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sexta-feira, 28 de março de 2025

Reflexões Astrológicas 2025: Eclipse Solar Parcial (Lua Nova em Carneiro)

Reflexões Astrológicas

Eclipses 



Eclipse Solar Parcial 

(Lua Nova em Carneiro)

Lisboa, 10h47min, 29/03/2025

 

Sol-Lua

Decanato: Marte  

Termos: Vénus   

Monomoiria: Sol    

                                           

 

   O Eclipse Solar Parcial de 8 de Abril ocorre no signo de Carneiro, com Caranguejo a marcar a hora (hora de Lisboa), no primeiro grau e apenas a quatro minutos, no Segmento de Luz (αἵρεσις) do Sol, com os luminares acima do horizonte, na X, no lugar daquilo que se faz, da Práxis (πράξις), embora a culminação caia na IX (casa-signo ou signo inteiro), e cerca de quatro horas e vinte minutos após a hora de alba, no decanato de Marte, termos de Vénus e na monomoiria do Sol. Os eclipses solares anteriores ocorreram junto ao Poente, já o actual encontra-se a caminho da culminação. Este elemento de análise consagra o sentido deste eclipse como marco de transição, pois é o último do ciclo no signo de Carneiro. O eixo nodal vai fixar-se no eixo Virgem-Peixes. O próximo eclipse solar de 2025 será no signo de Virgem, ou seja, define-se uma via de sentido que corresponde a metade do ciclo zodiacal.

   Nesta senda nodal de Carneiro a Virgem, lembrámo-nos dos versos inaugurais da Divina Comédia de Dante: “Nel mezzo del cammin di nostra vita/ mi ritrovai per una selva oscura,/ ché la diritta via era smarrita.” (No meio do caminho em nossa vida/eu me encontrei por uma selva escura/ porque a direita via era perdida. Inferno I, 1-3, trad. Vasco Graça Moura. Venda Nova, 2000: Bertrand Editora). No entanto, Carneiro não chega a Virgem pela “direita via”, o caminho nodal é uma via de retorno e terá de passar por Peixes sem o integrar o seu sentido. Caminha até à parte sem tomar como sua a totalidade, a finalidade do caminho. A identidade do eixo Carneiro-Balança segue uma via de sombra onde terá de enfrentar os seus fantasmas e aqui também no sentido etimológico do termo, ou seja, terá de se destruir e recriar a partir das suas próprias imagens. A “selva escura” é o lugar onde o humano e a humanidade podem ver o maior dos seus medos. Nesse lugar, vêem-se a si mesmos. A visão do espelho é assustadora. É como Dorian Gray a deixar o pano que cobre o objecto misterioso que esconde o seu verdadeiro eu. O olhar para si mesmo, seja para o humano, individualmente, ou para a humanidade, é aterrador e é assim que deve ser, pois a iniciação nasce desse medo, nessa “selva escura”.

   Como já constatámos anteriormente, Jasão, o herói de Ares (Marte, domicílio) precisa do favor de Apolo (Sol, exaltação) para que a finalidade da viagem seja alcançada, ou seja, precisa da luz para encontrar o fim, para chegar ao velo ou tosão de ouro (Κρίος Χρυσόμαλλος), a pele do aríete ou carneiro imortal (Carneiro), filho de Posídon (Neptuno, regente moderno de Peixes). A ligação nodal entre os dois eixos (Carneiro-Balança e Virgem-Peixes) leva-nos, pela via do destino e da necessidade, pelo corpo do Dragão da Lua, numa viagem que terá de estabelecer uma ligação de sentido, um elemento de passagem, entre a identidade e a integração. Curiosamente, os dois eclipses solares de 2025 fixam-se do lado desses eixos onde os elementos estão separados. São a unidade (Carneiro) sem a dualidade (Balança). São a parte (Virgem) sem o todo (Peixes). Essa ausência é a sombra sobre o sentido, é a ocultação da finalidade.

   Num eclipse solar, é a luz que sofre o avanço da escuridão, pois o seu manto de sombra cobre o alcance dos raios. Ora isso acontece, todavia, por decreto da Providência. É o destino a operar e a necessidade a determinar. A este respeito, Séneca diz-nos o seguinte: “Que a nossa alma, por tanto, se habitue a entender e a suportar o seu destino, a saber que nada é interdito à fortuna, que esta tanto se abate sobre os impérios como sobre os imperadores, que tanto poder tem sobre as cidades como sobre os homens. E não devemos indignar-nos contra as desgraças: nós entramos num mundo que se rege precisamente por esta lei. Se a lei te agrada, obedece-lhe; se não, sai deste mundo pelo processo que quiseres! Indigna-te, sim, com alguma iniquidade que o destino te tenha feito somente a ti; mas as leis que regem o mundo constrangem tanto os grandes como os humildes, e por isso deverás reconciliar-te com o destino: ele dará solução a tudo! Não deves avaliar os homens pelos túmulos, pelos monumentos fúnebres que, uns maiores outros menores, se erguem ao longo das estradas: reduzidos a cinzas, todos os homens são iguais. Desiguais no nascimento, todos somos iguais na morte.” (Ep.91.15-16; Cartas a Lucílio, 2ª ed,, trad. J. A. Segurado e Campos. Lisboa, 2004: Fundação Calouste Gulbenkian).

   A lei de Adrasteia, senhora do inevitável, impera sobre o mundo e um eclipse solar tende a recair mais sobre impérios e imperadores do que sobre o comum. A estes, só a lei das Meras (Moiras) afecta o seu destino, ou seja, só o grau do eclipse tende a afectar o tema natal, pois moira (μοίρα) é em grego tanto o destino como o grau. A Lua é a vida e o Sol a consciência da vida, daí que um eclipse lunar anuncie mais a vida planetária e um eclipse solar a sua consciência, ou seja, a organização política e social. Os eclipses solares vão pesar mundanamente sobre a humanidade. O peso do destino, a sombra, recai sobre o que se faz colectivamente. Este sentido é particularmente expressivo no tema do eclipse.

   Se pensarmos que, no tema, a posição dos signos sobre os lugares ou casas reproduz o Thema Mundi, ou seja, com Caranguejo a marcar a hora, observamos que essa conciliação entre πράξις, entre aquilo que se faz, e o encontro umbral dos luminares no signo de Carneiro se torna uma unidade de sentido. Ora esta unidade vai acentuar uma pressão da sombra sobre a luz, ou seja, na expressão ou na acção dos líderes mundiais sobre as comunidades. O facto de Marte estar no signo que marca a hora, Caranguejo, e Saturno estar junto ao Ponto de Culminação, em Peixes, contribui para o carácter deletério dessa acção. Ao vermos hoje a acção política assustadoramente centrada nos líderes, temos de trazer à memória outros tempos, tempos em que os cultos da personalidade eram cultivados e impostos. O sentido de comunidade tende então a perder-se

   A ascensão recta dos luminares fixa uma influência temporal mais intensa até pouco mais de seis meses, o que nos leva a estabelecer um tempo electivo até ao eclipse solar de 21 de Setembro. No entanto, a magnitude do eclipse pode estender o seu efeito até perto de um ano, já as declinações dos luminares, em especial, a do Sol, determina uma extensão dos efeitos até cerca dos três anos e meio. Aquilo que acontecer até Setembro produzirá um efeito que se fará sentir até ao final de 2028. Em termos espaciais, o centro do eclipse firma-se no Pólo Norte, no extremo norte do Québec, numa área muito próxima da Gronelândia. Se pensarmos nas deambulações megalómanas de um certo líder quanto ao domínio territorial desta zona do planeta, o centro deste eclipse ganha um sentido mais consentâneo. O manto umbral e penumbral estender-se-á, porém, pelo Oceano Atlântico até às áreas ocidentais e mais a norte da Europa e de África, alcançando a Rússia.

   Nas regências geográficas antigas, o Sol e a Lua em Carneiro regem, segundo Manílio, o Helesponto (Estreito de Dardanelos), Propontis (Mar de Mármara), a Síria, a Pérsia e o Egipto (Astronomica, IV, 744-817). Já Vétio Valente (Antologia I, 2) diz-nos que o signo exerce influência sobre as seguintes regiões: a Babilónia, Elymais ou Elamais (Cuzistão, província do Irão), a Pérsia, a Palestina e as regiões circundantes, a Arménia, a Trácia, a Capadócia, Susã (cidade antiga, capital do Elão ou Susiana, hoje sudoeste do Irão), o Mar Vermelho e o Mar Negro, o Egipto e o Oceano Índico. Heféstion resume as regências dizendo que, para Ptolomeu, rege a Britânia, a Galácia, a Germânia, a Palestina, Edom e a Judeia e, para Hiparco e para os antigos egípcios, rege a Babilónia, a Trácia; a Arménia, o vale da Pérsia, a Capadócia, a Mesopotâmia, a Síria, o Mar Vermelho (Apotelesmática I, 1).

