Reflexões Astrológicas
2026 – Ano Astrológico
Lisboa, 09h02min, 20/03/2025
Sol
Decanato: Marte
Termos: Júpiter
Monomoiria: Marte
Lua
Decanato: Vénus
Termos: Marte
Monomoiria: Júpiter
O início do ano astrológico ocorre tradicionalmente com o ingresso do Sol no signo de Carneiro, logo com o Equinócio da Primavera no hemisfério norte e com o Equinócio do Outono no hemisfério sul. Consequentemente, podemos demonstrar, como aliás já fizemos noutros textos, que esta pode não ser a única leitura. Devemos continuar a ser plurais como o universo e os solstícios, ao longo da história, já provaram ser igualmente marcos de um novo ano. A sua relação com a luz oferece-nos esse valor de novidade do mundo. Segundo, porém, a ordem vernal, algo desfasada do mesmo sentido profundo no hemisfério sul, o Sol entra em Carneiro no decanato de Marte, nos termos de Júpiter e na monomoiria de Marte, marcando assim o início de um novo ano.
No tema de Lisboa, o ingresso do sol em Carneiro acontece com Leão a marcar a hora, algo bastante significativo se considerarmos o futuro ingresso de Júpiter neste signo. O Sol encontra-se no seu próprio Segmento de Luz (αἵρεσις) e acima do horizonte e no seu próprio lugar, na IX, no lugar de Deus, do deus Sol, juntamente Neptuno, Saturno, Vénus e a Lua. Esta poderosa com conjunção ou co-presença é um evento assinalável e simbólico deste novo ano astrológico. O valor de práxis do signo de Carneiro surge assim exacerbado, consolidando o poder da acção na construção do humano e da humanidade. Já a Lua encontra-se no decanato de Vénus, nos termos de Marte e na monomoiria de Júpiter. A posição da Lua traduz também a mensagem do novo ano, estando esta no lugar de exaltação do Sol, logo na sua queda, encontramos aqui um outro feminino. Em Carneiro, a Lua é Atena, a deusa sem mãe, a deusa que surge armada da cabeça do seu pai. No entanto, não nos devemos esquecer que Atena nasce de tradições mitológicas mais antigas, como por exemplo as associadas a Palas e que não transportam consigo esse peso patriarcal. Desta forma, a Lua em Carneiro é também a força do feminino é a mulher ou a Deusa que se torna a senhora de si mesma e a guerra nasce dessa vontade de libertação e liberdade.
A astrologia moderna, por influência sobretudo do livro de Alice Bailey, tem, numa análise astro-mitológica, feito uma associação entre os signos do Zodíaco e os doze trabalhos de Hércules. De facto, existe uma significação que merece a nossa atenção. No entanto, a história dos doze trabalhos foi um esforço já tardio dos mitógrafos antigos. Devemos, deste modo, ter sempre em consideração que astrologia mitológica deve ter uma metodologia rigorosa, baseada nas fontes e não apenas em comentários modernos que, com grande frequência, utilizam erradamente o sentido do mito ao não o citarem de forma precisa. Por outro lado, a tradição mitológica é muito rico e não deve ser limitado. No caso de Carneiro, e sobretudo nesse ponte de sentido entre o fim do ciclo anterior, com Peixes, o início de um novo ciclo, já com Carneiro, Jasão é o herói por excelência. Ora Jasão, o herói de Ares (Marte, domicílio) precisa do favor de Apolo (Sol, exaltação) para que a finalidade da viagem seja alcançada, ou seja, precisa da luz para encontrar o fim, para chegar ao velo ou tosão de ouro (Κρίος Χρυσόμαλλος), a pele do aríete ou carneiro imortal (Carneiro), filho de Posídon (Neptuno, regente moderno de Peixes). Este esforço de encontrar a luz e alcançar o tosão de ouro é exemplificativo dessa práxis que o novo astrológico nos está a pedir.
Séneca, acerca da virtude, e consideremos que a virtude e a excelência têm a mesma origem etimológica, afirma o seguinte: "Quero que fiques sabendo que a virtude encara com os mesmos olhos as suas obras, como se fossem suas crias, que tem a mesma complacência em relação a todas, embora dê mais atenção àquelas que exigem mais esforço; afinal, não é verdade que também o amor dos pais é mais desvelado pelos filhos que maiores cuidados inspiram? Não quer isto dizer que a virtude tenha mais apreço pelas obras que deparam com oposição e violência, mas sim que, à semelhança dos bons pais, as ampara e protege mais cuidadosamente." (Ep.66.27; Cartas a Lucílio, 2ª ed,, trad. J. A. Segurado e Campos. Lisboa, 2004: Fundação Calouste Gulbenkian). Existe uma exigência natural de esforço nesse caminho de excelência. Ora Saturno em Carneiro coloca esse esforço sobre a acção, dizendo-nos que aquilo onde colocas verdadeiramente o teu esforço, onde os teus actos revelam dedicação é um caminho de excelência, ou seja, é a tua luz, o teu tosão de ouro.
