Mostrar mensagens com a etiqueta Lua. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Lua. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 13 de março de 2025

Reflexões Astrológicas 2025: Eclipse Lunar Total (Lua Cheia Virgem-Peixes)

Reflexões Astrológicas

Eclipses 


Eclipse Lunar Total

(Lua Cheia: Virgem-Peixes)

Lisboa, 06h58min, 14/03/2025

 

Lua

Decanato: Mercúrio 

Termos: Marte

Monomoiria: Saturno      

 

Sol

Decanato: Marte

Termos: Marte

Monomoiria: Sol    

 

  O Eclipse Lunar Total de dia 14 de Março ocorre com a Lua no signo de Virgem e com o Sol no de Peixes, com Leão a marcar a hora e num momento quase coincidente com o nascer-do-sol (hora de Lisboa), logo no Segmento de Luz (αἵρεσις) do Sol, estando este acima do horizonte, na I, no lugar do Leme e da Vida (οἴαξ e ζωή), já a Lua está abaixo do horizonte, na VII, no lugar do Poente (δύσις). A Lua encontra-se pois no decanato de Mercúrio, nos termos de Marte e na monomoiria de Saturno, enquanto o Sol encontra-se no decanato e nos termos de Marte e na sua própria monomoiria. Pela preponderância dos termos de entre as três dignidades, é fácil constatar o poder que Marte exerce. Depois da sua retrogradação, Marte despede-se de Caranguejo, numa posição actual cujos aspectos abraçam o eixo luminar umbral (trígono ao Sol e sextil à Lua).

  A questão dos eixos é bastante evidente neste tema ao vermos entrelaçados o eixo luminar, o do Dragão da Lua e o do horizonte. A sombra do eclipse deita-se sobre estes eixos restringindo os seus sentidos, as suas potencialidades radicais. É também significativo o facto do eixo luminar e nodal se encontrar agora nos mesmos signos, o que não acontecera nos dois eclipses lunares de 2024. O eixo Virgem-Peixes, ou seja, o eixo de integração torna-se agora assombrado. A sombra tolhe pois a integração da parte no todo, deixando que o obscurecimento dracôntico recaia sobre o sentido da parte e o valor da totalidade.  

  Epicuro, num dos seus fragmentos, diz-nos o seguinte: “Nunca pretendi agradar ao vulgo; daquilo que eu sei o vulgo não gosta, daquilo que o vulgo gosta não quero eu saber.” (fragm. 187 Usener Οὐδέποτε ὠρέχθην τοῖς πολλοῖς ἀρέσκειν. μὲν γὰρ ἐκείνοις ἤρεσκεν, οὐκ ἔμαθον· δʼ ᾔδειν ἐγώ, μακρὰν ν τῆς ἔκείνων αἰσθήσεως. A tradução da minha responsabilidade). A visão da totalidade não é a visão do comum. Esta última pode sim assombrar aquele que procura a totalidade pela via do vulgo. Entre o comum, o valor extraordinário está na unicidade. É, por exemplo, uma experiência cada vez mais rara, por vezes surge apenas uma vez na vida, mas felizes são aqueles que encontraram, no meio da multidão, aquela pessoa que anula tudo o resto, que é a totalidade na unicidade. É uma experiência que transcende o vulgo e que exemplifica nomeadamente a exaltação de Vénus no signo de Peixes. 

  Neste sentido, e utilizando a significação radical do eixo Virgem-Peixes, a totalidade não é uma mera soma de partes, permite que uma parte ganhe a luz de totalidade, vencendo a perda de sentido que existe no vulgo. Pode não ser consensual, mas é a ideia de que a totalidade não provém nem do rebanho, nem da manada, daí a beleza da máxima de Epicuro. As ideias do vulgo são como a sombra do eclipse, estendem-se e alastram-se não pelo seu sentido e valor, mas sim pela sua extensão e permanência. Não é por acaso que a visão da montanha, de Heraclito a Nietzsche, seja uma visão solitária. A sombra quando colocada sobre o eixo Virgem-Peixes impede que a parte siga a luz da totalidade e, por outro lado, a totalidade não chega às partes, não as torna sementes da sua intuição radical. O actual eclipse adquire, desta forma, um sentido profundo nessa significação.

  Com a Lua numa condição pós-poente, conjunta à Caput Draconis, estando esta acima do horizonte, o destino força assim a sua gravidade sobre a luz de cada parte, de cada partícula de estrela. A sombra, com o seu manto, cobre essa luz inata, constrangido o seu potencial de totalidade. Contrariamente, o Sol sobe com o manto umbral, elevando a mensagem da Caput Draconis, da necessidade como razão de ser de tudo o que acontece e como finalidade de tudo o que acontecerá. Os eclipses no eixo Virgem-Peixes têm o valor de ciclo, de eterno retorno, uma vez que, dado a natureza do movimento do Dragão da Lua, iniciou-se um novo ciclo da integração à identidade, ou seja, de novo, retornando, até ao eixo Carneiro-Balança. De acordo com a herança estóica, é uma nova possibilidade de integrar a Alma do Mundo na alma humana, pedindo-se assim uma compreensão da simpatia universal.