   O actual eclipse pertence à série Saros 149. É 21º eclipse de um total de setenta. Deve-se assinalar que este é o último eclipse parcial antes da fase de eclipses totais que se inicia com outro eclipse no signo de Carneiro (9 de Abril de 2043). A série Saros 149 teve o seu início a 21 de Agosto de 1664, com um eclipse no signo Leão, e terminará a 28 de Setembro de 2926, com um eclipse no signo de Balança. No eclipse-matriz, o Sol, a Lua, Mercúrio, Vénus e a Caput Draconis estavam em Leão, no mesmo elemento do eclipse actual. Marte estava em Balança e Saturno em Sagitário. Júpiter e Neptuno encontravam-se em Capricórnio. Em Aquário, estava Úrano e a Cauda Draconis e, em Gémeos, Plutão. Balança marcava a hora e Caranguejo culminava (hora de Lisboa).

   No ano de 1664, aquando do eclipse-matriz, temos de assinalar a vitória dos portugueses sobre os espanhóis, na Batalha de Castelo Rodrigo (7 de Julho), um feito essencial na Guerra da Restauração. A 1 de Agosto, também antes do eclipse, dá-se a Batalha de São Gotardo onde o exército habsburgo derrota o exército otomano. Por outro lado, a 27 de Agosto é fundada a companhia francesa das índias orientais. A 8 de Setembro, Nova Amsterdão rende-se a uma esquadra naval britânica, liderada por Richard Nicolls. A cidade capturada será então renomeada, em homenagem ao Duque de York, o futuro rei Jaime II, passando a chamar-se Nova Iorque. O enquadramento histórico do eclipse-matriz serve sobretudo para acentuar a intensa expressão político-militar desta série. Ora este carácter bélico vai evidenciar o seu lado mais negativo pelo facto da posição original dos maléficos estar em aspecto quadrangular à posição actual (Marte em Balança e agora em Caranguejo e Saturno em Sagitário e agora em Peixes). Se tivermos dúvidas da repetição da história, podemos afirmar com certeza a repetição do humano.

   O eclipse solar de 29 de Março é o terceiro de três eventos astrológicos que mereceram uma reflexão, tendo sido o primeiro o eclipse lunar de 14 de Março e o novo ano astrológico com o ingresso do Sol em Carneiro a 20 de Março. Se observarmos os três temas, podemos concluir que as retrogradações de Mercúrio e Vénus são as principais diferenças. No caso de Vénus, existe inclusive um reingresso no signo anterior, em Peixes.  

   A retrogradação de Mercúrio obriga a um pensar ou repensar da palavra que nos poderia levar até Epicteto quando este diz o seguinte: “Sinais de quem progride: não recrimina ninguém, não elogia ninguém, não acusa ninguém, não reclama de ninguém. Nada diz sobre si mesmo – como quem é ou o que sabe. Quando, em relação a algo, é entravado ou impedido, recrimina a si mesmo. Se alguém o elogia, se ri de quem o elogia. Se alguém o recrimina, não se defende.(Encheiridion 48.b1, trad. A. Dinucci & A. Julien, 2014: 64. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra). Mercúrio em Carneiro dá uma certa impulsividade à palavra. Ora a retrogradação neste signo conduz ao domínio dessa pulsão o que combina perfeitamente com a lição de Epicteto.

   A retrogradação de Vénus até ao signo da sua exaltação, embora não de volta ao grau exacto, mas colocando-a conjunta a Neptuno, o seu regente moderno, vai firmar primeiramente a reformulação daquilo que se deseja, estabelecendo uma necessidade de foco que se estenda para além da identidade e, de uma forma mais profunda, que restabeleça a gravidade do amor. A dádiva de Vénus, neste olhar de novo, é um tesouro de vida, pois que permite que se olhe uma outra vez para o lugar onde o amor caiu, onde a sua gravidade se fundou. É uma bênção que não deve ser ignorada. Por outro lado, a senda de uma Vénus que sai de Carneiro para voltar a Peixes e para, por sua vez, regressar renovada a Carneiro tem um sentido profundo. O amor sai dos perigos da identidade, da frágil ponte entre unidade e dualidade, para regressar a imersão do todo, à integração da totalidade. Ora nessa viagem o amor pode perder-se e afundar-se ou pode dar à costa, brilhante, com um sentido de finalidade, de propósito. Neste tempo, podem estabelecer-se intensas afinidades electivas e conexões para lá da vida e da morte.

   No tema do eclipse solar de 29 de Março, Vénus vai voltar a reunir-se com Neptuno, com Saturno e com a Caput Draconis. Os sentidos do passado são recuperados, todavia, não é um regresso ao mesmo, é uma renovação. No rio do tempo, as águas que passam não são iguais. A união de Vénus e Neptuno vai dar ao princípio do amor a imaginação criativa, o que potencia a sua acção natural e criativa. Quando se une a Saturno, o que em Peixes não tende a ser muito negativo, Vénus vai conciliar a gravidade do tempo com a ardência do desejo. A Caput Draconis conjuga com estes a possibilidade de elevação face à força da necessidade. Esta é uma bênção quase oculta em pleno eclipse solar. Numa viagem pela sombra, é possível trazer do todo a unicidade de si.    

   No eclipse lunar era Plutão em Aquário o astro mais alto agora é Saturno em Peixes. Da lição da morte passamos para lição do tempo. Na verdade, não existe verdadeira aprendizagem sem a integração destas duas lições. Se a vida não pedisse estas duas lições, as pulsões dos planetas pessoais dominariam e iriam corromper a natureza a um ponto de não retorno. A morte e o tempo fazem com que se dê valor às coisas, às pequenas coisas, às coisas importantes. Nós, humanos, somos a soma dessas pequenas, unidas em algo único, na felicidade. Na sua origem etimológica, a felicidade consiste é ter em si uma bom estado demiúrgico, ou seja, ter um bom elemento de passagem. Ora essa viagem só possível com a consciência íntima da morte e do tempo e, por outro lado, pela elevação que só o amor e a sabedoria concedem.

            Neste eclipse solar, esta senda é uma subida de Marte em Caranguejo até Saturno em Peixes e é nessa viagem que o manto umbral se estende, escondendo os luminares. A quadratura destes, e de Mercúrio retrógrado, a Marte revelam o medo da origem e a violência de regressar ao passado. Ora, sabendo nós de uma maior influência geopolítica nos eclipses solares, este sentido torna-se mais vivo e mais actual. Estamos a viver, quer queiramos, quer não, tempos sombrios. Na verdade, a humanidade que almejava por progresso vê-se hoje à beira do princípio. Os sinais estão lá. As Meras falam nos astros e indicam os lugares de todas as encruzilhadas, sim porque, sob a égide de Hécate, numa das vias reside, como sempre, a esperança. Esta é a razão pela qual no fim do caminho zodiacal, naquele de Carneiro a Peixes, se encontram os dois benéficos: Júpiter no seu domicílio, Vénus na sua exaltação. Com o manto de sombra em Carneiro, esse fim do caminho não é vislumbrado. Vivemos tempos em que a verdadeira esperança tende a perder-se.

   A beleza da vida diz-nos sempre que a luz da esperança gosta de se ocultar nas ruínas, pois é sob a cinza e a poeira que se escondem as pequenas luzes que salvam o mundo. Os sextis de Júpiter em Gémeos e de Plutão em Aquário aos luminares em Carneiro permitem ver elementos potenciais de transformação. Estes são aspectos que trazem consigo a potencialidade da busca, da procura, de ver entre os fragmentos da realidade a luz que ilumina e transforma. Esta é uma bênção da vontade, do ímpeto salvífico. Já a quadratura entre Vénus em Peixes e Júpiter em Gémeos traz consigo a estruturação do bem. Curiosamente, esta são duas constelações representadas de forma mitológica pelo amor: em Peixes, Afrodite e Cupido; em Gémeos, Castor e Pólux. O trígono entre Marte em Caranguejo e Vénus em Peixes que antecede, na já enunciada via de culminação, o mesmo aspecto mas com Saturno vai servir de apelo ao caminho do meio, à via da moderação. Actualmente, a prudência, a temperança é tão esquecida quanto necessária. A arte e a nobreza de colocar racionalidade nas pulsões são por vezes o que resta à humanidade e, em especial, aos seus líderes. Se não existirem, o abismo torna-se mais próximo.