Para a análise do tema do início do ano astrológico é também importante considerar-se que a sizígia do novilúnio aconteceu no dia anterior, o que, devido ao facto de Mercúrio retrógrado e de Marte, bem como a Caput Draconis, se encontrarem Peixes, vem revelar o sentido de passagem entre o signo de Peixes e o de Carneiro. A transmissão de sentido matriz entre o signo da totalidade e o signo da unidade é bastante reveladora. O avanço anterior de Saturno e Neptuno entre estes dois signos vem também mostrar a importância desta significação. Existe aqui uma ideia primordial, sobretudo se atentarmos a ordem vernal, o fim de um ciclo e o começo de outro. Estamos portanto a viver a aurora de um tempo novo. Não é, porém, um tempo de bem-aventurança. Se em termos pessoais Saturno e Neptuno em Carneiro podem configurar, através da ação, uma restruturação de sonhos e ideais, em termos mundanos ou globais os desafios são completamente diferentes. O período até à união dos maléficos em Carneiro, com a presença de Neptuno, iniciando este agora um novo ciclo, será um período bastante complexo. Os conflitos mundiais, nomeadamente militares, estão particularmente potenciados. Veja-se o caso do Irão. Mas não só a fúria belicista de Trump e de Netanyahu terá naturalmente uma escalada, uma que conduzirá à resposta de um estado totalitário como o iraniano. Em conflitos movidos desta forma, não existem em boas intenções. A intensificação de cultos da personalidade e de narcisismo político, bem como o avanço da extrema-direita, com estes posicionamentos no signo Carneiro, serão evidentes ao longo deste ano astrológico. Curiosamente, o ano inicia-se no dia de Vénus e na hora de Mercúrio, revelando que o amor e a palavra ainda podem fazer caminho.
O valor da práxis, da grande co-presença ou stellium no signo de Carneiro, será quiçá a melhor assinatura de sentido do ano astrológico que agora se inicia. Temos os luminares, um no início e o outro no fim deste passeio celeste, com Neptuno, Saturno e Vénus. Se considerarmos a lição da astrologia esóterica que diz que Neptuno é Vénus numa oitava acima, ou seja, uma expressão do amor Universal, e estando a primeira exaltada em Peixes e sendo Neptuno o seu urgente moderno, vamos dar densidade a essa ideia de mudança de ciclo. Em Carneiro, Vénus e Neptuno tornam-se o amor em acto, mas podemos encontrar também. sendo Vénus o belo e a Neptuno imaginação criativa, a ideia de que a arte pode transformar o mundo.
O acto artístico, a criação da obra de arte, e a sua transmissão encerra em si um potencial de transformação. A criação artística conduz a uma mudança de paradigma e à abertura de um novo ciclo. A história é a prova desta proposta de transformação. O mundo muda mais pela arte do que pela política. A arte leva à criação do humano e da humanidade. Consequentemente, Saturno permite também esta restruturação de sentido. No entanto, como sempre, a revolução encontra sempre o movimento contrário, uma resistência ou contra revolução. Noutro sentido, esta concentração no signo masculino de Marte não favorece os direitos da mulher, nem a transformação pelo feminino. Este posicionamento favorece sim as novas formas de machismo e de marialvismo. Da exposição destas tendências, resulta a ideia de macho alfa que demoniza as mulheres e é altamente perniciosa, recuperando e exponenciando formas de submissão e objectificação da mulher. Devemos assim não esquecer que é necessário o equilíbrio entre o masculino e o feminino e esta concentração astrológica num signo masculino, regido por Marte e onde o Sol está exaltado, vem nos dizer que temos de encontrar um equilíbrio. O regresso do Sagrado Feminino é uma parte essencial dessa procura de equilíbrio.
