Reflexões Astrológicas
Eclipses
Lua
Decanato: Mercúrio
Termos: Marte
Monomoiria: Saturno
Sol
Decanato: Marte
Termos: Marte
Monomoiria: Sol
O Eclipse Lunar Total de dia 14 de Março
ocorre com a Lua no signo de Virgem e com o Sol no de Peixes, com Leão a marcar
a hora e num momento quase coincidente com o nascer-do-sol (hora de Lisboa),
logo no Segmento de Luz (αἵρεσις) do Sol, estando este acima do
horizonte, na I, no lugar do Leme e da Vida (οἴαξ e ζωή), já a Lua está abaixo do horizonte,
na VII, no lugar do Poente (δύσις). A Lua encontra-se pois no decanato de
Mercúrio, nos termos de Marte e na monomoiria
de Saturno, enquanto o Sol encontra-se no decanato e nos termos de Marte e
na sua própria monomoiria. Pela
preponderância dos termos de entre as três dignidades, é fácil constatar o
poder que Marte exerce. Depois da sua retrogradação, Marte despede-se de
Caranguejo, numa posição actual cujos aspectos abraçam o eixo luminar umbral
(trígono ao Sol e sextil à Lua).
A questão dos eixos é bastante
evidente neste tema ao vermos entrelaçados o eixo luminar, o do Dragão da Lua e
o do horizonte. A sombra do eclipse deita-se sobre estes eixos restringindo os
seus sentidos, as suas potencialidades radicais. É também significativo o facto
do eixo luminar e nodal se encontrar agora nos mesmos signos, o que não
acontecera nos dois eclipses lunares de 2024. O eixo Virgem-Peixes, ou seja, o
eixo de integração torna-se agora assombrado. A sombra tolhe pois a integração
da parte no todo, deixando que o obscurecimento dracôntico recaia sobre o
sentido da parte e o valor da totalidade.
Epicuro, num dos seus fragmentos, diz-nos o seguinte: “Nunca pretendi agradar ao vulgo; daquilo que
eu sei o vulgo não gosta, daquilo que o vulgo gosta não quero eu saber.” (fragm. 187 Usener Οὐδέποτε ὠρέχθην τοῖς πολλοῖς ἀρέσκειν. ἃ μὲν γὰρ ἐκείνοις ἤρεσκεν, οὐκ ἔμαθον· ἅ δʼ ᾔδειν ἐγώ, μακρὰν ἦν τῆς ἔκείνων αἰσθήσεως. A tradução da minha
responsabilidade). A visão da totalidade não é
a visão do comum. Esta última pode sim assombrar aquele que procura a
totalidade pela via do vulgo. Entre o comum, o valor extraordinário está na
unicidade. É, por exemplo, uma experiência cada vez mais rara, por vezes surge apenas
uma vez na vida, mas felizes são aqueles que encontraram, no meio da multidão,
aquela pessoa que anula tudo o resto, que é a totalidade na unicidade. É uma
experiência que transcende o vulgo e que exemplifica nomeadamente a exaltação
de Vénus no signo de Peixes.
Neste sentido, e utilizando a significação radical do
eixo Virgem-Peixes, a totalidade não é uma mera soma de partes, permite que uma
parte ganhe a luz de totalidade, vencendo a perda de sentido que existe no
vulgo. Pode não ser consensual, mas é a ideia de que a totalidade não provém
nem do rebanho, nem da manada, daí a beleza da máxima de Epicuro. As ideias do
vulgo são como a sombra do eclipse, estendem-se e alastram-se não pelo seu
sentido e valor, mas sim pela sua extensão e permanência. Não é por acaso que a
visão da montanha, de Heraclito a Nietzsche, seja uma visão solitária. A sombra
quando colocada sobre o eixo Virgem-Peixes impede que a parte siga a luz da
totalidade e, por outro lado, a totalidade não chega às partes, não as torna sementes
da sua intuição radical. O actual eclipse adquire, desta forma, um sentido
profundo nessa significação.