   O eclipse solar de 29 de Março, o último do actual ciclo nodal no signo de Carneiro, apresenta-nos os riscos de colocarmos as nossas angústias e os nossos anseios em certas lideranças. O manto de sombra cai hoje de forma muito notória nos perigos de semear as autocracias no seio das democracias modernas. Existe também, apesar de certos esforços ilusórios de paz, um perigo iminente de continuação e alastramento de certos conflitos mundiais. Quando é mais fácil dar dinheiro para o armamento e a guerra do que para a pobreza e a desigualdade, revelamos uma humanidade doente. No entanto, antes e depois da sombra, temos de continuar sempre a procurar a luz.

segunda-feira, 8 de abril de 2024

Reflexões Astrológicas 2024: Eclipse Solar Total (Lua Nova em Carneiro)

 Reflexões Astrológicas


Eclipses


Eclipse Solar Total 

(Lua Nova em Carneiro)

Lisboa, 19h17min, 08/04/2024

 

Sol-Lua

Decanato: Sol  

Termos: Mercúrio   

Monomoiria: Saturno  

                                            

  O Eclipse Solar Total de 8 de Abril ocorre no signo de Carneiro, com Balança a marcar a hora, no Segmento de Luz (αἵρεσις) do Sol, com os luminares acima do horizonte, na VII, junto ao Poente (δύσις), e cerca de cinquenta minutos antes do ocaso (hora de Lisboa), no decanato de Sol, termos de Mercúrio e na monomoiria do Saturno. O sentido de luz, da sombra e da ocultação ganha assim um valor reforçado. Este eclipse apresenta algumas semelhanças com o eclipse solar de 14 de Outubro de 2023, pois, tanto num como noutro, o eclipse dá-se junto ao Poente. No entanto, existe uma inversão do eixo, o eclipse que ocorrera em Balança, acontece agora em Carneiro e assim o signo que marcava a hora é agora o seu oposto. O eixo da identidade, entre a luz e a sombra, continua a estabelecer-se como sentido profundo. Porém, o foco, o centro da ocultação da luz, encontra-se agora no signo de Carneiro, o que transporta naturalmente para algumas das significações do ano novo astrológico.

  Em termos astro-mitológicos, existe uma tradição em torno dos doze trabalhos de Hércules. A influência da leitura esotérica de Alice Bailey determinou em grande parte a sua predominância contemporânea, todavia, a tradição antiga dos trabalhos, sobretudo a sua reunião no número de doze episódios é relativamente tardia. O mito do herói zodiacal mais antigo, e quiçá mais simbólico, é o de Jasão e os argonautas. A viagem do Argo é uma viagem solar e a sua natureza é circular, é um eterno retorno. Apolónio de Rodes, na Argonáutica, descreve-o como “Jasão, herói de Ares” (I, 349) e quando este foi escolhido para liderar a expedição, afirmou o seguinte: Se me confiais esta distinção de me ocupar de vós,/ nada impede, como dantes, a nossa viagem./ Agora consigamos o favor de Apolo com sacrifícios/ e preparemos já um festim.” (I, 351-4, Apolónio de Rodes: Argonáutica, Livros I e II, ed. A.A.Alves de Sousa. Coimbra, 2021: Imprensa da Universidade de Coimbra). O herói de Ares (Marte, domicílio) precisa do favor de Apolo (Sol, exaltação) e a finalidade da viagem é o velo ou tosão de ouro (Κρίος Χρυσόμαλλος), a pele do aríete ou carneiro imortal (Carneiro), filho de Posídon (Neptuno, regente moderno de Peixes). A significação astro-mitológica é bastante explícita. Jasão, bem mais do Hércules, combina elementos tanto de Carneiro como de Peixes. A passagem de Peixes de fim de ciclo para Carneiro que inicia o novo ciclo e que tem como finalidade um novo Peixes está presente neste mito (cf. Figueiredo, R. M. de, 2024, Fragmentos Astrológicos, 2ª ed. revista e aumentada, 137-8. Lisboa: Livros – Rodolfo Miguel de Figueiredo).

  Este sentido astro-mitológico é fundamental para se compreender o ciclo de eclipses, tanto anual como nodal, em que este se insere. A passagem do eixo zodiacal-nodal Carneiro-Balança para o eixo Peixes-Virgem torna-se, deste modo, um elemento de sentido mimético do mito de Jasão. No entanto, no que aos eclipses solares concerne, esta mudança ainda demorará algum tempo, pois depois deste eclipse, em Carneiro, seguir-se-á um em Balança (2 de Outubro de 2024) e outro Carneiro (29 de Março de 2025), e só a 21 de Setembro de 2025 é que ocorrerá o primeiro eclipse solar no eixo Peixes-Virgem, neste caso em Virgem. No entanto, de um ponto de vista mundano, este é um ciclo de passagem, sobretudo se considerarmos que a influência dos eclipses solares se mede em anos. A passagem do eixo de identidade para o eixo de integração, ou seja, da unidade e dualidade à parte e ao todo, expressa uma ponte de sentido entre a consciência de si e a necessidade.

  Proclo afirma, no seu Comentário à República de Platão, o seguinte: “O daemon distribuído é o guardião das vidas centradas nas obras do devir, e guia toda a nossa constituição interna no reino da geração. Os lotes significam, por sua vez, a ordem cósmica que determina para as almas os tipos de existência que cada uma merece, de acordo com o seu próprio mérito. Nesta estrutura, Láquesis é a regente, porque estabelece a ordem em todos os céus. Os tipos de existência são as formas de vida centradas nas obras da criação, que são atribuídas pelo universo às almas à medida que estas descendem, sendo estas vidas em maior ou menor número. As escolhas indicam as projecções do pensamento, de acordo com o poder das almas de se colocarem a si mesmas em movimento, agindo em harmonia com a ordem do universo. A transferência para diferentes animais, melhores e piores, significa os muitos e variados caminhos da alma segundo os diferentes poderes, racionais ou irracionais, pois o semelhante é sempre atraído pelo semelhante de acordo com a justiça do cosmos.(Essay 15 94.25-95.10. Proclus: Commentary on Plato Republic, vol. II: Essays 7-15, ed. D. Baltzly, J. F. Finamore & G. Miles, p. 330.  Cambridge, 2022: Cambridge University Press).

  O significado astrológico do lote distribuído e do seu guardião é imenso, transcende o sentido de certos lugares (XI e XII), bem como o valor da doutrina dos lotes, pois está enraizado na matriz filosófica da astrologia antiga e subentendido em muitos conceitos da astrologia contemporânea. Ora o lote distribuído – ou escolhido – e o guardião são o momento inaugural do princípio de identidade que rege o início da viagem, existencial e zodiacal. Carneiro, com um sentido profundo de unidade, conduz a embarcação da vida e da alma, tal como Jasão no Argo, num caminho entre a luz e a sombra, numa viagem que culminará na integração da totalidade (Peixes), ou seja, na compreensão profunda do valor do lote e do seu guardião. Num eclipse no signo de Carneiro, existe necessariamente uma expressão deste acto primeiro de avançar entre a luz e a sombra, de encontrar uma via electiva.

  Por todas estas razões, o eclipse de 8 de Abril terá uma influência abrangente, todavia, em sentido restrito, a influência astrológica fixar-se-á em cerca de um ano e dois meses. Porém, se considerarmos a declinação dos luminares, a sua influência será de cerca de sete anos, incluindo-se assim num contexto de ciclo nodal mais amplo. A questão da influência dos eclipses tem sido um pouco descurada. Em termos mundanos, o eclipse, isto é, a ocultação da luz, tem um valor profundo e antiquíssimo. Desde a Antiga Babilónia, desde os presságios astrológicos, que começaram a ser compilados em 1800 AEC, mas que podem remontar ao século VIII AEC (Enūma Anu Enlil), que os eclipses são fortes indicadores das transformações colectivas. E não é por acaso, visto que a luz e a sombra e, em especial, um fenómeno de ocultação da luz, possuem uma influência radical. Todas as outras influências astrológicas dependem ou deveriam depender deste binómio (luz e sombra) e, desta forma, dos luminares (Sol e Lua). Já a influência genetlíaca é tradicionalmente mais restrita e, por norma, cinge-se ao grau do eclipse.

