sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Os Dois Esquemas de Monomoiria de Paulo de Alexandria I: Tradução do Grego

A Monomoiría por Domicílio

Paulo de Alexandria, Introdução, Capítulo 5, p. 18, 1-10.



Acerca de qual das Sete Estrelas rege as Monomoirías por Signo

Deve-se distribuir a Monomoiría das estrelas segundo a disposição das sete esferas, considerando para o primeiro grau a estrela do signo onde se encontra, para o segundo a estrela seguinte na ordem das sete esferas e assim por diante, até se alcançar o grau que a estrela ocupa. Para isso inclui-se os minutos num só grau.
Apresenta-se de seguida o seu diagrama canónico.

Esquema 1

Edição Utilizada:

Boer, E., 1958, Pauli Alexandrini Elementa Apotelesmatica. Leipzig: B. G. Teubner.

Os Dois Esquemas de Monomoiría de Paulo de Alexandria II: Tradução do Grego

A Monomoiría por Triplicidade

Paulo de Alexandria, Introdução, Capítulo 32, p. 85-87.


Acerca das Monomoirías por Triplicidade

  A Monomoiría por triplicidade toma a seguinte forma: depois de se examinar os graus de acordo com o segmento de luz, começa-se a contar a partir da estrela que o recebe por segmento e por triplicidade, distribuindo um grau a cada estrela segundo a ordem dos regentes das triplicidades. Não se concede [um grau] a uma qualquer estrela de uma segunda [triplicidade], se essa estrela já tiver recebido um segundo lugar. Desde aquela que está no início da divisão até ao regente final dos segmentos de luz de todos os últimos graus, dizemos que essa estrela é o regente das Monomoirías por triplicidade do segmento de luz. Sobre isto, estabelecemos, de seguida, um cânone.

Esquema 2

  O cânone apresentado é para as natividades diurnas. Contudo, para as nocturnas, a ordem dos regentes das triplicidades será invertida. Por exemplo, na primeira triplicidade, de Carneiro, Leão e Sagitário, será: Júpiter e depois o Sol, e assim sucessivamente.



Edição Utilizada:

Boer, E., 1958, Pauli Alexandrini Elementa Apotelesmatica. Leipzig: B. G. Teubner.



Nota: A partir dos dados da edição crítica e pela ausência de informação nos manuscritos, procedemos à reconstrução da Monomoiría por Triplicidade Nocturna.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

O Fado do Velho Príamo (Poesia)

Ivanov, Alexander, Príamo a pedir a devolução do Corpo de Heitor, 1824.
Moscovo: Galeria Tretyakov.

O Fado do Velho Príamo

Despojado de si
Crente em Apolo
Indiferente e ledo
Segue suplicante
De Tróia o rei Príamo

Roga ao meio deus
O corpo do filho morto
Ao belicoso carrasco
Implora o recto juízo 
Clama só a justa morte

Na noite da negra Nyx
Espera sem sorte ou arte
Uma prudente luz
Da luminar razão 
E sem nada almejar
Além da morte certa
Suplica a benevolência
De um cruel algoz

Áquiles surpreso decide
Sem puder recusar
Dar o corpo morto
Aos lúgubres lumes
Nem sempre a espada
Move a ilustre coragem
E pode a superna alma
Ter força de falange

Príamo o suplicante
Fez de glória vã
A vitória de Aquiles
E deu ao morto Heitor
A sombra da dignidade

E na noite avançou
Como vazio vulto 
Para a morte próxima
Pras perdidas ruínas 
Da sua nobre cidade

Assim seguiu despojado
De Tróia o rei Príamo

Assim pela morte vai
E à morte regressa

18/08/2018 RMdF

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Desenhar o Corpo Humano (Poesia)

Da Vinci, Leonardo, Estudo das Mãos, c. 1474.
Windsor: Royal Library.
Desenhar o Corpo Humano

Não nem lápis ou carvão
Nem pincel ou pigmento
Nem martelo ou cinzel
Virgem a tela despida
Frio o mármore casto
E apenas com o aparo
E aquele fluído índigo
Se cria a forma informe
Sugerida por símbolos
E conformados sinais
Com traços de alfabeto
E sombras de metáfora
Seguindo sós e textuantes
Esses sulcos de tinta
Na folha alba plantados
Sem rosto ou corpo
Da mão poética gerado
O desenho do corpo humano

