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sexta-feira, 28 de março de 2025

Reflexões Astrológicas 2025: Eclipse Solar Parcial (Lua Nova em Carneiro)

Reflexões Astrológicas

Eclipses 



Eclipse Solar Parcial 

(Lua Nova em Carneiro)

Lisboa, 10h47min, 29/03/2025

 

Sol-Lua

Decanato: Marte  

Termos: Vénus   

Monomoiria: Sol    

                                           

 

   O Eclipse Solar Parcial de 8 de Abril ocorre no signo de Carneiro, com Caranguejo a marcar a hora (hora de Lisboa), no primeiro grau e apenas a quatro minutos, no Segmento de Luz (αἵρεσις) do Sol, com os luminares acima do horizonte, na X, no lugar daquilo que se faz, da Práxis (πράξις), embora a culminação caia na IX (casa-signo ou signo inteiro), e cerca de quatro horas e vinte minutos após a hora de alba, no decanato de Marte, termos de Vénus e na monomoiria do Sol. Os eclipses solares anteriores ocorreram junto ao Poente, já o actual encontra-se a caminho da culminação. Este elemento de análise consagra o sentido deste eclipse como marco de transição, pois é o último do ciclo no signo de Carneiro. O eixo nodal vai fixar-se no eixo Virgem-Peixes. O próximo eclipse solar de 2025 será no signo de Virgem, ou seja, define-se uma via de sentido que corresponde a metade do ciclo zodiacal.

   Nesta senda nodal de Carneiro a Virgem, lembrámo-nos dos versos inaugurais da Divina Comédia de Dante: “Nel mezzo del cammin di nostra vita/ mi ritrovai per una selva oscura,/ ché la diritta via era smarrita.” (No meio do caminho em nossa vida/eu me encontrei por uma selva escura/ porque a direita via era perdida. Inferno I, 1-3, trad. Vasco Graça Moura. Venda Nova, 2000: Bertrand Editora). No entanto, Carneiro não chega a Virgem pela “direita via”, o caminho nodal é uma via de retorno e terá de passar por Peixes sem o integrar o seu sentido. Caminha até à parte sem tomar como sua a totalidade, a finalidade do caminho. A identidade do eixo Carneiro-Balança segue uma via de sombra onde terá de enfrentar os seus fantasmas e aqui também no sentido etimológico do termo, ou seja, terá de se destruir e recriar a partir das suas próprias imagens. A “selva escura” é o lugar onde o humano e a humanidade podem ver o maior dos seus medos. Nesse lugar, vêem-se a si mesmos. A visão do espelho é assustadora. É como Dorian Gray a deixar o pano que cobre o objecto misterioso que esconde o seu verdadeiro eu. O olhar para si mesmo, seja para o humano, individualmente, ou para a humanidade, é aterrador e é assim que deve ser, pois a iniciação nasce desse medo, nessa “selva escura”.

   Como já constatámos anteriormente, Jasão, o herói de Ares (Marte, domicílio) precisa do favor de Apolo (Sol, exaltação) para que a finalidade da viagem seja alcançada, ou seja, precisa da luz para encontrar o fim, para chegar ao velo ou tosão de ouro (Κρίος Χρυσόμαλλος), a pele do aríete ou carneiro imortal (Carneiro), filho de Posídon (Neptuno, regente moderno de Peixes). A ligação nodal entre os dois eixos (Carneiro-Balança e Virgem-Peixes) leva-nos, pela via do destino e da necessidade, pelo corpo do Dragão da Lua, numa viagem que terá de estabelecer uma ligação de sentido, um elemento de passagem, entre a identidade e a integração. Curiosamente, os dois eclipses solares de 2025 fixam-se do lado desses eixos onde os elementos estão separados. São a unidade (Carneiro) sem a dualidade (Balança). São a parte (Virgem) sem o todo (Peixes). Essa ausência é a sombra sobre o sentido, é a ocultação da finalidade.

   Num eclipse solar, é a luz que sofre o avanço da escuridão, pois o seu manto de sombra cobre o alcance dos raios. Ora isso acontece, todavia, por decreto da Providência. É o destino a operar e a necessidade a determinar. A este respeito, Séneca diz-nos o seguinte: “Que a nossa alma, por tanto, se habitue a entender e a suportar o seu destino, a saber que nada é interdito à fortuna, que esta tanto se abate sobre os impérios como sobre os imperadores, que tanto poder tem sobre as cidades como sobre os homens. E não devemos indignar-nos contra as desgraças: nós entramos num mundo que se rege precisamente por esta lei. Se a lei te agrada, obedece-lhe; se não, sai deste mundo pelo processo que quiseres! Indigna-te, sim, com alguma iniquidade que o destino te tenha feito somente a ti; mas as leis que regem o mundo constrangem tanto os grandes como os humildes, e por isso deverás reconciliar-te com o destino: ele dará solução a tudo! Não deves avaliar os homens pelos túmulos, pelos monumentos fúnebres que, uns maiores outros menores, se erguem ao longo das estradas: reduzidos a cinzas, todos os homens são iguais. Desiguais no nascimento, todos somos iguais na morte.” (Ep.91.15-16; Cartas a Lucílio, 2ª ed,, trad. J. A. Segurado e Campos. Lisboa, 2004: Fundação Calouste Gulbenkian).

   A lei de Adrasteia, senhora do inevitável, impera sobre o mundo e um eclipse solar tende a recair mais sobre impérios e imperadores do que sobre o comum. A estes, só a lei das Meras (Moiras) afecta o seu destino, ou seja, só o grau do eclipse tende a afectar o tema natal, pois moira (μοίρα) é em grego tanto o destino como o grau. A Lua é a vida e o Sol a consciência da vida, daí que um eclipse lunar anuncie mais a vida planetária e um eclipse solar a sua consciência, ou seja, a organização política e social. Os eclipses solares vão pesar mundanamente sobre a humanidade. O peso do destino, a sombra, recai sobre o que se faz colectivamente. Este sentido é particularmente expressivo no tema do eclipse.

