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sábado, 24 de maio de 2025

Reflexões Astrológicas 2025: Saturno em Carneiro

 Reflexões Astrológicas

Ingressos



Saturno em Carneiro

Lisboa, 04h36min, 25/05/2025

 

Saturno

Decanato: Marte

Termos: Júpiter

Monomoiria: Marte    

 


   O primeiro ingresso de Saturno em Carneiro ocorre com o próprio Carneiro a marcar a hora (hora de Lisboa) e, deste modo, na I, no Leme (οἴαξ) do tema, no decanato de Marte, nos termos de Júpiter e na monomoiria de Marte. O ingresso dá-se assim acima do horizonte, com Saturno em pós-ascensão, e cerca de uma hora e trinta minutos antes do nascer-do-sol. Saturno encontra-se, deste modo, desfavorecido por estar no segmento de luz da Lua (αἵρεσις) e acima do horizonte.

   Se considerarmos a ordem vernal, percebemos logo a importância deste ingresso, pois inicia-se aqui um novo ciclo de cerca de vinte e nove anos e meio. Já se distribuirmos as posições planetárias de acordo com o Thema Mundi, Saturno fixará então o seu ingresso na X, no lugar da Práxis (πράξις), logo definir-se-á como particularmente activa a influência deste planeta no signo de Carneiro, um signo que, por ser o domicílio de Marte e a exaltação do Sol, já encerra esta significação.

   Pelas razões já abordadas na reflexão acerca do ano astrológico de 2025, Saturno terá uma influência bastante expressiva ao longo do ano. Desta forma, devemos sistematizar as efemérides de Saturno ao longo dos próximos tempos. O primeiro ingresso de Saturno em Carneiro ocorre de 25 de Maio a 1 Setembro. Nesta última data, Saturno voltará a Peixes, onde ficará até 14 de Fevereiro de 2026. O segundo ingresso em Carneiro será até ao fim da sua passagem por este signo, ou seja, de 14 de Fevereiro de 2026 a 13 de Abril de 2028, quando ingressará em Touro. Vão observar-se também três períodos de retrogradação: o primeiro, de 13 de Julho a 28 de Dezembro de 2025; o segundo, de 26 de Julho a 10 de Dezembro de 2026; e o terceiro e último, de 9 de Agosto de 24 de Dezembro de 2027. Pela sua duração, o primeiro ingresso vai ter o sentido de promotor de um valor primordial, mas também de integração da mensagem do ingresso anterior. Terá de existir, neste ano de 2025 e também no início de 2026, uma ponte de significação entre os sentidos de Saturno em Peixes e os de Saturno em Carneiro.

   Por outro lado, a observação das dignidades permite uma consideração radical do valor desta passagem. Em Peixes, Saturno ocupa o domicílio de Júpiter e a exaltação de Vénus, encontra-se portanto no lugar dos benéficos. Em Carneiro, vai ocupar o domicílio de Marte e a exaltação do Sol. A união dos maléficos tende a ser sempre nociva, sobretudo se pensarmos que um pertence ao segmento de luz do Sol (Saturno) e o outro, ao da Lua (Marte). Já quando se dá a união dos benéficos a complementaridade Sol-Lua torna-se um sinal de dádiva, de harmonia dos opostos. O facto dos primeiros termos de Carneiro pertencerem a Júpiter é também aqui significativo, sobretudo pela análise do ingresso de Júpiter em Caranguejo. Em síntese, com o ingresso de Saturno em Carneiro, devemos observar com maior atenção, tendo em conta as dignidades essenciais, as suas relações com Marte (domicílio, primeiro decanato e primeira monomoiria), com o Sol (exaltação, sobretudo quando chegar ao grau 19) e com Júpiter (primeiros termos).

   No caso do Sol, este encontra-se em Gémeos aquando do ingresso de Saturno em Carneiro, unindo-se assim hexagonalmente aos seus raios. Depois, convém atentar-se ao seu grau de exaltação, tanto quando Saturno chegar a ele como quando for a vez do Sol. No entanto, é entre Marte e Júpiter que se deve fixar mais atentamente um olhar crítico. Ora Marte encontra-se em Leão, olhando triangularmente para Saturno em Carneiro. Porém, lembrando a lição de Petosíris acerca dos trígonos e das quadraturas, um trígono entre os maléficos continua a encerrar um carácter maligno. A força primária sobre o poder (Marte em Leão) une-se à acção retributiva (Saturno em Carneiro). Se pensarmos nos actuais ímpetos de militarização da sociedade, alimentando as indústrias da guerra, e a acção belicosa e desgovernada de muitos líderes, este aspecto pode agudizar essas pulsões. Já Júpiter encontra-se em Gémeos, olhando hexagonalmente tanto para Marte como para Saturno e fomentando alguns esforços isolados de moderação e diálogo, todavia, será só por alguns dias.

   A 9 de Junho, Júpiter ingressará em Caranguejo e aí formará uma quadratura a Saturno. Por se fixar então a angularidade em signos cardinais, este aspecto vai tornar a relação entre Júpiter e Saturno ainda mais estrutural. Os movimentos nacionalistas e xenófobos vão formar uma maior tensão face às migrações voluntárias e involuntárias e face a um mundo global que querem negar. Júpiter em Caranguejo vai mostrar que paralelemente à pátria existe uma mátria por cumprir. A mátria acolhe todos, pois é uma expressão da Mãe-Terra, da Grande Mãe. Já a pátria constrói-se na vontade de poder que pode ser sempre corrompida. No entanto, quando Saturno regressar a Peixes, formará um trígono a Júpiter em Caranguejo. Este será um momento em que a esperança na humanidade poderá ganhar um novo fôlego, um que alimente os combates futuros. A conjunção dos benéficos, Vénus e Júpiter, em Caranguejo, a 12 de Agosto, será o momento mais elevado dessa expressão. O Divino Feminino concederá a bênção da origem, da Grande Mãe, a quem a reconheça como derradeira esperança da humanidade. A barca de Ísis cruzará de novo o firmamento.

