segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Reflexões Astrológicas 2026: Eclipse Solar Anular (Lua Nova em Aquário)

 Reflexões Astrológicas

Eclipses 


Eclipse Solar Anular

(Lua Nova em Aquário)

Lisboa, 12h 11min, 17/02/2026

 

Sol-Lua

Decanato: Lua  

Termos: Saturno   

Monomoiria: Saturno    

                                           

 

   O Eclipse Solar Anular de 17 de Fevereiro ocorre no signo de Aquário, com Gémeos a marcar a hora (hora de Lisboa), no Segmento de Luz (αἵρεσις) do Sol, com os luminares acima do horizonte, na IX, no lugar de Deus, do deus Sol, mas junto do Ponto de Culminação (MC), e cerca de cinco horas após o pôr-do-sol, no decanato da Lua, nos termos e na monomoiria do Saturno, e a escassos minutos do grau anarético. Destaca-se pois, na leitura imediata de tema, o facto de Marte ser o astro mais alto, em conjunção ao Ponto de Culminação, num caminho ascendente que se inicia com Úrano em Touro, num lugar de pós-ascensão. Esta relação quadrangular torna-se assim significativa, revelando nomeadamente a ruptura entre a humanidade (Aquário) e a Mãe-Terra (Touro). A negação das alterações climáticas em oposição aos fenómenos naturais extremos revela esta dicotomia. O peso da morte (Plutão em Aquário) paira, desta forma, sobre a humanidade. 

   Este é o primeiro eclipse no eixo Aquário-Leão, ou seja, avançamos no ciclo nodal do eixo de integração Peixes-Virgem para o eixo de criação Aquário-Leão. No entanto, existe um sentido profundo que conserva a sua continuidade. A ponte entre singularidade e pluralidade é mantida em ambos os eixos, estando os dois naturalmente sobre o peso do manto umbral. No eixo Peixes-Virgem, estabelecia-se, para lá da sombra, um elemento de passagem entre o todo e a parte, já no eixo Aquário-Leão, o elemento funda-se na viagem entre a humanidade e o humano. Convém, todavia, salientar-se que o humano de Leão é, na verdade, o divino, o sol radiante. Em Leão, se o herói sacrificar o ego, a nobreza da alma reconhecerá o divino em si mesmo. Esta é uma ideia que encontramos, por exemplo, em Rumi, em Meister Eckart ou no Evangelho de Tomé. O divino não está em igrejas, mesquitas, sinagogas ou em qualquer templo de pedra está no interior de cada um. É a luz que brilha quando tudo é escuridão. É, desta forma, o reconhecimento do divino em nós que nos torna humanos e que nos permite, num elemento agregador de passagem, a criação de uma verdadeira humanidade. Este é o eixo de criação Leão-Aquário.

   No actual ciclo nodal, a sombra impõe-se agora sobre o signo de Aquário e o corpo do Dragão da Lua coloca a sua cabeça nesta constelação e a cauda na oposta, em Leão. Ora este posicionamento firma assim a sombra sobre o sentido de humano e de humanidade. Deste modo, o Dragão da Lua vai dar gravidade à Necessidade (Caput) sobre a humanidade e ao Destino (Cauda) sobre o humano. A Providência estabelece consequentemente os seus ditames ao querer refundar o sentido de humanidade no humano. Numa visão astro-mitológica, o eixo Aquário-Leão vai simbolizar a relação homoerótica entre Ganimedes e Zeus (Júpiter), algo particularmente significativo com o ingresso de Júpiter em Leão no final de Junho.

