Reflexões Astrológicas
2025 – Ano Astrológico
Lisboa, 09h02min, 20/03/2025
Sol
Decanato: Marte
Termos: Júpiter
Monomoiria: Marte
O início do Ano Astrológico ocorre, por
convenção vernal e por influência da tradição astrológica do hemisfério norte,
com o ingresso do Sol no signo de Carneiro, logo no decanato de Marte, nos
termos de Júpiter e na monomoiria de
Marte. Note-se, neste ponto preliminar, que se fosse seguida a tradição do Thema Mundi, então o início do Ano
Astrológico aconteceria com o ingresso do Sol em Caranguejo, o que estaria em
harmonia com os primórdios da espiritualidade pagã e com a relação primordial
do humano com a luz celeste. Os solstícios e as lunações são as celebrações
mais antigas e mais enraizadas nessa relação. No entanto, a tradição vernal do
hemisfério norte tornou-se dominante e essa é a que de forma mais agregadora aqui
se segue.
A Lua encontra-se, neste ingresso,
fora do seu segmento, em Sagitário, no mesmo elemento do que em 2024, em Fogo, quando
se encontrava em Leão, e no decanato de Mercúrio, nos termos de Júpiter, tal
como em 2024, e na monomoiria de
Saturno. A presença da Lua num signo masculino e no elemento Fogo não lhe é
naturalmente favorável, pois constitui uma desarmonia que não conduz à
expressão das suas qualidades primárias e inatas. Para a hora de Lisboa, Touro
está a marcar a hora, colocando assim o Sol na XII, no Lugar do Mau Destino (κακόν δαίμων), e a Lua no Lugar da Morte (θάνατος). A
luz, embora sob olhar triangular, encontra-se assim em debilidade, pois a
natureza dos lugares que ocupa enfraquece a sua expressão.
À semelhança daquilo que se enunciou
na reflexão astrológica do ano passado, a questão do regente do ano, tal como é
simplisticamente colocada pela astrologia de massas, assenta ou em premissas
erradas ou em metodologias incoerentes. Dever-se-á considerar, deste modo, como
primeira premissa, a força planetária dominante aquando do início do ano
astrológico. A análise das dignidades revela, excluindo-se primeiramente os
transaturninos, um enfraquecimento de todas as forças planetárias. A Lua, pelas
condições já referidas, vê então a sua natureza feminina e essencial
comprometida. Os benéficos estão ambos nos signos do seu detrimento, Vénus em
Carneiro e Júpiter em Gémeos. Depois tanto Vénus como Mercúrio encontram-se
retrógrados e sob os raios do Sol. Sobram assim os maléficos. Marte está em
Caranguejo, no signo da sua queda. Saturno, não estando favorecido, é o que se
encontra numa posição menos desfavorável. Para o tema de Lisboa, Saturno
encontra-se na XI, no Bom Destino (ἀγαθόν
δαίμων), e numa via ascendente, só suplantada
por Plutão que se encontra conjunto ao Ponto de Culminação. Desta forma,
segundo a premissa das dignidades, Saturno tem sobre o ano astrológico de 2025
uma força mais dominante.
Um outro critério de análise é o dos
ingressos anuais. Ora os planetas de Mercúrio a Júpiter, inclusive, pela
duração dos seus ciclos são compreensivelmente excluídos. Depois de Saturno a
Plutão, com a excepção deste último que permanecerá em Aquário, vão todos
ingressar no signo seguinte: Saturno e Neptuno em Carneiro e Úrano em Gémeos.
Este critério, em conciliação com o anterior, intensifica a predominância de
Saturno. Porém, pelo tempo que cada um permanecerá nesse signo, o ingresso de
Neptuno em Carneiro e de Úrano em Gémeos são, do ponto de vista da astrologia
mundana, de grande importância. A retrogradação levará, todavia, a que esta
mudança seja para já um anúncio, pois ambos vão retornar, em 2025, ao signo de
partida. Neste ponto, também Saturno retornará a Peixes.
Em 2025, a influência de Saturno,
quer em Peixes, quer em Carneiro, torna-se assim uma expressão do tempo, do
destino e da necessidade, uma que se vai relacionar necessariamente com os
novos ciclos de Úrano, Neptuno e Plutão, mas também com a mudança do eixo nodal
de Carneiro-Balança para Peixes-Virgem e por conseguinte com os eclipses anuais.
Por outro lado, o ingresso de Júpiter em Caranguejo permitirá que, durante o
período em que Saturno estiver em Peixes, os dois se unam triangularmente. Esta
é a uma bênção que diverge das quadraturas Júpiter em Gémeos e Saturno em
Peixes e Júpiter em Caranguejo e Saturno em Carneiro. Existe também uma outra
dádiva que é a união dos benéficos no signo de Caranguejo. Nesse momento, a
Grande Mãe, a Deusa da qual tudo nasce e à qual tudo retorna, dar-nos-á a
possibilidade de receber as suas bênçãos. Nesses dias, as potencialidades do
signo de Caranguejo vão alcançar uma expressão maior.