Com a Lua numa condição pós-poente, conjunta à Caput Draconis, estando esta acima do
horizonte, o destino força assim a sua gravidade sobre a luz de cada parte, de
cada partícula de estrela. A sombra, com o seu manto, cobre essa luz inata,
constrangido o seu potencial de totalidade. Contrariamente, o Sol sobe com o
manto umbral, elevando a mensagem da Caput
Draconis, da necessidade como razão de ser de tudo o que acontece e como
finalidade de tudo o que acontecerá. Os eclipses no eixo Virgem-Peixes têm o
valor de ciclo, de eterno retorno, uma vez que, dado a natureza do movimento do
Dragão da Lua, iniciou-se um novo ciclo da integração à identidade, ou seja, de
novo, retornando, até ao eixo Carneiro-Balança. De acordo com a herança
estóica, é uma nova possibilidade de integrar a Alma do Mundo na alma humana,
pedindo-se assim uma compreensão da simpatia universal.
O eclipse lunar de dia 14 terá uma influência temporal,
se atentarmos à declinação dos luminares, próxima dos dois meses e meio. Já se
observarmos a duração do período umbral e total, excluindo-se o tempo
penumbral, o tempo de influência fixar-se-ia entre um mês e cerca de três meses
e meio. No entanto, o período até ao eclipse solar de 29 de Março e depois todo
o mês de Abril será o mais intenso. Os eclipses lunares trazem um influxo de
sombra à relação primordial entre a Lua e a Terra, o que pode levar, como já vimos
em diversos momentos, a desastres naturais e, dada a concentração planetária no
eixo Virgem-Peixes, os sismos com origem no mar e as erupções vulcânicas com
origem semelhante, por exemplo, o vulcão submarino Columbo em Santorini ou
Thera, estão potenciados. Por outro lado, os surtos de certas doenças podem
também tomar umas proporções maiores, sobretudo quando ligados à vacinação. Por
exemplos, os surtos de sarampo, devido a uma diminuição da vacinação por
loucura ideológica, podem aumentar, tais como os de outras doenças cujas vacinas
tinham tornado o número de casos residuais.
A influência geográfica do eclipse de dia 14 tem o seu
centro no Oceano Pacífico, ao largo das Ilhas Galápagos. O manto umbral e
penumbral expandir-se depois pelas Américas, pela Europa e pela África. Nestes
dois continentes, o manto penumbral tocará apenas as áreas ocidentais. Segundo
as regências geográficas antigas, Vétio Valente (Antologia I, 2) diz-nos que Virgem rege a
Mesopotâmia, a Babilónia, a Grécia, a Acaia (Grécia), Creta, Cíclades (Grécia),
Peloponeso, Arcádia, Cirene (Líbia), Dória (Grécia), Sicília e Pérsia ou Parsa
(Irão). Manílio, por seu lado, afirma que a Jónia (Turquia), a Cária (Turquia),
Rodes e a Grécia estão sob a sua influência (Astronomica IV, 763-8). Já Peixes exerce influência sobre o
Eufrates e o Tigre, a Síria, o Mar Vermelho e o Mar Arábico, a Índia, a
Média-Pérsia e as regiões circundantes, o rio Borístenes ou Boristene
(Dniepre), a Trácia, a Ásia e a Sardenha. Manílio, por seu lado, concede a
Peixes o Eufrates, o Tigre e o Mar Vermelho, as terras da Pártia, a Báctria, a
Etiópia, a Babilónia, Susa e Nínive (Astronomica IV, 800-6).
Se compararmos estas áreas de
influência com o avanço do manto umbral e penumbral, observamos que as mudanças
estão próximas da divisão das placas tectónicas dessa área geográfica,
começando na Placa de Nazca, passando pelas várias placas americanas e
terminando no início da placa africana e da placa euro-asiática. De um ponto de
vista astrológica, os temas dos dois eclipses de Março mais a passagem de
Saturno e Neptuno de Peixes para Carneiro vai agravar a acção destrutiva de
Gaia. As regências antigas vão colocar o nosso olhar sob a Grécia, a Turquia e
a Sardenha, sem que Portugal e Marrocos percam a atenção. O sentido desta
análise não é catastrofista, pois foca-se, pelo contrário, na ideia estóica de que
o cosmos se renova por conflagração e dilúvio. Estes movimentos da cosmologia
de Cleantes, de uma διακόσμησις, e de uma transformação elemental de
fogo para ar e de ar para água, não têm um carácter valorativo ou axiológico
original, ou seja, não podemos dizer que é bom ou mau. Desta forma, é preciso
ver em Gaia vida e morte, criação e destruição, e amá-la de todas as formas,
não esquecendo que quanto maior for a agressão humana, maior será a reacção.