   Já tínhamos considerado a matriz etimológica do nome Ganimedes (Figueiredo, R. M., 2024, Reflexões Astrológicas 2023: Parte I, 20. Lisboa: Livros – Rodolfo Miguel de Figueiredo). Ora o nome próprio tem a sua raiz na forma verbal γάνυμαι que designa o “alegrar-se” ou o “irradiar alegria”, mas também no substantivo μήδων, ou seja, os “genitais”. Sob a forma de águia, Zeus rapta Ganimedes e leva-o para o Olimpo, tornando-o o copeiro dos deuses, aquele que verte o néctar (ou o sémen). Platão, na célebre passagem que compara a alma a um carro puxado por cavalos que exercem forças contrárias e cujo auriga terá de dominar, diz-nos o seguinte acerca do amor e do desejo, considerando o caso de Ganimedes e Zeus: Precisamente por isso, o jovem amado é servido com toda a solicitude, como um deus, não por quem finge amar, mas por quem experimenta verdadeiramente esse sentimento; ele mesmo torna-se naturalmente amigo de quem o serve. Mesmo que, no passado, tenha sido dissuadido pelos companheiros ou por torna-se naturalmente amigo de quem o serve. Mesmo que, outros quaisquer, ao dizerem-lhe que é vergonhoso aproximar- -se de quem ama, induzindo-o a repelir por isso o amoroso, com o avançar do tempo, no entanto, a juventude e a necessidade levam-no a admiti-lo na sua intimidade. Não quis o destino que o malvado fosse amigo do malvado nem que o corajoso não fosse do corajoso. Logo que o amado admite e aceita escutar a sua conversa e viver na sua companhia, a benevolência do amante, olhada de perto, causa-lhe perturbação, ao aperceber-se de que todos os outros, amigos e familiares, não oferecem qualquer parcela de amizade em confronto com o amigo que é presa da possessão de um deus. Quando persevera falei nessa conduta e se avizinha dele para o tocar nos ginásios e em outros locais de reunião, então o manancial da corrente de que e a que Zeus, enamorado de Ganimedes, deu o nome de desejo, canalizada em abundância para o amante, penetra dentro dele uma parte, e a outra, uma vez repleto, transborda para o exterior. E, qual vento ou um eco que, ressaltando nas superfícies lisas e sólidas, regressa ao ponto donde partiu, assim o fluxo vindo da beleza regressa de novo ao jovem belo através dos olhos que são a entrada natural da alma.(Platão, Fedro 255a-c, trad. J. Ribeiro Ferreira. Lisboa Edições 70, 1997).

   Primeiramente, e contrariando um pouco Platão, este caminho amoroso de descrição homoerótica é idêntico ao amor heterossexual. Lembremo-nos, por exemplo, da poesia trovadoresca e da deificação da amada nas cantigas de amigo e de amor. Já do ponto de vista astrológico dir-se-ia que este processo pertence a Vénus, ou na astrologia esotérica poderia pertencer também a Neptuno, como uma expressão de Vénus numa oitava acima, todavia na ponte do Sol a Saturno, ou vice-versa, no caminho Leão-Aquário, vamos encontrar também a dinâmica do amor. A razão é tão simples quanto a formulação: é o amor que faz o humano e é o amor que constrói a humanidade. Se considerarmos a ordem vernal depois de Aquário, o signo da humanidade, vem Peixes, o signo da totalidade e o lugar de exaltação de Vénus, logo o amor como potência do eixo de criação revela de facto o seu sentido profundo.

   Esta associação astro-mitológica entre o mito de Zeus e Ganimedes e o eixo Leão-Aquário encontra-se também numa descrição de Quinto de Esmirna, em A Queda de Tróia (8.427 e ss.), quando nos diz que, ao ver a sua cidade em chamas e seus compatriotas a serem chacinados, Ganimedes exorta amorosamente a Zeus pela sua clemência e pela sua intervenção. Ora Zeus acende às súplicas do amado e lança uma tempestade de trovões e relâmpagos que extingue o fogo e faz dispersar os exércitos gregos, obrigando-os a regressar à sua terra-natal. Ganimedes incorpora neste mito o sentido de humanidade e consequentemente o signo de Aquário, tal como Zeus (Júpiter) que, ao fazer essa passagem entre o divino e o humano, transmite o sentido profundo do signo de Leão, ou seja, a nobreza da alma. Este é um aspecto que se torna particularmente interessante se pensarmos que Zeus evitou sempre intervir no conflito da guerra da Tróia. Foi o amor que condicionou agora essa intervenção, o que lhe concede um carácter particularmente distinto.

   Com um eclipse solar neste eixo, a sombra, a ocultação da luz, vai incidir sobre este binómio humano-humanidade. Ora não é difícil de perceber esta significação, pois estamos a viver, com o avanço do populismo e da extrema-direita, um processo desumanização e de remissão do valor de humanidade. O exemplo mais assustador neste processo é o de Gaza. A forma passiva como os líderes mundiais e muita gente assiste, em directo, a um genocídio é um exemplo claro desse processo. A desmedida do ódio pelo outro, pelo estrangeiro, por aquele é que diferente, seja por que razão for, é a demonstração da falência da humanidade. Se pensarmos que o eixo Leão-Aquário está muito associado à luz, sendo Leão o domicílio do Sol e Aquário o de Saturno, tendo sido este designado pelos babilónicos como o Sol da Noite (cf. van der Sluijs, M. A. & P. James, 2013, “Saturn as the Sun of Night in Ancient Near Eastern Tradition” in Aula Orientalis 31.2, 279-321), substituindo o luminar na sua ocultação nocturna, o peso da sombra torna-se então mais expressivo.      

