segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Casa III: A Deusa (Um Excerto de O Δωδεκατόπος: As Doze Casas)


Poussin, Nicolas, Selene and Endymion, c.1630.
Detroit: Institute of Arts.
https://www.wga.hu

Casa III: A Deusa

(Um Excerto de O Δωδεκατόπος: As Doze Casas)


A terceira casa, embora nem sempre o seu nome seja indicado, é tradicionalmente designada por Deusa (θεά ou dea). Existe pois um eixo do sagrado que une a Casa III, Deusa, à Casa IX, Deus, preservando assim a ligação umbilical do Sol à Lua. Esta correspondência perdeu-se, porém, na astrologia contemporânea, deixando os assuntos do sagrado entregues sobretudo à Casa IX. Esta união nunca unida, pois a sua existência resulta da separação, do facto de serem diametralmente opostas, deixou de ter uma correspondência. Desapareceu essa harmonia dos contrários e criou-se, a partir do círculo zodiacal e através da regência de Caranguejo e Leão, um simulacro desse sentido, optando-se, dessa forma, por colocar a Lua na Casa IV e o Sol na Casa V. No entanto, essa justaposição não contempla a dinâmica dos opostos presente nas casas III e IX, embora preserve, no thema mundi, uma posição espacial relevante e indicadora de uma outra significação original.

Acerca desta casa, Paulo de Alexandria afirma o seguinte:
Τὸ δὲ τρίτον ἀπὸ ὡροσκόπου χρημάτων ἐστι περι-
ποιητικόν. σημαίνει δὲ καὶ τὸν περὶ ἀδελφῶν λόγον. κα-
λεῖται δὲ θεά, τόπος Σελήνης καὶ ἀγαθὸν ἀπόκλιμα.
τὸν δὲ περὶ φιλίας πατρωνίας κεκλήρωται λόγον, ὁτὲ δὲ
καὶ ξενιτείς παραίτιος γίνεται, ὅτι διάμετρον τοῦ περὶ
θεῶν ζῳδίου τέτευχε τοῦ σημαίνοντος τὸν περὶ ξενιτείας
λόγον. ἐν δὲ τούτῳ τῷ ζῳδίῳ Σελήνη μόνη παρὰ πάν-
τας τοὺς ἀστέρας χαίρει. (...)

A terceira a contar do Horóscopo é produtiva na procura de riquezas. Indica os sinais do que diz respeito aos irmãos. É designada de Deusa, Lugar da Lua e Bom Declínio. Especifica o que concerne à amizade e ao patrocínio, todavia, é, por vezes, responsável pela vida no estrangeiro, uma vez que se encontra diametralmente oposta ao zōidion dos deuses, que é um indicador da vida no estrangeiro. Neste zōidion, apenas a Lua, entre todas as estrelas, rejubila
(Cap. 24, Boer 55.5-12).

Os nomes desta casa são os melhores indicadores da sua natureza. O primeiro dos quais, θεά  (Deusa), tal como já referimos, funda a qualidade deste lugar num eixo essencial de contrários. A Deusa e o Deus, a Lua e o Sol, são assim o par divino primordial que determina a vida e a sua continuidade, daí que estas casas criem relações de harmonia com o Horóscopo, o lugar do nascimento e da vida. O segundo termo, τόπος Σελήνης  (lugar da Lua), estabelece a regência deste espaço electivo e do hemisfério inferior, pois é a Lua que governa a casa como domicílio e o hemisfério inferior como segmento nocturno, conjugando, dessa forma, dois princípios essenciais da astrologia antiga: a regência domiciliar (οἰκοδεσποτεία) e o segmento de luz (αἵρεσις). Este portanto é o lugar onde a Lua rejubila (χαίρει). Por fim, a terceira definição, ἀγαθόν απόκλιμα  (bom declínio), apresenta a posição deste lugar em relação ao ponto cardeal do quadrante e ao Horóscopo, que, neste caso, são o mesmo. 