  O eclipse lunar de dia 14 terá uma influência temporal, se atentarmos à declinação dos luminares, próxima dos dois meses e meio. Já se observarmos a duração do período umbral e total, excluindo-se o tempo penumbral, o tempo de influência fixar-se-ia entre um mês e cerca de três meses e meio. No entanto, o período até ao eclipse solar de 29 de Março e depois todo o mês de Abril será o mais intenso. Os eclipses lunares trazem um influxo de sombra à relação primordial entre a Lua e a Terra, o que pode levar, como já vimos em diversos momentos, a desastres naturais e, dada a concentração planetária no eixo Virgem-Peixes, os sismos com origem no mar e as erupções vulcânicas com origem semelhante, por exemplo, o vulcão submarino Columbo em Santorini ou Thera, estão potenciados. Por outro lado, os surtos de certas doenças podem também tomar umas proporções maiores, sobretudo quando ligados à vacinação. Por exemplos, os surtos de sarampo, devido a uma diminuição da vacinação por loucura ideológica, podem aumentar, tais como os de outras doenças cujas vacinas tinham tornado o número de casos residuais.

  A influência geográfica do eclipse de dia 14 tem o seu centro no Oceano Pacífico, ao largo das Ilhas Galápagos. O manto umbral e penumbral expandir-se depois pelas Américas, pela Europa e pela África. Nestes dois continentes, o manto penumbral tocará apenas as áreas ocidentais. Segundo as regências geográficas antigas, Vétio Valente (Antologia I, 2) diz-nos que Virgem rege a Mesopotâmia, a Babilónia, a Grécia, a Acaia (Grécia), Creta, Cíclades (Grécia), Peloponeso, Arcádia, Cirene (Líbia), Dória (Grécia), Sicília e Pérsia ou Parsa (Irão). Manílio, por seu lado, afirma que a Jónia (Turquia), a Cária (Turquia), Rodes e a Grécia estão sob a sua influência (Astronomica IV, 763-8).Peixes exerce influência sobre o Eufrates e o Tigre, a Síria, o Mar Vermelho e o Mar Arábico, a Índia, a Média-Pérsia e as regiões circundantes, o rio Borístenes ou Boristene (Dniepre), a Trácia, a Ásia e a Sardenha. Manílio, por seu lado, concede a Peixes o Eufrates, o Tigre e o Mar Vermelho, as terras da Pártia, a Báctria, a Etiópia, a Babilónia, Susa e Nínive (Astronomica IV, 800-6).

  Se compararmos estas áreas de influência com o avanço do manto umbral e penumbral, observamos que as mudanças estão próximas da divisão das placas tectónicas dessa área geográfica, começando na Placa de Nazca, passando pelas várias placas americanas e terminando no início da placa africana e da placa euro-asiática. De um ponto de vista astrológica, os temas dos dois eclipses de Março mais a passagem de Saturno e Neptuno de Peixes para Carneiro vai agravar a acção destrutiva de Gaia. As regências antigas vão colocar o nosso olhar sob a Grécia, a Turquia e a Sardenha, sem que Portugal e Marrocos percam a atenção. O sentido desta análise não é catastrofista, pois foca-se, pelo contrário, na ideia estóica de que o cosmos se renova por conflagração e dilúvio. Estes movimentos da cosmologia de Cleantes, de uma διακόσμησις, e de uma transformação elemental de fogo para ar e de ar para água, não têm um carácter valorativo ou axiológico original, ou seja, não podemos dizer que é bom ou mau. Desta forma, é preciso ver em Gaia vida e morte, criação e destruição, e amá-la de todas as formas, não esquecendo que quanto maior for a agressão humana, maior será a reacção.

  O eclipse lunar de 14 de Março pertence à série Saros 123, sendo o 53º eclipse de um total de 73. É o 23º eclipse dos 25 eclipses totais da série, o que já revela uma maturação da sua proposta significativa. Como já considerámos por diversas vezes, o eclipse inicial serve de matriz de sentido para toda a série. Ora o primeiro eclipse desta série ocorreu a 16 de Agosto de 1087 (Calendário Juliano). A Lua estava em Peixes e o Sol em Virgem, já o Dragão da Lua estendia-se de Aquário (Cauda) a Leão (Caput). Mercúrio e Vénus estavam em Virgem, Marte em Capricórnio, Júpiter em Gémeos e Saturno em Touro. No transaturninos, Úrano estava em Carneiro, Neptuno em Caranguejo e Plutão em Peixes. Nesta data e na hora de Lisboa, Touro marcava a hora e Capricórnio culminava. A série Saros 123 terminará a 8 de Outubro de 2367, com um eclipse no eixo Carneiro-Balança, ou seja, com a Lua em Carneiro e o Sol em Balança.

  O tema do eclipse-matriz apresenta-nos vários indicadores de sentido do eclipse de dia 14. A inversão do eixo luminar face ao actual é assinalável, bem como a relação com o período anterior ao que vivemos, ou seja, com marcadores no eixo Carneiro-Balança. Veja-se, por exemplo, que é neste eixo que termina a série. Na génese, Plutão em Peixes revelava o potencial de transformação, da destruição que antecede o lugar da semente e que assistimos hoje com as presenças astrológicas neste mesmo signo. Já Júpiter em Gémeos, tal como agora, transporta-nos para o valor da dádiva. Estamos nos últimos meses desta posição benéfica, pois, a 9 de Junho, Júpiter ingressará em Caranguejo, trazendo-nos depois outras bênçãos.

  Do ponto vista histórico, aquando do eclipse-matriz, podemos assinalar a morte de Guilherme o Conquistador, o primeiro rei normando de Inglaterra, a 9 de Setembro. Este será sucedido pelo filho, Guilherme, o ruivo, futuro Guilherme II, coroado na Abadia de Westminster. Ora este teve de ser ágil a subir ao trono, pois não havia sido designado formalmente como sucessor. Em Londres, um grande fogo destrói uma parte assinalável da cidade, inclusive a Catedral de São Paulo, que será reconstruída em dimensões bem maiores. Por outro lado, a 16 de Setembro, morre o Papa Vítor III, com apenas um ano de pontificado. Um facto também assinalável neste período é a acção de Rodrigo Díaz de Vivar, conhecido por El Cid, na estabilização da região em torno de Valência que se havia revoltado contra o governante muçulmano Al-Qadir. Este foi um ponto de viragem na guerra entre os espanhóis e os muçulmanos pelo controlo territorial da Península Ibérica. 

