segunda-feira, 1 de abril de 2019

Do Eu ao Todo (Poesia)

Curradi, Francesco, Narcissus, s/d.
Florença: Galleria Palatina (Palazzo Pitti).


Do Eu ao Todo


Se na vida 
Algo queres ser
Perde o eu
A que tanto te agarras
Para abraçares o todo
Que tudo te dá

Não sejas pois a repetição 
Desse eu que tudo detém 
Sem nada conseguir ser
Sê antes a profundidade 
De um poço vazio
Que paciente espera
A água as chuvas
Encher-se 
Tornar-se outro 
Cheio renovar-se

Perde pois esse eu
Que em tudo se inclui
Como Narciso 
Dizendo
Fiz sou apareci
Dilui-te na obra do agora
Na sabedoria que é semente
E sê antes a árvore
Que vê e ouve
O rio que corre 
Sem ter de ser

Se na vida 
Ou além da morte
Algo queres ser
Perde esse eu
Que só a ilusão te dá
Para vivo puderes ser
Não uma parte no todo
Mas o todo por toda a parte


24 de Março de 2019

RMdF

Humana Possibilidade (Poesia)

Allori, Alessandro, Allegory of Human Life, 1570-90.
Florença: Galleria degli Uffizi.

Humana Possibilidade

Se a humanidade pudesse ser _____________
O canto dos rouxinóis rasgando a madrugada
Ou a douta maré que solitária avança e recua
Deixando ao despido areal aquilo que fora seu

Se a humanidade pudesse ser _____________
O majestoso veado-rei senhor do árboreo reino
Que sabe que liderar é ainda estar e não ser visto
Ou aquela simples flor que reúne em si o universo

Ai se a humanidade pudesse ser ___________
A singularidade magnânima de uma nova estrela
Ou a constância luminar que o Sol e a Lua nos dá
Surgindo e escondendo-se dando de si ao outro

Se a humanidade pudesse ser _____________
Aquele riso frisado ao vento das nossas crianças
Cantando sobre os sulcos dos seus antepassados
Ou gravando a marca solitária do incerto amanhã

Se a humanidade pudesse ser _____________
A doce memória da palavra o mestre revisitante
Da lição que a história nos dá transformando
O agora sempre perdido nas páginas do futuro

Ai se a humanidade pudesse ser ___________
Tudo aquilo que não é mas que por sua dádiva
Tende a ser ou a excelência que por raridade
Ou excepção exalta o melhor do ser humano

_______________ Sim se a nossa humanidade
Pudesse ser a lei da sabedoria verdade e vida
Tornar-se-ia o que teima em não ser uma ideia
O sonho e o ideal o nascer de um novo humano



29 de Janeiro de 2019
RMdF

quarta-feira, 27 de março de 2019

O Diabo é o Excesso de Si

O Diabo
Tarot Rider-Waite

O Diabo é um indicador, não do conhecimento, nem da intuição do mal, mas do mal enquanto perda de liberdade, escravidão.

O Diabo é aquele que anula a vontade, não por causa de uma acção externa, mas porque o excesso de si intoxica o livre-arbítrio.

O Diabo é um criador de artificialidade, um fabricante de ilusões que materializa e objectifica uma realidade sem forma, nem espírito.

O Diabo é aquele transforma o acto de criar, a inspiração que nos eleva na experiência da queda, no abismo da negação.

O Diabo é a acção de captura do que está perdido, é o domínio da ausência, da alma alienada e estéril, distante da luz e da dádiva.

O Diabo é aquele que representa, não a ausência da luz, mas sim o encontro com a sombra, o assombro da luz oculta.

O Diabo é o arcano dos grilhões, da liberdade ausente, porque o eu tornou-se na sua própria prisão, numa realidade distorcida.

terça-feira, 19 de março de 2019

Estrutura Temática da Astronomica de Manílio: Esquema de Leitura

The sphere of Marcus Manilius made an English poem with annotations and an astronomical appendix
by Sir Edward Sherburne (London : Printed for Nathanael Brooke, 1675)


Estrutura Temática da Astronomica de Manílio


Livro I

Proémio
I, 1–117

1–24 Apresentação do tema e reflexão sobre a tarefa do poeta
25–65 História da Astrologia
66–112 História da Civilização
113–17 Nova apresentação do tema e desejo de sucesso

