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segunda-feira, 8 de abril de 2024

Reflexões Astrológicas 2024: Eclipse Solar Total (Lua Nova em Carneiro)

 Reflexões Astrológicas


Eclipses


Eclipse Solar Total 

(Lua Nova em Carneiro)

Lisboa, 19h17min, 08/04/2024

 

Sol-Lua

Decanato: Sol  

Termos: Mercúrio   

Monomoiria: Saturno  

                                            

  O Eclipse Solar Total de 8 de Abril ocorre no signo de Carneiro, com Balança a marcar a hora, no Segmento de Luz (αἵρεσις) do Sol, com os luminares acima do horizonte, na VII, junto ao Poente (δύσις), e cerca de cinquenta minutos antes do ocaso (hora de Lisboa), no decanato de Sol, termos de Mercúrio e na monomoiria do Saturno. O sentido de luz, da sombra e da ocultação ganha assim um valor reforçado. Este eclipse apresenta algumas semelhanças com o eclipse solar de 14 de Outubro de 2023, pois, tanto num como noutro, o eclipse dá-se junto ao Poente. No entanto, existe uma inversão do eixo, o eclipse que ocorrera em Balança, acontece agora em Carneiro e assim o signo que marcava a hora é agora o seu oposto. O eixo da identidade, entre a luz e a sombra, continua a estabelecer-se como sentido profundo. Porém, o foco, o centro da ocultação da luz, encontra-se agora no signo de Carneiro, o que transporta naturalmente para algumas das significações do ano novo astrológico.

  Em termos astro-mitológicos, existe uma tradição em torno dos doze trabalhos de Hércules. A influência da leitura esotérica de Alice Bailey determinou em grande parte a sua predominância contemporânea, todavia, a tradição antiga dos trabalhos, sobretudo a sua reunião no número de doze episódios é relativamente tardia. O mito do herói zodiacal mais antigo, e quiçá mais simbólico, é o de Jasão e os argonautas. A viagem do Argo é uma viagem solar e a sua natureza é circular, é um eterno retorno. Apolónio de Rodes, na Argonáutica, descreve-o como “Jasão, herói de Ares” (I, 349) e quando este foi escolhido para liderar a expedição, afirmou o seguinte: Se me confiais esta distinção de me ocupar de vós,/ nada impede, como dantes, a nossa viagem./ Agora consigamos o favor de Apolo com sacrifícios/ e preparemos já um festim.” (I, 351-4, Apolónio de Rodes: Argonáutica, Livros I e II, ed. A.A.Alves de Sousa. Coimbra, 2021: Imprensa da Universidade de Coimbra). O herói de Ares (Marte, domicílio) precisa do favor de Apolo (Sol, exaltação) e a finalidade da viagem é o velo ou tosão de ouro (Κρίος Χρυσόμαλλος), a pele do aríete ou carneiro imortal (Carneiro), filho de Posídon (Neptuno, regente moderno de Peixes). A significação astro-mitológica é bastante explícita. Jasão, bem mais do Hércules, combina elementos tanto de Carneiro como de Peixes. A passagem de Peixes de fim de ciclo para Carneiro que inicia o novo ciclo e que tem como finalidade um novo Peixes está presente neste mito (cf. Figueiredo, R. M. de, 2024, Fragmentos Astrológicos, 2ª ed. revista e aumentada, 137-8. Lisboa: Livros – Rodolfo Miguel de Figueiredo).

  Este sentido astro-mitológico é fundamental para se compreender o ciclo de eclipses, tanto anual como nodal, em que este se insere. A passagem do eixo zodiacal-nodal Carneiro-Balança para o eixo Peixes-Virgem torna-se, deste modo, um elemento de sentido mimético do mito de Jasão. No entanto, no que aos eclipses solares concerne, esta mudança ainda demorará algum tempo, pois depois deste eclipse, em Carneiro, seguir-se-á um em Balança (2 de Outubro de 2024) e outro Carneiro (29 de Março de 2025), e só a 21 de Setembro de 2025 é que ocorrerá o primeiro eclipse solar no eixo Peixes-Virgem, neste caso em Virgem. No entanto, de um ponto de vista mundano, este é um ciclo de passagem, sobretudo se considerarmos que a influência dos eclipses solares se mede em anos. A passagem do eixo de identidade para o eixo de integração, ou seja, da unidade e dualidade à parte e ao todo, expressa uma ponte de sentido entre a consciência de si e a necessidade.

  Proclo afirma, no seu Comentário à República de Platão, o seguinte: “O daemon distribuído é o guardião das vidas centradas nas obras do devir, e guia toda a nossa constituição interna no reino da geração. Os lotes significam, por sua vez, a ordem cósmica que determina para as almas os tipos de existência que cada uma merece, de acordo com o seu próprio mérito. Nesta estrutura, Láquesis é a regente, porque estabelece a ordem em todos os céus. Os tipos de existência são as formas de vida centradas nas obras da criação, que são atribuídas pelo universo às almas à medida que estas descendem, sendo estas vidas em maior ou menor número. As escolhas indicam as projecções do pensamento, de acordo com o poder das almas de se colocarem a si mesmas em movimento, agindo em harmonia com a ordem do universo. A transferência para diferentes animais, melhores e piores, significa os muitos e variados caminhos da alma segundo os diferentes poderes, racionais ou irracionais, pois o semelhante é sempre atraído pelo semelhante de acordo com a justiça do cosmos.(Essay 15 94.25-95.10. Proclus: Commentary on Plato Republic, vol. II: Essays 7-15, ed. D. Baltzly, J. F. Finamore & G. Miles, p. 330.  Cambridge, 2022: Cambridge University Press).

  O significado astrológico do lote distribuído e do seu guardião é imenso, transcende o sentido de certos lugares (XI e XII), bem como o valor da doutrina dos lotes, pois está enraizado na matriz filosófica da astrologia antiga e subentendido em muitos conceitos da astrologia contemporânea. Ora o lote distribuído – ou escolhido – e o guardião são o momento inaugural do princípio de identidade que rege o início da viagem, existencial e zodiacal. Carneiro, com um sentido profundo de unidade, conduz a embarcação da vida e da alma, tal como Jasão no Argo, num caminho entre a luz e a sombra, numa viagem que culminará na integração da totalidade (Peixes), ou seja, na compreensão profunda do valor do lote e do seu guardião. Num eclipse no signo de Carneiro, existe necessariamente uma expressão deste acto primeiro de avançar entre a luz e a sombra, de encontrar uma via electiva.

  Por todas estas razões, o eclipse de 8 de Abril terá uma influência abrangente, todavia, em sentido restrito, a influência astrológica fixar-se-á em cerca de um ano e dois meses. Porém, se considerarmos a declinação dos luminares, a sua influência será de cerca de sete anos, incluindo-se assim num contexto de ciclo nodal mais amplo. A questão da influência dos eclipses tem sido um pouco descurada. Em termos mundanos, o eclipse, isto é, a ocultação da luz, tem um valor profundo e antiquíssimo. Desde a Antiga Babilónia, desde os presságios astrológicos, que começaram a ser compilados em 1800 AEC, mas que podem remontar ao século VIII AEC (Enūma Anu Enlil), que os eclipses são fortes indicadores das transformações colectivas. E não é por acaso, visto que a luz e a sombra e, em especial, um fenómeno de ocultação da luz, possuem uma influência radical. Todas as outras influências astrológicas dependem ou deveriam depender deste binómio (luz e sombra) e, desta forma, dos luminares (Sol e Lua). Já a influência genetlíaca é tradicionalmente mais restrita e, por norma, cinge-se ao grau do eclipse.