   Na relação entre a luz e a sombra, e agora com eclipse solar no signo de Aquário, tem de se considerar a morte como elemento essencial de sentido, por duas razões: a posição de Aquário no Thema Mundi e o facto de Plutão se encontrar em Aquário. Como já observarmos, por diversas vezes, o Thema Mundi possui uma enorme riqueza significativa, infelizmente subjugada à hegemonia da ordem vernal. Ora, no Thema Mundi, Aquário ocupa o oitavo lugar, o lugar da Morte, ou da qualidade da morte como alguns referem. Este posicionamento não é inocente. Os antigos astrólogos colocaram os luminares nas duas primeiras casas, ou seja, com Caranguejo a marcar a hora, a Lua na I e, com Leão, o Sol na II, deste modo, os dois signos cujo domicílio é Saturno vão-se encontrar nos signos opostos, respectivamente Capricórnio e Aquário. Sabemos que a razão desta distribuição teria sido inspirados nos templos de Mitra e naturalmente no nascimento e morte da luz solar, confirmando-se assim a designação babilónica de Saturno enquanto Sol da Noite.    

   Na ordem vernal e com as regências modernas, Escorpião ocupa a casa VII, tendo Plutão como seu regente. É assim que se encontra a ligação e a persistência do sentido profundo da morte no actual eclipse. Séneca diz-nos o seguinte acerca da morte: “A morte não tem em si nada de nocivo, porquanto uma coisa, para ser nociva, deve primeiro existir! Se tens assim um tão grande desejo de uma vida mais longa, pensa então que nada daquilo que se escapa aos nossos olhos para mergulhar na natureza (da qual tudo proveio e à qual tudo em breve há-de regressar) se destrói por completo; as coisas cessam, mas não se perdem; a morte - que nos enche de terror, que nós nos recusamos a aceitar - interrompe a vida, mas não lhe põe termo; virá um dia em que novamente veremos a luz, num regresso à vida que muitos recusariam sem o prévio esquecimento da vida passada!” (Ep.35.9-10; Cartas a Lucílio, 2ª ed,, trad. J. A. Segurado e Campos. Lisboa, 2004: Fundação Calouste Gulbenkian). A morte surge assim como uma confirmação da continuidade e da persistência da vida. É a ideia de que a morte é semente, ou seja, uma significação atribuída a Plutão enquanto senhor do que existe sob a terra, o submundo e o lugar da semente.

   O eclipse solar de dia 17 tem o seu centro geográfico, o seu foco de escuridão, ao largo da Antárctida, entre a Davis Station e a Casey Station. Se considerarmos a importância deste continente para preservação do nosso planeta, a localização ganha uma significação importante, e se pensarmos que eclipses solares tendem a assumir um sentido político maior que os eclipses lunares, podemos assumir a relevância política da conservação da Antárctida para a emergência climática. Os governos que continuamente negam esta emergência estão a cometer um crime contra humanidade, aqui também no sentido aquariano. O manto umbral estende-se depois pelo Oceano Índico, passando também pelo continente africano, pela África do Sul, Botsuana, Moçambique, Zimbabué, Malawi, Zâmbia, Tanzânia, e mais ligeiramente pela Austrália, pela Índia pelo Sri Lanka.  

   Nas regências geográficas antigas, Vétio Valente (Antologia I, 2) diz-nos que Aquário rege sobretudo o Egipto, a Síria, a área entre o Eufrates e o Tigre (Médio Oriente), a Líbia, a região do vale do Indo (entre o Paquistão e a Índia, Tanais (nas imediações da actual Rostov-on-Don, Rússia, perto da fronteira com a Ucrânia e a Geórgia), e dos rios Eufrates e Tigre, desde os Hiperbóreas, para norte e oeste (países de leste e Escandinávia). Já Manílio designa que Aquário rege as áreas do Egipto à Fenícia, e a própria cidade de Tiro (Líbano), a Cilícia (Anatólia, Turquia) e as planícies que fazem fronteira com a Cária (Turquia), ou seja, a Lídia e Panfília (ambas na actual Turquia) (Astronomica IV, 797-9). Heféstion vai sintetizar com parte das mesmas áreas de Vétio Valente e que estão de acordo com a Sphaerica, acrescentando as referidas por Ptolemeu, ou seja, a Sauromática (do baixo rio Volga ao sul dos Montes Urais), Oaiana, Sogdiana (Usbequistão), Arábia, Azânia (zona da África, do sul da Somália, passando por Moçambique, até a África do Sul) e Germânia (Apotelesmática I, 1).