O eclipse lunar de 14 de Março
pertence à série Saros 123, sendo o 53º eclipse de um total de 73. É o 23º
eclipse dos 25 eclipses totais da série, o que já revela uma maturação da sua
proposta significativa. Como já considerámos por diversas vezes, o eclipse
inicial serve de matriz de sentido para toda a série. Ora o primeiro eclipse
desta série ocorreu a 16 de Agosto de 1087 (Calendário Juliano). A Lua estava
em Peixes e o Sol em Virgem, já o Dragão da Lua estendia-se de Aquário (Cauda) a Leão (Caput). Mercúrio e Vénus estavam em Virgem, Marte em Capricórnio,
Júpiter em Gémeos e Saturno em Touro. No transaturninos, Úrano estava em Carneiro,
Neptuno em Caranguejo e Plutão em Peixes. Nesta data e na hora de Lisboa, Touro
marcava a hora e Capricórnio culminava. A série Saros 123 terminará a 8 de
Outubro de 2367, com um eclipse no eixo Carneiro-Balança, ou seja, com a Lua em
Carneiro e o Sol em Balança.
O tema do eclipse-matriz apresenta-nos vários indicadores
de sentido do eclipse de dia 14. A inversão do eixo luminar face ao actual é
assinalável, bem como a relação com o período anterior ao que vivemos, ou seja,
com marcadores no eixo Carneiro-Balança. Veja-se, por exemplo, que é neste eixo
que termina a série. Na génese, Plutão em Peixes revelava o potencial de
transformação, da destruição que antecede o lugar da semente e que assistimos hoje
com as presenças astrológicas neste mesmo signo. Já Júpiter em Gémeos, tal como
agora, transporta-nos para o valor da dádiva. Estamos nos últimos meses desta posição
benéfica, pois, a 9 de Junho, Júpiter ingressará em Caranguejo, trazendo-nos
depois outras bênçãos.
Do ponto vista histórico, aquando do eclipse-matriz,
podemos assinalar a morte de Guilherme o Conquistador, o primeiro rei normando
de Inglaterra, a 9 de Setembro. Este será sucedido pelo filho, Guilherme, o
ruivo, futuro Guilherme II, coroado na Abadia de Westminster. Ora este teve de
ser ágil a subir ao trono, pois não havia sido designado formalmente como sucessor.
Em Londres, um grande fogo destrói uma parte assinalável da cidade, inclusive a
Catedral de São Paulo, que será reconstruída em dimensões bem maiores. Por
outro lado, a 16 de Setembro, morre o Papa Vítor III, com apenas um ano de
pontificado. Um facto também assinalável neste período é a acção de Rodrigo
Díaz de Vivar, conhecido por El Cid, na estabilização da região em torno de
Valência que se havia revoltado contra o governante muçulmano Al-Qadir. Este
foi um ponto de viragem na guerra entre os espanhóis e os muçulmanos pelo
controlo territorial da Península Ibérica.
No tema do eclipse lunar de dia 14, estabelecido para a
hora de Lisboa, podemos observar que, face ao segmento de luz dominante, tanto
os benéficos como os maléficos têm posições muito bem definidas. Por ser um
tema em que segmento dominante é o do Sol, o grande maléfico é Marte em
Caranguejo que, como já se disse, se une por sextil à Lua em Virgem e por
trígono ao Sol em Peixes. Este Marte em Caranguejo une-se por sua vez também em
trígono a Saturno em Peixes. A união dos maléficos, mesmo que em trígono e
lembrando a lição de Petosíris, teve ser sempre considerada com atenção. Neste
caso, a tensão traduz-se como expressão do destino. Se pensarmos que Saturno em
Peixes é, por excelência, o Cronos do mito da Idade do Ouro e que Marte em
Caranguejo é o jovem deus ou herói sob a protecção da Grande Mãe, podemos ver
aqui uma proposta escatológica de sentido. Do mar primordial, a Deusa
ressurgirá. Com a tempestade, a humanidade terá de escolher a sua via.