   Se pensarmos que, no tema, a posição dos signos sobre os lugares ou casas reproduz o Thema Mundi, ou seja, com Caranguejo a marcar a hora, observamos que essa conciliação entre πράξις, entre aquilo que se faz, e o encontro umbral dos luminares no signo de Carneiro se torna uma unidade de sentido. Ora esta unidade vai acentuar uma pressão da sombra sobre a luz, ou seja, na expressão ou na acção dos líderes mundiais sobre as comunidades. O facto de Marte estar no signo que marca a hora, Caranguejo, e Saturno estar junto ao Ponto de Culminação, em Peixes, contribui para o carácter deletério dessa acção. Ao vermos hoje a acção política assustadoramente centrada nos líderes, temos de trazer à memória outros tempos, tempos em que os cultos da personalidade eram cultivados e impostos. O sentido de comunidade tende então a perder-se

   A ascensão recta dos luminares fixa uma influência temporal mais intensa até pouco mais de seis meses, o que nos leva a estabelecer um tempo electivo até ao eclipse solar de 21 de Setembro. No entanto, a magnitude do eclipse pode estender o seu efeito até perto de um ano, já as declinações dos luminares, em especial, a do Sol, determina uma extensão dos efeitos até cerca dos três anos e meio. Aquilo que acontecer até Setembro produzirá um efeito que se fará sentir até ao final de 2028. Em termos espaciais, o centro do eclipse firma-se no Pólo Norte, no extremo norte do Québec, numa área muito próxima da Gronelândia. Se pensarmos nas deambulações megalómanas de um certo líder quanto ao domínio territorial desta zona do planeta, o centro deste eclipse ganha um sentido mais consentâneo. O manto umbral e penumbral estender-se-á, porém, pelo Oceano Atlântico até às áreas ocidentais e mais a norte da Europa e de África, alcançando a Rússia.

   Nas regências geográficas antigas, o Sol e a Lua em Carneiro regem, segundo Manílio, o Helesponto (Estreito de Dardanelos), Propontis (Mar de Mármara), a Síria, a Pérsia e o Egipto (Astronomica, IV, 744-817). Já Vétio Valente (Antologia I, 2) diz-nos que o signo exerce influência sobre as seguintes regiões: a Babilónia, Elymais ou Elamais (Cuzistão, província do Irão), a Pérsia, a Palestina e as regiões circundantes, a Arménia, a Trácia, a Capadócia, Susã (cidade antiga, capital do Elão ou Susiana, hoje sudoeste do Irão), o Mar Vermelho e o Mar Negro, o Egipto e o Oceano Índico. Heféstion resume as regências dizendo que, para Ptolomeu, rege a Britânia, a Galácia, a Germânia, a Palestina, Edom e a Judeia e, para Hiparco e para os antigos egípcios, rege a Babilónia, a Trácia; a Arménia, o vale da Pérsia, a Capadócia, a Mesopotâmia, a Síria, o Mar Vermelho (Apotelesmática I, 1).

   O actual eclipse pertence à série Saros 149. É 21º eclipse de um total de setenta. Deve-se assinalar que este é o último eclipse parcial antes da fase de eclipses totais que se inicia com outro eclipse no signo de Carneiro (9 de Abril de 2043). A série Saros 149 teve o seu início a 21 de Agosto de 1664, com um eclipse no signo Leão, e terminará a 28 de Setembro de 2926, com um eclipse no signo de Balança. No eclipse-matriz, o Sol, a Lua, Mercúrio, Vénus e a Caput Draconis estavam em Leão, no mesmo elemento do eclipse actual. Marte estava em Balança e Saturno em Sagitário. Júpiter e Neptuno encontravam-se em Capricórnio. Em Aquário, estava Úrano e a Cauda Draconis e, em Gémeos, Plutão. Balança marcava a hora e Caranguejo culminava (hora de Lisboa).

   No ano de 1664, aquando do eclipse-matriz, temos de assinalar a vitória dos portugueses sobre os espanhóis, na Batalha de Castelo Rodrigo (7 de Julho), um feito essencial na Guerra da Restauração. A 1 de Agosto, também antes do eclipse, dá-se a Batalha de São Gotardo onde o exército habsburgo derrota o exército otomano. Por outro lado, a 27 de Agosto é fundada a companhia francesa das índias orientais. A 8 de Setembro, Nova Amsterdão rende-se a uma esquadra naval britânica, liderada por Richard Nicolls. A cidade capturada será então renomeada, em homenagem ao Duque de York, o futuro rei Jaime II, passando a chamar-se Nova Iorque. O enquadramento histórico do eclipse-matriz serve sobretudo para acentuar a intensa expressão político-militar desta série. Ora este carácter bélico vai evidenciar o seu lado mais negativo pelo facto da posição original dos maléficos estar em aspecto quadrangular à posição actual (Marte em Balança e agora em Caranguejo e Saturno em Sagitário e agora em Peixes). Se tivermos dúvidas da repetição da história, podemos afirmar com certeza a repetição do humano.

   O eclipse solar de 29 de Março é o terceiro de três eventos astrológicos que mereceram uma reflexão, tendo sido o primeiro o eclipse lunar de 14 de Março e o novo ano astrológico com o ingresso do Sol em Carneiro a 20 de Março. Se observarmos os três temas, podemos concluir que as retrogradações de Mercúrio e Vénus são as principais diferenças. No caso de Vénus, existe inclusive um reingresso no signo anterior, em Peixes.  

   A retrogradação de Mercúrio obriga a um pensar ou repensar da palavra que nos poderia levar até Epicteto quando este diz o seguinte: “Sinais de quem progride: não recrimina ninguém, não elogia ninguém, não acusa ninguém, não reclama de ninguém. Nada diz sobre si mesmo – como quem é ou o que sabe. Quando, em relação a algo, é entravado ou impedido, recrimina a si mesmo. Se alguém o elogia, se ri de quem o elogia. Se alguém o recrimina, não se defende.(Encheiridion 48.b1, trad. A. Dinucci & A. Julien, 2014: 64. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra). Mercúrio em Carneiro dá uma certa impulsividade à palavra. Ora a retrogradação neste signo conduz ao domínio dessa pulsão o que combina perfeitamente com a lição de Epicteto.

   A retrogradação de Vénus até ao signo da sua exaltação, embora não de volta ao grau exacto, mas colocando-a conjunta a Neptuno, o seu regente moderno, vai firmar primeiramente a reformulação daquilo que se deseja, estabelecendo uma necessidade de foco que se estenda para além da identidade e, de uma forma mais profunda, que restabeleça a gravidade do amor. A dádiva de Vénus, neste olhar de novo, é um tesouro de vida, pois que permite que se olhe uma outra vez para o lugar onde o amor caiu, onde a sua gravidade se fundou. É uma bênção que não deve ser ignorada. Por outro lado, a senda de uma Vénus que sai de Carneiro para voltar a Peixes e para, por sua vez, regressar renovada a Carneiro tem um sentido profundo. O amor sai dos perigos da identidade, da frágil ponte entre unidade e dualidade, para regressar a imersão do todo, à integração da totalidade. Ora nessa viagem o amor pode perder-se e afundar-se ou pode dar à costa, brilhante, com um sentido de finalidade, de propósito. Neste tempo, podem estabelecer-se intensas afinidades electivas e conexões para lá da vida e da morte.