   De um outro modo, a relação de Saturno em Carneiro com os transaturninos também merece alguma distinção. Dos três planetas, será Neptuno aquele que exercerá uma maior influência. A conjunção de Saturno e Neptuno em Carneiro marcará os próximos meses e anos. Esta tende a ser uma co-presença que irá favorecer a confusão das coisas que define o nosso tempo. Saturno cristaliza e Neptuno dispersa são movimentos contrários. Um cria montanhas, o outro, oceanos. Em termos mundanos, esta conjunção vai favorecer o crescimento da extrema-direita, da intolerância, da xenofobia e do racismo, da misoginia e das ilusões que favorecem a guerra e o belicismo. Nesta união, não se encontrará qualquer esforço de harmonia e paz. A mensagem de que serão as armas a nossa salvação continuará a prevalecer e para isso é necessário encontrar inimigos em todo o lado. A ideia de inimigo comum serve sempre de impulsionador de totalitarismos.

   A relação de Saturno com Úrano só acontecerá quando este ingressar em Gémeos, formando assim uma troca hexagonal de raios. Esta ligação favorecerá uma transformação das estruturas e organizações através da tecnologia e da inovação. No entanto, por ser um sextil, os resultados transportam consigo a ambivalência da natureza humana. A inteligência artificial pode ser utilizada como meio de transformar o acesso à informação ou pode corrompê-la, manipulando-a e esvaziando a sua profundidade. A inteligência torna-se um meio e não uma finalidade. De um outro modo, mas complementarmente, o sextil de Saturno (e Neptuno) em Carneiro a Plutão em Aquário vai tentar equilibrar a ponte de sentido entre um dever de acção e a morte no humano. O narcisismo colectivo dos nossos dias tende a esquecer o memento mori dos estóicos, a sabedoria de que sabermos que vamos morrer. Essa é uma fragilidade poderosa.

   Depois de analisadas as principais relações, devemos explorar a natureza deste ingresso e o que leva consigo o planeta ao lugar, sim porque é o planeta que faz o lugar e não contrário. Existe, por vezes, numa certa astrologia contemporânea, a ditadura do signo sobre o planeta. Os deuses de passagem são os planetas e os lugares (signos) são apenas as suas casas ou templos. Saturno, para além da conhecida regência sobre o tempo e a necessidade, traz consigo o sentido de dever que é o outro lado do poder, expresso por Júpiter. Ora o dever é, de uma perspectiva estóica, uma forma de aprendizagem. A filosofia estóica define ἄσκησις como um exercício, um treino ou uma prática que conduz à virtude, à excelência. Neste sentido, é também um modo de vida, uma ascese. Saturno traz esta aprendizagem como dever que se expressa no lugar, no signo de Carneiro, como acção, como prática, ou seja, como uma práxis. Para o estoicismo, esta prática pode ser alcançada com os exercícios espirituais.  

   Séneca oferece-nos este exemplo de exercício espiritual: “Tenho, aliás, tanta vontade de pôr à prova a tua firmeza de alma que, com base nos preceitos de filósofos ilustres, forjaria este outro preceito destinado à tua pessoa: fixa alguns dias intercalados nos quais mates a fome com alimentos exíguos e vulgares, e te vistas com roupa o mais possível grosseira, de modo a comentares para ti próprio: ‘era então disto que eu tinha medo’. A alma deve preparar-se para as dificuldades durante os períodos de tranquilidade, deve-se fortalecer contra as injúrias da fortuna nos períodos em que ela nos sorri.” E continua, dizendo: “Se não queres que um homem entre em pânico perante uma situação concreta, treina-o antes que tal situação ocorra. Este princípio foi posto em prática por aqueles que todos os meses imitavam uma situação de pobreza a tal ponto que atingiram quase a miséria extrema, na intenção de nunca terem de recear o que de uma vez por todas aprendessem a suportar.” (Ep.18.5-6; Cartas a Lucílio, 2ª ed,, trad. J. A. Segurado e Campos. Lisboa, 2004: Fundação Calouste Gulbenkian).

   Outro exercício espiritual é a autoconsciência do erro, expresso do seguinte modo: “Certos indivíduos há que se gabam dos seus vícios: como imaginar que pode pensar em curar-se gente que torna os próprios defeitos como virtudes? Por isso mesmo, tanto quanto possas, acusa-te, move processos a ti mesmo. Começa por fazeres ante ti próprio o papel de acusador, depois o de juiz, depois o de advogado de defesa; e uma vez por outra aplica uma pena a ti mesmo!” (Ep.28.10; Cartas a Lucílio, 2ª ed,, trad. J. A. Segurado e Campos. Lisboa, 2004: Fundação Calouste Gulbenkian). Os exercícios espirituais servem o sentido saturnino de dever. No entanto, é preciso não esquecer que este dever não é para com o exterior é um dever para consigo mesmo.

   A acção proposta pelo signo de Carneiro nasce da sua própria significação de unidade enquanto parte do eixo de identidade (Carneiro-Balança) e, desta forma, confere a Saturno este dever para si consigo mesmo, para uma reflexão proactiva da ponte que é a identidade, ou seja, de uma que se estende entre a unidade e a dualidade. Os exercícios espirituais de premeditação da adversidade e de autoconsciência do erro são exemplos da proposta de ἄσκησις de Saturno em Carneiro.

   Na perspectiva da astrologia mitológica, poder-se-ia dizer que o mito da Titanomaquia é o que melhor define o ingresso de Saturno em Carneiro. Deve-se considerar, de início, o mito que coloca primeiramente como soberanos do céu e da terra Eurínome e Ofião. O poder passaria depois para Cronos (Saturno) e Reia e, por fim, para Zeus (Júpiter) e Hera. Encontramos, por exemplo, este mito já na fase helenística na Alexandra de Licofrão de Cálcis (1191 e ss.). De uma era matriarcal, onde reinaria Eurínome, a Grande Deusa dos pelasgos, e o seu consorte Ofião, uma grande serpente por si criada, seguir-se-ia uma era de transição, com Cronos (Saturno) e Reia e, por fim, a imposição do poder patriarcal, com Zeus (Júpiter) e Hera.