Paralelamente, o benéfico potenciado pelo segmento de
luz, Júpiter em Gémeos, une-se quadrangularmente a cada do um dos planetas e
pontos astrológicos colocados no eixo luminar umbral. É como uma dádiva oculta
que serve de fiel da balança entre a luz e a sombra. Existe algo de voluntário
na ocultação desta bênção, ou seja, ela é visível, mas a humanidade escolhe
ignorá-la. Está portanto oculta, mas à vista de todos. A palavra que
transforma, que leva consigo o valor do bem é deliberadamente corrompida. A
comunicação serve hoje a corrupção de uma dádiva e, seja por esvaziamento ou
simplificação, seja por distorção ou malícia, a capacidade de mediar o eu e o
outro segundo os dons de Hermes vive hoje tempos sombrios. Se negarmos
continuamente essa capacidade e esses dons, a humanidade perde-se e a
bestialidade vence.
Úrano em Touro, ocupando no tema de Lisboa o Lugar da
Deusa, vem dar aos dons de Hermes a revolução da Terra. Ao unir-se em sextil ao
Sol em Peixes e em trígono à Lua em Virgem vai participar deste manto umbral,
concedendo pela sua mensagem as bênçãos do destino. Úrano em Touro vai
destruturar os padrões cristalizados e possibilitar um sentido de mudança.
Devemos ter também em consideração que, em 2025, Úrano vai ingressar pela
primeira vez em Gémeos (7 de Julho), logo o valor da sua presença ao deixar o
signo de Touro tornar-se-á mais evidente. O facto de ser encontrar em sextil
tanto com Marte em Caranguejo como com Saturno em Peixes acentua o elemento de
liberdade sobre os padrões negativos actuais, ou seja, só seguimos as
estruturas cristalizadas se quisermos. O pensamento ecológico e a necessidade
de uma economia verde, bem como o imperativo da criação de um novo modo de
vida, serão cada vez mais evidentes. O sextil com Neptuno contribui para que
juntos, Úrano e Neptuno, valorizem e promovam uma outra forma de estar, de
estar uns com os outros e estar no mundo, em especial, neste planeta. A
Mãe-Terra tende ser uma deusa benévola. No entanto, a quadratura com Plutão em
Aquário, ocupando a XII, o Mau Destino (κακόν
δαίμων), vem relembrar aquilo que os
gregos definiam por ὕβρις, a desmedida. A ignorância e os erros, a acção que fere o
limite, têm um preço e são a origem de uma reacção, uma que tendemos a
desvalorizar.
No
tema do eclipse, e face aos sentidos já enunciados, o facto de Plutão ser o
astro mais alto, aquele que se aproxima mais da culminação, traz consigo a
significação da máxima ou mote Et in
Arcadia ego, traduzida por E a morte
também vive na Arcádia. A possibilidade de acolher a morte na
bem-aventurança, no lugar idílico da Terra-Mãe, um lugar perdido, serve hoje de
elemento de transformação. A finitude torna-se também finalidade. A união por
sextil de Plutão em Aquário a Mercúrio e Vénus retrógrada em Carneiro e por
trígono a Júpiter em Gémeos partilha esse sentido de morte da semente como
dádiva da flor e do fruto. Existe uma acção (Carneiro) e uma mediação (Aquário
e Gémeos) nessa condição natural de possibilidade. O fim colhe a bênção da
morte, todavia, existe aqui um elemento de vontade, ou seja, temos de ser
levados pelo ar como a semente, mas como acolher voluntariamente as profundezas
da terra. Para ser a transformação, temos de ser, temos de escolher ser, a
morte e o renascimento.
Mercúrio e Vénus em Carneiro, com a Vénus retrógrada e
com Mercúrio prestes a iniciar o seu recuo (15 de Março), promovem o
significado da acção reflexa, da recuperação do acto suspenso. Existe uma
palavra que regressa, um amor que retorna. É como recuperar a linha na meada, a
linha perdida. Nessa via, a acção olha para si mesma e recupera o sentido.
Porém, o olhar quadrangular destes a Marte em Caranguejo coloca a tensão no
perigo de se perder de origem, de não se ver essa linha perdida e não se recuperar
o centro do novelo. Contrariamente, o sextil de Mercúrio e Vénus a Júpiter
dão-nos a possibilidade de escolher a acção de chamar o outro, de escolher quem
se une e enlaça nesse regresso ao sentido original. É a recuperação da via do bem.
O Eclipse Lunar Total de 14 de Março, assinalando uma transição entre o ano astrológico de 2024 e o de 2025 e também a mudança no eixo nodal, é um momento de passagem em que o manto umbral firmará a necessidade de integrar o valor de cada parte, de cada partícula de ser, no sentido do todo, na proposta de totalidade. Se somos sombra, sombra vemos, mas se somos luz, só a luz vemos.