   No tema do eclipse solar de 29 de Março, Vénus vai voltar a reunir-se com Neptuno, com Saturno e com a Caput Draconis. Os sentidos do passado são recuperados, todavia, não é um regresso ao mesmo, é uma renovação. No rio do tempo, as águas que passam não são iguais. A união de Vénus e Neptuno vai dar ao princípio do amor a imaginação criativa, o que potencia a sua acção natural e criativa. Quando se une a Saturno, o que em Peixes não tende a ser muito negativo, Vénus vai conciliar a gravidade do tempo com a ardência do desejo. A Caput Draconis conjuga com estes a possibilidade de elevação face à força da necessidade. Esta é uma bênção quase oculta em pleno eclipse solar. Numa viagem pela sombra, é possível trazer do todo a unicidade de si.    

   No eclipse lunar era Plutão em Aquário o astro mais alto agora é Saturno em Peixes. Da lição da morte passamos para lição do tempo. Na verdade, não existe verdadeira aprendizagem sem a integração destas duas lições. Se a vida não pedisse estas duas lições, as pulsões dos planetas pessoais dominariam e iriam corromper a natureza a um ponto de não retorno. A morte e o tempo fazem com que se dê valor às coisas, às pequenas coisas, às coisas importantes. Nós, humanos, somos a soma dessas pequenas, unidas em algo único, na felicidade. Na sua origem etimológica, a felicidade consiste é ter em si uma bom estado demiúrgico, ou seja, ter um bom elemento de passagem. Ora essa viagem só possível com a consciência íntima da morte e do tempo e, por outro lado, pela elevação que só o amor e a sabedoria concedem.

            Neste eclipse solar, esta senda é uma subida de Marte em Caranguejo até Saturno em Peixes e é nessa viagem que o manto umbral se estende, escondendo os luminares. A quadratura destes, e de Mercúrio retrógrado, a Marte revelam o medo da origem e a violência de regressar ao passado. Ora, sabendo nós de uma maior influência geopolítica nos eclipses solares, este sentido torna-se mais vivo e mais actual. Estamos a viver, quer queiramos, quer não, tempos sombrios. Na verdade, a humanidade que almejava por progresso vê-se hoje à beira do princípio. Os sinais estão lá. As Meras falam nos astros e indicam os lugares de todas as encruzilhadas, sim porque, sob a égide de Hécate, numa das vias reside, como sempre, a esperança. Esta é a razão pela qual no fim do caminho zodiacal, naquele de Carneiro a Peixes, se encontram os dois benéficos: Júpiter no seu domicílio, Vénus na sua exaltação. Com o manto de sombra em Carneiro, esse fim do caminho não é vislumbrado. Vivemos tempos em que a verdadeira esperança tende a perder-se.

   A beleza da vida diz-nos sempre que a luz da esperança gosta de se ocultar nas ruínas, pois é sob a cinza e a poeira que se escondem as pequenas luzes que salvam o mundo. Os sextis de Júpiter em Gémeos e de Plutão em Aquário aos luminares em Carneiro permitem ver elementos potenciais de transformação. Estes são aspectos que trazem consigo a potencialidade da busca, da procura, de ver entre os fragmentos da realidade a luz que ilumina e transforma. Esta é uma bênção da vontade, do ímpeto salvífico. Já a quadratura entre Vénus em Peixes e Júpiter em Gémeos traz consigo a estruturação do bem. Curiosamente, esta são duas constelações representadas de forma mitológica pelo amor: em Peixes, Afrodite e Cupido; em Gémeos, Castor e Pólux. O trígono entre Marte em Caranguejo e Vénus em Peixes que antecede, na já enunciada via de culminação, o mesmo aspecto mas com Saturno vai servir de apelo ao caminho do meio, à via da moderação. Actualmente, a prudência, a temperança é tão esquecida quanto necessária. A arte e a nobreza de colocar racionalidade nas pulsões são por vezes o que resta à humanidade e, em especial, aos seus líderes. Se não existirem, o abismo torna-se mais próximo.

   O eclipse solar de 29 de Março, o último do actual ciclo nodal no signo de Carneiro, apresenta-nos os riscos de colocarmos as nossas angústias e os nossos anseios em certas lideranças. O manto de sombra cai hoje de forma muito notória nos perigos de semear as autocracias no seio das democracias modernas. Existe também, apesar de certos esforços ilusórios de paz, um perigo iminente de continuação e alastramento de certos conflitos mundiais. Quando é mais fácil dar dinheiro para o armamento e a guerra do que para a pobreza e a desigualdade, revelamos uma humanidade doente. No entanto, antes e depois da sombra, temos de continuar sempre a procurar a luz.

quinta-feira, 13 de março de 2025

Reflexões Astrológicas 2025: Eclipse Lunar Total (Lua Cheia Virgem-Peixes)

Reflexões Astrológicas

Eclipses 


Eclipse Lunar Total

(Lua Cheia: Virgem-Peixes)

Lisboa, 06h58min, 14/03/2025

 

Lua

Decanato: Mercúrio 

Termos: Marte

Monomoiria: Saturno      

 

Sol

Decanato: Marte

Termos: Marte

Monomoiria: Sol    

 

  O Eclipse Lunar Total de dia 14 de Março ocorre com a Lua no signo de Virgem e com o Sol no de Peixes, com Leão a marcar a hora e num momento quase coincidente com o nascer-do-sol (hora de Lisboa), logo no Segmento de Luz (αἵρεσις) do Sol, estando este acima do horizonte, na I, no lugar do Leme e da Vida (οἴαξ e ζωή), já a Lua está abaixo do horizonte, na VII, no lugar do Poente (δύσις). A Lua encontra-se pois no decanato de Mercúrio, nos termos de Marte e na monomoiria de Saturno, enquanto o Sol encontra-se no decanato e nos termos de Marte e na sua própria monomoiria. Pela preponderância dos termos de entre as três dignidades, é fácil constatar o poder que Marte exerce. Depois da sua retrogradação, Marte despede-se de Caranguejo, numa posição actual cujos aspectos abraçam o eixo luminar umbral (trígono ao Sol e sextil à Lua).