  O eclipse solar total de 8 de Abril tem o seu centro geográfico na região de Durango, no México, incidindo o manto penumbral sobre a América Central e a América do Norte. Nas regências geográficas antigas, o Sol e a Lua em Carneiro regem, segundo Manílio, o Helesponto (Estreito de Dardanelos), Propontis (Mar de Mármara), a Síria, a Pérsia e o Egipto (Astronomica, IV, 744-817). Já Vétio Valente (Antologia I, 2) diz-nos que o signo exerce influência sobre as seguintes regiões: a Babilónia, Elymais ou Elamais (Cuzistão, província do Irão), a Pérsia, a Palestina e as regiões circundantes, a Arménia, a Trácia, a Capadócia, Susã (cidade antiga, capital do Elão ou Susiana, hoje sudoeste do Irão), o Mar Vermelho e o Mar Negro, o Egipto e o Oceano Índico. Heféstion de Tebas transmite-nos que Carneiro tem as seguintes regências geográficas: “Segundo Ptolomeu: a Britânia, a Galácia, a Germânia, a Palestina, Edom e a Judeia. Mas, tal como Hiparco, os antigos egípcios também fizeram de acordo com as partes: para o ombro esquerdo, a Babilónia; para o ombro direito, a Trácia; para o peito, a Arménia; para a coluna, tanto o vale da Pérsia como o da Capadócia, a Mesopotâmia, a Síria, o Mar Vermelho. Fizemos uma exposição separada de cada uma das partes, porque é assim que comummente utilizado nos prognósticos desses lugares.” (Apotelesmática I, 1).

  O eclipse actual, no signo de Carneiro, pertence à série Saros 139, sendo o seu 30º eclipse. Esta série começou a 17 de Maio de 1501 (calendário juliano), com um eclipse no signo de Gémeos, e terminará a 3 de Julho de 2763, com um eclipse no signo de Caranguejo. É portanto uma série recente e com uma matriz de sentido que nos conduz da dualidade da palavra e do conhecimento à matriz do feminino e ao reconhecimento da origem da alma. Depois da sombra, a luz da Grande Mãe emergirá do oceano primordial. No entanto, no que à série concerne, ainda nem chegámos a meio do caminho e, neste eclipse masculinizado, assente apenas num dos númenes do par divino, a sombra permanecerá sobre a Terra-Mãe. No tema matriz da série, o Sol, a Lua, Mercúrio e Saturno estavam em Gémeos, Vénus e a Caput em Touro, Júpiter em Carneiro, Marte e Úrano em Peixes, Neptuno em Capricórnio e Plutão e Cauda em Escorpião.

  Aquando deste eclipse, com os maléficos em quadratura, colocando os luminares e Mercúrio sob a sua influência, é fácil compreender como 1501 foi um ano de conflitos e guerras e de redefinições geoestratégicas. Neste ano, César Bórgia, filho do Papa Alexandre VI, será uma figura determinante. De cardeal a gonfaloneiro papal, terá um papel importante para assegurar o poder do papa e os interesses franceses, seus aliados. A 25 de Julho de 1501, o rei Frederico I rende-se a César Bórgia e ao rei francês Luís XII, entregando-lhes assim o Reino de Nápoles. A 13 de Maio, a República de Veneza assinou um tratado com o Papa Alexandre VI e com o Reino da Hungria pela protecção da Dalmácia veneziana na guerra com os Otomanos. Por outro lado, em Espanha, termina a rebelião muçulmana de Alpujarras, assegurando-se assim a controlo espanhol de Granada. Paralelamente a todos os acontecimentos bélicos, Pedro Álvares Cabral regressa a Portugal da sua expedição, iniciando-se a hegemonia portuguesa na Índia e no Brasil (Neptuno culminando em Capricórnio). 

  No eclipse de dia 8 de Abril, assistimos, à semelhança do que ocorrera no eclipse lunar de 25 de Março, a uma co-presença planetária em apenas quatro signos zodiacais. No entanto, existem algumas diferenças. A Lua que estava em Balança está agora em Carneiro, como o Sol, e Vénus deixou a sua exaltação, em Peixes, e entrou no domicílio de Marte, Carneiro. Estas duas mudanças são significativas, sobretudo porque sobrevalorizam o masculino em detrimento do feminino. A Lua deixa o domicílio de Vénus para entrar no Marte e Vénus também, deixando a sua exaltação. Este é um lugar difícil para os planetas femininos. É uma posição que está negativamente exacerbada se se pensar que está agora sob a influência de um eclipse. O lugar de exaltação do Sol (Carneiro) tem, neste momento, a sua luz ocultada. Um manto de sombra tolda o entendimento do Sol, o carácter espiritualmente transformador da sua luz. 

  No lugar do Poente, temos assim Vénus, em posição pós-poente, logo abaixo do horizonte e como Estrela da Manhã, a Caput Draconis, a Lua, o Sol e Mercúrio, este sob os raios solares eclipsados e como Estrela da Tarde. Se, por um lado, Vénus é uma promessa do amanhã, escondida sob o horizonte, por outro, Mercúrio é a palavra que arde na sombra, o conhecimento obscurecido. A posição de Vénus, ligeiramente abaixo do horizonte, marca um caminho descendente da luz. Não existem astros nem a ascender, nem a culminar. Vénus é como Perséfone a entrar no submundo, para se unir a Hades (Plutão) que avança para o lugar mais profundo, para o Tártaro. O amor e a morte ocultam-se sob o véu da realidade mais profunda, da verdadeira natureza das coisas. O sextil de Plutão em Aquário aos astros em Carneiro aponta para este sentido, para o aprofundamento destruturado das nossas acções.

  Com a Lua e Vénus em Carneiro, o feminino entra no lugar de exaltação do Sol, um lugar onde a luz está agora ocultada, subtraída à realidade humana pessoal e colectiva. Ao deixar para trás o signo de Peixes, Vénus deixou desequilibrado o poder dos maléficos, ou seja, já não é um travão para a expansão dos seus raios. A dádiva do amor perde o sentido de totalidade. Devemos ter também em consideração que existe uma relação tensa com a posição dos maléficos no tema matriz da série Saros: Marte está em conjunção e Saturno em quadratura. Esta ligação mostra-se como o espelho do mal, o olhar devolvido do abismo humano. Outro aspecto a salientar é que a conjunção exacta dos maléficos ocorrerá dois dias depois do actual eclipse, no grau 15 de Peixes. Contudo, a fé e a esperança continuam no horizonte, pois este grau pertence ao decanato e aos termos de Júpiter.

  Esta posição, a par da de Plutão em Aquário, olhando quadrangularmente para Júpiter e Úrano em Touro, revela uma total corrupção do sentido primordial de humanidade e do valor do humano. O conflito entre Israel e o Hamas e o genocídio do povo palestino evidencia esta disrupção. As tensões começam com a quadratura de Marte em Balança com Plutão em Capricórnio, adensam-se com a entrada de Plutão em Aquário, a 21 de Janeiro, e, por fim, culminam com a conjunção dos maléficos em Peixes. O fim da humanidade é a extinção do humano. A pergunta que se coloca é o que faz com que o mal (Marte e Saturno em Peixes) não se torne total e não se espalhe como uma praga, e a resposta, de acordo com o lugar que esse ocupa, só pode uma, a união pelo amor, pela compaixão (Neptuno em Peixes), da Fé à Sabedoria (Pistis-Sophia).

  O sextil de Marte, Saturno e Neptuno em Peixes a Júpiter e Úrano em Touro concede à liberdade, à afinidade electiva, a transformação do mal em bem, exigindo um esforço real de reestruturação. A via da justiça, da justa medida, é uma parte da dádiva, das bênçãos que a humanidade pode colher. Júpiter concede a bênção da luz do bem. Porém, uma vez que o eclipse ocorre no segmento diurno, fazendo de Júpiter o grande benéfico, essa bênção encontra-se obscurecida, existe, mas não é vista. Este obscurecimento do bem é observável em outros dois elementos de análise. No tema de Lisboa, Júpiter e Úrano estão na VIII, no lugar da morte, ou seja, num lugar inactivo, sem vida, e, por outro lado, olham quadrangularmente para Plutão, o senhor da morte. Esta ligação da morte ao bem, à revolução do bem, coloca a humanidade sobre o abismo.