O Universo
I, 118–254

118–21 Introdução
122–46 Origem do Universo: as várias teorias
147–66 Forma do Universo: os quatro elementos e os seus lugares naturais
168–203 Terra: posição central e suspensa
204–46 Esfericidade da Terra
247–54 Coerência do Universo, que é governado pela vis animae divina

As Estrelas
I, 255–560

255–6a Introdução
256b–74 O Zodíaco
275–372 Signos do Hemisfério Norte
373–455 Signos do Hemisfério Sul
456–73 A Forma das Constelações
474–531 A Regularidade do Movimento Estelar como Prova da Divindade e Imutabilidade do Universo
532–8 Conclusão da Discussão acerca das Estrelas Fixas
539–60 Dimensão do Céu

Os Círculos Celestiais
I, 561–804

561–3 Introdução
566–602 Paralelos (círculos árctico e antárctico, equador, trópicos)
603–30 Cores
631–65 Círculos Móveis (meridiano, horizonte)
666–804 Círculos Oblíquos (Zodíaco, Via Láctea) 
   (684–804 Excurso: A origem da Via Láctea e a sua função de morada das almas abençoadas)

Os Planetas
I, 805–8

Os Cometas
I, 809–926

809–16 Introdução
817–66 Primeira Teoria: os cometas como exalações ardentes da terra
867–73 Segunda Teoria: os cometas como estrelas menores, atraídas e depois projectadas pelo Sol
874–926 Terceira Teoria: os cometas como avisos divinos de desgraça iminente
   (905–26 Excurso: as guerras civis e os feitos de Augusto)


Livro II 

Proémio
II, 1–149

1–48 História da Poesia Hexamétrica
49–59 Pretensão de Originalidade
60–135 O Cosmos Divino e Capacidade Humana de o Compreender
136–49 Nova Pretensão de Originalidade

O Zodíaco: características dos signos
II, 150–269

150–4 Masculino e Feminino
155–7 Humano e Animal
157–96 Singular e  Duplo
197–202 Para trás e a Direito
203–22 Diurno e Nocturno
223–33 Aquático, Terrestre e Anfíbio
234–43 Fértil, Infértil e Intermédio
244–55 A Correr, Parado, Sentado e Deitado
256–64 Disfigurado e Inteiro
265–9 Vernal, Estival, Autunal e Hibernal

O Zodíaco: aspectos e outras relações
II, 270–692

270–2 Introdução
273–432 Aspectos (trígono, quadratura, sextil, oposição)
433–52 Digressão: os guardiões divinos dos signos
453–65 Digression: melothesia
466–519 Os Signos que vêem, ouvem, amam e enganam
520–692 Amizades e Conflitualidades dos Signos

Dodecatemoria
II, 693–749

693–737 Dodecatemoria (a décima segunda parte ou o micro-zodíaco)
738–49 A Dodecatemoria da Dodecatemoria

Digressão sobre o Método Didáctico
II, 750–87

750–4 O Método do Poeta
755–71 Parábola 1: a aprendizagem da leitura e escrita pela criança
772–87 Parábola 2: a construção de uma cidade

O Círculo Fixo do Observador
II, 788–970

788–840 Os Pontos Cardeais
841–55 Os Quadrantes
856–970 O Dôdekatópos (as doze casas)


Livro III

Proémio
III, 1–42

1–4 Pretensão de Originalidade
5–30 A Rejeição de outros temas por serem demasiado fáceis
31–42 A Dificuldade do Tema do Poeta: o público pode esperar a verdade, mas não a beleza

As Partes
III, 43–202

43–95 Introdução
96–159 O Círculo de Athla: Significado de cada Quinhão
160–202 A Parte da Fortuna: Cálculo

O Cálculo do Ascendente
III, 203–509

203–17 Importância e Dificuldade da Tarefa
218–46 Rejeição da vulgata ratio
247–74 Necessidade de Criar uma Hora Fixa
275–300 Os Tempos de Ascensão e Declinação dos Signos em Alexandria
301–442 Como Calcular os Tempos de Ascensão para todas as Latitudes
443–82 Como Calcular o Aumento de Horas de Luz Diurna desde o Solstício de Inverno até ao de Verão
483–509 Outro Método para o Cálculo de Ascendente (a vulgata ratio disfarçada)

Chronocratores (Regentes do Tempo)
III, 510–59

510–13 Introdução
514–36 Sistema 1
537–59 Sistema 2

Cálculo da Duração da Vida
III, 560–617

560–4 Introdução
565–80 Número de Anos atribuídos a cada Signo
581–617 A Duração da Vida determinada pelo Lugar da Lua no Dôdekatópos