Epicteto,
nas suas Diatribes, diz-nos o
seguinte: “Onde, então, está o progresso?
Se algum de vós, ao afastar-se das coisas exteriores, voltou-se sobre a sua
capacidade de escolha, aperfeiçoando-a e exercitando-a, de modo a torná-la
harmoniosa à natureza, elevada, livre, desimpedida, desembaraçada, leal, digna;
e aprendeu que não é possível ser leal e livre quem deseja ou evita as coisas
que não estão sob seu encargo, mas é necessário modificar-se e vagar junto com
elas, bem como sujeitar-se aos que podem provê-las ou impedir o acesso a elas.”
(I.4, 18-9, trad. Dinucci, 64-5.
Coimbra, 2020: Imprensa da Universidade de Coimbra). A lição de Epicteto é importante
neste ponto, pois fixa a liberdade no que depende de si. Essa é a dádiva. O
destino coloca o seu peso, a sua gravidade, sobre o humano, trazendo fortuna ou
infortúnio, logo não é nos acontecimentos, nas coisas exteriores, que reside a
liberdade. A liberdade pertence ao carácter, pertence à alma, está nas mãos do
humano que se volta para si mesmo e aí encontra o seu livre arbítrio. Colher a
luz da dádiva e receber a Grande Deusa, o poder da origem, é uma escolha.
Bebendo de Dante, no Inferno, somos sombras e sombras vemos, mas no Paraíso,
diante da Rosa Mística, elevamo-nos no amor que move o céu e as estrelas.
A leitura do Segmento de Luz (αἵρεσις) favorece também a acção benévola de Saturno, pois
estando no seu próprio segmento e acima do horizonte vê a força maléfica
contida. No caso dos maléficos, poder-se-ia dizer que o Segmento confere um
carácter de luz de maximus minimus e minimus maximus, ou seja, o maléfico que
pelo segmento tem uma luz maior, tem uma acção malévola menor, e o que tem uma
luz menor, tem uma acção malévola maior. Desta forma, no tema do novo ano
astrológico, Saturno concede as bênçãos do tempo e da necessidade e Marte fere
com tensão e discórdia. Este factor vai firmar a influência predominante de
Saturno no ano de 2025. Lembremo-nos que, face à sua retrogradação, Marte
oferece um caminho de repetição nos signos de Caranguejo e Leão.
Um outro aspecto que também deve merecer
a nossa atenção é o facto de, tanto no tema do ano astrológico de 2025 como no
de 2026, Mercúrio se encontrar retrógrado. No tema de 2026, Mercúrio passará a
directo cerca de 5 horas após o ingresso do Sol em Carneiro. Estas
retrogradações de Mercúrio vão acentuar, por um lado, as dificuldades de
comunicação e a corrupção do poder da palavra e, por outro, uma vez que em 2025
Mercúrio está em Carneiro e em 2026 em Peixes, vão relevar a necessidade de reintegrar
os sentidos profundos e anteriores na construção de um novo pensamento e de um
novo discurso, ou seja, a memória servirá o pensamento futuro. O desafio
apresenta-se também por passar de uma mensagem que fere e que cria divergência
para uma que agrega e que imprime um valor de totalidade. Algo que é tão
difícil nos nossos tempos.
Existe uma certa tendência
astrológica contemporânea para fixar a maioria dos sentidos da astrologia
mundana nos movimentos planetários de Úrano, Neptuno e Plutão, transformando-os
depois numa realidade astrológica individual, quando, na verdade, Júpiter e
Saturno são os maiores indicadores dessa significação e, neste caso, com uma
melhor conciliação entre o individual e o colectivo. Séneca dizia que “Um
homem que entende o dever como limite rigoroso ao poder, pode exercer o seu
poder sem perigo para os demais.” (Ep.90.4;
Cartas a Lucílio, 2ª ed,, trad. J. A. Segurado e Campos. Lisboa, 2004:
Fundação Calouste Gulbenkian).
A união do Dever (Saturno) ao Poder (Júpiter) representa
assim um desafio político e civilizacional de todo o ciclo astrológico. Quando
Marte actua sobre o dever, transforma-o em raiva e em vingança e quando actua sobre
o poder, transforma-o em ganância e em crueldade. Por isso, diz o estoicismo
antigo que devemos dominar as paixões. A alma serena sabe cumprir o seu dever enquanto
a alma prudente serve o poder sem se servir. Ora isto não se implica apenas aos
líderes. Num tema, exercemos domínio e controlo sobre as potencialidades de
Mercúrio, Vénus e Marte e
entregamo-nos às de Júpiter e Saturno.