  O eclipse solar de dia 8 de Abril, no signo de Carneiro, resume, desta forma, um momento da humanidade e da sua história em que a acção humana se encontra obscurecida, incapaz de se fixar na luz ausente, mas esperada. A acção precisa de finalidade. O acto inaugural em Carneiro precisa de saber que a finalidade da viagem é o tesouro da totalidade que se encontra Peixes. No entanto, nos tempos que vivemos, o humano é como um Jasão sem o Argo e sem companheiros de viagem, sem o conhecimento do tosão de ouro. O humano precisa de reencontrar a humanidade e seguir a luz.    

segunda-feira, 25 de março de 2024

Reflexões Astrológicas 2024: Eclipse Lunar Apulso (Lua Cheia Balança-Carneiro)

Reflexões Astrológicas


Eclipses


Eclipse Lunar Apulso 

(Lua Cheia: Balança-Carneiro)

Lisboa, 07h13min, 25/03/2024

 

Lua

Decanato: Lua

Termos: Saturno

Monomoiria: Marte    

 

Sol

Decanato: Marte

Termos: Júpiter

Monomoiria: Saturno  

 

  O Eclipse Lunar Apulso de dia 25 de Março ocorre com a Lua no signo de Balança e o Sol no de Carneiro, com Carneiro a marcar a hora e cerca de quarenta e cinco minutos após o nascer-do-sol (hora de Lisboa), logo no Segmento de Luz (αἵρεσις) do Sol, estando este acima do horizonte, na I, no Leme do tema (οἴαξ), já a Lua está abaixo do horizonte, na VII, no lugar do Poente (δύσις). A Lua encontra-se no seu decanato, nos termos de Saturno e monomoiria de Marte, enquanto o Sol encontra-se no decanato de Marte, nos termos de Júpiter e monomoiria de Saturno. Após a aurora, com a noite terminada, o eclipse colocará a sua sombra sobre o eixo do horizonte e, a partir da Ascensão, trará consigo a mensagem do Dragão da Lua, aquela que une a necessidade e o destino.

  Um eclipse lunar apulso ou penumbral acontece quando a Lua passa só pela penumbra terreste, ou seja, pela parte menos escura da sombra da Terra. Neste tipo de eclipse, o obscurecimento da Lua é subtil e difuso, tornando a sua observação mais difícil. De um ponto de vista simbólico, a Terra não esconde a Lua, leva-a sob o véu. Não é Deméter pesarosa à procura de Perséfone, oculta sob a Terra com Hades, é sim Deméter, passeando, na Primavera e Verão, com Cora (Koré), protegida sob o manto materno. Um eclipse lunar expressa, também por esta razão, algumas das matizes de luz e sombra do feminino, mostrando a ponte de sentido que existe entre o mito e a realidade. No entanto, o eclipse actual não favorece o feminino, pois a Lua, no tema de Lisboa, afunda-se no Poente, num signo masculino e nos termos de Saturno.

  A luz e a sombra, guardados pelo corpo do dragão primevo, revelam a forma como a providência gere a parte e o todo, como concede cada porção de luz e sombra, sem perder nunca a visão do todo, o olhar da montanha. Proclo, nos Elementos de Teologia, diz-nos o seguinte: “Todo o todo-na-parte é uma parte de um todo-de-partes. Porque se é uma parte, é uma parte de algum todo; e este deve ser ou o todo que contém, em virtude do qual é chamado de todo-na-parte, ou então algum outro todo. Mas, na suposição anterior, será uma parte de si mesmo, e a parte será igual ao todo, e os dois idênticos. E se for uma parte de outro todo, ou é a única parte, e se assim for será novamente indistinguível do todo, sendo a única parte de uma unidade pura; ou então, uma vez que as partes de qualquer todo são pelo menos duas, este todo incluirá um outro elemento e, sendo composto por uma pluralidade de partes, será um todo das partes que o compõem. Por conseguinte, o todo-na-parte é uma parte de um todo-ou-partes.(Prop.68, The Elements of Theology, ed. E.R. Doods, p.65. Oxford, 1971: Clarendon Press).

  Ora se ultrapassarmos sem preconceito a linguagem filosófica, julgando que é erudição aquilo que apenas traduz a realidade, compreendemos uma porção daquela que é relação entre a parte e o todo. Esta relação é transcrita pelo eixo Peixes-Virgem, aquele será a próxima viagem do ciclo nodal. No entanto, o actual ciclo de eclipses ocorre no eixo Carneiro-Balança, ou seja, no eixo da identidade, aquele que une a unidade e a dualidade e que estabelece a travessia da ponte da alteridade. A significação destes dois eixos é fundamental para a compreensão, para a consciência íntima, da luz e da sombra sobre estes binómios. A providência colocará a necessidade (Caput) e o destino (Cauda) sobre estes conceitos e sobre a forma como integramos o seu sentido profundo. O eclipse de dia 25 de Março marca, neste ano de 2024, o início da continuação dessa viagem. O desafio será passar, neste e nos próximos anos, da identidade (Carneiro-Balança) à integração (Peixes-Virgem). 

  Seguindo a ideia desenvolvida por Proclo, será necessário compreender-se como a parte que nos coube participa do todo e de que tipo é esse todo, o que é, de facto, uma integração da identidade na totalidade. Porém, essa integração ocorre primeiro como revelação da consciência de si e depois como desagregação dessa mesma consciência na consciência do todo, ou seja, seguindo a inspiração estóica, a alma individual compreende que participa da Alma do Mundo. Quando um eclipse se firma sobre o horizonte, dando luz à sombra e sombra à luz, confirmando as suas naturezas, esse processo de integração toma a forma de desafio ou enigma. Se excluirmos Júpiter, Úrano e Plutão, todos os outros planetas estão presentes em signos dos eixos indicados. Na verdade, em Peixes, existe uma forte co-presença planetária (ou Stellium como hoje se diria). Neste signo, aquando do eclipse, estão Marte, Saturno, Vénus e Neptuno, os maléficos e os planetas da dádiva do amor (Vénus exaltada e Neptuno no signo por si regido).

  Face ao exposto, a influência do actual eclipse terá de conciliar a sua presença nos ciclos nodais com a extensão temporal da sua acção concreta. A questão da influência dos eclipses deve considerar sempre uma metodologia plural, uma que se fixe para além das horas equatoriais descritas por Ptolomeu. A leitura das declinações do Sol e da Lua colocariam uma influência restrita de um a dois meses, já a duração penumbral fixaria uma influência mais ténue, de quase cinco meses. Um outro critério que também firma a sua influência é a série Saros em que se insere. A série Saros 113 é uma série antiga que começou a 29 de Abril de 888 e que vai terminar a 10 de Junho de 2150. Este é o 64º eclipse de um total de 71 eclipses, o que confere uma certa maturidade à mensagem proposta pela série.

  A série Saros 113 é inaugurada por um eclipse em que o Dragão da Lua se estende pelo mesmo eixo que o actual, todavia, o eixo luminar encontrava-se no eixo Touro-Escorpião, ou seja, no eixo do ciclo nodal anterior ao que estamos a viver. Este factor, para a questão da influência, corrobora o sentido de uma influência abrangente, escrita num ciclo astrológico mundano mais amplo. O tema do primeiro eclipse de uma série Saros serve de matriz para toda a série e, seguindo este modelo interpretativo, existe uma proximidade do sentido astrológico inicial com o actual.

  No eclipse de 29 de Abril de 888, a Lua e Úrano estavam no signo que marca a hora, Escorpião, e no signo oposto, Touro, estavam o Sol, Mercúrio e Plutão. Em Carneiro, estava a Caput Draconis, Marte e Neptuno. Júpiter estava em Caranguejo e Saturno, culminando, em Leão. Curiosamente, Vénus era o único planeta que se encontrava cadente, o mesmo que hoje está exacerbado, mas também cadente. Porém, em 888, estava no lugar da Deusa (III) e hoje está na XII, no Mau Destino (ou Espírito). Existe pois uma potência por cumprir. Ora, aquando deste eclipse-matriz, ocorrem três mortes que conduzem a mudanças em três reinos diferentes. Morre o imperador carolíngio Carlos III, levando a mais uma cisão no Reino dos Francos. Morre Al-Mundhir, emir de Córdoba, sendo sucedido pelo irmão Abdullah ibn Muhammad al-Umawi. Ora Emirado de Córdoba vai anteceder o Califado de Córdoba que tanta importância terá na história política e cultural da época. Por fim, morre o imperador Xi Zong que também será sucedido pelo irmão, neste caso, Zhao Zong, e que dará continuidade à dinastia Tang.