   Se observarmos com atenção as regências geográficas antigas, concluímos que estão quase todas associadas a conflitos político-militares e a lugares de crise humanitária. Novamente o eixo de criação Aquário-Leão encontra a sua expressão. Já quanto à influência temporal podemos estabelecer, com base na duração do eclipse tanto umbral como penumbral, mas também pela declinação dos luminares, uma influência directa mais forte de dez meses a dois anos e dois meses e meio. Porém, existe uma influência indirecta, expressa sobretudo através dos seus efeitos, que se estender até aos treze anos, ou seja, os acontecimentos do período mais restrito vão ter consequências a longo prazo.

   O eclipse solar parcial de 17 de Fevereiro pertence à série Saros 121, sendo o 61º eclipse de um total de 71. É uma série de maior maturidade que já se encontra na fase posterior à dos eclipses totais. O período dos eclipses totais, entre 1070 e 1809, é relevante, pois estende-se do fim da Alta Idade Média até período das revoluções. Como sabemos, o eclipse inicial é a matriz de sentido para toda a série. Ora o primeiro eclipse desta série ocorreu a 25 de Abril de 944. O Sol, a Lua e Mercúrio estavam em Touro. O Dragão da Lua estendia-se no eixo Carneiro-Balança. Vénus estava em Gémeos, Marte em Sagitário e Júpiter em Carneiro e Saturno em Caranguejo. Nos transaturninos, Úrano estava em Gémeos, Neptuno em Leão e Plutão em Caranguejo. Nesta data e na hora de Lisboa, Leão marcava a hora e Carneiro culminava. A série Saros 121 terminará a 7 de Junho de 2206, com um eclipse no signo de Gémeos, o signo que agora marca a hora para o tema de Lisboa. Na análise comparada entre tema do eclipse matriz e o do actual, encontramos uma progressão significativa dos eixos de ascensão e culminação. De uma outra forma, possui também um sentido profundo o facto de Júpiter se encontrar em Carneiro, onde agora se encontra Saturno, e Saturno se encontrar em Caranguejo, onde agora se encontra Júpiter. As dinâmicas estruturantes espaço e tempo assumem esta dicotomia entre o signo da unidade (Carneiro) e o signo da origem (Caranguejo), ou seja, uma relação entre os eixos de identidade e de tempo.

   O ano de 944 foi marcado por algumas transformações políticas, religiosas e militares que definiram a Alta Idade Média. No mundo islâmico, os hamadânidas (dinastia fundada por oficiais abássidas) reforçaram o seu poder quando Sayf al‑Dawla conquistou a cidade de Edessa, até então sob influência bizantina, consolidando, desta forma, a presença da dinastia no norte da Síria e da antiga Mesopotâmia. Simultaneamente, o califado abássida atravessava um período de grande fragilidade: os buídas ampliavam a sua influência no Iraque e aproximavam‑se de assumir o controlo efectivo de Bagdad, reduzindo o califa a uma figura sobretudo simbólica. No Império Bizantino, o imperador Constantino VII Porfirogénito consolidou o seu poder ao afastar os filhos de Romano I Lecapeno, com quem ainda partilhava o trono. Constantinopla recebeu, nesse ano, uma das relíquias mais veneradas do cristianismo oriental, o Mandylion de Edessa cuja posse reforçou o prestígio religioso da capital imperial.

   Na Europa ocidental, o Reino de Inglaterra era governado por Edmundo I que continuava o esforço de unificação e defesa iniciado por Athelstan, enfrentando tensões com grupos de vikings e com reinos vizinhos. A Leste, a Rus de Kiev vivia um período de instabilidade sob o príncipe Igor cuja autoridade era contestada. A tensão crescente culminaria no ano seguinte com a sua morte às mãos dos drevlianos. Na Europa Central, os magiares prosseguiam as suas incursões e expandiam a sua influência, moldando o equilíbrio de forças na região. É interessante observarmos como muitas destas regiões continuam hoje a ser focos de atenção e de tensão.

   A conjunção ou co-presença da sizígia umbral a Marte e a Plutão, e tendo já se observado a relação com o sentido de morte, percebemos como a destruição paira sobre a humanidade, lançando com cada vez maior frequência os raios de alerta. Marte e Plutão, os regentes de Escorpião, lançam assim os seus raios que se conjugam com os dos luminares, agora sob o peso da sombra. A humanidade está a ser avisada, os gritos de alerta ecoam pelo mundo, mas a sombra impede a visão. Tudo está à vista de todos e continua sem ser visto. Este aspecto astrológico relaciona-se com outro, também facilmente observável: a conjunção quase exacta da Vénus exaltada em Peixes à Caput Draconis, ambas co-presentes a Mercúrio exilado. A potência agregadora do amor universal encontra a sombra da necessidade e a sua palavra de consenso jaz inaudível. O caso de Francesca Albanese é o melhor exemplo, dizendo-nos “Não matem o mensageiro”. Com uma enorme coragem, ela denuncia o genocídio que todos ignoram e por isso tem sido perseguida. De facto, estamos num tempo em que temos de repensar o humano se queremos ser uma verdadeira humanidade. O humanismo está perder-se na história. A agressão de Marte tem contaminado o amor como derradeira finalidade e só o amor nos pode salvar. Essa é a verdade.      

