.

   A deusa da Justiça é, segundo o mito das idades do mundo, a última a permanecer na terra. Todos os outros deuses subiram ao Olimpo. No entanto, à medida que a perfídia humana cresce, a Deusa começa a ser ignorada. Hesíodo, em Os Trabalhos e os Dias, conta-nos o seguinte: “E ela segue-os, chorando pela cidade e pelas moradas dos povos, / vestida da névoa, trazendo desventura aos homens que a baniram e a não distribuem com rectidão” (222-4, trad. A. Elias Pinheiro & J. Ribeiro Ferreira, 100. Lisboa, 2005: INCM). Progressivamente a deusa abandona a humanidade. Esta ideia de ausência do Divino Feminino é assim associada ao signo de Virgem. Numa perspectiva mais determinada pelos ciclos da natureza e pela agricultura, a deusa Deméter, após o rapto de Cora (Perséfone), sua filha, deixa o mundo e refugia-se numa gruta na Arcádia, deixando a natureza perecer e levando todos à miséria. Ora o somatório destes elementos demonstra a associação do signo Virgem aos lugares indicados, ou seja, à III enquanto Deusa e à VI enquanto Má Fortuna, a miséria da ausência do feminino.

   Como o actual eclipse ocorre no signo de Virgem, a sombra dracôntica assume também, sob o véu do obscurecimento, esta ausência do feminino enquanto degradação do humano e corrupção da natureza. Na sua forma de retribuição, a sua face mais severa, Dikê revela-se como Némesis. Foi a acção humana que levou a deusa a tomar esta forma que é tradicionalmente associada a Saturno. Segundo o mito das idades, Saturno rege a idade de ouro quando a justiça ainda existia entre os humanos. Hoje, aquando do eclipse solar de dia 21, Saturno olha de frente (oposição) para o encontro umbral dos luminares. A partir de Peixes, trazendo consigo o peso do destino (Cauda Draconis), Saturno fita esta ausência, esta negação da harmonia.

   Este abandono ou esta ausência não é, porém, definitiva, passada a sombra, renascido o humano, a deusa voltará. Vergílio, nas Bucólicas, diz o seguinte: “A última idade do canto cumeio chegou já;/ a grande ordem dos séculos nasce de novo./ Já regressa a Virgem, regressam os reinos saturninos; /já do céu alto uma nova progénie é enviada.” (IV, 4.7: itima Cumaei uenit iam cļńs aetas;/magnus ah integro saeclorum nascitur ordo./ iam redit et Virgo, redeunt Satumia regna, /iam noua progenies caelo demittitur alto. Trad. Frederico Lourenço, 109-10. Lisboa, 2021: Quetzal Editores). No entanto, o retorno da deusa, considerando o que motivou o seu afastamento, nascerá de duas razões: ou porque a perfídia recuou entre os humanos; ou porque a deusa quer ajudar o humano nesse recuo. As duas razões não se excluem e obrigam ambas à transformação do humano, ao seu regresso à excelência original. Esta ideia insere-se naturalmente na conceptualização do eixo de integração que une Virgem a Peixes, ou seja, a parte ao todo. Diante da sombra que oculta a luz, a parte não vê, não alcança o todo. O humano não vê a deusa, não se integra na sua totalidade.

   Séneca apresenta um percurso para aquilo que deverá ser, segundo o espírito de Virgem, a sanidade da alma: “Dir-te-ei agora o que significa uma alma sã: é cada um contentar-se consigo mesmo, ter confiança em si próprio, saber que todos os votos feitos pelos homens, todos os benefícios que trocam entre si não têm a mínima importância para a obtenção da felicidade. Uma coisa passível de acréscimo não é uma coisa perfeita; o homem que quer vir a possuir uma permanente alegria, tem de fruir apenas do que efectivamente lhe pertence. Ora rodos os bens a que o comum dos mortais aspira são, de uma forma ou outra, transitórios, pois de coisa alguma a fortuna nos permite a posse para sempre. Mesmo esses bens transitórios, contudo, podem ser-nos agradáveis se estiverem sujeitos ao controlo e à influência da razão; apenas a razão pode tornar recomendáveis esses bens, cujo usufruto se revela nocivo a quem os ambiciona por si mesmos.” (Ep.72.7; Cartas a Lucílio, 2ª ed,, trad. J. A. Segurado e Campos. Lisboa, 2004: Fundação Calouste Gulbenkian). Este itinerário da alma é, na verdade, uma negação do que conduziu ao afastamento da deusa, é uma rejeição da Má Fortuna, tornando-se assim o sentido do actual eclipse.