  No mesmo ano, o rei Alfredo, o Grande, funda a Abadia de Shaftesbury, mas é sobretudo pelas efemérides militares que o período deste eclipse é lembrado. O conde de Vannes, Alan I, e o seu rival, Judicael, unem forças para derrotar os Vikings em Questembert. Dá-se também a Batalha de Milazo, em que os aglábidas esmagam a armada bizantina ao largo da Sicília. Deve-se salientar igualmente as expedições militares do rei Arnulfo da Caríntia na região dos Alpes e do norte de Itália, confirmando o seu poder na sucessão de Carlos III. Todos estes acontecimentos fundam um período de transformações e que, num curto período, vão provocar várias mudanças. O trígono entre os maléficos potenciou muitos destes momentos (Marte em Carneiro e Saturno em Leão).

  A influência espacial do eclipse de 25 de Março coloca o centro da sombra no mar, no Oceano Pacífico, perto do Equador, entre Puerto Ayora (Ilha de Santa Cruz, Equador) e as ilhas Marquesas, da Polinésia Francesa, estas um pouco mais a sul. À semelhança dos últimos eclipses e do próximo, o eclipse será visível em grande parte do continente americano. Já o manto penumbral será visível na ascensão da Lua nas zonas orientais da Europa e de África e, no seu declínio, no extremo ocidental da Ásia e da Oceania. Já nas regências geográficas antigas, e de uma forma menos intensa, o Sol em Carneiro, segundo Vétio Valente (Antologia I, 2), rege as seguintes regiões: a Babilónia, Elymais ou Elamais (Cuzistão, província do Irão), a Pérsia, a Palestina e as regiões circundantes, a Arménia, a Trácia, a Capadócia, Susã (cidade antiga, capital do Elão ou Susiana, hoje sudoeste do Irão), o Mar Vermelho e o Mar Negro, o Egipto e o Oceano Índico. Para Manílio, rege Helesponto (Estreito de Dardanelos), Propontis (Mar de Mármara), a Síria, a Pérsia e o Egipto (Astronomica, IV, 744-817). 

  De uma forma mais intensa, a Lua em Balança, também segundo Valente (Antologia I, 2), vai ter influência sob a Báctria (região persa do Coração que corresponde actualmente ao Afeganistão, Tajiquistão, Uzbequistão, Paquistão e China), a China, a zona do Cáspio, Tebaida (região do Antigo Egipto entre Abidos e Assuão), o Oásis (Oásis de Siwa ou Siuá, no deserto da Líbia), Troglodítica (região antiga do deserto líbio, mas que se pode estender por região que vai até ao Mar Vermelho e ao Corno de África), a Itália, a Líbia, a Arábia, o Egipto, a Etiópia, Cartago, Esmirna (Anatólia, Turquia), os Montes Tauro (Sul da Turquia), Cilícia (Turquia) e Sinope (Norte de Turquia, junto ao Mar Negro). Manílio coloca a Itália e, em especial, a cidade de Roma sob a regência de Balança, referindo, por um lado, que Roma controla as mais variadas coisas, exaltando e precipitando as nações nos pratos da balança, por outro lado, este é signo do imperador, de Augusto que terá nascido a 23 de Setembro de 63 AEC (Astronomica IV,773-77).

  O tema do eclipse de dia 25 de Março tem, como já observarmos uma grande concentração planetária nos eixos anunciados. Dos doze signos, apenas cinco tem a presença de planetas. Em Carneiro, temos o Sol, Mercúrio (e a Caput Draconis), já em Balança está a Lua (e a Cauda Draconis). Neste eixo de identidade, entre a unidade e a dualidade, a luz da acção e da palavra e a mediação criativa encontram-se obscurecidas, pendem sobre o horizonte como as escalas desequilibradas de uma balança. A sombra do eclipse vai trazer um obscurecimento ao sentido de identidade, à consciência daquilo que se é, tanto pessoal como colectivamente. De uma perspectiva política, o enraizamento dos valores democráticos encontra-se assombrado. A penumbra de um individualismo narcísico, incapaz de integrar as ideias de solidariedade e de Estado Social, corrompe a ponte democrática entre a igualdade e a liberdade. A Lua em Balança, num eclipse lunar, acentua o desequilíbrio de valores. Em Portugal, a cada dia que passa, o valor da Revolução de Abril perde-se na espuma dos dias, no desligamento da realidade.

  Mercúrio em Carneiro, como Estrela da Tarde, abaixo do horizonte, revela uma palavra que não faz, que tenta, mas não cria, que não promove uma verdadeira práxis. Tudo se perde na desinformação, na ignorância, na liquidez dos tempos. O sextil de Plutão em Aquário ao Sol, a Mercúrio e à Caput em Carneiro e o trígono à Lua e à Cauda em Balança, ambos em separação, trazem o sentido profundo da morte ao humano e à humanidade, potenciando o elemento de transformação anteriormente descrito. Existe uma desintegração de valores colectivos. Aquando da ascensão do nazismo, Saturno estava em Aquário e Úrano em Carneiro. De uma outra forma, quando Saturno e Neptuno passarem para Carneiro vamos encontrar elementos concordantes, diferentes, mas comuns. De uma outra forma, na Marcha sobre Roma, que marca a ascensão do fascismo italiano, Saturno estava em Balança e Marte em Capricórnio. Existe muitos pontos de ligação com a actual ascensão da extrema-direita.

  Júpiter e Úrano em Touro em quadratura a Plutão em Aquário e em sextil a Marte, Saturno, Vénus e Neptuno em Peixes servem de base conceptual e de estrutura de sentido para o tema do eclipse lunar. Nesta configuração astrológica, a par da que se estende no eixo Carneiro-Balança, repousa a mensagem de luz e sombra que a providência nos concede. Evágrio do Ponto, um monge-asceta e teólogo do século IV EC, afirma o seguinte: “O conhecimento espiritual é ‘as asas’ da mente; o gnóstico é a mente das asas. E se isto é assim, então as coisas carregam o signo das ‘árvores’: (elas são) aquelas coisas em que a mente se empoleira, desfrutando das suas folhas e deleitando-se com os seus frutos, enquanto almeja, a cada momento, a ‘árvore da vida’.(Kephalaia gnóstica 3.56 S2 in Evagrius of Pontus: The Gnostic Trilogy, ed. R. Darling Young, J. Kalvesmaki, C. Stewart, C. Stang & L. Dysinger, 284. Oxford, 2024: Oxford University Press). A humanidade precisa de asas, de voar pelo céu da gnose até à sabedoria. No entanto, a configuração astrológica mostra o contrário ou, no mínimo, as dificuldades de possuir essas asas e voar.

  Existe um elemento de sentido, e que já abordamos no tema do Ano Novo Astrológico, que pode ser designado como a estranheza do bem ou a negação da dádiva. A conjunção dos maléficos (Marte e Saturno) em Peixes traz a experiência do mal à vontade de totalidade. Porém, esta experiência do mal, como tal como o eclipse sugere no eixo luminar, nodal e de ascensão, é colocada numa balança, onde de um lado está a própria experiência do mal e do outro está a dádiva do amor. A união de Vénus e de Neptuno em Peixes, ou seja, o lugar de exaltação e de domicílio moderno, potencia exacerbadamente esta bênção. Contudo, esta dádiva perder-se-á até ao momento do eclipse solar e, nesse momento, a conjunção dos maléficos forçará o seu peso nas escalas da balança.

  Seguindo a citação de Evágrio do Ponto, Júpiter e Úrano em Touro são hoje, no voo da gnose, as árvores do conhecimento espiritual. Nesta posição e também pelos aspectos que se forma, nomeadamente o sextil aos planetas no signo de Peixes. A relação destes dois posicionamentos conjuga dois elementos, pois temos tanto o factor de estruturação ou reestruturação da realidade como a liberdade ou o livre-arbítrio sobre a experiência do mal e a dádiva do amor. No caso do tema de Lisboa, podemos observar como os regentes do eixo luminar recaem ambos na XII, no lugar do Mau Destino (κακός δαίμων), revelando a degradação da mediação, do elemento de passagem, entre o humano e a providência.