   No entanto, o trígono de Vénus, Mercúrio e da Caput Draconis em Peixes a Júpiter em Caranguejo surge como redescobrimento da pérola do Eterno Feminino. É como se a concha de onde nasceu Afrodite se reabrisse para uma nova era. O regresso da deusa renegada aparece no horizonte como possibilidade. Porém, vivemos o tempo em que o ódio para com o feminino e para com as mulheres está vez mais presente. O direito de ser mulher continua a ser fortemente ameaçado por uma sociedade patriarcal e uma mentalidade machista. O sextil destes a Úrano em Touro, a par da quadratura deste à sizígia umbral e a Marte e Plutão em Aquário, revela, por um lado, a liberdade que existe na defesa do feminino e da Mãe-Terra, ou seja, existe a possibilidade de escolha, o humano pode seguir a revolução do Eterno Feminino, a revelação do seu retorno, ou seguindo essa tensão quadrangular, consolidar a destruição do espírito do humano, da nobreza da alma, impedindo a criação de uma verdadeira humanidade.

   No tema do eclipse, e tendo em conta o facto dos ingressos ou reingressos terem acontecidos pouco tempo antes desta efeméride, é impossível não destacar a importância da presença de Saturno e Neptuno no signo de Carneiro. Contrariando a tendência astrológica contemporânea de dizer sempre “Agora é que é” quando um planeta ingressa num signo de Ar e Fogo e que, na verdade, resume de forma subtil um certo patriarcalismo interpretativo, o período em que estes planetas se encontrarem em Carneiro não será fácil. Não nos podemos esquecer que deixam um signo onde existia uma potência benévola maior. Deixam o signo onde os benéficos estão favorecidos (domicílio de Júpiter e exaltação de Vénus) e regido por Neptuno para entrarem na casa de Marte, o lugar onde o Sol arde e queima (exaltação). A tradução desta hostilidade vai-se verificar em extremismos ideológicos e populistas, basta ver o crescimento da extrema-direita, mas também em duas outras vertentes, o aumento dos cultos de personalidade e da misoginia. Por outro lado, vai permitir, sendo o signo da Práxis, uma renovação conceptual da resistência democrática que se vai expressar em novas formas de luta. Os ideais e as estruturas terão sobre elas uma acção renovada. As novas gerações trazem à humanidade uma esperança de cura e renascimento. Carneiro vai dizer para criar, para renovar, para agir, fazendo do sonho um lugar no tempo, isto é, um acontecimento. O sextil entre os luminares e estes planetas é um sinal claro dessa liberdade de acção.

   Este é, todavia, um eclipse de grande tensão e mensageiro de destruição. As quadraturas entre Marte e Plutão, juntamente com a sizígia umbral, em Aquário a Úrano em Touro e a quadratura de Júpiter em Caranguejo a Saturno e Neptuno em Carneiro são um marco desse potencial nefasto. A astrologia não revela só flores e incenso é preciso ser claro e dizer que nem tudo é bom e que sim existem acontecimentos nefastos e que o humano encerra em si uma potência de destruição. O sextil entre os planetas no lugar do eclipse e Saturno e Neptuno em Carneiro vai acentuar essa realidade como potência de destruição e não como efectivação da destruição, ou seja, seguindo a inspiração estóica, nós não determinamos os acontecimentos, mas definimos o carácter. O mal é uma escolha. Toda a quadratura entre Júpiter e Saturno pede, ou melhor dizendo obriga, a uma restruturação da realidade e a uma nova aplicação das ideias-matriz, dos valores essenciais.

   O eclipse solar de dia 17, no signo de Aquário, surgindo no céu como um anel de fogo, vai colocar sobre o humano e sobre a humanidade o peso da sombra. A Providência traz assim à realidade a gravidade do retorno. Ser-nos-á portanto impossível ignorar a causalidade como consequência das nossas acções. Neste eclipse, e partir dele, a humanidade será progressivamente chamada à realidade, tendo assim de se repensar, de se recriar. A destruição levará necessariamente à criação.


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