   A influência temporal deste eclipse deve ser analisada com alguma ponderação, pois, como veremos mais adiante, este eclipse pertence a uma série Saros recente, iniciada em 1917, logo a sua assinatura mundana de sentido ainda se está estruturar. Por um lado, por ser um eclipse parcial com uma tipologia rara, a sua duração, bem como a ascensão recta, é maior, logo a influência também será. No entanto, por a sua significação ainda se estar a estabelecer, a influência temporal poderá ser maior, mas o efeito tenderá a ser mais ténue ou até difuso. A duração fixaria assim a influência em cerca de quatro anos e meio e a ascensão recta em mais de uma década, já a declinação dos luminares colocaria em destaque uma influência maior entre os quatro e os cinco meses.     

   A influência geográfica do eclipse de dia 21 tem o seu centro no mar, entre o sul da Austrália e a Antárctida, perto também da Nova Zelândia, sendo visível nas ilhas Fiji, Tuvalu, Tonga, Samoa, Samoa Americana, Ilhas Cook, Tahiti e Polinésia Francesa. A área geográfica como podemos ver é restrita. Já segundo as regências geográficas antigas, Vétio Valente (Antologia I, 2) diz-nos que Virgem rege a Mesopotâmia, a Babilónia, a Grécia, a Acaia (Grécia), Creta, Cíclades (Grécia), Peloponeso, Arcádia, Cirene (Líbia), Dória (Grécia), Sicília e Pérsia ou Parsa (Irão). Manílio, por seu lado, afirma que a Jónia (Turquia), a Cária (Turquia), Rodes e a Grécia estão sob a sua influência (Astronomica IV, 763-8).

   O eclipse solar parcial de 21 de Setembro pertence à série Saros 154, sendo o 7º eclipse de um total de 71. O próximo vai iniciar uma fase de eclipses anulares. O primeiro eclipse total só ocorrerá em 2404. O eclipse inicial é a matriz de sentido para toda a série. O primeiro eclipse desta série ocorreu a 19 de Julho de 1917. O Sol e a Lua estavam em Caranguejo e o Dragão da Lua estendia-se no eixo Caranguejo-Capricórnio. Mercúrio e Vénus estavam em Leão, Marte e Júpiter em Gémeos e Saturno em Leão. Nos transaturninos, Úrano estava em Aquário, Neptuno em Leão e Plutão em Caranguejo. Nesta data e na hora de Lisboa, Gémeos marcava a hora e Aquário culminava. A série Saros 154 terminará a 25 de Agosto de 3179, com um eclipse no signo de Virgem, tal como o actual.

   No ano 1917, antes do eclipse, deu-se, a 5 de Fevereiro, a Revolução Mexicana que com a nova constituição, vai ser a primeira a instituir os direitos sociais, dois anos antes da Constituição de Weimar, nela estavam inscritos direitos como o direito à greve, o voto feminino, liberdade de expressão, a separação entre estado e igreja, entre outros. Este é o ano das aparições de Fátima, tendo sido a primeira a 13 de Maio e as 13 de Outubro já depois do eclipse. Na Rússia, dá-se a Revolução de Outubro que leva Lenine e o Partido Bolchevique ao poder. O mês de Dezembro será um mês de grande instabilidade. Em Espanha, assistir-se-á a três mudanças no presidente do governo. Não nos podemos esquecer que estávamos na Primeira Guerra Mundial e, neste mês, os Estados Unidos da América entram na guerra. É também de assinalar a 6 de Dezembro o choque entre dois cargueiros em Halifax, no Canadá, que vai dar origem a uma grande explosão que, por sua vez, provocará um tsunami. Em Mondane (França), o descarrilamento de um comboio com mil soldados provocará a morte de oitocentos deles.   