Os Signos Tropicais
III, 618–82


Livro IV

Proémio
IV, 1–12

1–22 O Universo governado pelo Destino
23–68 O Exemplo da História Romana
69–107 Outros Exemplos
108–18 O Determinismo não impede o Louvor ou a Reprovação nas Acções Humanas 

O Carácter atribuído ao Nativo pelos Signos
IV, 122–293

Decanatos
IV, 294–386

294–309 Introdução
310–62 Os Decanatos Individuais 
362–386 Os Decanatos conferem uma Maior Complexidade às Natividades

Primeira Exortação ao Discípulo Frustrado
IV, 387–407

387–9 A Queixa do Discípulo: a dificuldade do tema
390–407 A Resposta do Poeta: o objecto de estudo não é outro senão (a união com ) deus

Partes damnandae
IV, 408–501

408–29 Introdução
430–43 A Dificuldade de abordar este Tema em Verso
444–97 Partes damnandae de Todos os Signos
498–501 Conclusão

Graus Individuais do Zodíaco
IV, 502–84

Geografia Zodiacal
IV, 585–817

585–695 Descrição do Mundo
696–710 As Diferentes Partes do Mundo regidas por cada um dos Signos
711–43 Diferenças Nacionais
744–806 A Actual Exposição da Geografia Zodiacal (Signo a Signo)
807–17 Conclusão

Signos Eclípticos
IV, 818–65

Segunda Exortação ao Aluno Frustrado
IV, 866–935

866–72 A Queixa do Discípulo: a natureza oculta-se
872–935 A Resposta do Poeta: o universo (macrocosmo) deseja revelar-se ao humano (microcosmo)


Livro V
Proémio
V, 1–29

Paranatellonta
V, 32–709
   (538–618 Excurso: o mito de Andrómeda)

[Lacuna]

Magnitude das Estrelas
V, 710–45
(falta o início)

710–17 Estrelas da 3a à 6a Magnitudes
718–33 As Estrelas de mais pequena Magnitude Visíveis apenas em Noites  muito Escuras
734–45 Excurso: a res publica das Estrelas




Traduzido e Adaptado a partir de:



Volk, Katharina, 2009, 
Manilius and his Intellectual Background
Oxford / Nova Iorque: Oxford University Press, pp. 266-70.

segunda-feira, 18 de março de 2019

Tabuleta de Ouro Órfica: Tradução



Orfeu e a Obra da Memória



Tradução

     Esta é a obra da Memória. Quando se está prestes a morrer,
     para as bem fundadas muralhas do Hades, à direita de onde existe uma fonte,
     junto dela se ergue um branco cipreste.
     Aí, quando descendem, as almas dos mortos se refrescam.
5   Não chegues nem perto dessa fonte!
     Mas mais adiante encontrarás, do Lago da Memória,
     água fresca a correr. Nas suas margens, estão os guardiões.
     Estes perguntar-te-ão, com um discurso sagaz,
     porque investigas então a escuridão do sombrio Hades.
10 Diz: "Sou o filho da Terra e do Céu estrelado.
     Ressequido, tenho sede e morro. Agora dai-me depressa
     água fresca para beber do Lago da Memória".
     E então eles perguntam à subterrânea rainha.
     E então eles dar-te-ão de beber do Lago da Memória.
15 e também tu, tendo bebido, caminharás a via sagrada que outros
     famosos iniciados e bacantes percorreram.


Tabuleta de Ouro Órfica de Hipónion, L 1 (= Frag. 474 B), c. 400 AEC.


Texto Grego:
Bernabé, A. & A. I. J. San Cristóbal, 2008, Instructions for the Netherworld - The Orphic Gold Tablets. Leiden / Boston: Brill, pp. 245-248.

A tradução do grego é minha.

quinta-feira, 14 de março de 2019

Unidade Dispersa (Poesia)

Juanes, Juan, Última Ceia, 1475-1545.
Valência: Igreja de São Nicolau de Bari e São Pedro Mártir.


Unidade Dispersa


Como podes ser uno
Se líquido te vertes
Em todas as coisas 

Como podes ser uno
Se longe procuras
O que habita em ti

Como podes ser uno
Se ávido te espalhas 
Na teia da vaidade

Como podes ser uno
Se preferes a poeira
Dos dias à eternidade

Como podes ser uno
Se múltiplo te repartes
E sozinho permaneces

Porque por seres uno
És também a dispersa
Unidade das coisas

20/01/2019

RMdF