  No tema do eclipse lunar de dia 14, estabelecido para a hora de Lisboa, podemos observar que, face ao segmento de luz dominante, tanto os benéficos como os maléficos têm posições muito bem definidas. Por ser um tema em que segmento dominante é o do Sol, o grande maléfico é Marte em Caranguejo que, como já se disse, se une por sextil à Lua em Virgem e por trígono ao Sol em Peixes. Este Marte em Caranguejo une-se por sua vez também em trígono a Saturno em Peixes. A união dos maléficos, mesmo que em trígono e lembrando a lição de Petosíris, teve ser sempre considerada com atenção. Neste caso, a tensão traduz-se como expressão do destino. Se pensarmos que Saturno em Peixes é, por excelência, o Cronos do mito da Idade do Ouro e que Marte em Caranguejo é o jovem deus ou herói sob a protecção da Grande Mãe, podemos ver aqui uma proposta escatológica de sentido. Do mar primordial, a Deusa ressurgirá. Com a tempestade, a humanidade terá de escolher a sua via.

  Paralelamente, o benéfico potenciado pelo segmento de luz, Júpiter em Gémeos, une-se quadrangularmente a cada do um dos planetas e pontos astrológicos colocados no eixo luminar umbral. É como uma dádiva oculta que serve de fiel da balança entre a luz e a sombra. Existe algo de voluntário na ocultação desta bênção, ou seja, ela é visível, mas a humanidade escolhe ignorá-la. Está portanto oculta, mas à vista de todos. A palavra que transforma, que leva consigo o valor do bem é deliberadamente corrompida. A comunicação serve hoje a corrupção de uma dádiva e, seja por esvaziamento ou simplificação, seja por distorção ou malícia, a capacidade de mediar o eu e o outro segundo os dons de Hermes vive hoje tempos sombrios. Se negarmos continuamente essa capacidade e esses dons, a humanidade perde-se e a bestialidade vence.

  Úrano em Touro, ocupando no tema de Lisboa o Lugar da Deusa, vem dar aos dons de Hermes a revolução da Terra. Ao unir-se em sextil ao Sol em Peixes e em trígono à Lua em Virgem vai participar deste manto umbral, concedendo pela sua mensagem as bênçãos do destino. Úrano em Touro vai destruturar os padrões cristalizados e possibilitar um sentido de mudança. Devemos ter também em consideração que, em 2025, Úrano vai ingressar pela primeira vez em Gémeos (7 de Julho), logo o valor da sua presença ao deixar o signo de Touro tornar-se-á mais evidente. O facto de ser encontrar em sextil tanto com Marte em Caranguejo como com Saturno em Peixes acentua o elemento de liberdade sobre os padrões negativos actuais, ou seja, só seguimos as estruturas cristalizadas se quisermos. O pensamento ecológico e a necessidade de uma economia verde, bem como o imperativo da criação de um novo modo de vida, serão cada vez mais evidentes. O sextil com Neptuno contribui para que juntos, Úrano e Neptuno, valorizem e promovam uma outra forma de estar, de estar uns com os outros e estar no mundo, em especial, neste planeta. A Mãe-Terra tende ser uma deusa benévola. No entanto, a quadratura com Plutão em Aquário, ocupando a XII, o Mau Destino (κακν δαίμων), vem relembrar aquilo que os gregos definiam por ὕβρις, a desmedida. A ignorância e os erros, a acção que fere o limite, têm um preço e são a origem de uma reacção, uma que tendemos a desvalorizar.

  No tema do eclipse, e face aos sentidos já enunciados, o facto de Plutão ser o astro mais alto, aquele que se aproxima mais da culminação, traz consigo a significação da máxima ou mote Et in Arcadia ego, traduzida por E a morte também vive na Arcádia. A possibilidade de acolher a morte na bem-aventurança, no lugar idílico da Terra-Mãe, um lugar perdido, serve hoje de elemento de transformação. A finitude torna-se também finalidade. A união por sextil de Plutão em Aquário a Mercúrio e Vénus retrógrada em Carneiro e por trígono a Júpiter em Gémeos partilha esse sentido de morte da semente como dádiva da flor e do fruto. Existe uma acção (Carneiro) e uma mediação (Aquário e Gémeos) nessa condição natural de possibilidade. O fim colhe a bênção da morte, todavia, existe aqui um elemento de vontade, ou seja, temos de ser levados pelo ar como a semente, mas como acolher voluntariamente as profundezas da terra. Para ser a transformação, temos de ser, temos de escolher ser, a morte e o renascimento.

  Mercúrio e Vénus em Carneiro, com a Vénus retrógrada e com Mercúrio prestes a iniciar o seu recuo (15 de Março), promovem o significado da acção reflexa, da recuperação do acto suspenso. Existe uma palavra que regressa, um amor que retorna. É como recuperar a linha na meada, a linha perdida. Nessa via, a acção olha para si mesma e recupera o sentido. Porém, o olhar quadrangular destes a Marte em Caranguejo coloca a tensão no perigo de se perder de origem, de não se ver essa linha perdida e não se recuperar o centro do novelo. Contrariamente, o sextil de Mercúrio e Vénus a Júpiter dão-nos a possibilidade de escolher a acção de chamar o outro, de escolher quem se une e enlaça nesse regresso ao sentido original. É a recuperação da via do bem.