  O eclipse solar total de 8 de Abril tem o seu centro geográfico na região de Durango, no México, incidindo o manto penumbral sobre a América Central e a América do Norte. Nas regências geográficas antigas, o Sol e a Lua em Carneiro regem, segundo Manílio, o Helesponto (Estreito de Dardanelos), Propontis (Mar de Mármara), a Síria, a Pérsia e o Egipto (Astronomica, IV, 744-817). Já Vétio Valente (Antologia I, 2) diz-nos que o signo exerce influência sobre as seguintes regiões: a Babilónia, Elymais ou Elamais (Cuzistão, província do Irão), a Pérsia, a Palestina e as regiões circundantes, a Arménia, a Trácia, a Capadócia, Susã (cidade antiga, capital do Elão ou Susiana, hoje sudoeste do Irão), o Mar Vermelho e o Mar Negro, o Egipto e o Oceano Índico. Heféstion de Tebas transmite-nos que Carneiro tem as seguintes regências geográficas: “Segundo Ptolomeu: a Britânia, a Galácia, a Germânia, a Palestina, Edom e a Judeia. Mas, tal como Hiparco, os antigos egípcios também fizeram de acordo com as partes: para o ombro esquerdo, a Babilónia; para o ombro direito, a Trácia; para o peito, a Arménia; para a coluna, tanto o vale da Pérsia como o da Capadócia, a Mesopotâmia, a Síria, o Mar Vermelho. Fizemos uma exposição separada de cada uma das partes, porque é assim que comummente utilizado nos prognósticos desses lugares.” (Apotelesmática I, 1).

  O eclipse actual, no signo de Carneiro, pertence à série Saros 139, sendo o seu 30º eclipse. Esta série começou a 17 de Maio de 1501 (calendário juliano), com um eclipse no signo de Gémeos, e terminará a 3 de Julho de 2763, com um eclipse no signo de Caranguejo. É portanto uma série recente e com uma matriz de sentido que nos conduz da dualidade da palavra e do conhecimento à matriz do feminino e ao reconhecimento da origem da alma. Depois da sombra, a luz da Grande Mãe emergirá do oceano primordial. No entanto, no que à série concerne, ainda nem chegámos a meio do caminho e, neste eclipse masculinizado, assente apenas num dos númenes do par divino, a sombra permanecerá sobre a Terra-Mãe. No tema matriz da série, o Sol, a Lua, Mercúrio e Saturno estavam em Gémeos, Vénus e a Caput em Touro, Júpiter em Carneiro, Marte e Úrano em Peixes, Neptuno em Capricórnio e Plutão e Cauda em Escorpião.

  Aquando deste eclipse, com os maléficos em quadratura, colocando os luminares e Mercúrio sob a sua influência, é fácil compreender como 1501 foi um ano de conflitos e guerras e de redefinições geoestratégicas. Neste ano, César Bórgia, filho do Papa Alexandre VI, será uma figura determinante. De cardeal a gonfaloneiro papal, terá um papel importante para assegurar o poder do papa e os interesses franceses, seus aliados. A 25 de Julho de 1501, o rei Frederico I rende-se a César Bórgia e ao rei francês Luís XII, entregando-lhes assim o Reino de Nápoles. A 13 de Maio, a República de Veneza assinou um tratado com o Papa Alexandre VI e com o Reino da Hungria pela protecção da Dalmácia veneziana na guerra com os Otomanos. Por outro lado, em Espanha, termina a rebelião muçulmana de Alpujarras, assegurando-se assim a controlo espanhol de Granada. Paralelamente a todos os acontecimentos bélicos, Pedro Álvares Cabral regressa a Portugal da sua expedição, iniciando-se a hegemonia portuguesa na Índia e no Brasil (Neptuno culminando em Capricórnio). 

  No eclipse de dia 8 de Abril, assistimos, à semelhança do que ocorrera no eclipse lunar de 25 de Março, a uma co-presença planetária em apenas quatro signos zodiacais. No entanto, existem algumas diferenças. A Lua que estava em Balança está agora em Carneiro, como o Sol, e Vénus deixou a sua exaltação, em Peixes, e entrou no domicílio de Marte, Carneiro. Estas duas mudanças são significativas, sobretudo porque sobrevalorizam o masculino em detrimento do feminino. A Lua deixa o domicílio de Vénus para entrar no Marte e Vénus também, deixando a sua exaltação. Este é um lugar difícil para os planetas femininos. É uma posição que está negativamente exacerbada se se pensar que está agora sob a influência de um eclipse. O lugar de exaltação do Sol (Carneiro) tem, neste momento, a sua luz ocultada. Um manto de sombra tolda o entendimento do Sol, o carácter espiritualmente transformador da sua luz. 

  No lugar do Poente, temos assim Vénus, em posição pós-poente, logo abaixo do horizonte e como Estrela da Manhã, a Caput Draconis, a Lua, o Sol e Mercúrio, este sob os raios solares eclipsados e como Estrela da Tarde. Se, por um lado, Vénus é uma promessa do amanhã, escondida sob o horizonte, por outro, Mercúrio é a palavra que arde na sombra, o conhecimento obscurecido. A posição de Vénus, ligeiramente abaixo do horizonte, marca um caminho descendente da luz. Não existem astros nem a ascender, nem a culminar. Vénus é como Perséfone a entrar no submundo, para se unir a Hades (Plutão) que avança para o lugar mais profundo, para o Tártaro. O amor e a morte ocultam-se sob o véu da realidade mais profunda, da verdadeira natureza das coisas. O sextil de Plutão em Aquário aos astros em Carneiro aponta para este sentido, para o aprofundamento destruturado das nossas acções.

  Com a Lua e Vénus em Carneiro, o feminino entra no lugar de exaltação do Sol, um lugar onde a luz está agora ocultada, subtraída à realidade humana pessoal e colectiva. Ao deixar para trás o signo de Peixes, Vénus deixou desequilibrado o poder dos maléficos, ou seja, já não é um travão para a expansão dos seus raios. A dádiva do amor perde o sentido de totalidade. Devemos ter também em consideração que existe uma relação tensa com a posição dos maléficos no tema matriz da série Saros: Marte está em conjunção e Saturno em quadratura. Esta ligação mostra-se como o espelho do mal, o olhar devolvido do abismo humano. Outro aspecto a salientar é que a conjunção exacta dos maléficos ocorrerá dois dias depois do actual eclipse, no grau 15 de Peixes. Contudo, a fé e a esperança continuam no horizonte, pois este grau pertence ao decanato e aos termos de Júpiter.

  Esta posição, a par da de Plutão em Aquário, olhando quadrangularmente para Júpiter e Úrano em Touro, revela uma total corrupção do sentido primordial de humanidade e do valor do humano. O conflito entre Israel e o Hamas e o genocídio do povo palestino evidencia esta disrupção. As tensões começam com a quadratura de Marte em Balança com Plutão em Capricórnio, adensam-se com a entrada de Plutão em Aquário, a 21 de Janeiro, e, por fim, culminam com a conjunção dos maléficos em Peixes. O fim da humanidade é a extinção do humano. A pergunta que se coloca é o que faz com que o mal (Marte e Saturno em Peixes) não se torne total e não se espalhe como uma praga, e a resposta, de acordo com o lugar que esse ocupa, só pode uma, a união pelo amor, pela compaixão (Neptuno em Peixes), da Fé à Sabedoria (Pistis-Sophia).

  O sextil de Marte, Saturno e Neptuno em Peixes a Júpiter e Úrano em Touro concede à liberdade, à afinidade electiva, a transformação do mal em bem, exigindo um esforço real de reestruturação. A via da justiça, da justa medida, é uma parte da dádiva, das bênçãos que a humanidade pode colher. Júpiter concede a bênção da luz do bem. Porém, uma vez que o eclipse ocorre no segmento diurno, fazendo de Júpiter o grande benéfico, essa bênção encontra-se obscurecida, existe, mas não é vista. Este obscurecimento do bem é observável em outros dois elementos de análise. No tema de Lisboa, Júpiter e Úrano estão na VIII, no lugar da morte, ou seja, num lugar inactivo, sem vida, e, por outro lado, olham quadrangularmente para Plutão, o senhor da morte. Esta ligação da morte ao bem, à revolução do bem, coloca a humanidade sobre o abismo.

  O eclipse solar de dia 8 de Abril, no signo de Carneiro, resume, desta forma, um momento da humanidade e da sua história em que a acção humana se encontra obscurecida, incapaz de se fixar na luz ausente, mas esperada. A acção precisa de finalidade. O acto inaugural em Carneiro precisa de saber que a finalidade da viagem é o tesouro da totalidade que se encontra Peixes. No entanto, nos tempos que vivemos, o humano é como um Jasão sem o Argo e sem companheiros de viagem, sem o conhecimento do tosão de ouro. O humano precisa de reencontrar a humanidade e seguir a luz.    