A divisão do δωδεκατόπος em quadrantes, determinados pelos pontos cardeais ou angulares (κέντρον), determina a primeira distinção, à qual se segue a divisão pela posição relativa, ou seja, em κέντρονἐπαναφορά e ἀπόκλιμα  (cardinal, sucedente e cadente). Desta forma, a Casa III é um declínio, porque tanto a sua posição como o seu movimento são determinados pelo Horóscopo, o ponto cardeal do primeiro quadrante, ao qual se segue a Casa II, a sua sucedente. Se, por um lado, a sua posição no quadrante fixa a sua qualidade, por outro, a sua relação com o Horóscopo e com os outros declínios designa o seu valor. O termo ἀγαθός, bom, define o carácter desta casa devido à harmonia que estabelece com o Horóscopo – leia-se um sextil –, a qual, no conjunto dos declínios, só é superada pela Casa IX que com ele faz um trígono. 

Quanto à presença dos planetas, Paulo de Alexandria é mais sucinto nas primeiras casas e que nas subsequentes. No entanto, refere que se, nesta casa, os benéficos estiverem no seu segmento, indicará um aumento no modo de vida e na acumulação de riqueza, ἐπαύξησιν βίου καὶ χρημάτων περίκτησιν (Cap. 24, Boer 55.13-14), e a avaliação acerca dos irmãos torna-se vantajosa e benéfica. Ter-se-á muitos amigos e irmãos e obter-se-á deles os melhores favores. Por outro lado, se nesta casa estiverem os maléficos, então o resultado será o inverso. 

 Uma vez que este é o Lugar da Lua e que Paulo refere a necessidade dos planetas se encontrarem no seu segmento, convém frisar que a posição de acordo com o segmento é, para a astrologia antiga, a primeira de todas as dignidades. O termo αἵρεσις, que se optou por traduzir como segmento, pois este preserva a dimensão geométrica do seu objecto, tem também o sentido de aquisição, eleição, escolha, disposição e facção. Ora, como já foi referido, Trasilo, sustentado em Hermes, dividiu o δωδεκατόπος em dois segmentos: diurno e nocturno (CCAG VIII/3: 100.19-25). O dia é regido pelo Sol e a noite, pela Lua. Ao Sol, junta-se Júpiter e Saturno e, à Lua, Vénus e Marte. Mercúrio, ao ocupar o Horóscopo, partilha os dois segmentos. Desta forma, por exemplo, numa natividade nocturna, devemos observar em primeiro lugar a Lua, pois esta é senhora do segmento, e, de seguida, Vénus e Marte, uma vez que estes estão favorecidos pela qualidade da luz. Contrariamente, o Sol, Júpiter e Saturno, como estão fora do seu segmento, têm o alcance dos seus raios diminuído. Já Mercúrio segue o segmento dominante e a fase helíaca, todavia, dado que a sua posição é sempre próxima do Sol, o seu carácter merece particular atenção se um estiver num segmento e o outro noutro, ou seja, separados pela linha do horizonte.

Trasilo, embora lhe atribua a avaliação daquilo que se faz e do que concerne aos irmãos, não menciona o nome desta casa, mas Antíoco refere-a como o Lugar da Deusa e um indicador dos amigos (CCAG VIII/3: 117.3-5). Por outro lado, Valente afirma, no texto aqui traduzido, que a Casa da Deusa indica a mãe, o que é contrário à tradição, todavia poder-se-ia estar a referir a duas coisas: a atribuição resultaria do sistema do οκτοτόπος, embora neste caso referir-se-ia provavelmente à esposa e não à mãe, ou a ideia de mãe estaria na continuidade da regência da Lua. De qualquer das formas, o sentido tem valor, pois, tendo em conta em sua regência, a natureza do eixo que une as casas III e IX encaminharia o significado para a avaliação da mãe e do pai, sem que por isso comprometesse o carácter da Casa IV ou os sinais que podem ser encontrados no hemisfério superior (as casas X e XI). A associação da Lua e da Casa III à mãe é portanto natural e consequente.

Já Fírmico Materno diz o seguinte acerca deste lugar:
Ex hoc loco de fratribus et de amicis cuncta dicemus. Huic loco Dea  nomen est; est autem peregrinantis locus. Hic primus cum horoscopo tenui societate coniungitur; respicere enim horoscopum de exagono videtur.