A restruturação da práxis, promovida por Saturno em Carneiro, pode porém ser transformadora. A ideia de tempo e destino de Saturno num signo de ação pode permitir uma consciência íntima do tempo, sobretudo do tempo divino. Algo que foi iniciado no signo de totalidade, em Peixes. Tornar o destino acto e fazer cumprir a providência é extremamente desafiante, sobretudo para um signo de impulsos, mostrando aliás porque é o primeiro dos signos. A ânsia de liberdade na ação quer anular a integração do destino, dos ditames da necessidade, todavia o destino não se anula. Como acabará por compreender a ação humana. No entanto, se for feita esta integração do destino, do tempo divino, na ação, pode permitir-se o nascimento de uma nova condição humana, uma com maior consciência da totalidade e da sua integração no todo.
Como já constatámos, Saturno tem uma predominância significativa neste ano astrológico. Porém, devemos considerar também a importância de Mercúrio que vai servir de contraponto à práxis, à urgência da ação que surge dos posicionamentos astrológicos no signo de Carneiro. O ano começa com Mercúrio ainda retrógrado, todavia, às 19 horas e 33 minutos, Mercúrio passará a direto no signo de Peixes. Ora, estando Mercúrio em detrimento e em queda neste signo, a palavra não é um ato exterior, surge de uma necessidade contemplativa de uma integração da totalidade. Em termos místicos, o humano conversa com o divino. O facto da retrogradação de Mercúrio acontecer, neste ano astrológico, em signos de água é também exemplificativa desse outro modo de usar a palavra. Aqui a palavra vai trazer a realidade da alma, mas será também uma realidade de empatia e solidariedade. As retrogradações de Mercúrio são, desta forma, as seguintes: de 29 de Junho a 23 de Julho, em Caranguejo; de 24 de Outubro a 13 de Novembro, em Escorpião; e de 10 de Fevereiro a 4 de Março de 2027, em Peixes e Aquário. A última como podemos ver terminará com o Mercúrio direto no signo de Aquário. Este aspecto é importante, pois, depois dessa integração do elemento Água na palavra e no discurso, o planeta de Hermes surge no signo da humanidade, Aquário, permitindo que a integração da empatia e da solidariedade se torne o marco de sentido dessa nova revolução, dessa nova humanidade.
Séneca diz-nos que "Uma alma que contempla a verdade, que atribui valor às coisas de acordo com a natureza e não com a opinião comum, que se insere na totalidade do universo e observa contemplativamenre todos os seus movimentos, que dá igual atenção ao pensamento e à acção, uma alma grande e enérgica, invicta por igual na desventura e na felicidade e em caso algum se submetendo à fortuna, na alma situada acima de todas as contingências e eventualidades, uma alma bela e equilibrada em doçura e energia, na alma sã, íntegra, imperturbável intrépida, uma alma que força alguma pode vergar, que circunstância alguma pode envaidecer ou deprimir - uma tal alma é a própria personificação da virtude. Este seria o aspecto da virtude se se apresentasse sob um único aspecto, se se mostrasse toda de uma só vez." (Ep.66.6-7; Cartas a Lucílio, 2ª ed,, trad. J. A. Segurado e Campos. Lisboa, 2004: Fundação Calouste Gulbenkian). Esta ideia leva-nos para Vénus que inicia o ano em Carneiro e iniciará o próximo em Aquário, estando retrógrada entre 3 de Outubro e 14 de Novembro, nos signos de Escorpião e Balança, ou seja, inicia a retrogradação em Escorpião, indo até Balança, onde passará a directa. Existe, por via do amor, neste processo de regresso a si, uma integração da sombra na harmonia dos opostos, na dualidade como união. Em termos anuais, vamos passar de uma Vénus de amor próprio (Carneiro) e para uma Vénus de amor fraterno (Aquário).
Marte fará, durante este ano astrológico, um viagem de Peixes a Virgem, dois signos que apelam a uma força mais benevolente. O eixo da integração vem exortar a essa conciliação da força na relação da parte com o todo. A sua retrogradação ocorrerá de 19 de Janeiro a 2 de Abril de 2027, nos signos de Leão e Virgem. Se em Virgem a moderação da força, ou o apelo a uma força retrotensa, será sobretudo na forma de conciliar os impulsos naturais com a integração da parte no sentido do todo, ou seja, num princípio de aceitação do destino, em Leão, o ensimesmamento do ego, da visão egocêntrica, é um apelo natural à nobreza da alma, à exaltações dos dons do espírito. Neste ano, a retrogradação de Marte e a sua viagem primordial pretendem que as forças primordiais sejam colocadas ao serviço e não sejam um fim em si mesmo. Menos eu e mais si deverá ser essa a força matriz.