   Cronos/Saturno é um soberano de transição, porque nos seus mitos existe ainda uma prevalência de divindades femininas. O deus chega ao poder com a ajuda da mãe Gaia e de esposa Reia, duas Grandes Mães da era matriarcal. Tanto Cronos como Zeus sobem ao trono por via matrilinear, seja ela directa ou não. No entanto, é Zeus que impõe o poder patriarcal. Por vezes, isso acontece através de Atena e Apolo, tal como se pode ler na Oresteia de Ésquilo. De um ponto de vista astrológico, esta é uma das razões que justifica que alguns autores antigos tenham considerado Saturno um planeta feminino (Figueiredo, R. M., 2024, “Saturno e o Feminino na Astrologia Antiga” in Fragmentos Astrológicos, 2ª ed. revista e aumentada, 163-77. Lisboa: Livros – Rodolfo Miguel de Figueiredo).

   Este prelúdio mitológico coloca em contexto a Titanomaquia, ou seja, a luta entre os deuses antigos, os titãs, e os deuses olímpicos. Cronos liderava os primeiros e Zeus, os segundos. Convém assinalar-se que os titãs são deuses elementais e os deuses olímpicos são deuses ideais, ou seja, com o tempo tornaram-se sobretudo ideias ou conceitos. Existe portanto uma racionalização conceptual dos poderes divinos, uma que passa progressivamente a derivar apenas de uma divindade central, Zeus/Júpiter. Na obra de Ésquilo Prometeu Agrilhoado, o próprio Prometeu descreve esta oposição divina dizendo que os deuses começaram a encolerizar-se e gerou-se uma contenda entre os apoiantes de Cronos/Saturno e os apoiantes de Zeus/Júpiter (197-229). No entanto, convém assinalar-se que Zeus é apoiado pela avó Gaia e pela mãe Reia, ou seja, a Grande Mãe, o Divino Feminino, continua a ser o poder por detrás do poder, aquele gera os novos reis.  

   Com a derrota dos titãs, estes, e em especial Cronos, são atirados para o Tártaro, o lugar mais profundo do submundo. Foi lá que Cronos permaneceu acorrentado até que, segundo alguns mitógrafos, é perdoado e passa a reinar na Ilha dos Bem Aventurados. Este último mito tem uma forte relação com a passagem de Saturno pelo signo de Peixes, ou seja, existe um sentido de viagem, da guerra à redenção, de Carneiro a Peixes. A derrota dos titãs conduz também a uma diminuição do valor dos poderes elementais, da natureza. O mundo da pólis vence o mundo natural. A religiosidade helénica é profundamente marcada por esta significação: a vitória da civilização sobre a natureza. Hoje o nosso olhar é diferente e procuramos, em alguns movimentos espirituais, o regresso de divindades elementais e da natureza enquanto expressão do divino ou sendo ela mesma a divindade.

   No tema do ingresso de Saturno em Carneiro, podemos encontrar alguns dos elementos mitológicos da Titanomaquia. Os três irmãos que dividiram o poder depois de o tomarem do pai posicionam-se agora astrologicamente: Hades/Plutão que reina no submundo encontra-se junto ao Ponto de Culminação, sendo este o astro mais alto do tema; Zeus/Júpiter encontra-se junto do Ponto sob a Terra, o abismo do tema; e Posídon/Neptuno encontra-se a marcar a hora, subindo no horizonte após a ascensão e junto ao seu pai, Cronos/Saturno. Existe pois uma via ascendente que se estende de Júpiter até Plutão e se expressa com maior intensidade em Touro e Carneiro, devido a uma maior presença planetária. 

   De um ponto de vista simbólico é revelante o facto de Zeus/Júpiter se encontrar ainda no ventre de sua mãe, ou seja, sob a terra. Plutão a culminar lembra a canção de Zeca Afonso “A Morte saiu à Rua” que logo no início diz o seguinte: “A morte saiu à rua num dia assim / Naquele lugar sem nome pra qualquer fim”. A morte à vista de todos lembra tanto o memento mori, a certeza de que vamos morrer, como derradeira expressão da perfídia humana. No caso da canção de Zeca Afonso, temos o assassinato pelas mãos da PIDE, da polícia política da ditadura do Estado Novo. Existe um aviso que nos diz que, se o deixarmos, o mal encontra caminho. Em certa medida é como o paradoxo da tolerância descrito por Popper: a tolerância para com o intolerante pode levar a perda da própria tolerância. Saturno em Carneiro é, como já se observou, um dever de acção que coloca diante de nós a responsabilidade e a retribuição.                 

   O ingresso de Saturno em Carneiro traz consigo um tempo de desafios. Se em Peixes existia um dever interior de aceitar, de comungar, com o destino, com as leis do tempo e da necessidade, abraçando-se assim a totalidade, agora em Carneiro, esse desafio fixa-se na própria acção. Nos tempos que vivemos, nestes tempos sombrios, Saturno em Carneiro diz-nos que não podemos ser neutros. Temos hoje um dever de acção, uma responsabilidade, ou seja, o dever que transformar o interior terá de se espelhar no exterior. Em última análise, ao nos transformarmos, transformamos o mundo.   

sexta-feira, 28 de junho de 2024

Reflexões Astrológicas 2024: Saturno Retrógrado

 Reflexões Astrológicas


Retrogradações


Retrogradação de Saturno

Lisboa, 20h06min, 29/06/2024

 

Saturno

Decanato: Júpiter

Termos: Marte

Monomoiria: Lua     

 

  Saturno inicia a sua retrogradação no signo de Peixes, no grau 20 (19º25΄), estando Sagitário a marcar a hora para o tema de Lisboa e, deste modo, na IV, no lugar sob a terra (ὑπόγειον), no decanato de Júpiter, nos termos de Marte e na monomoiria da Lua. A retrogradação começa assim de dia, abaixo do horizonte, com o Sol a rumar para o Poente e a Lua junto ao Ponto Subterrâneo. Em 2024, o movimento retrógrado de Saturno estender-se-á até 15 de Novembro, onde estará no grau 13 (12º41΄), nos termos de Júpiter e na monomoiria da Lua. Se observarmos estas dignidades, compreendermos, por um lado, a consistência de uma natureza lunar na monomoiria e, por outro, o reafirmar do domicílio jupiteriano de Peixes, pois o movimento retrógrado ocorre no seu decanato e regressa aos seus termos. Saturno semeará os dons do feminino e colherá as acções do bem.