  O Eclipse Lunar Total de 14 de Março, assinalando uma transição entre o ano astrológico de 2024 e o de 2025 e também a mudança no eixo nodal, é um momento de passagem em que o manto umbral firmará a necessidade de integrar o valor de cada parte, de cada partícula de ser, no sentido do todo, na proposta de totalidade. Se somos sombra, sombra vemos, mas se somos luz, só a luz vemos.   

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Reflexões Astrológicas 2023: Lua Nova em Sagitário

  Reflexões Astrológicas


Lunações


Lua Nova em Sagitário

Lisboa, 23h32min, 12/12/2023

 

Sol-Lua

Decanato: Lua  

Termos: Mercúrio

Monomoiria: Saturno        

 

  A Lua Nova de Dezembro ocorre no signo de Sagitário, estando Virgem a marcar a hora para o tema de Lisboa e, deste modo, na IV, no lugar sob a terra (ὑπόγειον), no decanato de Lua, nos termos de Mercúrio e na monomoiria de Saturno. A sizígia dá-se pois abaixo do horizonte e cerca de cinco horas e meia após o pôr-do-sol. Os luminares, estando a Lua no seu próprio segmento, mas num signo masculino, encontram-se num caminho de queda, rumo à anti-culminação. Esta é a primeira via luminar do novilúnio, a que se inicia com a sizígia em queda e termina, passando por Marte, no Ponto Subterrâneo. Agora em Sagitário, e seguindo uma ideia já explorada, a luz não desce do céu, nasce no abismo, no útero de Gaia, do Sagrado Feminino. Nesta constelação, essa luz é a sabedoria.

  Acerca do quarto lugar, Manílio afirma o seguinte: “Contudo, a que completa a via de retorno sob a aurora/ e que, de volta, com as forças exaustas, o arco/ escala, abraça por fim os derradeiros anos,/ a luz desvanecente da vida e a trémula velhice.” (Astronomica II, 852 – 855, ed. Goold, 1985, 56: at, qua perficitur cursus redeunte sub ortum,/ tarda supinatum lassatis viribus arcum/ ascendens, seros demum complectitur anos/ labentemque diem vitae tremulamque senectam. As traduções de Manílio são da minha responsabilidade). Este lugar, segundo o mesmo autor antigo, tem a regência de Saturno, uma que é diferente da de Trasilo e da tradição hermética, que coloca Saturno na XII. A significação de Manílio é fundamentalmente astro-mitológica, pois esta é a herança que vê Cronos/Saturno aprisionado por Zeus/Júpiter no Tártaro, no abismo da terra. A velhice e a morte tornam-se assim um elemento de sentido, daí que Manílio diga que é “de onde o Sol foge tombado e para o Tártaro se extende (II, 794, ed. Goold, 1985, 54: unde fugit mundus praecepsque in Tartara tendit). O quadrante que se alonga do Poente (VII) ao Subterrâneo (IV) encerra em si uma qualidade de morte, mas também um carácter temporal profundo, pois ambos criam uma ponte de sentido entre o passado, a morte e o além.

  Neste novilúnio, a luz está assim guardada no abismo da realidade, no útero da história. Por outro lado, por a Lua Nova ocorrer no signo de Sagitário, a sabedoria torna-se a potência dessa mesma luz. Esta atribuição pode ser entendida primeiramente pelo facto de Sagitário ser o domicílio de Júpiter. Do ponto de vista astro-mitológico, lembremo-nos que o poder de Zeus/Júpiter é fortalecido quando este absorve Métis, a deusa da sabedoria. Ora o eixo Gémeos-Sagitário que coloca, por via da regência domiciliar, Mercúrio e Júpiter a olharem-se de frente firma, desta forma, a palavra ou a razão diante da sabedoria. O conhecimento das coisas torna-se pois a sabedoria da coisa única. Este é o ar que se torna fogo. O elemento estruturante torna-se dinâmico, podendo este produzir a verdadeira mudança. Neste sentido, a seta de Sagitário tem um sentido literal, pois a sabedoria tem sempre um valor de propósito e finalidade.

  A respeito desta senda, Cícero, em Luculo (Academica priori), diz-nos o seguinte: “Pela minha parte, como não costumo coibir-me de discutir com todos quantos [têm por certo aquilo que julgam saber], não posso também recusar-me a admitir que haja quem não esteja de acordo comigo. A minha causa agora é fácil, já que não pretendo mais do que procurar a verdade com todo o interesse e esforço, mas sem facciosismo. A obtenção do conhecimento é sempre dificuldade por toda a espécie de obstáculos, uma mesma insuficiência decorre tanto da obscuridade das próprias matérias como da debilidade da nossa capacidade de julgar, pelo que não é sem razão, que os mais antigos e cultos filósofos duvidaram da possibilidade de encontrar o que procuravam; mas mesmo assim nem eles desistiram, nem eu abandonarei, cansado, o meu empenho em investigar a verdade.” (III, 7 in Textos Filosóficos, 2 ed., trad. J. A. Segurado e Campos, 99-100. Lisboa, 2018: Fundação Calouste Gulbenkian). A sabedoria e a verdade são ideias jupiterianas cujo valor se reacende neste novilúnio. Esta é uma luz de transformação e uma via que, embora exigente e incerta, nos conduz à felicidade.