A retrogradação de Marte em Leão encontrará de forma agregadora a viagem de Júpiter que transita do signo de Caranguejo para o de Leão, a 30 de Junho. Ficará retrógrado neste signo de 13 de Dezembro a 11 de Abril de 2027. Com o planeta da expansão que é Júpiter, a nobreza da alma como uma sublimação do egocentrismo leonino será como um horizonte de exemplo de exigência, de excelência, uma exigência que se colocará necessariamente sobre os líderes mundiais. As ideias de bem e de justiça, próprias da natureza de Júpiter, começaram a ser exigidas a esses líderes. Veja-se o controponto entre Pedro Sánchez e Luís Montenegro, um tem posição, o outro não tem nada. E podemos ver também aqui uma exigência ética na liderança. As pessoas vão sentir uma maior necessidade de encontrar um luz que guia e não uma escuridão que arrasta.
Com Saturno em Carneiro, permanecendo todo o ano neste signo, estando retrógrado de 26 de Julho a 10 de Dezembro, este será assim um determinante relacional. Primeiro, é necessário destacar a união dos maléficos neste signo a 19 de Abril. Este será um período de grandes tensões em termos globais, um factor agravado por Júpiter ainda se encontrar em Caranguejo, formando-se assim uma quadratura, e também pela presença de Neptuno na conjunção dos maléficos. O sextil a Plutão em Aquário também não será apaziguador, pelo contrário, traz à humanidade a escolha da morte e da destruição. Espera-se com a conjunção dos maléficos, mesmo estando Marte no seu domicílio, uma escalada nos conflitos militares, no discurso de ódio e na propagação da extrema-direita.
Com a entrada de Júpiter em Leão, a relação triangular poderá melhorar a situação. No entanto, nnunca nos podemos esquecer a muito referida lição de Petosíris, de que nem todos os trígonos são bons nem todas as quadraturas más (fragm.38 Riess). Neste caso, como são dois planetas estruturantes, ou sociais na designação moderna, espera-se uma maior conciliação. O encontro triangular de Júpiter e Saturno no elemento Fogo poderá trazer uma dinâmica de esperança, em especial, quando os luminares e os planetas mais rápidos passarem nestes signos (Carneiro e Leão), bem como no de Sagitário. O fogo poderá queimar com o espírito a supercialidade das vontades, ou seja, a expressão mais elevada do elemento é a de que as vontades humanas se submentem a uma única vontade. Este elemento não expressa uma liberdade individualista, mas sim a liberdade que resulta da consciência de si e da consciência de que existe um sentido último que tudo governa.
Quanto aos transaturninos, só Úrano mudará de signo. A 29 de Abril ingressa no signo de Gémeos, estando retrógrado de 10 de Setembro a 9 de Fevereiro de 2027. Esta alteração será um grande factor de mudança, pois permitirá uma relação mais vantajosa entre Úrano e os outros planetas, ou seja, vai estabelecer um trígono com Plutão em Aquário e um sextil com Neptuno em Carneiro. Naturalmente, esta mudança vai ajudar a transformar radicalmente os paradigmas de comunicação, sobretudo pela inteligência artificial, e para o bem e para o mal. Se, por um lado lado, o conhecimento ganhará uma velocidade gigantesca, algo tão geminiano, por outro lado, a desinformação alcançará novos contornos que podem inclusive promover a viciação de resultados eleitorais ou do sentido da consciência de massas, expandindo os discursos de ódio, o racismo, a xenofobia e a misoienia. Neptuno permanecerá assim em Carneiro, estando retrógrado de 7 de Julho a 12 de Dezembro (em termos numerológicos este aspecto é curioso). Já Plutão permanecerá também em Aquário, estando retrógrado 6 de Maio a 16 de Outubro.
Em suma, e como é facilmente perceptível, existe uma forte componente masculina nos posicionamentos astrológicos deste ano, o que nos poderá levar a pensar e a tentar impor a nós próprios, individualmente, mas também em termos colectivos, os modos femininos de ser e estar. O mundo precisa desesperamente do Sagrado Feminino. Há séculos que é, do ponto de vista espiritual, órfão de mãe e isso levou a um profunda alteração civilizacional e humana. Lembremo-nos da máxima de que Ísis era tudo para todos os homens, mulheres e crianças. Falta-nos esse elemento e de ponto de vista astrológico vamos ter de o encontrar à medida que os luminares e planetas mais rápidos façam os seus ingressos em signos femininos e permitam, desse modo, uma outra dinâmica. A Deusa é aquele caminho que todos vêem e a maioria recusa seguir. No entanto, este ano astrológico será um ano de mudanças profundas e rápidas. Devemos estar alerta e agir, conscientemente.