  Saturno faz o seu movimento pelo signo de Peixes de 7 de Março de 2023 a 25 de Maio de 2025. Esteve retrógrado de 17 de Junho de 2023 a 4 Novembro de 2023 e estará agora até 15 de Novembro. Em 2025, quando já estiver em Carneiro, estará retrógrado a partir de 13 de Julho e até 28 de Novembro. Ora, neste período, voltará ao signo de Peixes, onde estará de 1 de Setembro de 2025 a 14 de Fevereiro de 2026. O planeta do tempo e da necessidade, entre a potência e a actividade (movimento retrógrado e directo), oscilará entre a totalidade (Peixes) e a unidade (Carneiro). Existe assim um movimento da divisão do uno à estabilização do todo, todavia, esta efectivação do movimento será balanceada entre a expansão e a contracção. O movimento retrógrado apela necessariamente a um ensimesmamento da sua natureza particular.

  O estoicismo utiliza o termo οκείωσις, dando-lhe o sentido filosófico de apropriação de si, da prática de actos apropriados (καθήκοντα), isto é, de actos de acordo com a natureza. Ora este termo, com um sentido primordial de se fazer aquilo que lhe próprio, ou seja, de agir de acordo com o seu potencial, tem uma relação significativa com o conceito astrológico de retrogradação. Ao dar a ilusão que recua, o planeta regressa a si mesmo, volta à origem. Se pensarmos que οκείωσις se relaciona etimologicamente com o termo οκος, compreendermos que existe um carácter conceptual de regresso a casa. De um ponto de vista astrológico, a retrogradação, conciliada com a οκείωσις estóica, confere a um determinado movimento ou posição planetária um valor de afinidade, mas também de reconciliação. Existe então uma propensão natural para tornar familiar e íntima a experiência do passado e recolher os proveitos da revisitação. Contudo, essa é uma viagem difícil, daí o carácter potencialmente nefasto da retrogradação.

  Saturno retrógrado, enquanto planeta do tempo e da necessidade, assume quiçá a proposta significativa mais adequada a essa propensão. Séneca, no De ira, diz-nos que Existe em cada um de nós uma mente de monarca, esperando que seja concedida liberdade à acção, mas sem que ela se vire contra nós.” (2.31.3: Regis quisque intra se animum habet, ut licentiam sibi dari velit, in se nolit. Kaster, R. A., 2023, How to Do the Right Thing: An Ancient Guide to Treating People Fairly, 94-5. Princeton/ Oxford: Princeton University Press). Ora esta mente de monarca espera que a sua acção seja livre, no entanto, sem uma consciência de si, sem se alcançar uma afinidade ensimesmada, ou seja, sem uma reconciliação, a mente não consegue evitar que essa mesma liberdade se vire contra ela. A incapacidade de se aceitar a necessidade, os ditames da providência, julgando que a liberdade de acção, o livre-arbítrio, evita o movimento da roda do destino, revela a importância da retrogradação de Saturno. A possibilidade de reconciliação com o destino, com os mistérios do tempo, é uma dádiva de Saturno retrógrado.

  A forma como o poder da acção vive no tempo e como está sujeito à necessidade revela este movimento de Saturno. A mente de monarca teme o limite da liberdade, pois teme a perda do poder. Ora a mitologia de Cronos (Saturno) apresenta a forma ténue e efémera de como se alcança e se perde o poder. Apolónio de Rodes conta-nos, na Argonáutica, que Orfeu: “Cantava como Ofíon e a Oceânide Eurínome/ foram os primeiros a dominar o nevado Olimpo;/ como, pela força dos braços, cederam o seu privilégio/ a Crono e a Reia, ao caírem nas vagas do Oceano; estes/ foram então os senhores dos Titãs, deuses bem-aventurados,/ enquanto Zeus, ainda rapaz e com um coração de criança,/habitava na caverna de Dicte.” (I, 503-9. Apolónio de Rodes: Argonáutica, Livros I e II, ed. A.A.Alves de Sousa, 80-1. Coimbra, 2021: Imprensa da Universidade de Coimbra).O Olimpo foi governado por três pares divinos: Eurínome e Ofíon, Reia e Cronos e Hera e Zeus. No meio do caminho do poder, Saturno ganhou face ao primeiro e perdeu para o terceiro.

  De uma outra perspectiva mitológica, tecida pelo desejo de uma linhagem patriarcal e uma forte e indiscutível significação psicológica, Cronos (Saturno) usurpa o poder do pai, Úrano, e vê o seu poder usurpado pelo próprio filho, Zeus (Júpiter). Úrano, o deus do céu, temendo perder o poder, obriga a sua prole a regressar ao ventre da mãe, de Gaia. A Terra, sofrendo das dores de ter de albergar todos os seus filhos, cria uma enorme foice de aço e incita os seus filhos a usá-la contra o pai tirano, mas, por temor, todos recusam, com a excepção de Cronos. O titã aproveita os ímpetos lúbricos de Úrano e, quando este deixa cair a noite celeste sobre a terra, castra-o com a foice. Dos testículos caídos no mar, nascerá Afrodite (Vénus), daí que a relação astrológica de Saturno e Vénus não seja das mais tensas.