Em 2025, vai-se firmar a passagem do
eixo nodal de Carneiro-Balança para Peixes-Virgem, ou seja, de um eixo de
identidade para um de integração. Dos quatro eclipses anuais, três ocorrem
neste segundo eixo e um acontece ainda no anterior. Primeiramente, devemos
lembrar-nos que o Dragão da Lua transmite um sentido que se estende da
compreensão do destino, da gravidade daquilo que não pode ser mudado (Cauda Draconis), até à revelação da
necessidade, de que existe um propósito, uma finalidade, em tudo o que acontece
(Caput Draconis). Os eclipses lunares
de 14 de Março e de 7 de Setembro, com o primeiro com a Lua em Virgem e o
segundo em Peixes, trazem consigo o peso da sombra, da escuridão, da ocultação
da luz, sobre o sentido da integração da parte no todo e do todo na parte. Já o
eclipse solar de 21 de Setembro, com o Sol e a Lua em Virgem, vai acentuar o
obscurecimento do valor da parte, ou seja, a parte não encontra o seu lugar na
visão do todo, no sentido da totalidade. Pelo peso da sombra, as coisas separadas
perdem-se, desintegram-se.
Para além da mudança do eixo nodal,
as mudanças de signo de Júpiter e Saturno trazem uma marca distintiva ao novo
astrológico. A 25 de Maio, Saturno ingressa em Carneiro, onde permanecerá até 1
de Setembro, e a 9 de Junho, Júpiter ingressa em Caranguejo. Saturno em
Carneiro absorve a agressividade e a impetuosidade do seu novo lugar. Este é
certamente o Cronos da Titanomaquia, da guerra entre a velha e a nova ordem. Os
Titãs são deuses elementais que nascem de Gaia (matéria) e de Úrano (forma),
enquanto os deuses do Olimpo tornam-se progressivamente deuses ideais ou arquetípicos.
Esta é uma luta de sentido, de poder ou fundamento espiritual. Já Júpiter em
Caranguejo indica o regresso do princípio masculino à sua origem, ao Divino
Feminino. Encontramos aqui relação de Zeus com Reia, sua mãe, e com Gaia, sua
avó. É o jovem Zeus que vemos, por exemplo, em Creta a iniciar-se nos mistérios
do feminino.
Quanto aos transaturninos devemos
destacar, em primeiro lugar, o facto de que com os novos ingressos vão estar os
três em signos masculinos, o que, juntamente com o ingresso de Saturno em
Carneiro, vai definir um novo elemento distintivo. A sua acção será mais
expressiva, revelando, em termos colectivos, um potencial maior tanto em termos
criativos como em termos destrutivos. Quando se encontram em signos femininos,
a sua acção é mais subtil, porventura até mais refinada. São portanto de
esperar transformações geracionais mais radicais e, em certa medida, mais
violentas. Por exemplo, a conjunção de Saturno e Neptuno em Carneiro
tornar-se-á uma força motriz para novos nacionalismos e para novas expressões
ideológicas e governativas do autoritarismo e do totalitarismo. A ilusão do
poder e da guerra fere a acção humana.
Neptuno entra no signo de Carneiro a
30 de Março, regressando a Peixes a 22 de Outubro. Já Úrano ingressa em Gémeos
a 7 de Julho e regressa a Touro a 8 de Novembro. Os movimentos planetários
directos e retrógrados, em 2025, vão ser particularmente significados,
encerrando um sentido passagem entre o progresso e a consolidação, sem que por
isso exista um quadro valorativo inato. Nuns casos, essa passagem fundamenta a destruição
e a discórdia, noutros, a transformação e a inovação. Ora Úrano estará
retrógrado de 6 de Setembro a 4 de Fevereiro de 2026, Neptuno de 4 de Julho a
10 de Dezembro e Plutão de 4 de Maio a 14 de Outubro. Já Júpiter estará
retrógrado de 11 de Novembro a 11 de Março de 2026 e Saturno de 13 de Julho a
28 de Novembro. O poder da potência, a serenidade do sábio, poderá ser mais
forte que o poder da acção, a perícia do guerreiro.
Paralelamente, o ingresso de Úrano
em Gémeos vai fomentar sobretudo um novo paradigma comunicacional e
tecnológico. Vai passar-se do paradigma da sustentabilidade, das alterações
climáticas e da economia verde para o da inteligência artificial e da
destruturação dos media tradicionais, contaminados pelo facilitismo da
desinformação e pela permeabilidade aos interesses político-económicos e
incapazes de acompanhar a velocidade da informação. Por outro lado, o
imediatismo dessa mesma informação, animado pelas dicotomias geminianas, levará
necessariamente à perda de rigor e à corrupção da verdade.