08/07/2018 RMdF

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Biblioteca I: Dorian Gieseler Greenbaum, The Daimon in Hellenistic Astrology

Apresento aqui algumas sugestões para uma biblioteca astrológica. Contudo, como critério de coerência, não irei apresentar nenhum livro que não tenha lido. O objectivo é sobretudo apresentar títulos que permitam aprofundar os conhecimentos astrológicos e que, por norma, não sejam os mais comuns. Um dos piores erros em que pode cair um astrólogo é cingir-se ao superficial e cair no lugar-comum e na frase-feita. Deve-se portanto procurar como se nunca nada se encontrasse. Um livro lido deve assim servir de ponte para o seguinte.


Greenbaum, Dorian Gieseler, The Daimon in Hellenistic Astrology: Origins and Influence.
Leiden e Boston: Brill, 2015.
ISBN: 978-90-04-30621-9
Páginas: 574
Preço: 190.00 €

Comentário:

Este livro reproduz a tese de doutoramento da autora, apresentada ao Instituto Warburg da Universidade de Londres. O conceito de daimon (daímōn) serve de base para toda a investigação. Ora este termo, bem como o de týchē, fortuna, como demonstra Greenbaum, estão na origem de alguns dos mais relevantes conceitos astrológicos, como por exemplo as casas V, VI, XI e XII e as partes da fortuna e do espírito. Greenbaum usa em epígrafe inicial o fragmento de Heraclito que serve de mote para toda a conceptualização em torno da palavra daimon: ēthosἦanthrópōi daímōn (O carácter é para o ser humano o seu destino). O termo daímōn surge aqui como indicador do destino, o que está em sintonia com seu significado primordial de demiurgo, de ser intermediário. 

Na primeira parte do livro, Greenbaum explora os conceitos de daímōn e de týchē enquanto representações culturais, religiosas e filosóficas e, recorrendo a um vasto número de fontes antigas, com especial destaque para Plutarco e Vétio Valente, analisa a relação entre os dois termos. Ora dessa relação nascem dois princípios duais: Agathós Daímōn e Agathē Týchē, de um lado, e Kakós Daímōn e Kakē Týchē, do outro. Estes princípios estão na génese das casas V e XI e VI e XII e da sua atribuição quer aos benéficos, Vénus e Júpiter, quer aos maléficos, Marte e Saturno. Estes dois conceitos, de extrema importância sobretudo no período helenista, foram como alicerces para a criação do sistema astrológico tal como o conhecemos. A astrologia foi sobretudo uma criação egípcia de matriz grega, tendo como suporte astronómico a evolução científica em torno da herança babilónica. A divisão da eclíptica, enquanto modelo conceptual, em casas, decanatos, termos, dodecatemoria ou monomoiria e as relações geométricas e simbólicas que resultam da presença dos planetas nesse modelo são um produto do helenismo alexandrino. As concepções filosóficas e religiosas em torno das ideias de daímōn e de týchē foram acolhidas pela astrologia que, por sua vez, renovou as suas significações.

Na segundo parte, é abordada a natureza do conceito de daimon enquanto mediador. A relação com a esfera divina traduz-se numa análise do neoplatonismo, do gnosticismo e mitraísmo, passado naturalmente pela noção do daimon pessoal. Nesta parte, aborda-se também a presença da ideia de daimon nos papiros mágicos e no corpus hermeticum ou hermetica. Aquando desta última fonte, Greenbaum firma nas estrelas  o nascimento dos daimones, o que está em estreita ligação com os últimos capítulos desta parte. O estudo em torno dos decanatos mostra o sentido profundo deste conceito astrológico que deve mais aos decanos egípcios que à ideia limitada de faces. Greenbaum analisa a forma como os vários autores antigos abordam este tema. A tradição que vai Teucro de Babilónia até Heféstion de Tebas, chegando até Cosme de Jerusalém, é fundamental para que a astrologia contemporânea construa uma teoria dos decanatos que se funde para além dos períodos de dez graus e das regências planetárias. Este parte termina com a análise da obra de Porfírio, em especial, no que à noção de oikeîos daímōn (daimon pessoal) concerne. Esta ideia permite o sentido astrológico que une a individualidade ao destino.