  Calímaco (Aetia frag. 43) conta-nos que a cidade de Zankle, na Sicília, hoje Messina, foi construída em torno de uma caverna, onde no seu interior, repousava a foice que Cronos usou para castrar o pai, Úrano, pois em grego ζάγκλον indica o objecto cortante utilizado. Neste mito, Úrano não é o planeta “fofinho” da astrologia new age, é um deus cruel, autoritário e misógino, que perde a masculinidade por abusar dela. Já Cronos (Saturno) surge como aliado do Eterno Feminino, seja com a mãe Gaia, seja com a esposa Reia, uma Grande Mãe, ou com a primogénita Héstia. Lembremo-nos que o primeiro filho do casal é Héstia, uma deusa, a deusa do lar, do fogo sagrado. Zeus (Júpiter) é o último a nascer. Existem aqui estruturas matrilineares determinantes e indicadoras de poderes matriarcais mais antigos.

  Neste mito, encontramos muitos dos elementos que justificam a atribuição do género feminino a Saturno, aquela que encontramos em Doroteu (Carmen Astrologicum, I, 10, 18-19. Cf. Figueiredo, R. M. de, 2024, Fragmentos Astrológicos, 2ª ed. revista e aumentada, 165-77. Lisboa: Livros – Rodolfo Miguel de Figueiredo) e que, na verdade, conferem uma certa significação ao Saturno Retrógrado. Quando Cronos, repetindo a desmedida do pai, teme ser destronado por um dos seus filhos, ele engole-os, guardando-os dentro de si como Gaia fizera. Esta é indiscutivelmente uma qualidade feminina. Reia salva o bebé Zeus (Júpiter), trocando-o por uma pedra, e esconde-o em Creta. O deus crescerá e acabará por derrotar o pai. O sextil actual do Saturno Retrógrado em Peixes a Úrano em Touro e a quadratura de Saturno a Júpiter em Gémeos revelam o sentido desta relação de poder entre Úrano, Cronos (Saturno) e Zeus (Júpiter), bem como o potencial da retrogradação de Saturno. 

  A estação de retorno pelo signo de Peixes encerra em si uma dimensão escatológica que possui também ela uma significação astro-mitológica. O planeta austero, senhor dos grilhões da fortuna, possui também um carácter salvífico. Hesíodo, nos Trabalhos e Dias, afirma o seguinte: “Agora, se queres, contar-te-ei outra,/ com pormenor e saber; e tu recolhe em teu espírito/ que têm origem comum os deuses e os homens mortais./ De ouro era a primeira geração de homens mortais/ criada pelos imortais que habitam as moradas Olímpicas./ Eram do tempo de Cronos, quando ele reinava no céu:/ como deuses viviam, com o coração liberto de cuidados,/longe e apartados de penas e misérias. Sem a presença da triste/ velhice, sempre igualmente fortes de pés e braços,/ alegravam-se em festins, a recato de todos os males./ Morriam como se vencidos pelo sono. Todos os bens/ espontaneamente, muitos e copiosos; e eles, contentes/ e tranquilos, partilhavam os trabalhos com alegrias infinitas,/ [ricos em rebanhos, queridos aos deuses bem-aventurados.]/ Mas depois que a terra cobriu os homens desta raça,/ eles são, por vontade do grande Zeus, divindades/ benignas, subterrâneas, guardiãs para os homens mortais,/ [o que vigiam a justiça e as acções malvadas,/ vestidos de bruma, percorrendo toda a terra,]/ distribuidores de riqueza. Tal é a honra real que obtiveram.” (106-26. Hesíodo: Teogonia & Trabalhos e Dias, ed. A. Elias Pinheiro & J. Ribeiro Ferreira, 97-8. Lisboa, 2014: INCM). O regresso à Idade de Ouro implica uma transformação do humano em espírito puro ou divindade benigna e, com alguma severidade, recuperar esse bem perdido.

  Após a prisão no Tártaro, Cronos é reabilitado pelo filho e torna-se o soberano das Ilhas dos Bem-Aventurados (Cf. Platão, Gorgias 525a e ss, Leis 713a, Píndaro, Ode Olímpia 2.55 e ss.), as quais poderiam incluir os Açores. No Elísio, existe uma recuperação e também uma reconciliação com a Idade de Ouro. Não se pense porém que, com as descrições mitológicas apresentadas, o Saturno astrológico perde o seu carácter. A retrogradação traz sim um outro peso, uma outra gravidade. O tempo e a necessidade revelam o que está para além do humano, das limitações, da desmedida que ele próprio criou. Na roda da necessidade, não existe pecado original, cada um responde pelas suas acções e é através delas que determina o seu destino. Ora o trígono entre Saturno e Neptuno em Peixes e o Sol, Mercúrio e Vénus em Caranguejo transporta a visão do tempo como totalidade até à sua origem, até à fundação da realidade. O desafio desta retrogradação de Saturno é procurar para além do esquecimento, sem a água do Letes, a raiz do destino.  

  A malignidade de Saturno impõe-se pela fixação tripartida da linha, do limiar e do limite. O destino tece a linha no tempo e coloca-a no espaço, ou seja, estabelece a relação entre Saturno e Júpiter, entre o tempo e o espaço. A necessidade funda assim, face aos ditames da providência, o limiar e o limite da dádiva do bem. A actual quadratura entre Saturno retrógrado em Peixes e Júpiter em Gémeos, construída em signos mutáveis, firma a transitoriedade de uma estruturação complexa e, por vezes, dolorosa entre o silêncio e a palavra. Eco perde-se e Narciso também. Este é o grande aspecto astrológico de 2024 e aquele fixa os alicerces, as colunas dóricas, da nossa realidade actual, do templo que vemos e que temos medo de entrar. A mente de monarca deixou de estar temorosa face à liberdade que se esfuma no horizonte, diante da imagem que projectou, ela acredita que possui uma liberdade incondicional. Precisamos pois de regressar àquilo que nos é próprio.