  A questão dos eixos é bastante evidente neste tema ao vermos entrelaçados o eixo luminar, o do Dragão da Lua e o do horizonte. A sombra do eclipse deita-se sobre estes eixos restringindo os seus sentidos, as suas potencialidades radicais. É também significativo o facto do eixo luminar e nodal se encontrar agora nos mesmos signos, o que não acontecera nos dois eclipses lunares de 2024. O eixo Virgem-Peixes, ou seja, o eixo de integração torna-se agora assombrado. A sombra tolhe pois a integração da parte no todo, deixando que o obscurecimento dracôntico recaia sobre o sentido da parte e o valor da totalidade.  

  Epicuro, num dos seus fragmentos, diz-nos o seguinte: “Nunca pretendi agradar ao vulgo; daquilo que eu sei o vulgo não gosta, daquilo que o vulgo gosta não quero eu saber.” (fragm. 187 Usener Οὐδέποτε ὠρέχθην τοῖς πολλοῖς ἀρέσκειν. μὲν γὰρ ἐκείνοις ἤρεσκεν, οὐκ ἔμαθον· δʼ ᾔδειν ἐγώ, μακρὰν ν τῆς ἔκείνων αἰσθήσεως. A tradução da minha responsabilidade). A visão da totalidade não é a visão do comum. Esta última pode sim assombrar aquele que procura a totalidade pela via do vulgo. Entre o comum, o valor extraordinário está na unicidade. É, por exemplo, uma experiência cada vez mais rara, por vezes surge apenas uma vez na vida, mas felizes são aqueles que encontraram, no meio da multidão, aquela pessoa que anula tudo o resto, que é a totalidade na unicidade. É uma experiência que transcende o vulgo e que exemplifica nomeadamente a exaltação de Vénus no signo de Peixes. 

  Neste sentido, e utilizando a significação radical do eixo Virgem-Peixes, a totalidade não é uma mera soma de partes, permite que uma parte ganhe a luz de totalidade, vencendo a perda de sentido que existe no vulgo. Pode não ser consensual, mas é a ideia de que a totalidade não provém nem do rebanho, nem da manada, daí a beleza da máxima de Epicuro. As ideias do vulgo são como a sombra do eclipse, estendem-se e alastram-se não pelo seu sentido e valor, mas sim pela sua extensão e permanência. Não é por acaso que a visão da montanha, de Heraclito a Nietzsche, seja uma visão solitária. A sombra quando colocada sobre o eixo Virgem-Peixes impede que a parte siga a luz da totalidade e, por outro lado, a totalidade não chega às partes, não as torna sementes da sua intuição radical. O actual eclipse adquire, desta forma, um sentido profundo nessa significação.

  Com a Lua numa condição pós-poente, conjunta à Caput Draconis, estando esta acima do horizonte, o destino força assim a sua gravidade sobre a luz de cada parte, de cada partícula de estrela. A sombra, com o seu manto, cobre essa luz inata, constrangido o seu potencial de totalidade. Contrariamente, o Sol sobe com o manto umbral, elevando a mensagem da Caput Draconis, da necessidade como razão de ser de tudo o que acontece e como finalidade de tudo o que acontecerá. Os eclipses no eixo Virgem-Peixes têm o valor de ciclo, de eterno retorno, uma vez que, dado a natureza do movimento do Dragão da Lua, iniciou-se um novo ciclo da integração à identidade, ou seja, de novo, retornando, até ao eixo Carneiro-Balança. De acordo com a herança estóica, é uma nova possibilidade de integrar a Alma do Mundo na alma humana, pedindo-se assim uma compreensão da simpatia universal.

  O eclipse lunar de dia 14 terá uma influência temporal, se atentarmos à declinação dos luminares, próxima dos dois meses e meio. Já se observarmos a duração do período umbral e total, excluindo-se o tempo penumbral, o tempo de influência fixar-se-ia entre um mês e cerca de três meses e meio. No entanto, o período até ao eclipse solar de 29 de Março e depois todo o mês de Abril será o mais intenso. Os eclipses lunares trazem um influxo de sombra à relação primordial entre a Lua e a Terra, o que pode levar, como já vimos em diversos momentos, a desastres naturais e, dada a concentração planetária no eixo Virgem-Peixes, os sismos com origem no mar e as erupções vulcânicas com origem semelhante, por exemplo, o vulcão submarino Columbo em Santorini ou Thera, estão potenciados. Por outro lado, os surtos de certas doenças podem também tomar umas proporções maiores, sobretudo quando ligados à vacinação. Por exemplos, os surtos de sarampo, devido a uma diminuição da vacinação por loucura ideológica, podem aumentar, tais como os de outras doenças cujas vacinas tinham tornado o número de casos residuais.

  A influência geográfica do eclipse de dia 14 tem o seu centro no Oceano Pacífico, ao largo das Ilhas Galápagos. O manto umbral e penumbral expandir-se depois pelas Américas, pela Europa e pela África. Nestes dois continentes, o manto penumbral tocará apenas as áreas ocidentais. Segundo as regências geográficas antigas, Vétio Valente (Antologia I, 2) diz-nos que Virgem rege a Mesopotâmia, a Babilónia, a Grécia, a Acaia (Grécia), Creta, Cíclades (Grécia), Peloponeso, Arcádia, Cirene (Líbia), Dória (Grécia), Sicília e Pérsia ou Parsa (Irão). Manílio, por seu lado, afirma que a Jónia (Turquia), a Cária (Turquia), Rodes e a Grécia estão sob a sua influência (Astronomica IV, 763-8).Peixes exerce influência sobre o Eufrates e o Tigre, a Síria, o Mar Vermelho e o Mar Arábico, a Índia, a Média-Pérsia e as regiões circundantes, o rio Borístenes ou Boristene (Dniepre), a Trácia, a Ásia e a Sardenha. Manílio, por seu lado, concede a Peixes o Eufrates, o Tigre e o Mar Vermelho, as terras da Pártia, a Báctria, a Etiópia, a Babilónia, Susa e Nínive (Astronomica IV, 800-6).