  Em Gémeos, a discussão das ideias leva-nos ao conhecimento, mas, em Sagitário, coloca-nos no caminho da sabedoria. Se, de um ponto de vista da astrologia helenística, observarmos as atribuições planetárias dos termos egípcios, podemos constatar que só os signos regidos por Júpiter é que concedem mais de metade dos seus graus aos benéficos (Sagitário 17 graus e Peixes 16 graus). As dádivas da sabedoria e da verdade estão aqui particularmente activas. Séneca, na obra Dos Benefícios, alerta-nos para aceitação do destino como via de sabedoria e verdade quando afirma o seguinte: “Considera também isto, nada que seja externo obriga os deuses, pelo contrário, a sua vontade é eterna e segue a sua própria lei. O que eles estabeleceram não muda. Não parece que vão fazer algo que não queiram. Seja o que for que não possam parar, eles querem que continue a mover-se; eles nunca se arrependem do plano que inicialmente conceberam. Certo é que não podem ficar parados, nem afastar-se para o lado, mas a única razão é que a sua própria força os prende ao seu propósito; permanecem firmes, não por fraqueza, mas porque não lhes agrada afastar-se da perfeição, e porque assim se devem mover. Desta forma, naquela primeira dispensação, quando o cosmos se formou, eles até tiveram em consideração o nosso lote, e preocuparam-se com a humanidade. Por isso, não se pode dizer que percorram os céus e desenvolvam a sua obra apenas para si próprios, pois também nós fazemos parte dessa obra.(De Beneficiis 6.23. Seneca: How to Give - An Ancient Guide to Giving and Receiving, selected, translated, and introduced by J. S. Romm, 198-201. Princeton and Oxford, 2020: Princeton University Press. A tradução do latim é da minha responsabilidade).

  A inevitabilidade, a lei de Adrasteia, é uma realidade que conjuga os sentidos profundos de Júpiter e Saturno. Ora Saturno em Peixes, acompanhado por Neptuno, junto ao Poente vem trazer, uma vez mais, a aceitação do destino como integração da totalidade. A visão da montanha não é nem determinista, nem fatalista, é sim a compreensão serena de que tudo o que está em movimento concorda consigo mesmo. A necessidade é a mãe do destino, da fortuna. No entanto, o individualismo exacerbado teme esta visão, pois pensa que retira a liberdade, mas ignora que a visão da montanha é a forma suprema de liberdade.

  A co-presença de Marte com a sizígia, pelo segundo novilúnio consecutivo, e agora fora do domicílio e do segmento, adensa uma certa rebeldia ou desejo de mudança. Esta conjunção não pede para se abrir os horizontes, exige. Os jovens activistas climáticos estão aqui incluídos e, na verdade, o problema não está nem no facto de não terem razão, porque têm, nem na forma dos protestos, porque também com palmadinhas nas costas não se muda nada, a questão está no olhar dos outros que simplesmente não quer ver. Existem, porém, alguns elementos disruptivos. Primeiro, o Júpiter de Sagitário que deseja afirmar, enquanto o de Peixes procura estabilizar, não faz qualquer aspecto à sizígia, permanece desligado, passivo, face ao encontro dos luminares. Depois, a quadratura de Saturno e Neptuno em Peixes vai mostrar que esta mudança não será rápida, pois existe uma resistência estrutural à transformação dos modos de vida.

  Por outro lado, por não existir nenhum astro no quadrante da ascensão à culminação, a atenção foca-se nos planetas que, embora altos, já estão em queda, ou seja, em Úrano e Júpiter em Touro, na IX, mas sobretudo na via luminar mais abrangente em que se insere a sizígia. O caminho que se estende hexagonalmente de Plutão em Capricórnio a Vénus em Escorpião contempla aquilo que Antero de Quental inscreveu no soneto “Mors-Amor” e que já foi abordado noutras reflexões. A união simbólica, conceptual e existencial do Amor e da Morte possui um carácter transformador essencial e que, visceralmente, reduz a realidade ao que é fundamental. Esta via, passando pelo Tártaro profundo, confere pois uma proposta de refundação.    

  Paralelamente, existem outros dois aspectos que se relacionam com esta via luminar. A oposição ou diâmetro, como diriam os antigos astrólogos, entre Vénus em Escorpião e Júpiter (e Úrano) em Touro marca uma época quase solsticial e natalícia. Ora, seguindo a lição de Petosíris, uma oposição ou quadratura entre os benéficos nunca é má, excepto se acompanhada pelos maléficos, o que não é o caso. Assim, esta ligação de Vénus a Júpiter tem um efeito de dádiva e de uma atribuição positiva de valor ao eixo de sentido que se estende entre a vida e a morte.

  Por outro lado, o sextil entre Vénus em Escorpião e Saturno e Neptuno em Peixes vai colocar o amor e a morte na roda da necessidade. Face ao destino, o amor possuirá ou deverá possuir um carácter universal. Este é a teia que une tudo e todas numa simpatia universal, na Anima Mundi. Na astrologia esotérica, Neptuno tem um tom similar ao de Vénus, mas numa oitava acima, ou seja, na música das esferas, o amor ecoa pelo universo. Na verdade, para o astrólogo tradicional que siga o saber antigo e hermética, esta é somente uma expressão da exaltação de Vénus em Peixes. Júpiter e Úrano em Touro acompanham, também em sextil, a ligação da Vénus de Escorpião a Saturno e Neptuno em Peixes. Porém, a retrogradação de ambos vai restringir ainda a efectivação das suas bênçãos. Elas surgem no horizonte, mas não se tornam acção. Podemos ver aqui a situação dos civis palestinianos. Todos, com bom senso, vêem nos actos praticados crimes de guerra, crimes contra humanidade, todavia, face ao genocídio, permanecem imóveis, incapazes de produzir justiça e mudança.