  O sextil entre Saturno e Neptuno em Peixes e Marte e Úrano em Touro confere, sob a fina égide de uma certa liberdade de acção o perigo do afastamento radical do númen feminino, trazendo consigo o medo do feminino. A Lua em Carneiro, no lugar onde se exalta o Sol, junto da Caput Draconis, e com a Cauda junto ao Ponto de Culminação, estando tanto a Lua como o Dragão da Lua em quadratura ao Sol, revela a dificuldade de afirmação do feminino, da luta pela presença e pelos seus direitos. Pesam as amarras e o preconceito. Quando a discórdia impera e não existe harmonia nos opostos, a retribuição, que é uma lei de Saturno, exercerá a sua acção, reequilibrando a desmedida. De um outro modo, o trígono de Ar entre Júpiter em Gémeos, Plutão retrógrado em Aquário e a Cauda Draconis em Balança coloca sobre o destino a restruturação do pensamento e do discurso. Quando a humanidade se afasta do bem, da verdade e da justiça, a destruição e a morte vão trilhar o seu caminho, pois a senda da verdade é o fio da roda da necessidade. O irracional não nos dá hoje o sonho e a imaginação, consagra a ilusão e defende a ignorância.

  A quadratura da Lua em Carneiro ao Sol, Mercúrio e Vénus em Caranguejo, a par do sextil da Lua a Júpiter em Gémeos e a Plutão em Aquário, apresenta a incapacidade de interiorizar a proposta do Saturno retrógrado, da escatologia saturnina. A identidade centrada na imagem que tem de si mesma, mesmo trazendo o potencial de esclarecimento e transformação, é incapaz de aceitar esse movimento radical de origem, de reconciliação com o destino. A quadratura entre Marte e Úrano em Touro e Plutão em Aquário confere também um clima de conflito e tensão aos nossos dias. Os tempos sombrios que vivemos, em que a extrema-direita galga os limites da democracia, trazendo consigo o retrocesso em direitos e valores e uma destruturação dos pilares do estado social e dos princípios da solidariedade e da tolerância, surge daqui com perigo inegável. A lição do tempo é um ensinamento de Saturno, bem como o destino como retribuição, e a humanidade está assim no limiar do seu próprio fado.

  A retrogradação de Saturno é, em suma, um tempo para revisitarmos a lição do destino. Temos, durante este período, uma oportunidade de nos reconciliarmos com tudo aquilo que antes de bebermos do Lete aceitámos. A Necessidade não agiu sozinha. Nós somos uma parte activa do lote que nos foi entregue e essa é a liberdade que contraria a mente de monarca e distorce a relação do humano com o seu destino. Saturno retrógrado dá assim gravidade ao tempo.    

segunda-feira, 6 de março de 2023

Reflexões Astrológicas 2023: Saturno em Peixes

  Reflexões Astrológicas


Lunações


Saturno em Peixes

Lisboa, 13h35min, 07/03/2023

 

Sol-Lua

Decanato: Saturno

Termos: Vénus

Monomoiria: Júpiter  

 


  O primeiro ingresso de Saturno em Peixes ocorre com Caranguejo a marcar a hora, para o tema de Lisboa e, deste modo, na IX, no Lugar de Deus, no Lugar do Deus Sol, no decanato de Saturno, nos termos de Vénus e na monomoiria de Júpiter. O ingresso dá-se assim acima do horizonte e cerca de seis horas após o nascer-do-sol. Saturno encontra-se, deste modo, favorecido por estar no seu próprio segmento (αἵρεσις) e no lugar do regente do segmento, o Sol. O estudo deste ingresso e do seu tema é essencial para a compreensão dos tempos que se avizinham. A chegada de Saturno a Peixes é o acontecimento astrológico mais importante de 2023, seguido pelo ingresso de Júpiter em Touro em Maio, criando-se, nesse momento, uma harmonia entre os planetas e os elementos Água e Terra. No tempo (Saturno) e no espaço (Júpiter), o Eterno Feminino tornar-se-á a dádiva da transformação.

  Primeiramente é necessário situar, no tempo cronológico, este ingresso de Saturno em Peixes que acontece em dois momentos. O primeiro ingresso ocorre de 7 de Março de 2023 a 25 de Maio de 2025 e o segundo, mais curto, de 1 de Setembro de 2025 a 14 de Fevereiro de 2026. Passará por três momentos em que estará retrógrado: o primeiro, de 17 de Junho a 4 de Novembro de 2023; o segundo, de 29 de Junho a 15 de Novembro de 2024; e o terceiro, de 13 de Julho a 28 de Novembro de 2025 e que inclui, como é perceptível pelos períodos anteriormente mencionados, o primeiro ingresso de Saturno em Carneiro e o retorno a Peixes. Neste dois períodos, convém também assinalar a passagem de Júpiter pelos signos de Carneiro a Caranguejo e o ingresso de Neptuno em Carneiro (primeiro de 30 de Fevereiro a 22 de Outubro de 2025 e depois a partir de 26 de Janeiro de 2026), isto para não falar do ingresso de Plutão em Aquário, a 23 de Março de 2023.

  O ingresso de Saturno, do planeta do Tempo e da Necessidade, em Peixes, no signo da totalidade, transporta consigo um sentido natural de conclusão, de término ou fim de ciclo. Segundo a ordem vernal, Peixes é o último signo e, assim sendo, a chegada de Saturno a este signo tem necessariamente a significação do fim, mas também a da repetição, da estruturação do mesmo, da criação de uma unidade de sentido, resultante da assimilação da totalidade em torno do propósito que a Necessidade estabelece. Ora essa ideia de propósito une tanto a regência de um deus do tempo como a de um deus agrícola. Esse é também o sentido do aforismo de Novalis que diz que “o fragmento é semente”, ou seja, a singularidade de um fragmento de tempo torna-se quer o potencial, quer a finalidade da proposta que ele próprio apresenta. A Necessidade é portanto uma totalidade que permeia toda e qualquer parte.