Na terceira parte, Greenbaum estuda a relação de daimon com as partes astrológicas, klēroi. Estas são, segundas as palavras da própria autora, uma das principais técnicas da astrologia helenista. Ao ler-se esta terceira parte, ninguém voltaria a designar as partes por partes arábicas. A parte da fortuna ou roda da fortuna,  como hoje a designamos, é em grego týchē e a parte do espírito é o daímōn. Estas duas partes, como representantes do Lua e do Sol, estão na origem do cálculo das outras partes, quer seja elas a pouco conhecida parte da base ou fundação (básis), as partes herméticas ou planetárias de Paulo de Alexandria ou as partes de Eros e da Necessidade de Vétio Valente. Segundo a tradição, as partes teriam sido criados por Hermes e passadas a Nechepso e Petosíris. A razão que origina as partes é mesma que se inscreve no procura da duração da vida. Greenbaum analisa, com erudição, os vários testemunhos e teorias sobre esta profunda relação entre as partes e a vida. O leitor pode, sem esforço, perceber que as partes são um importante legado da astrologia helenista e que têm uma aplicação mais integrada na linguagem astrológica que o uso que posteriormente lhe foi concedido. 

Nos apêndices, encontramos, numa primeira parte, uma síntese dos elementos da astrologia helenista e, numa segunda, a apresentação das principais fontes e das respectivas traduções. O livro de Greenbaum é um importante contributo para a dignidade da astrologia enquanto forma de conhecimento e é também a prova de que astrologia pode e deve ser estudada em meios académicos. Para o leitor menos familiarizado com a cultura clássica, a leitura pode ser um pouco densa, mas o que se ganha compensa o esforço. Este livro será sempre uma valiosa aquisição para uma biblioteca astrológica, seja ela física ou digital.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

A Justiça que permeia o Mundo

A Justiça
Tarot Rider-Waite

A Justiça é a eterna lei do equilíbrio e da harmonia que está guardada no centro da criação, no lugar onde o intelecto tudo vigia. 

A Justiça é o princípio que une a alma do mundo, o macrocosmo, ao humano, o microcosmo, que é a sua imagem e representação.

A Justiça é aquela força primordial que tudo domina e que tanto pode ser chamada de destino como de providência.

A Justiça é a eterna lei que conjuga a Vontade com a Providência, concedendo ao humano o dilema de dar liberdade ao destino.

A Justiça é o princípio universal da justa medida que, no universo, na natureza e no humano, balanceia o potencial e a acção.

A Justiça é aquela verdade que quando não é uma abstracção, torna-se naturalmente a unidade espiritual do perdão.

A Justiça é, para o ser humano, o equilíbrio entre o dom e o esforço, o mistério que permite o casamento do céu com a terra. 

segunda-feira, 2 de julho de 2018

O Mito como Sentido das Estrelas - Manílio, Astronomica, II, 439-452 (Excerto)

Frontispício
The sphere of Marcus Manilius made an English
poem with annotations and an astronomical
appendix 
by Sir Edward Sherburne
(London : Printed for Nathanael Brooke, 1675)


Manílio, Astronomica, II, 439-452:

  Hic animadversis rebus quae proxima cura?
noscere tutelas adiectaque numina signis
et quae cuique deo rerum natura dicavit,
cum divina dedit magnis virtutibus ora,
condidit et varias sacro sub nomine vires,
pondus uti rebus persona imponere posset.
Lanigerum Pallas, Taurum Cytherea tuetur,
formosos Phoebus Geminos; Cyllenie, Cancrum,
Iuppiter, et cum matre deum regis ipse Leonem;
spicifera est virgo Cereris fabricataque Libra
Vulcani; pugnax Mavorti Scorpios haeret;
venantem Diana virum, sed partis equinae,
atque angusta fovet Capricorni sedera Vesta;
e Iovis adverso Iunonis Aquarius astrum est
agnoscitque suos Neptunus in aethere Pisces.
hinc quoque magna tibi venient momenta futuri,
cum ratio tua per stellas et sidera curret
argumenta petens omni de parte viasque
artis, ut ingenio divina potentia surgat
exaequentque fidem caelo mortalia corda.