  Neste novilúnio, os aspectos ao corpo do Dragão da Lua são igualmente significativos. No eixo da identidade, aquele que une Carneiro a Balança, a unidade e a dualidade, ou seja, o conheci de si como via de alteridade, surgem outros desafios. Sob a égide do destino e da necessidade, o eu enfrenta o mistério do outro. A luz da sabedoria, como proposta do novilúnio, une agora, de forma bem-aventurada (trígono à Caput e sextil à Cauda), a sizígia e Marte em Sagitário ao Dragão da Lua. O guardião da Lua, este dragão que cinge a luz, permitindo o seu reconhecimento, pois só depois de ver a sombra é que se reconhece a luz, vai conceder-nos, como bênção no caminho, a dádiva da sabedoria. No entanto, o gesto de seguir a sabedoria, ao oferecer a passagem do destino à necessidade, implica sempre um acto voluntário. É preciso ter iniciativa. Depois do despojamento de si, a sabedoria mantém aqueles que a seguem para além da fortuna.

  Por fim, é preciso referir a posição de Mercúrio (e Plutão) em Capricórnio. No signo da finalidade, onde agora o poder da palavra e o poder da morte se expressam, a fortuna outorga uma possibilidade de futuro. Esta potência, anunciando a época zodiacal seguinte, tem um valor de dádiva (trígono a Júpiter e Úrano e sextil a Vénus, Saturno e Neptuno). Porém, esta bênção de futuro, alertando-nos que a palavra tem um poder transformador (conjunção Mercúrio-Plutão), colide com o Dragão da Lua e com as exigências autocentradas da identidade (quadratura ao eixo nodal). O poder da palavra pode elevar-nos pois ao cume da montanha ao afundar-nos nas profundezas da nossa desmedida. A desinformação, o discurso único e a intolerância podem assim minar este potencial de dádiva.  

  O novilúnio de Dezembro, o último de 2023, transporta-nos, desta forma, para a mensagem de Sagitário e para a luz da sabedoria. A imagética, mesmo com reservas mitológicas, coloca-nos perante um centauro erguido, lançando a sua seta, e revela-nos que o elemento de passagem entre o animal e o humano acontece apenas devido à luz da sabedoria. Devemos assim segui-la e deixar que transforme as nossas vidas.

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Lunário: Dezembro de 2023


Cálculos para a Hora de Lisboa e com software Planet Dance.


Pode descarregar aqui o ficheiro em pdf com todas os Lunários de 2023.

Use o qr code.



Conheça também no nosso blogue a tabela mensal da Lua Fora de Curso

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Lua Fora de Curso: Dezembro de 2023


Lua Fora de Curso


Dezembro de 2023


A Lua, como qualquer Planeta, quando está Vazio ou Fora de Curso, preserva um princípio de continuidade cíclica, embora desconectada, mas perde o sentido de direcção. Existe uma ausência de finalidade, apesar de existir movimento.

Os períodos em que a Lua está Fora de Curso devem ser tidos em consideração para melhor se decidir o tempo de agir ou pensar, de falar ou calar. Em termos empresariais, este não é, por exemplo, o momento certo para fechar um acordo ou negócio, para lançar um produto ou para marcar uma reunião. 

A Lua Fora de Curso não é, porém, o único aspecto a ter em consideração, mas é um dado fundamental para a astrologia aplicada às empresas.

 

Cálculos para a Hora de Lisboa e com software Planet Dance.



Pode descarregar aqui o ficheiro em pdf com todas as Luas Fora de Curso de 2023.

Use o qr code.

segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Reflexões Astrológicas 2023: Lua Nova em Escorpião

 Reflexões Astrológicas


Lunações


Lua Nova em Escorpião

Lisboa, 09h27min, 13/11/2023

 

Sol-Lua

Decanato: Vénus

Termos: Júpiter

Monomoiria: Júpiter       

 

  A Lua Nova de Novembro ocorre no signo de Escorpião, estando Sagitário a marcar a hora para o tema de Lisboa e, deste modo, na XII, no lugar do Mau Destino ou Mau Espírito (κάκον δαίμων), no decanato de Vénus, nos termos e na monomoiria de Júpiter. A sizígia dá-se pois acima do horizonte e a cerca de uma hora e quarenta e cinco minutos após o nascer-do-sol. Os luminares, estando a Lua fora do seu próprio segmento, mas num signo feminino, encontram-se num caminho de ascensão, rumo à culminação. A posição pós-ascendente, sem qualquer ligação ao Leme do tema, encerra sempre um mistério de sombra e de promessa de luz que pode confundir o seu sentido. A XII, segundo o entendimento antigo, não é, apesar de tudo, uma posição tal maligna como a VI, pois, por estar no início da escalada celeste, confere à luz o potencial de superação de si, o ânimo de quem sobe a montanha. Neste lugar, a sizígia em Escorpião é, mais do que qualquer outro, a luz que vence o destino e a morte.

  O novilúnio de Novembro, em Escorpião, no signo que encerra em si o sentido profundo da morte e no lugar do Mau Destino ou Mau Espírito, conjuga necessariamente as significações de luz e sombra, de valor da morte e de superação do destino. A XII, com o qualificativo κάκον para δαίμων, confere um valor negativo, seja pela sua própria natureza, seja pela sua dinâmica relacional, a um conceito ou entidade que reúne em si a divindade, o espírito ou génio e o destino. O facto da XII não se relacionar por envio de raios ou aspecto com a I revela a dificuldade da vida, do carácter ou do temperamento (leia-se personalidade ou consciência da vida) em aceitar as vicissitudes do destino que contrariam a vontade, ou seja, os acontecimentos, tanto internos como externos. Uma relação com a XI ou com XII implica sempre esta interacção existencial com o destino, a necessidade e a providência. O conceito de δαίμων traduz esta relação entre a vida e o destino, mas obriga sempre a um processo de mediação, neste caso, espiritual ou divina.