  O Eclipse Lunar Apulso de dia 25 de Março é o primeiro momento alto do Dragão da Lua em 2024 e é a primeira grande luta entre a luz e a sombra. No actual ciclo, é também o penúltimo eclipse lunar no eixo nodal Carneiro-Balança, o último em que o Dragão da Lua e os luminares estão neste eixo. Por isso, a questão da luz e da sombra sobre o eixo da identidade, sobre a unidade e a dualidade, tornar-se-á mais revelante, bem como o peso da sua mensagem durante o período de influência. Como em todo o eclipse, será necessário enfrentar a sombra e seguir a luz. 

terça-feira, 19 de março de 2024

Reflexões Astrológicas 2024: Ano Novo Astrológico

  Reflexões Astrológicas


Lunações


2024 – Ano Astrológico

Lisboa, 03h07min, 20/03/2024

 

Sol

Decanato: Marte    

Termos: Júpiter  

Monomoiria: Marte        

 

   O início do Ano Astrológico ocorre, como sabemos, com o ingresso do Sol no signo de Carneiro, logo no decanato de Marte, nos termos de Júpiter e na monomoiria de Marte. Já a Lua encontra-se, neste ano, no seu próprio segmento, em Leão, no mesmo elemento do Sol, em Fogo, e no decanato de Saturno, também nos termos de Júpiter e na sua monomoiria. A posição da Lua é aqui particularmente significativa, pois, daqui a um ano, aquando do início do Ano Astrológico de 2025, estará em Sagitário, completando-se, deste modo, o triângulo de Fogo. A Lua em Fogo está em desarmonia, masculinizada por um elemento dinâmico que a torna irascível e visceralmente instintiva. Para a hora de Lisboa, Capricórnio está a marcar a hora, colocando assim o Sol na IV, no Lugar sob a Terra (ὑπόγειον). O poder da finalidade ergue-se pois como o leme do ano, um que culmina na morte (Ponto de Culminação em Escorpião).           

   O Sol, encerrado no Lugar sob a Terra (ὑπόγειον), conserva em si um valor de gérmen, de potência de luz. A acção da luz (Sol em Carneiro) está guardada entre as mãos, como dádiva do futuro. Epicteto diz-nos o seguinte: “Fixa, a partir de agora, um carácter e um padrão para ti próprio, que guardarás quando estiveres sozinho, ou quando te encontrares com outros.(Encheiridion 33.1, trad. A. Dinucci & A. Julien, p.56. Coimbra, 2014: Imprensa da Universidade de Coimbra). A frase de Epicteto surge como indicador daquele que pode ser o regente ou os regentes do ano. Numa análise astrológica mundana, fixar um único regente para todo o planeta é metodologicamente errado e qualquer astrólogo rigoroso evitará esse diagnóstico. No entanto, a análise dos planetas com maior força ou poder (δύναμις) torna-se ela mesma imperativa.

   Para o tema de Lisboa, logo para Portugal, Saturno, por ser o regente do signo que marca a hora, será um planeta com força ou poder reforçado no ano de 2024, já a Lua em Leão é o único astro acima do horizonte, o que lhe confere o poder da luz visível, embora esta esteja num lugar inactivo e sob um olhar diametral tenso (Marte e Plutão). Face ao tema simbólico de Portugal e a uma tradição astrológica que faz de Peixes o seu signo regente, Saturno, a transitar por esse mesmo signo, torna-se assim um regente significativo. Já de uma perspectiva geograficamente indeterminada, Vénus é o planeta que tem mais força, pois aquando do ingresso vernal encontra-se no seu signo de exaltação (Peixes) e nos seus próprios termos. Mercúrio e Júpiter gozam também desta última dignidade, todavia a força de Vénus é maior. Esta encontra-se para além dos raios solares, numa posição dianteira, como Estrela da Manhã. A fase helíaca vai aumentar o seu poder.  

   Se regressarmos à frase de Epicteto, podemos compreender melhor a questão do regente ou dos regentes do ano astrológico de 2024. De um lado, temos Vénus em Peixes, o planeta mais dignificado, mas, no mesmo signo, temos também Saturno, que exerce pressão determinante sobre o período em causa. Os planetas em Peixes surgem, neste ano, como a potência de valor para a acção do Sol em Carneiro. Nesse sentido, é fundamental fixar, como diz Epicteto, um carácter, um padrão que sirva o próprio e a sua relação com os outros, ou seja, que firme a partir do interior a acção exterior, tanto individual como colectiva. Vénus e Saturno não são um par improvável, dado que o Amor e o Tempo caminham a mesma via. Só semeando se poderá depois ceifar. Porém, esta influência exercer-se-á sobretudo na primeira estação do ano, Primavera no hemisfério norte e Outono no hemisfério sul.

   De um outro modo, se, por um lado, temos em 2024 a permanência de Saturno no mesmo signo, em Peixes, por outro lado, temos Júpiter e o seu ingresso em Gémeos. O senhor da justiça e do bem, regendo o espaço, será também um regente do futuro. Ao ingressar em 2024 num signo de Ar, marca o tempo de influência que se iniciou com a grande conjunção em Aquário, em 2020, e se estenderá até 2060 com o encontro de Júpiter e Saturno em Gémeos, passando pela conjunção de 2040 em Balança. Em 2024, o ingresso de Júpiter em Gémeos torna-se particularmente significativo, pois possui elementos radicais desse ciclo mundano. No entanto, ao ingressar em Gémeos, Júpiter passará a olhar quadrangularmente para Saturno em Peixes, intensificando-se o carácter estruturante dessa relação.    

   A questão do regente do ano não pode limitar-se a uma redução numerológica, nem a uma sequência planetária, seguindo uma qualquer ordem, como, por exemplo, a ordem caldaica. Na verdade, como se percebe pela explanação anterior, não é possível reduzir a questão a um único planeta, pois os critérios de análise e determinação são plurais. Desta forma, podemos concluir que Vénus, Saturno e Júpiter vão ter uma força reforçada. No entanto, também Marte tem uma influência especial, uma vez que é o regente de Carneiro onde se encontra a Caput Draconis, determinando o actual ciclo nodal de eclipses. Marte terá assim uma relação óbvia com o Dragão da Lua e com sentido profundo do destino e da necessidade. Existe também um outro critério que eleva a influência de Marte em 2024. A conjunção dos maléficos que ocorre, mais ou menos, de dois em dois anos, firma-se agora no signo de Peixes, ou seja, Marte e Saturno vão exercer uma influência conjunta entre 22 de Março a 30 de Abril.

   Convém, no entanto, frisar-se um aspecto que determina com frequência muitas das interpretações. A explanação do mal tende a tornar-se mais atractiva. Existe um fascínio por aquilo que destrói, todavia, tende-se a ignorar que a destruição é apenas uma fase do ciclo e que a destruição é antecedida e sucedida pela criação. Este encantamento do mal conduz-nos, deste modo, a um certo esquecimento da dádiva do bem. Séneca, no De Constantia Sapientis, afirma o seguinte: “Finalmente, deve ser mais forte o que danifica em relação ao que é danificado; mas a maldade não é mais vigorosa do que a virtude; o sábio, portanto, não pode ser danificado. A injúria contra os bons só é tentada pelos maus; os bons, entre si, vivem em paz, os maus são tão perniciosos aos bons quanto entre si. Mas se não possível danificar a não ser o mais fraco, e o mau, por outro lado, é mais fraco que o bom, e os bons só devem recear injúria de quem não é bom, a injúria não atinge o homem sábio. Com efeito, já não é mais preciso ficar-te relembrando de que ninguém é bom, excepto o sábio.” (7.2, Séneca, Sobre a Providência Divina e Sobre a Firmeza do Homem Sábio, ed. R. da Cunha Lima, p. 90. São Paulo, 2000: Nova Alexandria).