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

Reflexões Astrológicas 2023: Eclipse Solar Anular - Lua Nova em Balança

 Reflexões Astrológicas


Eclipses


Eclipse Solar Anular 

(Lua Nova em Balança)

Lisboa, 18h59min, 14/10/2023

 

Sol-Lua

Decanato: Vénus  

Termos: Saturno   

Monomoiria: Sol  

                                           

 

  O Eclipse Solar Anular de 14 de Outubro ocorre no signo de Balança, com Carneiro a marcar a hora, no Segmento de Luz (αἵρεσις) da Lua, com os luminares abaixo do horizonte, na VII, junto ao Poente (δύσις), e cerca de cinco minutos após o ocaso (hora de Lisboa), no decanato de Vénus, termos de Saturno e na monomoiria do Sol. O sentido de sombra e ocultação ganha assim um valor reforçado. O eclipse e o poente partilham o carácter de lugar ou momento de escuridão. A luz é ferida pela dicotomia da sua própria natureza e, sendo Saturno, o Sol da Noite - como designaram os babilónicos -, o regente de Balança, este eclipse adquire pois essa significação profunda.  

  Neste eclipse, mais do que nos últimos e talvez mais do nos próximos, o Dragão da Lua cingirá por completo a luz, o Sol, não por ser um eclipse com uma sombra extensa ou espacialmente significativa, mas sim por encerrar uma conjugação reforçada de sentidos. Por esta razão, a análise do eclipse solar de 14 de Outubro deve considerar primeiramente o valor conceptual e escatológico da luz e da sombra e, de forma paralela, o carácter simbólico deste dragão primordial. A astrologia moderna, perdendo a herança mitológica e a imagem do dragão ou serpente, preferiu as designações nodais em vez das dragontinas, todavia a sua presença original deve ser recuperada.

  No tratado gnóstico Pistis Sophia, tendo por base esta inspiração, diz-se o seguinte: Nesse momento, todavia, todos os céus vieram para o oeste, com todos os aeons e a esfera e os seus arcontes e todos os seus poderes. Todos eles correram para o oeste para a esquerda do disco do sol e do disco da lua. Mas o disco do sol era um grande dragão cuja cauda estava na sua boca e que levava consigo os sete poderes da esquerda.(IV, 136, ed C. Schmidt & V. Macdermot, 1978: 354. Leiden: E. J. Brill). O ourobóros, a serpente que circunda o Sol ou um ovo, é por excelência uma imagem tanto do sagrado feminino como da sombra eclíptica, lembremo-nos, por exemplo, do mito pelasgo da criação, de Eurínome e Ofíon. Na astrologia, o Dragão da Lua, o eixo nodal, preserva toda uma tradição de sentido, uma herança, que é particularmente fértil no que aos eclipses concerne.

  A natureza sombria do eclipse implica, no entanto, e de acordo com a sua própria natureza, um carácter maléfico. Uma leitura astrológica que teme a sombra, a destruição e a morte, tão comum na astrologia contemporânea, fica sempre aquém da realidade. Dante, na Divina Comédia, no Purgatório, diz, pela boca de Virgílio, falando para Estácio: “Tu se' ombra e ombra vedi.” (XXI, 132). De certa forma, é a nossa condição: somos sombras e vemos sombras. Foi, todavia, o amor, a amizade entre eles, que fê-lo tratar uma sombra como se fosse uma coisa sólida (Purgatório, XXI, 133-6: Ed ei surgendo: «Or puoi la quantitate / comprender de l’amor ch’a te mi scalda,/ quand’ io dismento nostra vanitate,/ trattando l’ombre come cosa salda.»). O amor possui portanto o poder de transformar a sombra, de lhe dar a forma de uma realidade interna ou externa, materializando-a, e isso acontece por uma única razão: o amor é luz e não existe sombra sem luz.  

  Na subida da montanha, o canto XX do Purgatório, anterior a este que aborda a amizade, termina com um terramoto. Os desastres naturais e, em certa medida, os desastres humanos (guerras, revoluções, assassinatos, etc.) têm uma relação íntima com os eclipses. Entre a sombra e a ruína, existe um caminho e, por vezes, é nos estilhaços, como um vestígio de vida, que a luz pode ser encontrada. A observação do tema de eclipse para cada localidade, e em especial se manto umbral a cobrir, é fundamental. Não devemos temer as previsões. Se um luminar tiver a preponderância de bons aspectos, especialmente dos benéficos, e se estiver no seu domicílio ou exaltação, os efeitos negativos serão minimizados, mas não anulados. Já se estiver no seu exílio ou queda ou junto dos maléficos, produzirá uma acção negativa aumentada. Os eclipses tendem assim a gerar mudanças, redistribuições e desastres.

  No caso específico dos desastres naturais, os eclipses são indicadores importantes. Por exemplo, as conjunções ou oposições de Marte, Júpiter ou Saturno são sinais indiscutíveis, sobretudo em certos signos ou sobre os pólos (κέντρα). Antes de avançar nesta questão, convém fixar-se a influência temporal e geográfica do eclipse de 14 de Outubro. Se utilizarmos uma técnica que me é cara, e um pouco diferente da ptolemaica, e que concilia a duração do eclipse com os tempos de ascensão, chegamos a uma influência que se estende até cerca de um ano e oito meses. Quanto a área geográfica, o eclipse ocorre ao longo do continente americano, estando o seu centro ao largo da Nicarágua e da Costa Rica. Este aspecto é interessante se pensarmos que o eclipse tem o seu lugar de maior escuridão mesmo diante de um conjunto de parques e reservas naturais. Do lado da Nicarágua, temos a Reserva Biológica Indio Maíz e, do lado da Costa Rica, o Refúgio Nacional de Vida Silvestre Barra del Colorado e o Parque Nacional Tortuguero. Se quisermos um planeta vivo no futuro, a vida selvagem precisará urgentemente de luz.

  De acordo com as regências da astrologia antiga, a influência geográfica é um pouco diferente. Segundo Valente (Antologia I, 2), as seguintes zonas estão sob a influência de Balança: a Báctria (região persa do Coração que corresponde actualmente ao Afeganistão, Tajiquistão, Uzbequistão, Paquistão e China), a China, a zona do Cáspio, Tebaida (região do Antigo Egipto entre Abidos e Assuão), o Oásis (Oásis de Siwa ou Siuá, no deserto da Líbia), Troglodítica (região antiga do deserto líbio, mas que se pode estender por uma área que vai até ao Mar Vermelho e ao Corno de África), a Itália, a Líbia, a Arábia, o Egipto, a Etiópia, Cartago, Esmirna (Anatólia, Turquia), os Montes Tauro (Sul da Turquia), Cilícia (Turquia) e Sinope (Norte de Turquia, junto ao Mar Negro). Manílio coloca a Itália e, em especial, a cidade de Roma sob a regência de Balança, referindo, por um lado, que Roma controla as mais variadas coisas, exaltando e precipitando as nações nos pratos da balança e, por outro lado, este é signo do imperador Augusto, que terá nascido a 23 de Setembro de 63 AEC (Astronomica V,773-77).

  O eclipse solar de 14 de Outubro insere-se na série Saros 134. Esta série iniciou-se a 22 de Junho de 1248 e terminará a 6 de Agosto de 2510. Começa portanto em Caranguejo (Lua) e finda em Leão (Sol). A relação entre luz e sombra torna-se, uma vez mais, determinante. O próximo eclipse da série será a 25 de Outubro de 2041, em Escorpião, passando-se na série de Vénus a Marte. Existe novamente aqui um jogo de polaridades que também se encontra no tema do actual eclipse: o caminho descendente em que se insere a sizígia obscurecida estende-se também de Marte em Escorpião até Vénus em Virgem. De outra forma e considerando-se apenas Balança, o actual eclipse é o segundo da série a ocorrer de forma seguida neste mesmo signo. O primeiro foi a 3 de Outubro de 2005. Os dois primeiros eclipses totais da série 134 também se deram em Balança: a 9 de Outubro de 1428 e a 20 de Outubro de 1446. No entanto, a máxima interpretativa que se deve seguir é de que o primeiro eclipse de uma série Saros e o seu tema astrológico servem de matriz para toda a série, é o seu tema genetlíaco.

  A 22 de Junho de 1248, o Sol e a Lua estavam em Caranguejo, como já foi referido, bem como Neptuno, Marte e Mercúrio em Leão, Saturno e Plutão em Escorpião, Júpiter e Caput Draconis em Sagitário, logo a Cauda está em Gémeos, Úrano em Aquário e Vénus em Touro.