Tradução:

Observadas estas coisas, qual a próxima diligência?
Conhecer de cada signo as divindades tutelares
e que deus a sua natureza lhes consagra,
quando dá às magnas virtudes a divina face
e coloca sob o sagrado nome as várias forças,
para que cada pessoa lhes imponha gravidade.
Guarda o Lanígero Palas e Touro, a Citereia,
os formosos Gémeos, Febo; o Cileno, Caranguejo,
Júpiter, com a mãe dos deuses, reges tu Leão,
A da espiga é da Virgem Ceres, forjada a Balança
é de Vulcano; ao bélico Marte Escorpião se junta;
protege Diana o caçador, mesmo com equina parte,
e as estreitas estrelas de Capricórnio favorece Vesta;
e, oposta a Jovis, é de Juno a constelação de Aquário,
já Neptuno reconhece no céu os seus Peixes.
Daqui surgirá o que se destaca no teu futuro,
quando a tua razão seguir as estrelas e as constelações,
procurando por toda a parte o método e as evidências
desta arte, para até ao poder divino elevar o engenho
e igualar à verdade do céu o coração humano.

Nota: Todas as traduções do grego e do latim, excepto quando em contrário indicadas, são da responsabilidade do autor. 

Comentário

   A obra Manílio é uma das menos exploradas da astrologia contemporânea. Existe, numa primeira ordem de razões, o obstáculo da escrita poética e poético-filosófica e depois imperam as reservas em relação à própria obra, como, por exemplo, a ausência de uma ampla recepção na Antiguidade e na Idade Média e também a sua originalidade conceptual. No entanto, a Astronomica insere-se no estilo dos poemas didácticos cujas grandes referências, tanto para Manílio como para o género em geral, são as Geórgias de Virgílio e o De Natura Rerum de Lucrécio. 

   A obra de Manílio apresenta também um importante contributo para a transmissão da astrologia, pois, baseando-se nas lições de Arato, desenvolveu algumas teorizações que nem sempre foram bem compreendidas, como por exemplo as que constam no Livro V, nomeadamente aquela acerca da Paranatellonta. Esta obra, em termos astrológicos, serviria sobretudo para o ensino dos leigos e para causar uma certa impressão num público menos conhecedor dos princípios e técnicas. Nesse sentido, o texto continua a merecer a nossa atenção. Por outro lado, Manílio criou um conjunto de atribuições que só existem na sua obra e, embora divergentes dos restantes sistemas, não deixam de apresentar uma certa coerência e profundidade significativa.

   Algumas das dúvidas acerca da autenticidade da obra são dissipadas pela leitura dos seus versos. É o próprio texto que o coloca no tempo em que Augusto e Tibério foram imperadores, sendo portanto Manílio contemporâneo de Trasilo de Mendes, quiçá até mais velho que este. Esta datação, a par de mais alguns indícios textuais, como o facto do Livro I terminar com a derrota de Varro na Batalha da Floresta de Teutoburgo, a 9 de Setembro do ano 9 da Era Comum, levou os académicos a considerarem que a obra teria sido iniciada por volta do ano 10 e concluída antes do fim da década. Quanto ao seu autor, até o nome não é certo, contudo, a maioria tende a fixar o nome de Marco Manílio (Marcus Manilius). 

   Existe, por outro lado, uma referência em Plínio, o Velho, que fala de um Manílio Antíoco, o fundador da astrologia:

Publilium Antiochium, mimiae scaenae conditorem, et astrologiae consobrinum eius Manilium Antiochum, item grammaticae Staberium Erotem eadem nave advectos videre proavi.

Publílio de Antioquia, criador de cenas mímicas, Manílio Antíoco, seu primo, fundador da astrologia, e Estabério Eros, introdutor da gramática, a quem viram chegar no mesmo navio.
(História Natural, XXXV, 58 / Ed. Loeb, pp. 408-9).

Porém, nesta passagem, existem algumas inconsistências cronológicas e alguns exageros nas classificações atribuídas aos nomes citados o que leva a duvidar-se da sua fiabilidade. Já quanto à proveniência geográfica, embora também tenha sido alvo de algum debate, sobretudo entre o Norte de África e Ásia Menor, tende-se para o Norte de África, considerando contudo que Manílio terá vivido a maior parte da sua vida em Roma. 