   Uma informação que é também relevante é que o actual eclipse dá-se com o Sol no último grau de Virgem, o grau anarético. Ora isto serve primeiramente para desfazer um erro que infelizmente é muito comum. É grau anarético e não anorético, ou seja, é o grau destruidor e não o grau com falta de apetite. O primeiro provém de anareta (ἀναιρέτης) e o segundo é o adjectivo de anorexia, do prefixo negativo ana que indica aqui falta ou ausência e o substantivo orexis (ὄρεξις), fome ou apetite ou desejo. Pela internet este erro é muito comum. A destruição neste caso ocorre por força do limite e imposição do limiar do lugar onde aquele signo se perde e o seguinte já se avista. Um eclipse solar neste lugar vai adensar o peso sobre o sentido da sombra. Curiosamente, a sizígia umbral encontra-se a trinta de graus de Marte que também se encontra num grau anarético, mas neste caso o de Balança. Em ambos os casos, devemos considerar que esta destruição é limite de algo.

   Face ao tema do eclipse lunar de dia 7, deve-se destacar as duas grandes diferenças nas posições planetárias: Mercúrio deixa o seu signo de domicílio e exaltação, Virgem, para ingressar em Balança e Vénus deixa o signo de Leão para entrar no signo de Virgem. Vénus em Virgem assume-se como Estrela da Manhã e encontra-se numa posição já para além dos raios abrasivos do Sol. Mercúrio, embora no signo seguinte ao do Sol, encontra-se sob os raios e numa posição helíaca posterior, adquirindo desta forma uma expressão feminina e um carácter mais emotivo, sentimental e intuitivo.

   Apesar de Marte estar a deixar o signo de Balança, onde se encontrar em detrimento, para entrar em Escorpião, o seu domicílio, vai ainda oferecer, durante cerca de um dia, os seus raios maléficos ao recém-chegado Mercúrio. Já a Vénus em Virgem, no domicílio e exaltação de Mercúrio, não espalha todas as suas qualidades, algo que só acontecerá quando entrar em Balança, o seu domicílio masculino e diurno. Vénus em Virgem assume na Deusa Tríplice a sua face de Donzela, da jovem que ainda não se iniciou no mistério da maternidade. No entanto, apesar de estar fora do alcance dos raios solares, Vénus está numa posição conjunta e a fazer aplicação à sizígia umbral, logo participa deste sentido profundo de ocultação e obscurecimento.

   Do ponto de vista astro-mitológico, seria o momento em que Cora (Perséfone) seria raptada por Hades, conduzindo assim ao lamento de Deméter. O sextil da sizígia umbral, de Vénus e da Cauda Draconis em Virgem a Júpiter em Caranguejo vai trazer a dádiva da origem, o bem que se encontra no começo da viagem, a esta relação, ou seja, a procura do estado anterior de abundância de modo a recuperar, a restaurar esse bem. O retorno à natureza e aos seus bens é hoje um exemplo dessa relação.

   A oposição Saturno em Peixes ao lugar do eclipse, o trígono dele a Júpiter em Caranguejo, lembrando a lição de Petosíris de que nem todos os trígonos são bons, nem todas as quadraturas são más, e a quadratura de Saturno e do lugar umbral a Úrano em Gémeos é a marca dos tempos sombrios em que vivemos. O humano está escolher o seu lugar na história. Estamos à assistir a um genocídio em tempo real, com toda a informação, com imagens, sim porque há imagens de Gaza, da destruição, da fome, do infanticídio, do massacre de gentes à procura de comida, de um povo, e a maioria permanece num estado de absoluta dormência, como se nada fosse, com uma cumplicidade absurda para com os algozes de Israel. O conceito de humanidade assenta numa premissa primordial: um humano é um humano, isto é, os seres humanos têm todos o mesmo valor. Desta premissa decorre, segundo o espírito que agrega o conceito de humanidade, a solidariedade, ou seja, quem sofre, quem precisa deve ser a força da acção humana para reparar, para mitigar esse sofrimento, essa necessidade. Enquanto permitirmos as ideias de que um humano vale mais do outro e de que existem terras prometidas, a humanidade cairá no seu próprio abismo. E aqueles que não fazem nada, que nem uma opinião expressam, permitem essas atrocidades.