No que aos transaturninos concerne, existirá
a marca de um intenso período de transformações. A marca da guerra e dos
conflitos está sobre o horizonte. Os dois sextis que unirão Plutão em Aquário a
Neptuno (e Saturno) em Carneiro e este a Úrano em Gémeos vão ser um elemento
distintivo dos tempos que se avizinham. São como a ponta de uma seta que fere a
acção humana e as suas escolhas, ou seja, é como se já existisse uma tendência
natural na possibilidade. Em certo sentido, apesar da primordialidade do bem,
existe uma propensão visceral para o mal.
Quanto à geometria de aspectos no
tema do ano novo astrológico deve-se olhar primeiramente para os aspectos ao
Sol. Já referimos o olhar triangular do Sol e da Lua e a presença de Mercúrio e
Vénus sob os seus raios. A quadratura do Sol em Carneiro a Marte em Caranguejo
tem um sentido que se espelha na quadratura da Lua em Sagitário a Saturno (e
Neptuno) em Peixes. Os maléficos que se olham triangularmente fixam o seu
olhar, como com o gume de uma espada, nos luminares. A luz recebe a acção
transformadora da destruição e da discórdia. Nem sempre o bem é o motor da
transformação.
A acção dos maléficos produz, por
vezes, a base, o substrato radical, de uma revolução, de uma transformação
profunda. A humanidade nunca mudou com gestos de assentimento e conformação. Ora
a quadratura da Lua ao Dragão da Lua, embora não no funesto grau do ângulo
recto, vai produzir algo semelhante, mas neste caso por acção da Providência,
da força conjunta do destino e da necessidade. Os antigos astrólogos alertavam
para o perigo deste posicionamento, considerando-a pior que a conjunção à Cauda Draconis. Júpiter em Gémeos também
se une quadrangularmente ao Dragão da Lua, fazendo com que o destino restrinja
a sua dádiva e colocando assim a Lua em Sagitário em oposição.
Os tempos sombrios tendem a ser, ao
longo da nossa história, o prelúdio de grandes transformações. No entanto, para
que se alcance o progresso civilizacional, é necessário passar por períodos de
tensão e obscurantismo. A noção de propósito e finalidade, do sentido da
Providência, mesmo que através da destruição, é corroborado pela conjunção de
Saturno em Peixes à Caput Draconis e
pelo trígono de Marte em Caranguejo a esta co-presença. Por outro lado, como
nem tudo nasce de tensões, a acção do bem também faz o seu caminho, o sextil do
Sol (e de Mercúrio e Vénus) em Carneiro a Júpiter em Gémeos e o trígono da Lua
em Sagitário a Vénus em Carneiro surgem como dádiva e caminho.
Existe hoje uma certa astrologia que
teme a designação de benéficos e maléficos, uns porque a consideram,
erradamente, maniqueísta, outros que, num espírito new age simplista, pensam que é tudo arco-íris e unicórnios, que só
existem tendências, que tudo pode ser mudado, que tudo tem um lado bom. Infelizmente,
a realidade não é assim. Só se pode compreender o valor da dádiva, de uma
bênção, se se interiorizar o valor da sua ausência e do caminho de agruras para
a alcançar. E sim o mal existe. A ignorância é, por exemplo, o maior dos males.
Vénus em Carneiro e Júpiter em
Gémeos trazem-nos as bênçãos do amor em acto e da bondade da palavra. Nos
nossos tempos, nestes tempos sombrios, estas são duas dádivas com um potencial
imenso, todavia, como qualquer tesouro, exigem primeiro disponibilidade e
depois demanda, o que nem sempre é fácil. Curiosamente, existe um outro
tesouro, o Sol, Mercúrio, Vénus e a Lua unem-se hexagonalmente a Plutão em
Aquário que, por sua vez, se une triangularmente a Júpiter. Esta é a bênção que
permite encontrar os vestígios da luz e do bem por entre os destroços, nas
ruínas da realidade, porque sim Plutão é morte e destruição, não é o festival
hippie que nos querem vender. Encontrar uma semente fértil na terra queimada é
uma bênção de Plutão. Hades e Perséfone guardam no interior da Terra a dádiva
da semente que germina. Neste novo ano astrológico, esta será assim uma dádiva
no caminho.
O Ano Astrológico de 2025 é, em suma, um tempo de desafios, de tensão e discórdia. Em termos pessoais, podemos encontrar marcadores benévolos de transformação, mas, em termos mundanos ou globais, este será um ano de limiar em que os conflitos, a guerra, a ignorância definem o peso do destino e o modo como a necessidade força a humanidade a mudar, a tornar-se mais consciente do espírito e dos valores que revelam o humano. Somos humanos, mas escolhemos ser humanidade.