  Se pensarmos que este eclipse ocorreu no início do segundo quartel do século XIII, numa época de profundas alterações políticas, socias, religiosas, espirituais e culturais, estes elementos astrológicos tornam-se mais evidentes. Temos, por exemplo, a fundação do império Mongol, do qual é preciso destacar o cerco de Bagdad e a destruição da Casa da Sabedoria, mas também a criação da Inquisição. Na data do eclipse inaugural desta série, é lançada a sétima cruzada pelo rei de França Luís IX. A tensão nesta região estende-se até hoje, até ao conflito israelo-palestiniano. Por outro lado, o rei Fernando III de Leão e Castela recupera Sevilha aos Almóadas. Já de um ponto de vista religioso, a capela gótica de Sainte-Chapelle é finalizada e consagrada com a cora de espinhos, uma relíquia concedida pelo imperador de Constantinopla Balduíno II. Uns meses mais tarde é colocada a pedra inaugural da Catedral de Colónia, depois da igreja antiga ter ardido.   

  Séneca afirma que A luz distingue-se do reflexo por ter a sua origem em si mesma, enquanto o reflexo brilha com luz alheia; a mesma diferença separa os dois tipos de vida: a vida mundana tira o seu brilho de circunstâncias exteriores, e o mínimo obstáculo imediatamente a torna sombria; a vida do sábio, essa brilha com a sua própria luminosidade!” (Ep.21.2; Cartas a Lucílio, 2ª ed,, trad. J. A. Segurado e Campos, 2004: 74. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian). Ora esta é, em certa medida, a matriz de sentido da série 134 e que se assume, de forma bastante expressiva, no eclipse de solar de Outubro. Os factores de intolerância política e religiosa, construídos sob o apelo da construção de novas verdades, estenderam-se até hoje. No eclipse inaugural, a conjunção da sizígia com Neptuno em Caranguejo, de Marte e Mercúrio em Leão, de Plutão e Saturno em Escorpião, estando estes em quadratura a Úrano em Aquário, e de Júpiter e da Caput Draconis em Sagitário são, de facto, sinais da promoção de uma luz alheia como luz verdadeira. A humanidade tende a confundir-se com sombras, ignorando a luz que brilha solitária e incógnita.  

  Paralelamente, a análise do eclipse de dia 14 deve considerar, primeiramente, dois vectores que estão muito marcados e que se estabelecem, de um ponto vista astrológico e de modo radical, o caminho luminar descendente que se alonga entre Marte em Escorpião e Vénus em Virgem, entre um deus da guerra domiciliado e uma deusa do amor em queda. Este via obscurecida é mediada pela sizígia umbral em Balança e que coloca sob os seus raios negros Mercúrio e a Cauda Draconis. Ora este caminho, e tendo em mente a regência de Balança, trará problemas sérios às democracias e, em especial, aos poderes parlamentares. A situação norte-americana é um bom exemplo, todavia, a situação é bem mais ampla e para isso basta observar o galgar mediático da extrema-direita populista e o carnaval que tem promovido nos vários parlamentos europeus. Na América do Sul, encontramos também exemplos semelhantes. A forma como o populismo confiscou os media constrói-se igualmente nesta premissa.

  Por outro lado, a conjugação desta via com a oposição entre Marte em Escorpião a Júpiter e Úrano em Touro, bem como a ligação destes a Saturno e Neptuno em Peixes (trígono e sextil) e a Plutão em Capricórnio (sextil e trígono), conduzirá inevitavelmente a desastres naturais, muitos deles particularmente destrutivos. Esta interpretação astrológica não é catastrofista, é sim realista, pois os sinais são evidentes. No caso português, e tendo em conta que o tema em análise foi elaborado para Lisboa, é impossível não vislumbrar a aproximação de um grande sismo. O período que circunscreve o actual eclipse, o eclipse solar total de 2 de Agosto de 2027 e o eclipse solar anular de 26 Janeiro de 2028 é crítico, sobretudo pelo facto do manto umbral destes dois últimos passar pelo epicentro do Terramoto de 1755 e pelo paralelismo simbólico com esta série Saros. Colher estes sinais é difícil, mas não os devemos temer. Na astrologia, como na vida, nem tudo são arco-íris.

  No tema do eclipse, Plutão é o astro mais alto e o sextil deste a Marte em Escorpião, os dois regentes deste signo, adensam a sua acção. No entanto, considerando-se o futuro ingresso de Plutão em Aquário, devemos ressalvar que a actividade destrutiva de Plutão não se limitará ao signo de Capricórnio. A sua passagem por Aquário trará transformações que não acontecerão connosco de mãos dadas, inspirando incenso e entoando mantras. Plutão não actua desta forma. Lembremo-nos que é o regente moderno de Escorpião e que olha quadrangularmente para Aquário, que é regido por Saturno (convém não esquecer) e por Úrano, ou seja, existe tensão nestas duas naturezas. Por outro lado, o facto de o tema do eclipse, para a hora de Lisboa, estabelecer-se de acordo com a ordem vernal coloca Marte em Escorpião, na VIII, no lugar da Morte. Esta posição dará uma força suplementar ao Senhor da Guerra e à sua natureza primordial. Note-se também que o anterior novilúnio estabeleceu-se segundo a ordem do Thema Mundi, o que confere um carácter radical e estruturante e uma continuidade aos dois eventos astrológicos.

  Este eclipse coloca naturalmente uma sombra sobre o signo de Balança, obscurecendo o seu potencial e adensando as suas qualidades negativas. Mercúrio estará sob esta influência contrária, trazendo uma expressão disruptiva à palavra e ao conhecimento. Não existirá portanto na comunicação um palco para a concórdia, bem pelo contrário. A presença da Cauda Draconis contrai, sob a égide do destino, o peso, a gravidade, da desmedida. A humanidade cai diante dos seus próprios erros. O grande maléfico, Saturno, traz consigo e com o seu companheiro de viagem, Neptuno, as feridas da Fortuna, sempre visíveis aquando do fim de um ciclo. Em Peixes, a pressão ou libertação que a totalidade confere torna-se realidade. Carneiro começa a subida da montanha, Capricórnio com o sentido de finalidade alcança o cume e Peixes senta-se e contempla a visão do mundo. Ora a acção, a finalidade e a totalidade são algumas das etapas da nossa viagem, individual e colectiva. Saturno pede-nos uma visão desempoeirada do mundo, liberta das amarras, das feridas, das vaidades, das paixões desse nosso caminho (sextil de Saturno e Neptuno a Júpiter e Úrano). No entanto, essa visão é extremamente difícil, sobretudo na actualidade, pois Saturno pede-nos para manter os olhos abertos, contemplativos, no meio de uma tempestade de areia. Neptuno, por seu lado, continua a alertar-nos para a necessidade de uma imaginação criativa e de uma vida compassiva, integrando a fantasia no sonho e não na ilusão. Este relembra-nos também que existem humanos de primeira e humanos de segundo.

  Por entre as sombras, é preciso, porém, saber colher as bênçãos. Procurá-las e encontrá-las, mesmo que seja por entre as cinzas. Vivemos tempos de guerra, de destruição e, por necessidade, de transformação. Os perigos, mais do que à espreita, circulam à nossa frente, todavia, existem sempre bênçãos. De uma perspectiva astrológica, mas também filosófica, para cada maléfico existe um benéfico e ao lado de cada sombra existe sempre luz. Temos de observar portanto Vénus e Júpiter. A posição dos benéficos não é contudo das mais favoráveis: Vénus está em queda e Júpiter retrógrado. Mas unem-se em trígono, dizendo-nos que a necessidade tece a vida electiva do bem. Vénus encontra-se fechada em si mesma, distante do mundo. Face à acção humana, o eterno feminino recuou e a Deusa escondeu-se.

  A oposição de Vénus em Virgem a Saturno e Neptuno em Peixes revela, como ferida do tempo e do destino, o peso da retribuição, desse afastamento. Porém, o trígono de Vénus em Virgem e Júpiter em Touro a Plutão em Capricórnio traz-nos, de acordo com a ordem tempo e da providência, uma era que conjuga a vingança de Gaia com o renascimento de Gaia. A natureza encontra caminho, já o humano pode perder-se na estrada da realidade. O sextil de Vénus a Marte e de Júpiter a Saturno exemplifica, uma vez mais, essa justaposição de bem e mal, de luz e sombra. A liberdade humana não está nos acontecimentos, está sim nesta escolha.