   A posição fragilizada de Úrano em Gémeos, onde a palavra devia ser revolução permanente, bem como a quadratura de Mercúrio em Balança a Júpiter em Caranguejo, onde o espírito nacionalista da extrema-direita corrompe a justiça e harmonia entre as gentes, entre os povos, vão mostrar como a inteligência e a palavra se afundam na sombra da ignorância. A quadratura de Mercúrio em Balança a Júpiter em Caranguejo e a oposição a Neptuno em Carneiro são uma marca da transmissão das novas ideologias populistas, nacionalista, xenófobas e misóginas que existem na extrema-direita, nos novos totalitarismos.

   Já os trígonos de Mercúrio (e de Marte, embora já por pouco tempo) em Balança a Úrano em Gémeos e a Plutão em Aquário trazem, sob os desígnios da providência e da necessidade, toda uma proposta de transformação da palavra, do discurso e do conhecimento. Porém, devido à retrogradação de Úrano e de Plutão, este é o gérmen de uma criação que pode florescer nuns e desaparecer noutros ou nunca sequer existir, ficando como mera potencialidade não efectivada. Este grande trígono não deixa de ser o vendaval do Anjo da História que coloca o humano e o seu carácter sob avaliação.                            

   A semelhança do que se referiu no eclipse lunar, o trígono entre Júpiter exaltado em Caranguejo e Saturno em Peixes que traz consigo a dádiva da Água. Curiosamente, nos tempos líquidos que vivemos essa é uma dádiva frequentemente desvalorizada. As sociedades actuais e a natureza humana expressam hoje muito mais os espectros do criar (Terra), do pensar (Ar) e do agir (Fogo) que os do sentir (Água). Os sentimentos e a intuição, o amor e a fé como via de sabedoria, perdem-se no frenesim dos dias e na superficialidade das relações. A retrogradação de Saturno e o seu derradeiro estágio no signo de Peixes é uma proposta de sentido profundo onde a dádiva da Água será veículo de transformação.

   A Vénus em Virgem, unindo-se hexagonalmente a Júpiter em Caranguejo, quadrangularmente a Úrano em Gémeos e opondo-se a Saturno em Peixes, relembra-nos o verso de Séneca que “não há caminho fácil da terra até às estrelas (Hercules Furens 437: non est ad astra mollis e terris via). Vénus, neste lugar, traz consigo a lição de Pigmalião e os perigos do ideal de perfeição sem humanidade, porque se apenas divino é perfeito, mas sem humanamente divino contrasta com o ideal os espectros de luz e sombra que caracterizam a humanidade. Nós devemos aprender a ser humanos. A perfeição no amor está no gesto e no cuidado, não no ideal. Colhemos a dádiva do bem onde ele existe.

   O sextil entre os benéficos mostra como a acção humana, fruto do seu carácter, nos coloca entre o reconhecimento da origem, do que lá existia e a perfeição que é a realização do amor, não como finalidade, mas como viagem. Já quadratura entre Vénus em Virgem e Úrano em Gémeos vem destruturar a rigidez das estruturas comunicacionais e transformar os ideais de beleza e perfeição. Este encontro entre os signos regidos por Mercúrio será um marco de revolução nas próximas semanas. A oposição Vénus-Saturno, no eixo Virgem-Peixes, firma a ponte, o elemento de passagem, entre o amor e o tempo, entre o amor e o destino, ou seja, a roda gira mesmo para os amantes e por a roda girar existe amor.

   O eclipse solar de dia 21 apresenta, como vimos, uma proposta de sentido que se estenderá pelos próximos tempos, marcando com transformação, em especial, os signos da cruz mutável, sobretudo aquando de presença planetárias temporalmente mais extensas. Nos próximos eclipses da série Saros 154, a significação do actual eclipse será recuperada, pois existem elementos de sentido que ainda se estão a formar e que se irão relacionar com outras efemérides. Desta forma, entre a luz e a sombra, o lugar onde colocámos as sementes da nossa humanidade será determinante e marcará o nosso futuro.