   No tema do Ano Novo Astrológico, esta prevalência da sabedoria e do bem pode ser observada na relação entre os benéficos. Ora Vénus encontra-se num signo regido por Júpiter e é também o regente da triplicidade diurna de Júpiter e este encontra-se num signo regido por Vénus, sendo também o regente do decanato em que esta se fixa. Existe uma interdependência no valor da dádiva do bem, dando forma à afirmação de Séneca e mostrando como a sabedoria e o bem não se deixam afectar pela acção do mal. A retrogradação dos maléficos, de Saturno de 29 de Julho a 15 de Novembro e de Marte de 6 de Dezembro a 24 de Fevereiro de 2025, servem essa suspensão da acção do mal através da interiorização do potencial do bem. Essa ponte da potencialidade à acção, do pensamento ao acto, relembra-nos que a sabedoria é imperativa e que não se deixa ferir, pois ela é em si mesma o bem supremo, ou seja, a ignorância estende-se, mas não faz caminho.

   De igual forma, a retrogradação de Júpiter, de 9 de Outubro a 4 de Fevereiro de 2025, já com este em Gémeos, traz-nos também essa ponte, mas com algumas diferenças. Neste período, existirá um movimento que nos lembrará, colhendo os dons do signo de Gémeos, que a palavra e o conhecimento são vias de transformação, ou seja, neste caso, precisa de existir um reconhecimento positivo da dádiva da sabedoria. Já no que concerne aos transaturninos é preciso referir também as retrogradações e dizer-se que, pela sua própria natureza, não têm o mesmo tipo de influência. Ora Úrano estará retrógrado de 1 de Setembro a 4 de Fevereiro de 2025, Neptuno de 2 de Julho a 12 de Outubro e Plutão de 5 de Maio a 12 de Outubro. Destes planetas, quer no período de retrogradação, quer no seu movimento directo, só Plutão mudará de signo. De 3 de Setembro a 19 de Novembro, regressará pela última vez a Capricórnio. Esta é, na nossa era, a última oportunidade de assimilação da sua mensagem.

   No entanto, devemos relembrar que estes planetas avançam muito pouco num ano. Úrano trilhará em diante cerca de quatro graus e meio, Neptuno pouco mais de dois graus e Plutão quase dois graus. Assim, é com cautela que se deve interpretar a sua influência anual e sobretudo a influência pessoal. Será portanto aconselhável circunscrever a orbe de análise. Existe um extravasar de sentidos acerca da influência destes planetas que é, por vezes, descabida. Quando Plutão ingressou em Aquário, estando neste signo cerca de vinte anos, ouviu-se e leu-se disparates como por exemplo: “entrou na minha casa IV, um dos pais pode morrer”, “entrou na casa VI, indica doença grave” ou “entrou na casa VII, vai existir um divórcio”. Em vinte anos, é natural que qualquer uma dessas coisas possa acontecer, sem que que o responsável directo seja Plutão. O estudo astrológico é sempre holístico, ou seja, é uma visão do todo.  

   Na análise mundana de um ano astrológico, o tema do ingresso vernal e a evolução dos movimentos planetários até ao ingresso seguinte é o primeiro indicador. A este deve, porém, seguir-se o estudo dos eclipses, sobretudo por duas razões: a primeira assenta no facto de os eclipses serem expressões radicais da luz e da sombra, logo dos luminares, e a segunda por a sua influência se estender durante meses ou anos. Em 2024, existirão quatro eclipses: dois eclipses lunares, a 25 de Março e a 18 de Setembro, e dois eclipses solares, a 8 de Abril e a 2 de Outubro. Todos estes eclipses ocorrem no eixo Carneiro-Balança, logo no eixo de sentido entre a unidade e a dualidade. No entanto, antes do ano terminar, o Dragão da Lua passará para o eixo Peixes-Virgem, ou seja, para a ponte de sentido entre a parte e o todo, entre o conhecimento do lote e a sabedoria da totalidade. Passar-se-á então de eixo de identidade para um de integração.

   No tema do actual ingresso vernal, a interpretação das relações planetárias pode agora começar pelos transpessoais, pois existe com a mudança de signo de Plutão uma alteração no paradigma. Com Úrano em Touro, Neptuno em Peixes e Plutão em Capricórnio, existe uma harmonia entre estes planetas (sextil e trígono), mas, com Plutão em Aquário, este passará a estar em quadratura com Úrano e desligado, sem aspecto ptolemaico, face a Neptuno. Esta mudança representará não um qualquer deslumbramento aquariano, mas sim um agravamento de muitas das tensões que já se encontram latentes. Se não nos esquecermos que Aquário é primeiramente regido por Saturno e se observarmos no tema vernal como Marte e Plutão estão conjuntos neste signo, podemos concluir que existe uma corrupção nas estruturas de poder e na forma como estas se relacionam com as populações. A ligação de Marte e Plutão em Aquário ao Dragão da Lua (trígono à Cauda e sextil à Caput) coloca a destruição actual na urdidura da providência. A desagregação dos valores democráticos e o avanço da extrema-direita e do populismo são disso exemplo e a chegada, em 2025, de Saturno e Neptuno a Carneiro adensará os perigos que estão à espreita.

   Mercúrio que, em Carneiro, teria posição particularmente, por estar para além dos raios solares, mas como Estrela da Tarde e conjunto à Caput Draconis, poderá adquirir um valor de sentido ambíguo, apontando, por um lado, para o ímpeto da palavra criativa e, por outro, para a palavra que confunde, que deturpa e que promove a mentira como verdade. O destino e a necessidade pesam sobre palavra e conduzem o humano ao seu enigma primordial: para escolher a sabedoria é preciso seguir a via da verdade e esta implica sempre uma qualquer forma de angústia e de revelação. O sextil do Sol, de Mercúrio e da Caput Draconis em Carneiro a Marte e Plutão em Aquário e o trígono à Lua em Leão firmam um elo entre liberdade e destruição. No tema de Lisboa, o Ponto de Culminação encontra-se em Escorpião, logo numa posição que é quadrangular face aos seus regentes (Marte e Plutão em Escorpião). Existe um fenómeno de desagregação do humano como senda de possibilidade da criação de uma nova humanidade ou como via para uma nova extinção. O abismo abeira-se.

   Por o tema de Lisboa dignificar o segmento de luz nocturno, Vénus torna-se o grande benéfico e, por estar exaltada e nos seus próprios termos, ganha uma força reforçada. Desta forma, Afrodite expande o amor no domicílio de Júpiter, onde também se encontra Saturno e Neptuno, o seu regente moderno de Peixes. Este será um lugar de dádiva, a partir do qual se poderá expandir o seu sentido radical. O sextil a Júpiter e Úrano em Touro recuperam naturalmente o tema da Grande Mãe, da Mãe Terra e do Divino Feminino. No entanto, este é um númen que continua oculta entre o crepúsculo e a aurora. A quadratura da Lua em Leão a Júpiter e a Úrano em Touro e destes a Marte e a Plutão em Aquário impedem a dignidade espiritual do Divino Feminino e o reconhecimento da nobreza de espírito da sua dignificação. A nova ecologia precisa espiritualidade do feminino e a sociedade também.  

   O ano astrológico de 2024 aponta para um sentido que exalta a criação de pontes, de elementos de passagem. Vénus e Saturno, o desejo de criar e a necessidade de destruição, vão colocar o humano sob a égide radical desse factor de transformação. Existe pois uma necessidade de revalorização da dádiva do bem (Vénus e Júpiter), mostrando-nos que também entre as ruínas existem tesouros. É a luz da candeia, guardada sob o manto do sábio. O planeta que habitamos e a humanidade estão ao viver aquele momento entre eras, entre um ciclo que se fecha e um que ainda não se abriu. Em 2024, a experiência do limiar tornar-se-á, desta forma, um sentido profundo.