  Se compararmos estas áreas de influência com o avanço do manto umbral e penumbral, observamos que as mudanças estão próximas da divisão das placas tectónicas dessa área geográfica, começando na Placa de Nazca, passando pelas várias placas americanas e terminando no início da placa africana e da placa euro-asiática. De um ponto de vista astrológica, os temas dos dois eclipses de Março mais a passagem de Saturno e Neptuno de Peixes para Carneiro vai agravar a acção destrutiva de Gaia. As regências antigas vão colocar o nosso olhar sob a Grécia, a Turquia e a Sardenha, sem que Portugal e Marrocos percam a atenção. O sentido desta análise não é catastrofista, pois foca-se, pelo contrário, na ideia estóica de que o cosmos se renova por conflagração e dilúvio. Estes movimentos da cosmologia de Cleantes, de uma διακόσμησις, e de uma transformação elemental de fogo para ar e de ar para água, não têm um carácter valorativo ou axiológico original, ou seja, não podemos dizer que é bom ou mau. Desta forma, é preciso ver em Gaia vida e morte, criação e destruição, e amá-la de todas as formas, não esquecendo que quanto maior for a agressão humana, maior será a reacção.

  O eclipse lunar de 14 de Março pertence à série Saros 123, sendo o 53º eclipse de um total de 73. É o 23º eclipse dos 25 eclipses totais da série, o que já revela uma maturação da sua proposta significativa. Como já considerámos por diversas vezes, o eclipse inicial serve de matriz de sentido para toda a série. Ora o primeiro eclipse desta série ocorreu a 16 de Agosto de 1087 (Calendário Juliano). A Lua estava em Peixes e o Sol em Virgem, já o Dragão da Lua estendia-se de Aquário (Cauda) a Leão (Caput). Mercúrio e Vénus estavam em Virgem, Marte em Capricórnio, Júpiter em Gémeos e Saturno em Touro. No transaturninos, Úrano estava em Carneiro, Neptuno em Caranguejo e Plutão em Peixes. Nesta data e na hora de Lisboa, Touro marcava a hora e Capricórnio culminava. A série Saros 123 terminará a 8 de Outubro de 2367, com um eclipse no eixo Carneiro-Balança, ou seja, com a Lua em Carneiro e o Sol em Balança.

  O tema do eclipse-matriz apresenta-nos vários indicadores de sentido do eclipse de dia 14. A inversão do eixo luminar face ao actual é assinalável, bem como a relação com o período anterior ao que vivemos, ou seja, com marcadores no eixo Carneiro-Balança. Veja-se, por exemplo, que é neste eixo que termina a série. Na génese, Plutão em Peixes revelava o potencial de transformação, da destruição que antecede o lugar da semente e que assistimos hoje com as presenças astrológicas neste mesmo signo. Já Júpiter em Gémeos, tal como agora, transporta-nos para o valor da dádiva. Estamos nos últimos meses desta posição benéfica, pois, a 9 de Junho, Júpiter ingressará em Caranguejo, trazendo-nos depois outras bênçãos.

  Do ponto vista histórico, aquando do eclipse-matriz, podemos assinalar a morte de Guilherme o Conquistador, o primeiro rei normando de Inglaterra, a 9 de Setembro. Este será sucedido pelo filho, Guilherme, o ruivo, futuro Guilherme II, coroado na Abadia de Westminster. Ora este teve de ser ágil a subir ao trono, pois não havia sido designado formalmente como sucessor. Em Londres, um grande fogo destrói uma parte assinalável da cidade, inclusive a Catedral de São Paulo, que será reconstruída em dimensões bem maiores. Por outro lado, a 16 de Setembro, morre o Papa Vítor III, com apenas um ano de pontificado. Um facto também assinalável neste período é a acção de Rodrigo Díaz de Vivar, conhecido por El Cid, na estabilização da região em torno de Valência que se havia revoltado contra o governante muçulmano Al-Qadir. Este foi um ponto de viragem na guerra entre os espanhóis e os muçulmanos pelo controlo territorial da Península Ibérica. 

  No tema do eclipse lunar de dia 14, estabelecido para a hora de Lisboa, podemos observar que, face ao segmento de luz dominante, tanto os benéficos como os maléficos têm posições muito bem definidas. Por ser um tema em que segmento dominante é o do Sol, o grande maléfico é Marte em Caranguejo que, como já se disse, se une por sextil à Lua em Virgem e por trígono ao Sol em Peixes. Este Marte em Caranguejo une-se por sua vez também em trígono a Saturno em Peixes. A união dos maléficos, mesmo que em trígono e lembrando a lição de Petosíris, teve ser sempre considerada com atenção. Neste caso, a tensão traduz-se como expressão do destino. Se pensarmos que Saturno em Peixes é, por excelência, o Cronos do mito da Idade do Ouro e que Marte em Caranguejo é o jovem deus ou herói sob a protecção da Grande Mãe, podemos ver aqui uma proposta escatológica de sentido. Do mar primordial, a Deusa ressurgirá. Com a tempestade, a humanidade terá de escolher a sua via.

  Paralelamente, o benéfico potenciado pelo segmento de luz, Júpiter em Gémeos, une-se quadrangularmente a cada do um dos planetas e pontos astrológicos colocados no eixo luminar umbral. É como uma dádiva oculta que serve de fiel da balança entre a luz e a sombra. Existe algo de voluntário na ocultação desta bênção, ou seja, ela é visível, mas a humanidade escolhe ignorá-la. Está portanto oculta, mas à vista de todos. A palavra que transforma, que leva consigo o valor do bem é deliberadamente corrompida. A comunicação serve hoje a corrupção de uma dádiva e, seja por esvaziamento ou simplificação, seja por distorção ou malícia, a capacidade de mediar o eu e o outro segundo os dons de Hermes vive hoje tempos sombrios. Se negarmos continuamente essa capacidade e esses dons, a humanidade perde-se e a bestialidade vence.

  Úrano em Touro, ocupando no tema de Lisboa o Lugar da Deusa, vem dar aos dons de Hermes a revolução da Terra. Ao unir-se em sextil ao Sol em Peixes e em trígono à Lua em Virgem vai participar deste manto umbral, concedendo pela sua mensagem as bênçãos do destino. Úrano em Touro vai destruturar os padrões cristalizados e possibilitar um sentido de mudança. Devemos ter também em consideração que, em 2025, Úrano vai ingressar pela primeira vez em Gémeos (7 de Julho), logo o valor da sua presença ao deixar o signo de Touro tornar-se-á mais evidente. O facto de ser encontrar em sextil tanto com Marte em Caranguejo como com Saturno em Peixes acentua o elemento de liberdade sobre os padrões negativos actuais, ou seja, só seguimos as estruturas cristalizadas se quisermos. O pensamento ecológico e a necessidade de uma economia verde, bem como o imperativo da criação de um novo modo de vida, serão cada vez mais evidentes. O sextil com Neptuno contribui para que juntos, Úrano e Neptuno, valorizem e promovam uma outra forma de estar, de estar uns com os outros e estar no mundo, em especial, neste planeta. A Mãe-Terra tende ser uma deusa benévola. No entanto, a quadratura com Plutão em Aquário, ocupando a XII, o Mau Destino (κακν δαίμων), vem relembrar aquilo que os gregos definiam por ὕβρις, a desmedida. A ignorância e os erros, a acção que fere o limite, têm um preço e são a origem de uma reacção, uma que tendemos a desvalorizar.