  O eclipse solar de 14 de Outubro, no signo de Balança, vem colocar a sombra sobre a harmonia dos contrários, ocultando a luz da concórdia. Este manto umbral vai dar-nos, como síntese do tempo, a retribuição, o preço da nossa desmedida. Só caminhando pela sombra chegaremos à luz.              

quarta-feira, 19 de abril de 2023

Reflexões Astrológicas 2023: Eclipse Solar Híbrido - Lua Nova em Carneiro

 Reflexões Astrológicas


Eclipses


Eclipse Solar Híbrido 

(Lua Nova em Carneiro)

Lisboa, 05h16min, 20/04/2022

 

Sol-Lua

Decanato: Vénus  

Termos: Saturno   

Monomoiria: Sol  

 

  O Eclipse Solar Híbrido, ou seja, um fenómeno que combina os eclipses anular e total, de 20 de Abril ocorre no signo de Carneiro, com Peixes a marcar a hora, no Segmento de Luz (αἵρεσις) da Lua, com os luminares abaixo do horizonte, na II, designada de lugar do Viver ou Modo de Vida (βιός), e a cerca de uma hora e meia antes do orto solar (hora de Lisboa), no decanato de Vénus, termos de Saturno e na monomoiria do Sol. Ora, estando o Sol na sua exaltação e a Lua desfavorecida, o segmento de luz dominante firma aqui o carácter de sombra, de ocultação da luz, próprio de um eclipse. Por outro lado, o facto de acontecer no último grau de Carneiro, com o corpo do Dragão da Lua estendido já a partir do signo seguinte (eixo Touro-Escorpião), determina também uma certa debilidade luminar ou distensão de sentido. Sob o horizonte, a sombra fere a luz.

  O centro do eclipse, onde a escuridão será maior, ocorre em Timor-Leste e na Indonésia, todavia, a sombra alcança também a Austrália, sobretudo o norte, a região à volta de Carnarvon, a Papua Nova-Guiné e ligeiramente a Nova Zelândia. Toda esta área do Pacífico e do Índico encontra-se assim sob um manto de escuridão. Por a sizígia ocorrer num signo de fogo, em Carneiro, podemos assistir, nomeadamente em Timor-Leste, a uma séria instabilidade política, sobretudo a nível do poder executivo ou presidencial. De um outro modo, e em consonância com o eclipse lunar que se segue, a actividade vulcânica e sísmica pode agravar-se sobretudo nesta área geográfica, o que, no caso da Indonésia, pode vir a ser preocupante.

  Em termos de regências geográficas, devemos também considerar as que foram descritas na Antiguidade. Segundo Vétio Valente (Antologia I, 2), as seguintes regiões pertencem a Carneiro: a Babilónia, Elymais ou Elamais (Cuzistão, província do Irão), a Pérsia, a Palestina e as regiões circundantes, a Arménia, a Trácia, a Capadócia, Susã (cidade antiga, capital do Elão ou Susiana, hoje sudoeste do Irão), o Mar Vermelho e o Mar Negro, o Egipto e o Oceano Índico. Para Manílio, rege o Helesponto (Estreito de Dardanelos), Propontis (Mar de Mármara), a Síria, a Pérsia e o Egipto (Astronomica, IV, 744-817). Por a Caput Draconis se encontrar em Touro, junto à sizígia do eclipse temos de observar as regências deste signo. Segundo as lições de Valente (Antologia I, 2), rege as regiões da Média (o actual noroeste do Irão, o Azerbaijão, o Curdistão Iraniano e o Tabaristão ou Mazandarão), da Cítia (Irão, mas também uma área que se estendeu da Bulgária às fronteiras da Rússia, Mongólia e China), do Chipre, da Arábia, da Pérsia e das montanhas do Cáucaso, da Samártia (junto à Média), de África, de Elymais ou Elamais (Cuzistão, uma província do Irão), de Cartago, da Arménia, da Índia e da Germânia.

  As regências antigas continuam a servir ainda hoje para situar muitos dos acontecimentos que a astrologia tão bem traduz. Os eclipses são, para a astrologia mundana ou global, um fenómeno em cujos sentidos da Providência electivamente se enraízam. O jogo primordial e radical de luz e sombra marca, com o gesto das Meras, não só o momento do eclipse como todo um hiato temporal, fundado num processo de significação que se agrega como uma teia. Já quanto ao actual, a duração do eclipse e do período umbral apontam para um período de influência que se estende de um ano até quase três anos e meio. No entanto, face ao facto da área central do eclipse ser um pouco circunscrita, a sua influência tenderá a ser mais próxima de um ano do que dos três anos e meio.

  Na análise astrológica de qualquer eclipse, este aforismo deve servir toda e qualquer interpretação: o primeiro eclipse de uma série Saros e o seu tema astrológico servem de matriz para toda a série, é o seu tema genetlíaco. O eclipse de dia 20 pertence à série Saros 129 que se iniciou a 10 de Outubro de 1103. Este eclipse, no signo de Balança, torna-se particularmente significativo para o nosso eclipse, dado que a sizígia original se encontra em oposição à actual. No eclipse de 1103, o Sol, a Lua, Mercúrio, Vénus e Júpiter encontravam-se em Balança. Existia, nesse momento, uma clara proposta de sentido que apontava, como se a dádiva do bem indicasse o caminho, para a harmonia dos contrários, para a criação de uma concórdia no seio da dualidade. Este sentido opõe-se, como que olhando de frente com um semblante desafiador, ao eclipse de dia 20.

  Os maléficos, na análise comparada dos dois eclipses, também se opõem. Saturno hoje em Peixes fita Marte outrora em Virgem. Se pensarmos que muitos dos eclipses dos últimos anos pertencem a séries Saros que começaram em eclipses coincidentes com a época das Cruzadas, compreendemos então a actualidade deste eixo dos maléficos. Os falsos ideais que se mascaram das mais piedosas demandas atendem, na verdade, os vícios do poder. Ontem ou hoje, a guerra só se serve a si própria. Por outro lado, Plutão que agora se encontra em Aquário, aquando do início da série Saros 129, encontrava-se em Carneiro, no lugar do actual eclipse. O militarismo que domina hoje as narrativas internacionais, tal como dominava no tempo das Cruzadas, protege os interesses de alguns, mas não os da humanidade, mas, para nos opormos aos perigos dessa narrativa comum, precisamos de espírito crítico. Séneca diz-nos o seguinte: “Procuremos, pois, aquilo que é o melhor e não o que é mais comum, aquilo que nos colocará na posse de uma felicidade eterna e não o tem a aprovação do vulgar, que é o pior intérprete da verdade” (Da Vida Feliz, 2; Carta sobre a Felicidade de Epicuro e Da Vida Feliz de Séneca, trad. J. Forte, 43. Lisboa: Relógio D’Água, 1994). Essa é a lição dos tempos e de como humano pode encarar a realidade.

  No eclipse de 1103, Raimundo IV, conde de Toulouse, com os cruzados, lançou uma ofensiva no vale de Beca (ou Beqaa), capturando Tortosa (Tartans), e para fortalecer o cerco de Tripoli, constrói o imponente castelo de Mons Peregrinus (em árabe, Quala’at Sangil). Os esforços de Raimundo de Saint-Gilles foram auxiliados pelo imperador Aleixo I Comneno, com o envio da frota bizantina. Mais tarde, os cruzados, liderados por Boemundo I de Antioquia e por Juscelino I de Edessa (e II de Courtenay), avançam no território de Alepo e, com as suas ofensivas e conquistas, forçam o sultão Fakr al-Mulk Radwan ao pagamento de um tributo. No ano seguinte, a 26 de Maio, o rei Balduíno I captura Acre. O porto havia sido cercado pelas frotas de Génova e Pisa. Balduíno promete, porém, conceder passagem a quem queira seguir para Ascalão, mas os italianos pilham os migrantes muçulmanos ricos e matam muitos deles. Por outro lado, os seljúcidas fixam-se em Damasco, na Síria. Podemos facilmente observar a actualidade de todos estes movimentos e, mesmo que se diga a história não se repete, o humano repete-se sem sombra de dúvida.

  Na série Saros 129, o último eclipse penumbral (26/041446) e o primeiro eclipse anular (06/05/1464) ocorrem no signo de Touro. Este elemento torna-se significativo se pensarmos que o eixo nodal actual ainda se encontra neste signo e o próximo eclipse lunar também aí ocorrerá. Cerca de dois meses após o eclipse, a 16 de Julho de 1464, dá-se a batalha de Montlhéry, onde as forças de rei Luís XI de França defrontam a Ligue du Bien Public, que reunia um conjunto nobres que se opunha ao poder centralizado do rei. O conflito termina com o regente a assinar três tratados de paz. Por outro lado, dois dias depois, o rei deposto Henrique VI de Inglaterra é capturado pelas forças de York e colocado na Torre de Londres. A rainha Margarida de Anjou e o príncipe Eduardo fogem para França. A Guerra das Rosas opôs as dinastias de York e de Lancaster. O caso francês lembra-nos hoje a forma como o presidente Macron tenta implementar, de forma contrária à vontade popular, uma nova idade da reforma. No Reino Unido, vemos claramente a queda de primeiros-ministros e o extremar de posições, bem como alguma resistência republicana à coroação de Carlos III.