   As grandes questões em torno de Manílio assentam na recepção da obra e nos manuscritos. O primeiro aspecto consiste no facto de não existir nenhuma referência directa a Manílio ou à sua obra na antiguidade. Não foi registada nenhuma citação da Astronomica nem em obras originais, nem em escólios. No entanto, é necessário considerar o contexto da astrologia na Roma Imperial, que nem sempre a soube acolher, sobretudo pela proibição de estabelecer o horóscopo do imperador. Existia uma evidente cautela face ao alcance da astrologia, o que levou inclusive à sua proibição, embora sem grandes efeitos práticos. 

   Se compararmos o caso de Manílio com o de Trasilo de Mendes, também ele do primeiro século da Era Comum, percebemos que, mesmo tendo sido o astrólogo do Imperador Tibério e tendo desempenhado um papel de relevo, da sua obra astrológica Pínax só restou um sumário e algumas referências posteriores (CCAG VIII, 3: 99-101). De igual forma, de outros astrólogos romanos, como Públio Nigídio Figulo e Lúcio Tarúcio Firmano, ambos senadores e amigos de Cícero, também temos uma escassa herança. Ora a partir destes exemplos podemos extrapolar, sem prejuízo, que Manílio não terá porventura alcançado o estatuto social dos referidos astrólogos, sem que por isso fosse de baixa condição social, e a sua obra terá sido divulgada num círculo mais restrito. No entanto, podemos encontrar em autores como Germânico, o autor anónimo de Aetna, Lucano, Juvenal, Arnóbio de Sica, Nemesiano, Fírmico Materno, Claudiano, Marciano Capela e Dracôncio uma influência estético-filosófica, mas também astrológica, dos versos de Manílio (Albrecht II: 984; Calero e Echarte: xxvi).

   A outra questão levantada é a dos manuscritos. Entre o século V e o século X da Era Comum, não existe qualquer recepção da obra de Manílio, nem vestígios de que alguém tenha sido seu leitor (Colish I: 313). A referência mais antiga pertence a Gerbert d'Aurillac (c.946-1003), o futuro Papa Silvestre II (999-1003). Este, em Bobbio, no Norte de Itália, teria visto um manuscrito, um antecessor do Matritensis, que continha a obra VIII volumia Boetti de astrologia (Epistola 8). Numa outra carta, refere mesmo o nome Manílio (Epistola 130). Ora gerou-se uma confusão em torno da autoria porque a obra em causa resultava da junção dos cinco livros de astrologia de Manílio com os três de aritmética de Boécio (Albrech II: 973). Depois desta referência, será somente no século XV que voltamos a ouvir o nome de Manílio e da sua obra. Em 1417, em Constança, aquando do Concílio, Poggio Bracciolini, o mesmo descobriu o De natura rerum de Lucrécio, encontra um manuscrito, o codex Spirensis, hoje perdido, com a Astronomica de Manílio. Os manuscritos Matritensis 31, ou 3678, e Londiniensis, ambos do século XV, são cópias directas do codex de Poggio Bracciolini (Albrecht II: 983). 

   Foi a partir de uma cópia do codex Spirensis que o astrólogo e matemático Regiomontanus estabeleceu, em 1473, a editio princeps da Astronomica. A esta edição seguiram-se as três de Scaliger: a de 1579, a de 1599-1600, incorporando o codex Gemblacensis, e a de 1655, já póstuma. Scaliger defendia inclusive que Manílio era superior a Ovídio: "Ovidio suavitate par, maiestate superior" (Igual a Ovídio em elequância, superior em excelência, 1655, proleg. 18 in Albrech II: 984). Depois de Scaliger, temos a edição de Bentley, em 1739, e a brilhante edição de Houston, produzida entre 1903 e 1930 e que, pela dedicação e erudição dos comentários, continua actual. A demanda textual, de uma obra nem sempre valorizada, culmina na edição de Goold: primeira para a Loeb, em 1977, e depois para a Teubner, em 1985. Nesta última, Goold baseia-se em seis codices primarii e em vinte e seis codices secundarii. Os manuscritos principais são assim: o Matritensis (M.31, agora Bibl. Nat. 3678, séc. XV); Londiniensis (Bibl. Brit. Add. 22808, c.1450); o Lipsiensis (Bibl.Univ. 1465, início do séc. XI); o Gemblacensis (agora Bruxellensis, Bibli. Reg. 10012, séc. XI); o Venetus (séc. XI, destruído pelo fogo em 1687); e o Parmensis (Palat. 283, c. 1452) (Goold 1985: xxxiii-xxxiv; Albrecht II: 983).