  No tema do eclipse, e face aos sentidos já enunciados, o facto de Plutão ser o astro mais alto, aquele que se aproxima mais da culminação, traz consigo a significação da máxima ou mote Et in Arcadia ego, traduzida por E a morte também vive na Arcádia. A possibilidade de acolher a morte na bem-aventurança, no lugar idílico da Terra-Mãe, um lugar perdido, serve hoje de elemento de transformação. A finitude torna-se também finalidade. A união por sextil de Plutão em Aquário a Mercúrio e Vénus retrógrada em Carneiro e por trígono a Júpiter em Gémeos partilha esse sentido de morte da semente como dádiva da flor e do fruto. Existe uma acção (Carneiro) e uma mediação (Aquário e Gémeos) nessa condição natural de possibilidade. O fim colhe a bênção da morte, todavia, existe aqui um elemento de vontade, ou seja, temos de ser levados pelo ar como a semente, mas como acolher voluntariamente as profundezas da terra. Para ser a transformação, temos de ser, temos de escolher ser, a morte e o renascimento.

  Mercúrio e Vénus em Carneiro, com a Vénus retrógrada e com Mercúrio prestes a iniciar o seu recuo (15 de Março), promovem o significado da acção reflexa, da recuperação do acto suspenso. Existe uma palavra que regressa, um amor que retorna. É como recuperar a linha na meada, a linha perdida. Nessa via, a acção olha para si mesma e recupera o sentido. Porém, o olhar quadrangular destes a Marte em Caranguejo coloca a tensão no perigo de se perder de origem, de não se ver essa linha perdida e não se recuperar o centro do novelo. Contrariamente, o sextil de Mercúrio e Vénus a Júpiter dão-nos a possibilidade de escolher a acção de chamar o outro, de escolher quem se une e enlaça nesse regresso ao sentido original. É a recuperação da via do bem.

  O Eclipse Lunar Total de 14 de Março, assinalando uma transição entre o ano astrológico de 2024 e o de 2025 e também a mudança no eixo nodal, é um momento de passagem em que o manto umbral firmará a necessidade de integrar o valor de cada parte, de cada partícula de ser, no sentido do todo, na proposta de totalidade. Se somos sombra, sombra vemos, mas se somos luz, só a luz vemos.   

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

Reflexões Astrológicas 2023: Eclipse Lunar Parcial (Lua Cheia Touro-Escorpião)

  Reflexões Astrológicas


Eclipses


Eclipse Lunar Parcial 

(Lua Cheia: Escorpião-Touro)

Lisboa, 21h14min, 28/10/2023

 

Lua

Decanato: Mercúrio

Termos: Vénus

Monomoiria: Marte   

 

Sol

Decanato: Marte

Termos: Marte

Monomoiria: Saturno

 

  O Eclipse Lunar Parcial de dia 28 de Outubro ocorre com a Lua no signo de Touro e o Sol no de Escorpião, com Gémeos a marcar a hora e menos de três horas após o pôr-do-sol (hora de Lisboa), logo no Segmento de Luz (αἵρεσις) da Lua, estando esta acima do horizonte, na XII, no lugar do Mau Espírito ou do Mau Destino (κάκον δαίμων), já o Sol está abaixo do horizonte, na VI, no lugar da Má Fortuna (κάκη τύχη). A Lua encontra-se no decanato de Mercúrio, nos termos de Vénus e monomoiria de Marte, enquanto o Sol encontra-se no decanato de Marte, nos termos de Marte e monomoiria de Saturno. Após o crepúsculo, caída a noite, o eclipse colocará a sua sombra sobre o horizonte e, a partir da Pós-Ascensão, trará consigo o peso do destino.

  Acerca do eixo de lugares (XII-VI) onde este plenilúnio obscurecido se estende, Manílio diz o seguinte: “a porta do trabalho serão: por uma se sobe e pela outra se desce” (Astronomica II, 870: porta laboriis erit: scandendum est atque cadendum). O conceito fundamental que se extrai deste verso é o de labor, de trabalho, que tem aqui o sentido de dificuldade, de esforço, de pena, mas também, inevitavelmente, de desafio. Lembremo-nos, por exemplo, dos trabalhos de Hércules. Ora Virgílio, na Eneida, refere os eclipses solares como labores solis, os trabalhos ou labores do sol (I, 742). Esta é uma ideia preciosa, pois diz-nos que a sombra coloca a luz, seja ela directa (Sol) ou reflectida (Lua), sobre esforço. Desta forma, se o eixo do eclipse lunar cair sobre o eixo da VI-XII este sentido sai reforçado, sobretudo se se conjuga com o sentido negativo ou obscurecido dos conceito de τύχη e δαίμων. A fortuna e o destino são colocados assim, não perante a dualidade dos acontecimentos, mas sob a potencialidade da acção humana e o modo como esta apreende os acontecimentos. Para ascender ou descender, como diz Manílio, a luz terá de passar por esse pórtico penoso onde o seu espectro se sujeita à dificuldade e ao esforço. Os eclipses, face ao estender da sombra a partir da própria luz, são necessariamente tempos de angústia e agrura.

  Nas Meditações, Marco Aurélio diz-nos seguinte: “Abandona-te de boa mente a Cloto; deixa-a tecer a tua vida com os acontecimentos que lhe aprouver.” (IV, 34, trad. J. Maia. Lisboa: Relógio D’Água, 1995). No que aos acontecimentos concerne, a acção humana é determinada pela aceitação do fio das Meras, do destino, todavia, existe liberdade na forma como acolhemos, ou não, a luz e a sombra. O imperador romano continua, afirmando: “Considera de contínuo que o mundo é como um ser único, contendo uma substância única e uma única alma; e que tudo vai desaguar à mesma e única percepção que é a sua; ele tudo realiza por força do mesmo impulso; todas as coisas ao mesmo tempo concorrem para causar o que acontece e que trama cerrada e complicada é o que elas produzem” (IV, 40). Esta causalidade não só é natural como é provida de sentido, de finalidade, contudo, a sua interiorização exige esforço. Para tudo e para cada um, existe um trabalho que lhe é devido. As portas do trabalho são portanto os desafios desta causalidade.  