Esta casa dedicamo-la a tudo o que diz respeito aos irmãos e aos amigos. O seu nome é Deusa, todavia, é a casa dos viajantes. Esta é  a primeira casa a unir-se ao Horóscopo num aspecto débil. Observa-se pois, olhando para trás para o Horóscopo, um aspecto de sextil
(II, 19, 4, Kroll, Skutsch & Ziegler I, 61.27-62.3).
Materno, nas características deste lugar, está em sintonia com os outros autores, tanto na designação de Deusa (Dea) como na qualidade de casa dos viajantes (peregrinantis locus) ou na atribuição dos irmãos ou amigos. Contudo, a sua gradação do sextil entre esta casa e o Horóscopo, que adjectiva de tenuis, difere, por exemplo de Paulo. Ora tenuis, traduzido como débil, tem o significado de fraco, ténue, superficial, inferior, magro, fino ou pequeno. Neste sentido, Materno estaria em sintonia com Doroteu, quando este afirma, no texto aqui traduzido, que esta é uma casa má, mas estaria em oposição a Paulo de Alexandria, pois este diz que a Casa III é considerada um bom declínio (ἀγαθόν ἀπόκλιμα). Esta diferença resulta, em especial, do valor que se atribui ao sextil entre o Horóscopo e esta casa, uns consideram-no um aspecto fraco, sobretudo quando comparado com o trígono, outros, um aspecto benéfico. O facto de estar abaixo da linha do horizonte condiciona também o valor que alguns lhe concedem.

Por fim, Manílio, seguindo o seu modelo distinto, afirma o seguinte acerca da Casa III:
(…)  Huic adversa nitens, quae prima resurgit
sedibus ex imis iterumque reducit Olympum,
pars mundi fratrumque vices mortisque gubernat;
et dominam agnoscit Phoeben, fraterna videntem
regna per adversas caeli fulgentia partes
fataque damnosis imitantem finibus oris.
Huic parti Dea nomen erit Romana per ora,
Graecia voce sua titulum designat eundem.

(...)  A brilhar oposta a esta, como primeira
sede, a que, das profundezas, nos conduz de volta ao Olimpo
e governa a parte do céu da fortuna e morte dos irmãos.
Reconhece Febe como senhora, que observa o seu irmão
no reino que brilha nas partes opostas do céu, 
dando uma imagem de morte à face oculta do seu rosto.
Esta parte, na romana língua, terá o nome de Deusa.
A Grécia designa-a de igual forma na sua língua. 
(II, 910 – 917, Goold 58).
Manílio não se sustentou naquilo que, mais tarde, seria a diferença entre Paulo e Materno quanto ao valor desta casa, ou seja, o valor do sextil com o horóscopo. Por sua vez, optou por afirmar que esta é a primeira casa a ressurgir das regiões inferiores e a avançar, de novo, para Olimpo, afastando-se assim da face da morte, do Tártaro. Os versos didácticos de Manílio, na esteira de Vírgilio e Lucrécio, tornam-se perceptíveis se tivermos em conta a sua regência das casas, que difere da tradicional. Manílio coloca Saturno na Casa IV, no ponto subterrâneo, que indica a morte, logo, pois, seguindo o movimento do dia, da luz, quando entra na Casa III, avança para o horizonte, para o céu que se vê, afastando-se do tempo como fim que é sinal da morte. Desta forma, a noção de Olimpo resulta do facto de Manílio colocar o Sol (Casa IX), Vénus (Casa X) e Júpiter (Casa XI) acima do horizonte, em oposição, à Lua (Casa III), a Saturno (Casa IV) e a Marte (Casa VI), que estão numa posição subterrânea. 

Esta diferença na regência das casas permite que se compreenda o verdadeiro valor da Casa III, o Lugar da Deusa, enquanto caminho para a luz. É a Lua que detém essa qualidade luminosa. Manílio refere Febe como senhora desta casa. Ora Febe, a Brilhante (Φοίβη), é designada como a mais bela das titânides, a filha de Úrano e Gaia, do céu e da terra. A etimologia do seu nome associa-a à qualidade da luz (φοίβη, pura, brilhante ou radiante), à purificação (φοιβάω, purificar) e à profecia (φοιβάζω, profetizar). A sua ligação à Lua é portanto a mais ancestral e foi a partir dela que se instaurou uma linhagem matrilinear de divindades lunares. Febe é a mãe de Leto e Astéria, logo avó de Ártemis e Hecáte, as deusas que representam a luz e a sombra da Lua. É também tia de Selene, a personificação da Lua. Por outro lado, Febe é a terceira divindade a presidir ao Oráculo de Delfos, tendo sido a primeira Gaia, sua mãe, e a segunda Témis, sua irmã. A Febe seguir-se-á Apolo, seu neto. Convém ainda referir que Febe tornou-se também um epíteto das deusas lunares, idêntico a Febo, uma designação de Apolo, um deus solar. O recurso a Febe por Manílio não é inocente, nem se deve apenas a razões métricas, pois procura enunciar a dimensão mitológica e interpretativa da Lua enquanto arquétipo astrológico.