   Os versos aqui apresentados vêm confirmar tanto a originalidade astrológica de Manílio como a sua vinculação ao estoicismo. A união tríplice entre constelações, virtudes e divindades confirma a matriz estóica da sua cosmologia e da sua teologia. Esta passagem, para além de estabelecer uma relação entre uma divindade e uma constelação do Zodíaco, designa um processo de transferência de sentido que está na base de todo conhecimento astrológico. Ora este modelo de passagem foi, até à data de Manílio, uma transferência metafísica, todavia hoje, com os deuses antigos adormecidos, esta é uma transferência de linguagem, uma representação. Os astros e as estrelas deixam de ser corpos celestes para se tornarem virtudes, conceitos, ideias-matriz, arquétipos. 

   Para Manílio e para o estoicismo, o mito conservava um valor hermenêutico de adequação e justificação da realidade, ou seja, os deuses simbolizavam aspectos e virtudes presentes no universo (Ramelli: 177). É a alegoria existente nas suas representações que permite uma mediação didáctica. Existe portanto uma dupla transferência, pois, por um lado, a divindade outorga as estrelas com a sua natureza e, por outro lado, a observação das estrelas permite inferir a existência da divindade e da sua acção sobre a realidade. Em Manílio, esse processo é sempre suportado pela via do conhecimento e da razão, daí que nos últimos versos deste excerto impunha à astrologia a metodologia da razão, não por duvidar dela, mas para "exaequentque fidem caelo mortalia corda". A razão, ou melhor dizendo o intelecto, medeia a verdade humana e a verdade celeste, unindo a parte ao seu todo. 

   A génese significativa do poema de Manílio, o seu propósito didáctico, implica um movimento descendente. A sua musa é o céu estrelado. O poeta diz que "caelo descendit carmen ab alto" (I, 118: Do cume do céu o meu canto descende). Ora, ao colocar no céu o objecto do seu poema, Manílio, tanto por imperativo filosófico como por universalidade de uma tradição religiosa, terá de conciliar o mito com a sua indagação racional, ou seja, não existe nele uma negação do poder e da influência dos deuses como em Lucrécio (De Natura Rerum, II, 174-6; 180; V, 1161-1239; VI, 68-90; Cf. Albrecht II: 981; Colish I: 315).  Na verdade, à semelhança de alguns filósofos estóicos, o autor da Astronomica conserva, até por força da sua metodologia, uma posição contraditória e, por vezes, ambígua em relação ao mito e ao recurso às suas narrativas (Albrecht II: 977). O longo excurso consagrado ao mito de Andrómeda é exemplo disso mesmo (V, 538-619). 

   A posição de Manílio acolhe ecos platónicos, onde os mitos são os marcos supracionais da estrada da verdade (Brisson: 15-28). Contudo, essa ambivalência valorativa do mito pode levar alguns leitores a fixarem-se na sua crítica aos catasterismos: 

          quorum carminibus nihil est nisi fabula caelum 
          terraque composuit mundum quae pendet ab illo.

          Nos seus poemas, o céu não é mais que uma fábula 
          e a terra constrói o céu quando dele depende
          (II, 37-38). 

Ora Manílio não se pode opor aos catasterismos, pois, por um lado, Arato e Eratóstenes são duas das suas principais referências e, por outro, ele próprio é autor de catasterismos, leia-se, por exemplo, os seus livros IV e V (Albrecht II: 977). Expressa, todavia e sem qualquer contradição, uma clara preferência pela via do pensamento (Ramelli: 178). A crítica de Manílio apoia-se sobretudo no literalismo da esfera mítico-religiosa, aquela que, de facto, era seguida pela maioria da população. 