  As raízes desta ideia atravessam, na Antiguidade, o pensamento filosófico e a astrologia. Já Platão, no Timeu, afirmava que Com efeito, o deus, ao fazer girar em torno do eixo todos os círculos dos astros, como uma espiral, fazia parecer que o movimento era duplo e em sentidos opostos e que o que se afastava mais lentamente do que era mais rápido era o que estava mais perto. Para que houvesse uma medida evidente para a lentidão e para a rapidez com que se cumprissem as oito órbitas, o deus instalou uma luz na segunda órbita a contar da Terra, a que agora chamamos Sol, de modo a que o céu brilhasse ainda mais para todos e que os seres-vivos aos quais isso dissesse respeito participassem do número de modo a ficarem a conhecer a órbita do Mesmo e do Semelhante. Deste modo e por estas razões foram gerados a noite e o dia – o percurso circular uniforme e regular.” (39A-B, Timeu – Crítias, trad. R. Lopes. Coimbra, 2011: Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos). Existe tanto uma diversidade nesta unidade como uma harmonia de opostos que conduz a essa unicidade. Ora é neste ponto que um eclipse e, em especial, um eclipse lunar se torna particularmente significativo.

  A harmonia dos opostos funda-se, numa perspectiva divina, na união da Mãe Divina ao Pai Divino, ou seja, por amor o mundo se criou e por separação assim permaneceu, daí que Tábua de Esmeralda diga que Todas as coisas provêem de uma, por mediação de uma única, assim todas as coisas nasceram desta única realidade por um único processo de adaptação. O seu pai é o Sol; a sua mãe é a Lua.(TH 30, in Hermetica II -The Excerpts of Stobaeus, Papyrus, and Ancient Testimonies in an English Translation with Notes and Introduction., ed. M. D. Litwa, 2018: 315.  Cambridge: Cambridge University Press. A tradução é da minha responsabilidade). Na astrologia, o Sol é o Pai Divino e a Lua a Mãe Divina, são Osíris/Serápis e Ísis. Os antigos astrólogos conservaram sempre esta matriz de sentido. Os eclipses são a sombra que estende junto ao casal. Essa sombra é Set que, embora seja um inimigo, não deixa de ser seu irmão.

  Existe uma afinidade natural entre a luz e a sombra. Ora, para a significação do actual eclipse lunar, esta harmonia dos opostos vai para além do Sol e da Lua, pois a regência domiciliar dos signos do eixo luminar e do Dragão da Lua alimentam esta dicotomia. De um lado, temos a Lua em Touro (Vénus) e a Caput Draconis em Carneiro (Marte) e, do outro, temos o Sol em Escorpião (Marte) e a Cauda Draconis em Balança (Vénus). Sob a égide da luz e da sombra, existe pois uma força cósmica de união e separação, criando e destruindo.

  A influência do eclipse lunar de dia 28 não é das temporalmente mais longas, mas é espacialmente expressiva. Segundo o método ptolemaico, podemos fixar a influência entre um mês e nove dias e quatro meses e catorze dias, isto se considerarmos primeiro a duração do manto umbral e depois a do manto penumbral. Já a técnica que concilia a duração da escuridão do eclipse com o tempo de ascensão dos signos coloca a influência entre um dia e meio e um mês e oito dias. É significativo que duas técnicas com pressupostos diferentes tenham, neste caso, um período de influência tão aproximado. Já a influência espacial coloca o centro do eclipse ao largo do Iémen, entre a costa mais próxima da fronteira com Omã e a ilha de Socotorá (Suqutrah), um paraíso natural pertencente ao Iémen. No entanto, o eclipse tem um manto extenso que cobre o continente africano, europeu e asiático. 

  Quanto às regências espaciais antigas, temos de observar primeiramente as do signo de Touro, pois é onde se encontra a Lua. Segundo Vétio Valente (Antologia I, 2), Touro vai reger as regiões da Média (o actual noroeste do Irão, o Azerbaijão, o Curdistão Iraniano e o Tabaristão ou Mazandarão), da Cítia (Irão, mas também uma área que se estendeu da Bulgária às fronteiras da Rússia, Mongólia e China), do Chipre, da Arábia, da Pérsia e das montanhas do Cáucaso, da Samártia (junto à Média), de África, de Elymais ou Elamais (Cuzistão, província do Irão), de Cartago, da Arménia, da Índia e da Germânia. Para Manílio, Touro rege Cítia, a Ásia (por causa dos Montes Tauro) e a Arábia. (Astronomica, IV, 744-817).

  De seguida, por a Caput Draconis se encontrar num signo diferente, temos de considerar as regências de Carneiro. Vétio Valente (Antologia I, 2) diz-nos que as seguintes regiões pertencem a Carneiro: a Babilónia, Elymais ou Elamais (Cuzistão, província do Irão), a Pérsia, a Palestina e as regiões circundantes, a Arménia, a Trácia, a Capadócia, Susã (cidade antiga, capital do Elão ou Susiana, hoje sudoeste do Irão), o Mar Vermelho e o Mar Negro, o Egipto e o Oceano Índico. Para Manílio, rege o Helesponto (Estreito de Dardanelos), Propontis (Mar de Mármara), a Síria, a Pérsia e o Egipto (Astronomica, IV, 744-817). Embora com menor influência, o lugar do Sol também é significativo e Valente diz-nos que Escorpião rege a Metagonitis ou Numídia (Norte de África, Argélia e Tunísia), a Mauritânia, a Getúlia (Norte de África, Argélia e Tunísia), a Síria, Comagena (Ásia Menor), a Capadócia, Itália, Cartago, Líbia, Amom (Jordânia), Sicília, Espanha e Roma. Já para Manílio Escorpião rege Cartago, a Líbia, o Egipto, Cirene, a Itália e a Sardenha (Astronomica IV, 777-82).

  O eclipse lunar actual pertence à série Saros 146 que se iniciou a 11 de Julho de 1843 e que terminará a 29 de Agosto de 3123. É portanto uma série recente que se estende a partir do eixo Capricórnio-Caranguejo até ao eixo Peixes-Virgem. O seu eclipse inaugural, que serve de matriz genetlíaca de sentido, ocorreu com a Lua, a Caput Draconis e Saturno em Capricórnio, o Sol e a Cauda Draconis em Caranguejo, Mercúrio e Vénus em Gémeos, Marte em Sagitário, Júpiter e Neptuno em Aquário e Úrano e Plutão em Carneiro. A conjunção da Lua e Saturno e a quadratura destes a Úrano e Plutão em Carneiro, bem como a conjunção de Júpiter e Neptuno, levou por exemplo à erupção do Monte Etna a 25 de Novembro.