  Ao colocar-se a luz perante a morte e o destino, o que, para Escorpião, conduz a um desafio, o conceito filosófico de ἐγκράτεια adquire um valor de revelação, pois cada um terá de se tornar mestre de si mesmo. Séneca, nas Cartas a Lúcilio, diz-nos que “O cúmulo da felicidade consiste numa perfeita segurança, numa inabalável confiança no seu valor; ora o que as fazem é arranjar preocupação, é percorrer a traiçoeira estrada da vida ajoujadas de pesados fardos. Deste modo vão-se sempre distanciando cada vez mais da meta que procuram alcançar, e quanto mais se esforçam por atingi-la mais se embaraçam e retrocedem. Sucede-lhes como a alguém que corra num labirinto: a própria velocidade faz perder o norte.(Ep.44.7; Cartas a Lucílio, 2ª ed,, trad. J. A. Segurado e Campos. Lisboa, 2004: Fundação Calouste Gulbenkian). O destino que, na sua própria urdidura, a astrologia apresenta tão bem obriga, e essa é agora a lição de Escorpião, a uma reflexão radical e que, em certo momento, será estruturante. Hermann Broch diz-nos, parafraseando, que o conhecimento da morte é o conhecimento da vida e que o conhecimento da vida é o conhecimento da morte, ora esta é a mensagem do eixo Touro-Escorpião cujo sentido profundo é o do valor.

  Para Séneca, Nenhuma meditação é tão imprescindível como a meditação da morte(Cartas a Lucílio, Ep.70.18). Segundo uma interpretação astro-mitológica, Escorpião vai radicar o seu sentido na morte tanto no trabalho de Hércules em que este luta com Hidra de Lerna como na morte de Órion, picado por um escorpião, e que com este sobe ao céu. No entanto, tal como já foi referido na reflexão do anterior, a do eclipse lunar, é o mito da violação de Alcipe que melhor constrói a natureza primordial de Escorpião (Figueiredo, R.M. de, 2021, Fragmentos Astrológicos, 126). Quer se queira, quer não, o mito é a raiz de sentido da astrologia, pois, sem a metáfora mitológica do céu, a linguagem astrológica não existiria.  

  Na acrópole de Atenas, perto do templo de Asclépio, onde existia uma fonte, Halirrótico, filho de Posídon, avançou sobre Alcipe, filha de Ares, e tentou violar a jovem. Irado e com desejo de vingança, Ares mata Halirrótico. Este é o mito que está na origem do tribunal do Areópago, pois Posídon exige o julgamento de Ares diante dos doze deuses. Contudo, Ares é ilibado, pois a sua acção foi considerada justificada (cf. Pausânias, Descrição da Grécia, I.21.4 e Apolodoro, Biblioteca, III,14.2). Séneca, na tragédia Hércules Furioso, resume o mito ao dizer, no desfecho da peça, o seguinte: “A minha terra [Atenas] espera por ti. / Ali Gradivus [Ares] libertou as mãos do sangue derramado / e entregou-as de novo às armas.” (1341-3: Nostra te tellus manet./ illic sohitam caede Gradivus manum/ restituit armis: ilia te, Alcide, vocat,/ facere innoceutes terra quae superos solet. A tradução é da minha responsabilidade).  

  O mito da violação de Alcipe, esta facilmente identificada com o signo de Touro, oposto a Escorpião (Ares), resume a posição zodiacal deste signo, pois a deusa da justiça (Virgem), a acção da justiça (Balança), Posídon (Peixes), aquele que pede ou clama por justiça, e o outro signo regido por Ares, aquele que recebe as armas de novo, Carneiro, são como uma síntese simbólica e mimética deste sentido primordial astro-mitológico. No actual novilúnio, esta dinâmica da acção de Marte que é própria de Escorpião congrega-se nestes filamentos incandescentes de vingança, resistência e justiça. Hoje, mais do que nunca, esta teia força o peso do destino, a gravidade dos acontecimentos. No entanto, todas as potências planetárias, Marte inclusive, estão sujeitas, na sua expressão humana, à ἐγκράτεια de que se falava. Ao tornarmo-nos mestres de nós mesmo, colocamos a luz (a sizígia) sobre a morte e sobre o destino.

  A união da astrologia ao estoicismo, tal como existiu na Antiguidade, permite que se adquira essa mestria, daí que Séneca diga que “Uma alma que contempla a verdade, que atribui valor às coisas de acordo com a natureza e não com a opinião comum, que se insere na totalidade do universo e observa contemplativamente todos os seus movimentos, que dá igual atenção ao pensamento e à acção, uma alma grande e energética, invicta por igual na desventura e na felicidade e em caso algum se submetendo à fortuna, uma alma situada acima de todas as contingências e eventualidades, uma alma sã, íntegra, imperturbável, intrépida, uma alma que força alguma pode vergar, que circunstância alguma pode envaidecer ou deprimir – uma tal alma é a própria personificação da virtude.(Ep.66.6; Cartas a Lucílio, 2ª ed,, trad. J. A. Segurado e Campos. Lisboa, 2004: Fundação Calouste Gulbenkian). A virtude é a luz que serve de candeia, erguida quando tudo aquilo que se vê é morte. Esse é o verdadeiro livre-arbítrio: a escolha da luz. Tudo o resto é destino, necessidade e providência.

  O novilúnio de Novembro, no signo de Escorpião, estando Marte sobre os raios da sizígia, tal como estará também na Lua Nova de Dezembro, em Sagitário, será determinado por um ímpeto bélico que fará com que a luz passe de fogo a incêndio. O humano demasiado humano, relembrando Nietzsche, tende a tornar as coisas humanas pequenas, insignificantes diante da subida da montanha. Marte, neste momento, podia ser uma força disruptiva de transformação que iria conceder mais humanidade ao humano, mas isso não está a acontecer. O eixo das portas do trabalho, ou seja, o da VI e da XII, mantem, à semelhança do anterior eclipse lunar, o seu peso sobre a realidade.