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

Reflexões Astrológicas 2023: Eclipse Lunar Parcial (Lua Cheia Touro-Escorpião)

  Reflexões Astrológicas


Eclipses


Eclipse Lunar Parcial 

(Lua Cheia: Escorpião-Touro)

Lisboa, 21h14min, 28/10/2023

 

Lua

Decanato: Mercúrio

Termos: Vénus

Monomoiria: Marte   

 

Sol

Decanato: Marte

Termos: Marte

Monomoiria: Saturno

 

  O Eclipse Lunar Parcial de dia 28 de Outubro ocorre com a Lua no signo de Touro e o Sol no de Escorpião, com Gémeos a marcar a hora e menos de três horas após o pôr-do-sol (hora de Lisboa), logo no Segmento de Luz (αἵρεσις) da Lua, estando esta acima do horizonte, na XII, no lugar do Mau Espírito ou do Mau Destino (κάκον δαίμων), já o Sol está abaixo do horizonte, na VI, no lugar da Má Fortuna (κάκη τύχη). A Lua encontra-se no decanato de Mercúrio, nos termos de Vénus e monomoiria de Marte, enquanto o Sol encontra-se no decanato de Marte, nos termos de Marte e monomoiria de Saturno. Após o crepúsculo, caída a noite, o eclipse colocará a sua sombra sobre o horizonte e, a partir da Pós-Ascensão, trará consigo o peso do destino.

  Acerca do eixo de lugares (XII-VI) onde este plenilúnio obscurecido se estende, Manílio diz o seguinte: “a porta do trabalho serão: por uma se sobe e pela outra se desce” (Astronomica II, 870: porta laboriis erit: scandendum est atque cadendum). O conceito fundamental que se extrai deste verso é o de labor, de trabalho, que tem aqui o sentido de dificuldade, de esforço, de pena, mas também, inevitavelmente, de desafio. Lembremo-nos, por exemplo, dos trabalhos de Hércules. Ora Virgílio, na Eneida, refere os eclipses solares como labores solis, os trabalhos ou labores do sol (I, 742). Esta é uma ideia preciosa, pois diz-nos que a sombra coloca a luz, seja ela directa (Sol) ou reflectida (Lua), sobre esforço. Desta forma, se o eixo do eclipse lunar cair sobre o eixo da VI-XII este sentido sai reforçado, sobretudo se se conjuga com o sentido negativo ou obscurecido dos conceito de τύχη e δαίμων. A fortuna e o destino são colocados assim, não perante a dualidade dos acontecimentos, mas sob a potencialidade da acção humana e o modo como esta apreende os acontecimentos. Para ascender ou descender, como diz Manílio, a luz terá de passar por esse pórtico penoso onde o seu espectro se sujeita à dificuldade e ao esforço. Os eclipses, face ao estender da sombra a partir da própria luz, são necessariamente tempos de angústia e agrura.

  Nas Meditações, Marco Aurélio diz-nos seguinte: “Abandona-te de boa mente a Cloto; deixa-a tecer a tua vida com os acontecimentos que lhe aprouver.” (IV, 34, trad. J. Maia. Lisboa: Relógio D’Água, 1995). No que aos acontecimentos concerne, a acção humana é determinada pela aceitação do fio das Meras, do destino, todavia, existe liberdade na forma como acolhemos, ou não, a luz e a sombra. O imperador romano continua, afirmando: “Considera de contínuo que o mundo é como um ser único, contendo uma substância única e uma única alma; e que tudo vai desaguar à mesma e única percepção que é a sua; ele tudo realiza por força do mesmo impulso; todas as coisas ao mesmo tempo concorrem para causar o que acontece e que trama cerrada e complicada é o que elas produzem” (IV, 40). Esta causalidade não só é natural como é provida de sentido, de finalidade, contudo, a sua interiorização exige esforço. Para tudo e para cada um, existe um trabalho que lhe é devido. As portas do trabalho são portanto os desafios desta causalidade.  

  As raízes desta ideia atravessam, na Antiguidade, o pensamento filosófico e a astrologia. Já Platão, no Timeu, afirmava que Com efeito, o deus, ao fazer girar em torno do eixo todos os círculos dos astros, como uma espiral, fazia parecer que o movimento era duplo e em sentidos opostos e que o que se afastava mais lentamente do que era mais rápido era o que estava mais perto. Para que houvesse uma medida evidente para a lentidão e para a rapidez com que se cumprissem as oito órbitas, o deus instalou uma luz na segunda órbita a contar da Terra, a que agora chamamos Sol, de modo a que o céu brilhasse ainda mais para todos e que os seres-vivos aos quais isso dissesse respeito participassem do número de modo a ficarem a conhecer a órbita do Mesmo e do Semelhante. Deste modo e por estas razões foram gerados a noite e o dia – o percurso circular uniforme e regular.” (39A-B, Timeu – Crítias, trad. R. Lopes. Coimbra, 2011: Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos). Existe tanto uma diversidade nesta unidade como uma harmonia de opostos que conduz a essa unicidade. Ora é neste ponto que um eclipse e, em especial, um eclipse lunar se torna particularmente significativo.

  A harmonia dos opostos funda-se, numa perspectiva divina, na união da Mãe Divina ao Pai Divino, ou seja, por amor o mundo se criou e por separação assim permaneceu, daí que Tábua de Esmeralda diga que Todas as coisas provêem de uma, por mediação de uma única, assim todas as coisas nasceram desta única realidade por um único processo de adaptação. O seu pai é o Sol; a sua mãe é a Lua.(TH 30, in Hermetica II -The Excerpts of Stobaeus, Papyrus, and Ancient Testimonies in an English Translation with Notes and Introduction., ed. M. D. Litwa, 2018: 315.  Cambridge: Cambridge University Press. A tradução é da minha responsabilidade). Na astrologia, o Sol é o Pai Divino e a Lua a Mãe Divina, são Osíris/Serápis e Ísis. Os antigos astrólogos conservaram sempre esta matriz de sentido. Os eclipses são a sombra que estende junto ao casal. Essa sombra é Set que, embora seja um inimigo, não deixa de ser seu irmão.

  Existe uma afinidade natural entre a luz e a sombra. Ora, para a significação do actual eclipse lunar, esta harmonia dos opostos vai para além do Sol e da Lua, pois a regência domiciliar dos signos do eixo luminar e do Dragão da Lua alimentam esta dicotomia. De um lado, temos a Lua em Touro (Vénus) e a Caput Draconis em Carneiro (Marte) e, do outro, temos o Sol em Escorpião (Marte) e a Cauda Draconis em Balança (Vénus). Sob a égide da luz e da sombra, existe pois uma força cósmica de união e separação, criando e destruindo.

  A influência do eclipse lunar de dia 28 não é das temporalmente mais longas, mas é espacialmente expressiva. Segundo o método ptolemaico, podemos fixar a influência entre um mês e nove dias e quatro meses e catorze dias, isto se considerarmos primeiro a duração do manto umbral e depois a do manto penumbral. Já a técnica que concilia a duração da escuridão do eclipse com o tempo de ascensão dos signos coloca a influência entre um dia e meio e um mês e oito dias. É significativo que duas técnicas com pressupostos diferentes tenham, neste caso, um período de influência tão aproximado. Já a influência espacial coloca o centro do eclipse ao largo do Iémen, entre a costa mais próxima da fronteira com Omã e a ilha de Socotorá (Suqutrah), um paraíso natural pertencente ao Iémen. No entanto, o eclipse tem um manto extenso que cobre o continente africano, europeu e asiático. 

  Quanto às regências espaciais antigas, temos de observar primeiramente as do signo de Touro, pois é onde se encontra a Lua. Segundo Vétio Valente (Antologia I, 2), Touro vai reger as regiões da Média (o actual noroeste do Irão, o Azerbaijão, o Curdistão Iraniano e o Tabaristão ou Mazandarão), da Cítia (Irão, mas também uma área que se estendeu da Bulgária às fronteiras da Rússia, Mongólia e China), do Chipre, da Arábia, da Pérsia e das montanhas do Cáucaso, da Samártia (junto à Média), de África, de Elymais ou Elamais (Cuzistão, província do Irão), de Cartago, da Arménia, da Índia e da Germânia. Para Manílio, Touro rege Cítia, a Ásia (por causa dos Montes Tauro) e a Arábia. (Astronomica, IV, 744-817).