  No mesmo período, destaca-se também o terramoto na ilha Terceira, nos Açores. Por outro lado, a posição de Mercúrio e Vénus favoreceu, por exemplo, a publicação das obras de Charles Dickens, Edgar Allan Poe e Ada Lovelace. Kierkegaard publicou, pouco meses após o eclipse, a obra Temor e Tremor. Os eclipses, face à sua tensão uterina de luz e sombra, tendem a provocar elementos disruptivos. O pensamento e a arte são, por excelências, vectores de transformação, pois nascem do que transcende o comum.

  A relação do eclipse inicial da série Saros 146 com o actual eclipse é particularmente significativa, sobretudo se considerarmos a quadratura entre o eixo nodal do primeiro eclipse e a posição actual dos luminares. Entre os dois temas, a par da quadratura dragontina, os trígonos do Sol e da Lua tornam-se um intenso potencial de sentido. Existe nestes dois eixos zodiacais (Capricórnio-Caranguejo e Touro-Escorpião) uma qualidade, sob os desígnios eclipsais do destino e da necessidade, que é tanto dinâmica como estruturante, conciliando o tempo e o valor. Estendido entre a vida (Touro) e a morte (Escorpião), o valor encontra o seu sentido, mas hoje, coberto pelo manto umbral, o sentido daquilo que tem valor encontra-se difuso, obscurecido pelo peso do erro, da ilusão e do engano, por esta prole que a ignorância humana criou.

  Os tempos que vivemos com guerra, com inflação e especulação, com interesses e corrupção, com populismos e extremismos, ameaçando as democracias e os cidadãos, pervertem o valor da dignidade humana. A ideia de que existem humanos de primeira e de segunda e de que existem povos e terras eleitas são uma clara ameaça a nossa civilização e ao futuro da humanidade. A sombra sobre a Lua, Júpiter e Úrano em Touro pede-nos para repensar o planeta que habitamos e diz-nos que o direito à propriedade não pode pesar mais que o direito à dignidade. O planeta não pode ser um propriedade tem de ser um lar. É preciso repensar os valores do elemento Terra. O grande trígono de Terra, entre os planetas em Touro, já indicados, Plutão em Capricórnio e Vénus em Virgem, convida-nos a essa reflexão, não apenas como exercício espiritual, mas também base de uma nova práxis.     

  Por outro lado, o facto de Saturno em Peixes, conjunto a Neptuno, ser o astro mais alto adensa a gravidade do destino sobre o momento. A concórdia conceptual e espiritual entre as ideias de tempo e de totalidade fazem de Saturno em Peixes, segundo a matriz mitológica do deus romano da agricultura, o mestre do acto de semear, esperar e colher. Caído o manto da sombra, este é o tempo das colheitas, não das trazem os frutos da terra, mas sim das cumprem a consequência da desmedida. O trígono de Saturno e Neptuno em Peixes ao Sol, a Mercúrio e Marte em Escorpião, seguindo a lição de Petosíris de que nem todos os trígonos são bons, nem todas as quadraturas são más, consubstancia a gravidade didáctica do destino enquanto disrupção causal da Providência.

  A ὕβρις representa uma quebra na justa medida das coisas, naquilo que ocorre como é suposto que aconteça. A guerra representa um corte na ordem natural das coisas, pois conduz a uma destruição que não é própria da natureza cíclica de Gaia, mas sim da natureza humana, das suas franquezas. O terrorismo é uma outra face desta desmedida, levando o mal que nos consome ao outro. No entanto, o mito da violação de Alcipe, filha de Ares, por Halirrótico, filho de Posídon, mostra o outro lado de Escorpião, ou seja, a vingança como forma de resistência e reposição da justiça (Figueiredo, R.M. de, 2021, Fragmentos Astrológicos, 126). Este é o mito que está na origem do Areópago. Pela ofensa cometida, Ares mata Halirrótico. Posídon exige o julgamento e a respectiva condenação. No entanto, Ares é absolvido, pois o seu acto foi considerado legítimo. Os tempos que vivemos revelam esse fio ténue entre a vingança e a justiça, entre opressão e resistência.  

  Neste eclipse lunar, a tensão que ocorre no eixo Touro-Escorpião fundamenta o sentido profundo do actual manto umbral, fazendo deste choque entre a vida e a morte, entre criação e destruição, um elemento estruturante. Se considerarmos a relação de aspectos nos elementos Terra e Água (trígono), aqueles que fortalecem este fenómeno astrológico, observamos que, como um pentagrama imperfeito, existe um signo que não é habitado por nenhum planeta. Caranguejo, como signo da origem, torna-se agora um sinal de incompletude e isso é bastante significativo. Falta-nos hoje, por ocultação luminar, uma matriz feminina, lunar, de sentido. O mundo, a humanidade, devido às suas próprias escolhas, vive sem a Mãe Divina e, com o signo de Touro obscurecido, exaltando-se a Lua na sombra, a Terra não consegue ser Mãe.

  A grande maioria das posições e aspectos astrológicos presentes no tema do eclipse lunar já foram analisadas na reflexão do eclipse solar, todavia, é necessário destacar a posição dos maléficos e os seus movimentos futuros, pois, dentro do período de influência do eclipse lunar, Saturno iniciará, a 4 de Novembro o seu movimento directo e Marte ingressará em Sagitário a 24 do mesmo mês. A ligação entre os dois planetas passará do trígono à quadratura, agravando assim o seu carácter maléfico e a sua acção disruptiva. Os próximos meses vão indicar um desafio, um trabalho severo, para a humanidade. As nossas palavras e as nossas acções, mais do que nunca, vão determinar quem somos e para onde vamos. Estamos à beira do abismo.

  O eclipse lunar de dia 18 é o último neste ciclo nodal actual, no eixo de Touro-Escorpião. Passaremos definitivamente para o eixo Carneiro-Balança, deixando o sentido de valor para encontrar-se o sentido de identidade. No entanto, até à primeira época de eclipses de 2024, os eclipses no eixo Touro-Escorpião ainda estarão presentes, perdendo progressivamente a sua influência. O actual eclipse pela sua área geográfica de influência e pelas significações que o tema astrológico introduz vai, por força do destino e da necessidade, mas também pelo efeito da desmedida, trará desastres naturais e humanos. Sem amor e sem sabedoria, a humanidade perder-se-á.