  Se observarmos o tema do actual novilúnio, podemos constatar que o único astro acima deste eixo, aquele que é também o astro mais alto, é Vénus em Balança. Na verdade, o caminho luminar da sizígia estende-se de Mercúrio em Sagitário, já pós-ascendente, até Vénus em Balança (sextil). Da sabedoria da palavra ao desejo de harmonia, a luz quer trilhar a senda que, na morte, funda a vida. Esta é, porém, uma via ascendente com a vontade de alcançar o cume, mas colide tanto com a força da morte e da destruição (Marte em Escorpião) como com o peso do destino e da dificuldade de o conciliar com a identidade (Cauda Draconis em Balança). A ligação entre Mercúrio em Sagitário e o Dragão da Lua (trígono à Caput em Carneiro e à Cauda em Balança) serve de proposta de sentido, de meio de integração do destino, na identidade, no reconhecimento de si e do outro.

  A oposição entre a sizígia e Marte em Escorpião e Júpiter e Úrano em Touro adquire também, nesta Lua Nova, um valor estrutural. Júpiter é o grande benéfico do tema do novilúnio e que vai determinar as suas bênçãos. No entanto, este olhar de frente e diametral (oposição) entre a dádiva e a luz, abeirada pela guerra, tem um valor potenciador, em que o grande benéfico colide com o grande maléfico do tema (Marte). A relação entre Marte e Júpiter é complexa, pois, por serem de segmentos de luz diferentes, expressam-se de forma distinta, mas a sua expressão não deixa de ser activa. Se Marte possuir uma dignificação mais intensa, então a acção destruidora será maior. O actual posicionamento de Júpiter serve, porém, de alerta, dado que ali encontraremos a necessidade de verdade e justiça. Nesta Lua Nova, vamos encontrar ainda muitos dos elementos interpretativos que foram abordados no Eclipse Lunar de 28 de Outubro.

  Face ao tema do eclipse lunar, Saturno em Peixes encontra-se agora directo, avançando no seu périplo pelo signo da totalidade. A sua acção tornou-se efectiva. A necessidade pede agora completude, expandindo a sua força, a sua gravidade, de fim de ciclo. Saturno em Peixes, por este ser o domicílio de Júpiter e a exaltação de Vénus, ganha necessariamente um certo sentido de dádiva, de bênção. A conjunção com Neptuno obriga a dar à percepção do destino e da realidade a imaginação criativa e a compaixão, esta enquanto expressão universal da empatia, todavia, existe neste processo de união pisciana de Saturno e Neptuno uma enorme resistência. A humanidade caminhou em sentido contrário, daí que o trígono entre estes e a sizígia e Marte em Escorpião queira trazer a luz que vence a morte a este desafio absurdamente humano.

  A ὕβρις (desmedida), que é própria do humano, leva a que Saturno tenha de repor a justa-medida das coisas. O sextil de Saturno e Neptuno em Peixes a Júpiter e Úrano em Touro e a Plutão em Capricórnio, e deste último à sizígia e a Marte em Escorpião, vão impor a ordem natural das coisas, segundo as leis de Gaia, mas também segundo os ditames da Necessidade e a força de Adrasteia, do Inevitável. Esta é hoje a colheita do humano, ceifada por uma humanidade ausente. A situação humanitária em Gaza e a incapacidade de olharmos, como um todo, para a dignidade humana fazem com que, para onde quer que olhemos, tudo o que vemos é morte, é tudo destruição. A quadratura de Mercúrio em Sagitário a Saturno e Neptuno em Peixes transporta-nos para a incapacidade de dar forma à palavra que descreve a alma do mundo, ao discurso primordial que conduz, de novo, até à Sabedoria, até à Mãe Divina.   

  No novilúnio de Novembro, no signo de Escorpião, somos inevitavelmente confrontados com o nosso pior inimigo e, numa escala mundial, esse inimigo é o próprio humano. A natureza humana e a sua incapacidade de se congregar numa verdadeira humanidade fazem com que a morte que participa da vida e a destruição que circunda a criação excedam os seus limites. A luz guardada, cingindo numa única chama o feminino e o masculino, surge pois na mestria de nós de mesmos. A ἐγκράτεια de que se falou, bem como os princípios filosóficos do estoicismo, servem a astrologia hoje tal como serviram na Antiguidade. Essa é uma luz sobre o tempo.

terça-feira, 31 de outubro de 2023

Lua Fora de Curso: Novembro de 2023

Lua Fora de Curso


Novembro de 2023


A Lua, como qualquer Planeta, quando está Vazio ou Fora de Curso, preserva um princípio de continuidade cíclica, embora desconectada, mas perde o sentido de direcção. Existe uma ausência de finalidade, apesar de existir movimento.

Os períodos em que a Lua está Fora de Curso devem ser tidos em consideração para melhor se decidir o tempo de agir ou pensar, de falar ou calar. Em termos empresariais, este não é, por exemplo, o momento certo para fechar um acordo ou negócio, para lançar um produto ou para marcar uma reunião. 

A Lua Fora de Curso não é, porém, o único aspecto a ter em consideração, mas é um dado fundamental para a astrologia aplicada às empresas.

 

Cálculos para a Hora de Lisboa e com software Planet Dance.



Pode descarregar aqui o ficheiro em pdf com todas as Luas Fora de Curso de 2023.

Use o qr code.