   Uma hermenêutica simbólica do fenómeno mitológico tende a ser rejeitada por aqueles que crêem na fiel correspondência com a realidade das suas narrativas religiosas. Dizer a um praticante do culto de Osíris ou de Diónysos que a descrição daquilo em que acreditam reproduz um poderoso mito, ou arquétipo, do deus que morre e renasce deve causar tanta repulsa como dizer a um cristão que a ressurreição de Jesus reproduz o mesmo mito de Osíris e Diónysos. Porém, o caminho de Manílio não é o do crente, mas sim o daquele que, na sua demanda, recorre apenas ao intelecto. Lucrécio diz, por exemplo: "confieri credas centauros posse neque esse" (V, 891, Trad. Cerqueira, 310-11: Não penses, pois, porventura, que podem existir Centauros). Podemos não acreditar na existência de centauros, mas ser-nos-á impossível não reconhecer a profundidade do mito que envolve a constelação de Sagitário, aquele que une Quíron e Prometeu ou que apresenta a relação entre natureza e cultura (Kirk: 152-162).

   Manílio apresenta nestes versos um conjunto de associações que, por serem singulares, tornam-se naturalmente objecto de estudo. Carneiro é entregue a Palas Atena, a Minerva romana. Nesta atribuição, podemos destacar, por um lado, o facto da sequência zodiacal iniciar-se com a deusa da sabedoria e do conhecimento, mas também da justiça, de onde ressalta a ligação com o signo que lhe é oposto, Balança, e, por outro lado, Carneiro, um signo masculino, torna-se regido pela herdeira natural de Zeus/Júpiter, a deusa sem mãe. O eixo Carneiro-Balança passa também a unir o conhecimento à técnica, ou seja, Atena/Minerva e Hefesto/Vulcano. Ao segundo signo, coube a regência de Afrodite/Vénus, uma designação natural que traduz a ordem dos domicílios. Porém, os versos de Manílio introduzem outra interpretação mitológica, pois, no segundo signo regido por Vénus, está Hefesto/Vulcano, o marido traído de Afrodite. Por sua vez, na casa oposta a Touro, Escorpião, Ares/Marte, o amante de Afrodite, ocupa a sua sede. Como podemos observar a ordem atribuída por Manílio não é de todo arbitrária. No signo Gémeos, é colocado Apolo e, no signo que lhe é oposto, Sagitário, Ártemis/Diana, ou seja, os gémeos têm aqui um duplo sentido, pois tanto indicam a constelação como a relação fraterna e uterina entre as duas divindades. 

   As atribuições do eixo Caranguejo-Capricórnio não são tão explícitas como as restantes, todavia conservam um significado profundo. Ao colocar Hermes/Mercúrio em Caranguejo, Manílio não traduz uma dignidade astrológica, mas sim uma relação simbólica com o espaço que este ocupa no sistema de casas. O Imum Coeli representa o lugar sob a terra, o subterrâneo, e, nesse sentido, o Hades ou até mesmo o Tártaro. Ora Hermes/Mercúrio, enquanto Psicopompo, é o guia das almas no submundo. Por outro lado, o nome com que Manílio o designa, Cileno, diz respeito ao Monte Cilene, na Arcádia, onde o deus nasceu. A Arcádia simboliza os aspectos ctónicos e arcaicos, os mesmos que fazem com que Hermes/Mercúrio apareça, com frequência, junto de Héstia/Vesta com os sátiros e outras divindades ligadas à terra e ao lar. Héstia, enquanto, guardiã do fogo sagrado, aquele Prometeu roubou para dar à humanidade, está em harmonia com a sua posição no Medium Coeli, no cume do céu, a casa dos deuses. Existe também neste eixo a relação entre espaço e movimento, dado que Hermes/Mercúrio, como mensageiro, indica a dinâmica do movimento, o ponto de partida de um caminho, e Héstia/Vesta representa o lar, o lugar a se chega, a nossa casa celeste. 

   Já no caso de Leão e Aquário, a nomeação de Zeus/Júpiter e Hera/Juno tem um sentido mais imediato, todavia a inclusão da Mãe dos Deuses na constelação de Leão traz um novo contributo interpretativo. O simbolismo de Reia-Cibele ao lado do de Zeus/Júpiter cria no signo de Leão uma harmonia dos opostos única. Os arquétipos do Pai Celeste e da Mãe-Terra surgem com a mesma autoridade, princípio este expresso pelo Leão. Em contrapartida, Manílio cria uma distinção, senão mesmo uma oposição, entre as duas divindades femininas. Reia-Cibele, na sua versão cretense e anatólica, é um arquétipo da Grande Mãe e Hera/Juno é um arquétipo feminino de transformação, no qual uma poderosa deusa arcaica, adorada em Argos e na Argólida, se transfigura numa versão olímpica agrilhoada, uma mera esposa ciumenta e vingativa. 