  Se a respeito de Peixes já discutimos o imperativo de refundar a sua significação (v. Reflexão Astrológica da Lua Nova de Peixes), então, no que a Saturno concerne, confirma-se o mesmo imperativo. A questão em torno da refundação do sentido não é exclusiva deste planeta, mas é neste caso mais evidente. A significação planetária, e também zodiacal, tal como a conhecemos, resulta, de um modo geral, de um modelo categórico da física aristotélica ou do eclectismo ptolemaico. Porém, existiam, na Antiguidade, outros modelos interpretativos, nomeadamente o de Platão e o do platonismo. Segundo Plotino, Saturno simbolizaria o Intelecto (Νοῦς) e Zeus, a Alma (Enéadas V, I, 4). Existia pois uma glorificação de Saturno por este não representar os poderes terrenos, mas sim o poder mais puro do pensamento.

  Klibansky, Panofsky e Saxl dizem-nos que “Saturno possuía a dupla propriedade de ser o antepassado de todos os outros deuses planetários e de ter o seu trono no céu superior. Essas duas qualidades, que devem ter estado originalmente conectadas, garantiram-lhe uma supremacia, sem qualquer contestação, no sistema neoplatónico, que se esforçou neste caso, como em outros, por reconciliar as visões platónicas com as aristotélicas. A hierarquia dos princípios metafísicos que remontava a Platão, segundo a qual o genitor tinha precedência sobre o gerado, estava ligada ao princípio aristotélico do pensamento "topológico", segundo o qual uma posição mais elevada no espaço significava maior valor metafísico.” (Saturn and Melancholy, 1979: 152-3. Nendeln/ Liechtenstein: Kraus Reprint). Esta proeminência de Saturno, a par da atribuição de Plotino, desperta uma outra questão, visto que normalmente o Intelecto é o Sol.

  Existiu uma tradição babilónica, sobretudo num período de cerca de 750 a 612 AEC, que designava Saturno como “o Sol”, Šamaš, em vez da nomenclatura astronómica mais comum (cf. van der Sluijs, M. A. & P. James, 2013, “Saturn as the Sun of Night in Ancient Near Eastern Tradition” in Aula Orientalis 31.2, 279-321). Esta designação torna Saturno o “Sol da Noite”, em oposição ao próprio Sol, o “Sol do Dia”, e pode ter a sua origem num dos elementos astrológicos radicalmente babilónico: as exaltações planetárias (as outras são o aspecto de trígono e as dodecatemoria). O lugar de exaltação do Sol, Carneiro, opõe-se ao da exaltação de Saturno, Balança. Esse eixo pode ser assim aquele que une o “Sol do Dia” e o “Sol da Noite” e a tradição deste sentido de Saturno persiste, mesmo que de forma discreta, na tradição greco-romana. Ptolomeu, por exemplo, diz que os habitantes do território entre a Mesopotâmia e a Índia chamavam à estrela de Vénus Ísis e à de Saturno Mitra Hélios (Apotelesmática II, 3).

  Por outro lado, e seguindo também uma interpretação que é quase oposta ao Saturno aristotélico, temos o Saturno feminino, algo que já abordei por diversas vezes (Fragmentos Astrológicos, 2020: 167-72; Reflexões Astrológicas 2021: Parte II, 2022: 30-1). Esta é a tradição cuja referência mais antiga pertence a Doroteu de Sídon (Carmen Astrologicum, I, 10, 18-19) e que pode ter ainda uma matriz de sentido na proeminência do númen feminino no reinado de Saturno. A astrologia precisa pois de uma metodologia interdisciplinar para melhor compreender os seus conceitos. O estudo rigoroso da mitologia pode, desta forma, contribuir para refundação desses mesmos conceitos.

  No tempo de Cronos/Saturno, a sua mãe Gaia e a sua esposa Reia eram duas deusas poderosas, que não se apresentavam com uma submissão ao paradigma androcêntrico, como a que encontramos nos deuses olímpicos. Ora esse factor está presente em Manílio quando coloca a Mãe dos Deuses (Reia/Cíbele), a par de Júpiter, como regente divino do signo de Leão (Astronomica II, 447). Se pensarmos que, do outro lado do eixo, está Saturno como regente astrológico de Aquário, encontramos então um elo de ligação com Saturno como o “Sol da Noite”.     

  Compreendemos, desta forma, que as significações não são lineares e que, ao longo dos tempos, transmitem uma prevalência interpretativa que não é, no entanto, exclusiva. Existem outros sentidos que podem e devem ser recuperados. De um ponto de vista mitológico ou astro-mitológico, encontramos ainda uma outra tradição que nos concede um elemento de passagem entre o próprio Saturno e o Saturno em Peixes. Para além do facto de Saturno ser o regente da Idade de Ouro, ele é também o rei da Ilhas dos Bem-Aventurados, ou Ilhas Abençoadas.

  Neste mito (e.g. Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias 156 e ss.; Platão, Górgias 525a e ss.), após o seu destronamento e prisão no Tártaro, Cronos/Saturno terá sido reabilitado e terá encontrado um novo trono nas Ilhas dos Bem-Aventurados que, segundo alguns, incluiriam os nossos Açores ou toda a Macaronésia. Nestas ilhas, onde se encontram os Campos Elísios, viveriam aqueles que não têm de perturbar a terra com o vigor das mãos e que vivem uma existência sem lágrimas (Píndaro, Ode Olímpia 2.55 e ss.). Este mito indica, sem grande esforço interpretativo, Saturno em Peixes, a Necessidade sobre a Totalidade.

  O tema do ingresso de Saturno em Peixes, para a hora de Lisboa, tem uma particularidade deveras interessante, pois ao fixar a hora em Caranguejo reproduz a disposição de lugares do Thema Mundi. Ora, desta forma, Saturno vai cair no lugar de Peixes, a IX, o Lugar de Deus. Esta posição torna mais significativa uma certa diminuição da malignidade de Saturno, uma vez que em Peixes está no domicílio de Júpiter, aquele mitologicamente ocupou o seu lugar, e está também fora de seu segmento de luz e num signo feminino. A condição de Saturno pode assim, se a humanidade permitir, conceder à totalidade a Necessidade, ou seja, pode conferir a dádiva da aceitação do destino, a sua interiorização. Se conhecermos o propósito, a finalidade, o sentido do todo, o caminho adquire um outro valor e transforma toda a acção.  