  De seguida, por a Caput Draconis se encontrar num signo diferente, temos de considerar as regências de Carneiro. Vétio Valente (Antologia I, 2) diz-nos que as seguintes regiões pertencem a Carneiro: a Babilónia, Elymais ou Elamais (Cuzistão, província do Irão), a Pérsia, a Palestina e as regiões circundantes, a Arménia, a Trácia, a Capadócia, Susã (cidade antiga, capital do Elão ou Susiana, hoje sudoeste do Irão), o Mar Vermelho e o Mar Negro, o Egipto e o Oceano Índico. Para Manílio, rege o Helesponto (Estreito de Dardanelos), Propontis (Mar de Mármara), a Síria, a Pérsia e o Egipto (Astronomica, IV, 744-817). Embora com menor influência, o lugar do Sol também é significativo e Valente diz-nos que Escorpião rege a Metagonitis ou Numídia (Norte de África, Argélia e Tunísia), a Mauritânia, a Getúlia (Norte de África, Argélia e Tunísia), a Síria, Comagena (Ásia Menor), a Capadócia, Itália, Cartago, Líbia, Amom (Jordânia), Sicília, Espanha e Roma. Já para Manílio Escorpião rege Cartago, a Líbia, o Egipto, Cirene, a Itália e a Sardenha (Astronomica IV, 777-82).

  O eclipse lunar actual pertence à série Saros 146 que se iniciou a 11 de Julho de 1843 e que terminará a 29 de Agosto de 3123. É portanto uma série recente que se estende a partir do eixo Capricórnio-Caranguejo até ao eixo Peixes-Virgem. O seu eclipse inaugural, que serve de matriz genetlíaca de sentido, ocorreu com a Lua, a Caput Draconis e Saturno em Capricórnio, o Sol e a Cauda Draconis em Caranguejo, Mercúrio e Vénus em Gémeos, Marte em Sagitário, Júpiter e Neptuno em Aquário e Úrano e Plutão em Carneiro. A conjunção da Lua e Saturno e a quadratura destes a Úrano e Plutão em Carneiro, bem como a conjunção de Júpiter e Neptuno, levou por exemplo à erupção do Monte Etna a 25 de Novembro.

  No mesmo período, destaca-se também o terramoto na ilha Terceira, nos Açores. Por outro lado, a posição de Mercúrio e Vénus favoreceu, por exemplo, a publicação das obras de Charles Dickens, Edgar Allan Poe e Ada Lovelace. Kierkegaard publicou, pouco meses após o eclipse, a obra Temor e Tremor. Os eclipses, face à sua tensão uterina de luz e sombra, tendem a provocar elementos disruptivos. O pensamento e a arte são, por excelências, vectores de transformação, pois nascem do que transcende o comum.

  A relação do eclipse inicial da série Saros 146 com o actual eclipse é particularmente significativa, sobretudo se considerarmos a quadratura entre o eixo nodal do primeiro eclipse e a posição actual dos luminares. Entre os dois temas, a par da quadratura dragontina, os trígonos do Sol e da Lua tornam-se um intenso potencial de sentido. Existe nestes dois eixos zodiacais (Capricórnio-Caranguejo e Touro-Escorpião) uma qualidade, sob os desígnios eclipsais do destino e da necessidade, que é tanto dinâmica como estruturante, conciliando o tempo e o valor. Estendido entre a vida (Touro) e a morte (Escorpião), o valor encontra o seu sentido, mas hoje, coberto pelo manto umbral, o sentido daquilo que tem valor encontra-se difuso, obscurecido pelo peso do erro, da ilusão e do engano, por esta prole que a ignorância humana criou.

  Os tempos que vivemos com guerra, com inflação e especulação, com interesses e corrupção, com populismos e extremismos, ameaçando as democracias e os cidadãos, pervertem o valor da dignidade humana. A ideia de que existem humanos de primeira e de segunda e de que existem povos e terras eleitas são uma clara ameaça a nossa civilização e ao futuro da humanidade. A sombra sobre a Lua, Júpiter e Úrano em Touro pede-nos para repensar o planeta que habitamos e diz-nos que o direito à propriedade não pode pesar mais que o direito à dignidade. O planeta não pode ser um propriedade tem de ser um lar. É preciso repensar os valores do elemento Terra. O grande trígono de Terra, entre os planetas em Touro, já indicados, Plutão em Capricórnio e Vénus em Virgem, convida-nos a essa reflexão, não apenas como exercício espiritual, mas também base de uma nova práxis.     

  Por outro lado, o facto de Saturno em Peixes, conjunto a Neptuno, ser o astro mais alto adensa a gravidade do destino sobre o momento. A concórdia conceptual e espiritual entre as ideias de tempo e de totalidade fazem de Saturno em Peixes, segundo a matriz mitológica do deus romano da agricultura, o mestre do acto de semear, esperar e colher. Caído o manto da sombra, este é o tempo das colheitas, não das trazem os frutos da terra, mas sim das cumprem a consequência da desmedida. O trígono de Saturno e Neptuno em Peixes ao Sol, a Mercúrio e Marte em Escorpião, seguindo a lição de Petosíris de que nem todos os trígonos são bons, nem todas as quadraturas são más, consubstancia a gravidade didáctica do destino enquanto disrupção causal da Providência.

  A ὕβρις representa uma quebra na justa medida das coisas, naquilo que ocorre como é suposto que aconteça. A guerra representa um corte na ordem natural das coisas, pois conduz a uma destruição que não é própria da natureza cíclica de Gaia, mas sim da natureza humana, das suas franquezas. O terrorismo é uma outra face desta desmedida, levando o mal que nos consome ao outro. No entanto, o mito da violação de Alcipe, filha de Ares, por Halirrótico, filho de Posídon, mostra o outro lado de Escorpião, ou seja, a vingança como forma de resistência e reposição da justiça (Figueiredo, R.M. de, 2021, Fragmentos Astrológicos, 126). Este é o mito que está na origem do Areópago. Pela ofensa cometida, Ares mata Halirrótico. Posídon exige o julgamento e a respectiva condenação. No entanto, Ares é absolvido, pois o seu acto foi considerado legítimo. Os tempos que vivemos revelam esse fio ténue entre a vingança e a justiça, entre opressão e resistência.  

  Neste eclipse lunar, a tensão que ocorre no eixo Touro-Escorpião fundamenta o sentido profundo do actual manto umbral, fazendo deste choque entre a vida e a morte, entre criação e destruição, um elemento estruturante. Se considerarmos a relação de aspectos nos elementos Terra e Água (trígono), aqueles que fortalecem este fenómeno astrológico, observamos que, como um pentagrama imperfeito, existe um signo que não é habitado por nenhum planeta. Caranguejo, como signo da origem, torna-se agora um sinal de incompletude e isso é bastante significativo. Falta-nos hoje, por ocultação luminar, uma matriz feminina, lunar, de sentido. O mundo, a humanidade, devido às suas próprias escolhas, vive sem a Mãe Divina e, com o signo de Touro obscurecido, exaltando-se a Lua na sombra, a Terra não consegue ser Mãe.

  A grande maioria das posições e aspectos astrológicos presentes no tema do eclipse lunar já foram analisadas na reflexão do eclipse solar, todavia, é necessário destacar a posição dos maléficos e os seus movimentos futuros, pois, dentro do período de influência do eclipse lunar, Saturno iniciará, a 4 de Novembro o seu movimento directo e Marte ingressará em Sagitário a 24 do mesmo mês. A ligação entre os dois planetas passará do trígono à quadratura, agravando assim o seu carácter maléfico e a sua acção disruptiva. Os próximos meses vão indicar um desafio, um trabalho severo, para a humanidade. As nossas palavras e as nossas acções, mais do que nunca, vão determinar quem somos e para onde vamos. Estamos à beira do abismo.

  O eclipse lunar de dia 18 é o último neste ciclo nodal actual, no eixo de Touro-Escorpião. Passaremos definitivamente para o eixo Carneiro-Balança, deixando o sentido de valor para encontrar-se o sentido de identidade. No entanto, até à primeira época de eclipses de 2024, os eclipses no eixo Touro-Escorpião ainda estarão presentes, perdendo progressivamente a sua influência. O actual eclipse pela sua área geográfica de influência e pelas significações que o tema astrológico introduz vai, por força do destino e da necessidade, mas também pelo efeito da desmedida, trará desastres naturais e humanos. Sem amor e sem sabedoria, a humanidade perder-se-á.