   Por fim, o eixo Virgem-Peixes reúne a terra e a água através de Démeter/Ceres e Poseídon/Neptuno. Esta associação tem também raízes antigas. Quando Démeter procurava a sua filha, Perséfone/Prosérpina, raptada por Hades/Plutão, Poseídon enamorou-se da deusa e, movido pela luxúria, perseguiu-a. Démeter para fugir aos seus intentos transformou-se numa égua, mas Poseídon assumiu a forma de um garanhão e tomou a deusa. Da união dos deuses, nasceu uma filha Despoina, com um santuário na antiga Licósura, e um cavalo imortal, de nome Árion. Démeter tem assim uma filha com Zeus, o céu, e outra com Poseídon, o mar. Na verdade, as constelações ao serem representadas por divindades trazem para si todo o universo simbólico que envolve os seus mitos.

 (...)

Fim do Excerto


Bibliografia

Fontes

1) Marco Manílio
Edição Crítica Utilizada:
Goold, G. P., 1985, M. Manilii Astronomica. Leipzig: B. G. Teubner.

Edições e Traduções:
Calero, F. e M. J. Echarte, 2002, Manilio, Astrología. Madrid: Editorial Gredos.

Goold, G. P., 1977, Manilius, Astronomica. Cambridge (MA) e Londres: Loeb Classical Library (L469) / Harvard University Press.

Houston, A. E., 1903-1930, M. Manilii Astronomicon. Londres: Grant Richards (I-IV) e The Richards Press (V).

2) Outros
Arato de Solos
Dorda, E. C., 1993, Arato, Fenómenos y Géminos, Introducción a los Fenómenos. Madrid: Editorial Gredos.

Cícero
Álvarez, J. P., 1988, Cicerón, De la Adivinación, Ed. Bilinge. Cidade do México. Universidad Nacional Autónoma de México.

Escobar, Á., 1999, Cicerón, Sobre la Adivinación, Sobre el Destino y Timeo. Madrid: Editorial Gredos.

Falcão, P. B., 2004, Cícero, Da Natureza dos Deuses. Lisboa: Nova Vega.

Rovira, M., 2010, Cicerón, Carmina Aratea - Las Constelaciones, Ed.Trilingue. Madrid: Centro de Lingüística Aplicada Atenea.

Eratóstenes de Cirene
Guerra, A. G., 1999, Eratostenes, Mitología del Firmamento (Catasterismos). Madrid: Editorial Alianza.

Estoicismo
Edelstein, L. e I. G. Kidd, 2004, Posidonius, 3 Volumes - Fragments, Commentary and Translation. Cambridge: Cambridge University Press, 1ª Edição, 1972-1989.

Long, A. A. e D. N. Sedley, 1987, The Hellenistic Philosophers, 2 Volumes. Cambridge: Cambridge University Press.

von Arnim, H. F. A., 1964, 1903-1924, Stoicorum Veterum Fragmenta (SVF), 4 Volumes. Estugarda: B. G. Teubner.

Fírmico Materno
Kroll, W. e F. Skutsch, 1964, 1897-1913, Iulii Firmici Materni Matheseos Libri VIII, 2 Volumes. Leipzig: B. G. Teubner.

Lucrécio
Cerqueira, L. M. G., 2015, Lucrécio, Da Natureza das Coisas. Lisboa: Relógio D'Água.

Plínio, o Velho
Rackham, H., 1952, Pliny, Natural History, Volume IX: Books 33-35. Cambridge (MA) e Londres: Loeb Classical Library (L394) / Harvard University Press.

Trasilo de Mendes
Cumont, F., 1912, Catalogus Codicorum Astrologicum Graecorum, VIII/3, pp. 99–101.


Estudos

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Colish, M. L., 1985, The Stoic Tradition from Antiquity to the Early Middle Ages, Volume 1: Stoicism in Classical Latin Literature. Leiden: E. J. Brill.

Hahm, D. E., 1977, The Origins of Stoic Cosmology. Ohio: Ohio State University Press.

Kirk, G. S., 1998, Myth - Its Meanings & Functions in Ancient & Other Cultures. Londres: The Syndics of the Cambridge University Press. Berkeley e Los Angeles: University of California Press.

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