  Este tema, considerando-se os eixos de ascensão e culminação, apresenta uma beleza singular e uma intensa expressão do feminino que, tendo em conta os sentidos alternativos para Saturno, alcança uma proposta significativa profunda. Primeiro temos o eixo pós-plenilúnio que une a Lua em Virgem a Saturno, Mercúrio, ao Sol e a Neptuno em Peixes, estendendo esta concentração até ao Lugar da Deusa, a III, onde a Lua se encontra.   

  De seguida, temos os dois trígonos: o da Água que une o ponto que marca a Hora em Caranguejo aos planetas em Peixes e à Cauda Draconis em Escorpião, em que o Destino se torna a vida e a fé, a sabedoria; e o de Terra que, por sua vez, une a Lua em Virgem a Úrano e à Cauda Draconis em Touro e a Plutão em Capricórnio, a caminho do poente, ou seja, um triângulo que faz da Deusa, do Eterno Feminino, o espírito que se erguerá sobre as cinzas do velho mundo e a aurora de uma Nova Era. Por fim, face a estes dois trígonos, temos os seis sextis que resultam destas ligações, destas harmonias.

  Existem, no entanto, dois elementos que divergem desta unidade entre a Água e a Terra. Um diverge, convergindo, pois afirma a acção do bem sobre esta proposta de sentido. Vénus e Júpiter em Carneiro permitem que o bem, a beleza e justiça se tornem actividade. Desde que a humanidade queira, a efectivação da dádiva é uma possibilidade. Os benéficos são os astros mais altos, raiando de esperança, de luz, mas colidindo com a morte sobre o Ocaso (Plutão em Capricórnio), sobre o seu poder. A destruição é o perigo de uma actividade movida pela desmedida. No entanto, uma vez mais, será Marte em Gémeos a expressar uma pulsão de divergência disruptiva, firmada pelos raios quadrangulares aos planetas em Peixes e à Lua em Virgem. A malignidade do pensamento dual que finge querer a mudança, quando o que faz é ferir e separar, continua a ser uma ameaça real. As teias de desinformação que alimentam o ódio, a xenofobia, a misoginia, o racismo, a intolerância são o abismo do humano. Porém, a acção do bem, dos actos que promovem a igualdade, a liberdade e a fraternidade continuam a ser o outro lado da barricada (sextil de Marte em Gémeos a Vénus e Júpiter em Carneiro).

  Saturno ingressa em Peixes no momento em que, neste signo, se encontram o Sol, Mercúrio e Neptuno. Esta concentração de luz, a partir do Lugar de Deus, apresenta-se como o fogo na câmara interna, no Santo dos Santos. Desse santuário profundo, a luz e a necessidade, a palavra e o amor universal podem alcançar a humanidade, a totalidade. Se considerarmos Saturno como o Intelecto, o que não diverge da ideia estóica de Destino ou a ideia platónica de Necessidade, podemos observar então a sua acção como parte deste princípio que permeia o mundo e que tece uma harmonia, uma simpatia, entre o microcosmos e o macrocosmos. Saturno em Peixes é, em suma, a Necessidade ou o Destino na totalidade.  

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Saturno, a Saturnália e o Tempo de Excepção: Exemplo Textual



Versnel, H. S., Inconsistencies in Greek and Roman Religion, vol. II: Transition and Reversal in Myth and Ritual
, 155-6.


Among the many ways of visualising a reversal, none is so obvious, unequivocal and popular as the reversal in attire. The most easy and effective way to turn reality upside down is to change your clothes for the garment of the opposite sex or of social antipodes, or for distinguishing marks of animals or gods. Circumstantial information has been presented on these forms of disguise and their function in the first chapter of this book. By thus inverting normality the new situation is marked as exceptional and abnormal. It is noteworthy that among the signs that mark Greek sacrifices as exceptional or extraordinary-such as the absence of wine or the presence of milk-one is that the sacrificers do not wear the wreaths that are normally one of the most characteristic signs of sacrificial ceremonies. This provides a perfect parallel for the reversal of the Saturnian sacrifice. During the festival everything is out of order, above all clothing regulations. Moreover, Saturn himself is the marker of abnormality par excellence. His veiled head-irrespective whether this is an originally Roman element or a Greek heritagestamps him as 'different' and exceptional. Another way of expressing a reversal of ordinary life is by imitating odd customs of foreign nations. Romans could and did give expression to abnormality by allusions to 'the Greek way of life'. In the (Roman) fabula togata it was not allowed to stage slaves that outwitted their masters, whereas this was accepted in the fabula palliata, the pallium conveniently evoking a Greek atmosphere. In Greece, as any decent Roman knew, odd things happened that were quite incompatible with Roman customs. Graeculi just had a habit of mixing up the normal order. Viewed in this light, it is very well possible and in my view becomes very likely that sacrificing ritu Graeco was just another reference to the eccentric nature of the total ritual. This supposition is supported by a tiny piece of evidence on Saturn himself which has remained unnoticed so far. Apart from the covering of his head there is another trait that sets him apart. The ivory statue in his temple was clothed with a purple-coloured cloak, as Tertullian, Testim. anim. 2, 137, 12, testifies. His exact words are: pallio Saturni coccinato. It is true that in the course of time pallium has become the term for any kind of garment. In this case, however, a positively un-Roman pallium is meant - the extrinsecus habitus sharply censured by the same Tertullian, De pallio 4, 9: Galatici ruboriss uperiectio (a wrap of Galatian red). Now, the pallium never quite lost the negative connotations of its Greek or, more generally, foreign flavour. It characterized (Greek) philosophers, especially the Cynics and other dubious specimens, and prostitutes; in short, those marginals who refused to subject themselves to the norms and codes of civilized society. A fortiori a purple pallium was the very opposite of what could be regarded as normal Roman custom.


Versnel, H.S., 1993, Inconsistencies in Greek and Roman Religion, vol. II: Transition and Reversal in Myth and Ritual. Leiden, Nova Iorque, Köln: E. J. Brill.