  O último eclipse anular da série ocorre no signo de Peixes, a 18 de Março de 1969. Lembremo-nos que a série Saros 129 termina com um eclipse também em Peixes, a 21 de Fevereiro de 2528. É muito curiosa uma série que se inicia em Balança e termina em Peixes e cujos principais eclipses ocorrem em Carneiro e Touro. Existe um choque notório entre individualismo e comunidade. A proposta de início e fim colide com os acontecimentos que, sobre esta linha de luz e sombra, se estendem. Ora, aquando do eclipse de 1969 e no período de sua influência, encontramos, por exemplo, os sismos na China e no Peru e a forte tempestade tropical na Índia e no Bangladesh. Por outro lado, temos os movimentos de independência em África e a Guerra Colonial Portuguesa, bem como a Guerra do Vietname, a crise do petróleo de 1973 e um conjunto de intensas alterações políticas e ideológicas, e das consequentes transformações sociais.

  Ao eclipse de 1969, em Peixes, seguem-se três eclipses híbridos em Carneiro, dos quais o actual é o terceiro. O primeiro destes eclipses ocorreu a 29 de Março de 1987. Uns dias depois, a 13 de Abril, celebra-se o acordo entre Portugal e a China para a entrega de Macau. No final do ano, dá-se a Primeira Intifada e o agudizar do conflito israelo-palestino e, no dia 30 de Dezembro, o Papa João Paulo II publica a encíclica Sollicitudo rei socialis, onde é desenvolvida a doutrina social da igreja. O segundo eclipse dá-se a 8 de Abril de 2005 em pleno conclave, depois da morte de Papa João Paulo II, a 2 de Abril. Bento XVI tornar-se-á papa a 19 de Abril. O eclipse de dia 20 de Abril será também determinante para os destinos da igreja católica. Todos estes factos, desde o início da série Saros, permitem que se observe uma visão de conjunto e se alcance uma totalidade simbólica de sentido.    

  Cícero, acerca da velhice, diz-nos algo que é particularmente importante para esta análise: “Nisto assemelham-se aos que acusam o timoneiro de nada fazer durante a viagem, enquanto uns trepam pelos mastros, outros correm por entre os bancos, e outros esvaziam a sentina, segurando, porém, aquele o leme, sentado à popa tranquilamente. Não faz ele aquilo que os mais jovens fazem, mas, o que faz fá-lo com maior exigência e melhor. Não se realizam grandes feitos recorrendo à força, à agilidade ou destreza físicas, antes, pelo conselho, pela autoridade, pelo prestígio, dos quais a velhice não só não se encontra privada como ainda os engrandece.” (Catão-o-Velho ou Da Velhice, 6.17, trad. C. H. Gomes, 23. Lisboa: Biblioteca Independente, 2009). A experiência íntima do tempo histórico, que aliás é própria da representação astrológica, faz do astrólogo um timoneiro da demanda do sentido, da consciência plena de que tudo se une, segundo os ditames da Providência, numa simpatia universal, numa harmonia dos opostos.

  Sob o horizonte, na Porta do Hades (II), o Sol, a Lua e Júpiter vêm a sua acção detida sob a sombra do eclipse. O manto de escuridão conduz a acção da luz aos portões do submundo. Esta é uma posição significativa, pois Plutão (Hades), o deus que rege o submundo, é o astro mais alto e Saturno apresenta-se como lanceiro da sizígia e como Estrela da Manhã, com uma visibilidade pós-ascensão (sextil de Plutão em Aquário ao Sol, Lua e Júpiter em Carneiro). A morte e a necessidade são a acção que culmina, aqueles que ascende primeiramente até ao Meio do Céu. Plutão em Aquário e Saturno Peixes marcam determinantemente os acontecimentos actuais. A morte visita o humano e a justa retribuição será um sinal do tempo. Porém, a empatia, a compaixão e a solidariedade ressurgem como vias de ascensão. As lutas pelos direitos sociais e a necessidade de um Estado Social reafirmam-se hoje, lamentavelmente para um certo pensamento astrológico, mais por Saturno e Neptuno em Peixes do que por Plutão em Aquário. Lembremo-nos sempre da máxima de que é o planeta que faz o lugar e não vice-versa. Essa ideia evitaria muitas simplificações.

  Um outro aspecto que marca o tempo do eclipse e aquele que rege a sua influência é o que liga o Sol, a Lua e Júpiter em Carneiro, em sextil, a Vénus (e ao Ponto Subterrâneo) em Gémeos e, em quadratura, a Marte em Caranguejo. Esta conjugação de aspectos, potenciada pela própria posição de Marte, vai revelar o medo do feminino e um aumento da misoginia, da violência contra as mulheres e um retrocesso nos seus direitos. Veja-se, por exemplo, a tentativa de um tribunal norte-americano proibir a pílula abortiva, disponível e certificado pela FDA há cerca de vinte anos. De um outro modo, a quadratura de Vénus em Gémeos a Saturno e Neptuno em Peixes e o trígono de Vénus a Plutão em Aquário transmite-nos a dificuldade de levar ao outro a mensagem do amor do que move o sol e as estrelas, como diria Dante, aquele que conduz o herói até à casa da Grande Mãe, da Deusa que é a vida na morte e a morte na vida. Quando a morte visita o humano (Plutão em Aquário), o rosto que surge é o de Perséfone, a rainha do submundo que é também a donzela da Primavera. As estruturas vigentes e as ilusões de um patriarcalismo que teima em persistir resistem a esta mensagem, mas a palavra do amor terá de ser a acção do bem (sextil de Vénus a Júpiter).

  A posição de Mercúrio, de Úrano e da Caput Draconis em Touro é especialmente significativa: primeiro, porque Úrano também se encontrava em Touro no tema do eclipse de 1103, o que iniciou a série Saros 129; depois, devido à quadratura destes a Plutão em Aquário e deste à Cauda Draconis em Escorpião. O eixo do valor, ou seja, do viver ao morrer, onde se estende o Dragão da Lua, a par destas ligações, é um notório sinal dos tempos. Aqui encontramos o resultado da negação da mensagem que a Mãe Terra nos transmitia, durante décadas, e que, por teimosia e indiferença, preferimos rejeitar. O planeta está mudar, quer queiramos, quer não. O deus da morte (Plutão) não vai espalhar a superficialidade de uma espiritualidade líquida, aquela que nas últimas décadas do século XX permitiu mudar mentalidades, mas que hoje é insuficiente. A mensagem anuncia a iminência de uma nova extinção: a extinção do humano. Ora a forma dessa extinção oculta-se na Natureza e é sibilada pela Providência. Nós estamos assim perante o enigma esfíngico de renovar o viver. 

  Os sextis de Mercúrio e Úrano em Touro a Marte em Caranguejo e a Saturno e Neptuno em Peixes concedem a liberdade de agir que pode, se assim o quisermos, ser tanto o leme da vida como a dádiva da fortuna. Podemos, se encontrarmos o lugar da Deusa, se acolhermos os dons da Terra, transformar a realidade e aprender a viver conscientemente o planeta que é a nossa casa. Contrariamente, Marte em Caranguejo une-se quadrangularmente a Júpiter em Carneiro e triangularmente a Saturno em Peixes. O medo do feminino contamina, ferindo e dilacerando, o espaço e o tempo. A Era do Espírito Santo, do Sagrado Feminino, anuncia-se, o tambor na noite marca a dança e o ritual, mas a maioria teima em renegar esse tempo que se proclama. Existe uma resistência persistente em aceitar a Deusa que se ergue no céu estrelado.

  Neste eclipse solar, a sombra vai-se estender sobre a acção, obrigando a redefinir o sentido e o valor. A luz e o bem terão assim de se firmar e restabelecer a harmonia dos contrários. Com o eixo nodal a avançar para o eixo Carneiro-Balança, a escuridão cairá sobre a identidade, obrigando ao esforço de concórdia entre a unidade e a dualidade. A luz e a sombra são enigma da morte sobre o humano e, perante a inquietação radical de saber quem somos, é preciso escolher e marcar o caminho.