A Casa III é um bom exemplo da importância de se estudarem os textos dos astrólogos antigos, pois mostra, por um lado, como a astrologia estava em harmonia com as concepções filosóficas e mítico-religiosas do seu tempo e, por outro lado, que certos princípios se transformaram com o tempo e, nalguns casos, desapareceram, podendo ser, no entanto, recuperados pela astrológica contemporânea. A Casa III enquanto Lugar da Deusa é um desses casos.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

A Sombra da Vida (Poesia)

Caravaggio, Narciso, 1598-99.
Roma: Galleria Nazionale d'Arte Antica.
A Sombra da Vida


Como setas e dardos
                                     O vento nas folhas

Como espada e gume
                                     A onda no areal

Como sangue e ferida
                                     O fogo no madeiro

Como guerra e morte
                                     A ignorância no humano

Essa é a sombra da vida
                                     A sabedoria ausente


3 de Setembro de 2019
RMdF

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

O Sol e o Mistério da Luz

O Sol
Tarot Rider-Waite

O Sol é o arcano luminoso que, pela intuição íntima e radical, reúne em si a sabedoria e a inteligência.

O Sol é aquele princípio cooperante que coloca em harmonia os elementos distintos, permitindo a evolução na criação.

O Sol é o encontro com o centro, com o ponto intermédio que une e equilibra a luz e a sombra, o céu e o abismo.

O Sol é aquele caminho misterioso que concilia a morte na vida e a vida na morte, transformando a destruição em eternidade.

O Sol é a reintegração da consciência na alma do mundo, a via eleita da presença divina, da chama eterna.

O Sol é aquele limiar radiante da união mística do masculino e do feminino que transporta o divino para o humano.

O Sol é o mistério da luz e o milagre da criação, é a palavra inaugural e a origem do amor.

domingo, 22 de setembro de 2019

A Lua ou o Segredo da Imaginação

A Lua
Tarot Rider-Waite



A Lua é o arquétipo, não do Divino Feminino, mas sim das profundezas da imaginação e do abismo da memória.

A Lua é aquele eclipse da evolução que contraria ou inverte o movimento natural, permitindo assim a contemplação.

A Lua é tanto o impulso primário da vontade e do desejo como a revelação simbólica do enigma, do sentido da vida.

A Lua é aquele princípio de diminuição, de movimento retrógrado e de luz reflectida que dá profundidade à consciência.

A Lua é a condição da vida que, pela repetição e pelo retorno cíclico do tempo, permite que tudo nasça, viva e morra.

A Lua é aquele estado demiúrgico do humano entre o divino e a natureza e da alma entre o corpo e o espírito.

A Lua é a intuição, a possibilidade radical de, a partir da parte, alcançar o todo, de tornar a inteligência uma visão da totalidade.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Alguns Elementos Textuais para o Estudo do Thema Mundi: Fírmico Materno, Paulo de Alexandria e Porfírio





Porfírio, Sobre a Caverna das Ninfas na Odisseia, 22.


Kaˆ œcous… ge ™fexÁj aƒ qšseij tîn zJd…wn: ¢pÕ mn Kark…nou e„j A„gÒkerwn prîta mn Lšonta oŒkon `Hl…ou, eŒta Parqšnon `Ermoà, ZugÕn d 'Afrod…thj, Skorp…on d ”Areoj, ToxÒthn DiÒj, A„gÒkerwn KrÒnou: ¢pÕ d/ A„gÒkerw œmpalin `UdrocÒon KrÒnou, 'IcqÚaj DiÒj, ”Areoj KriÒn, Taàron 'Afrod…thj, DidÚmouj `Ermoà, kaˆ Sel»nhj loipÕn Kark…non. DÚo oân taÚtaj œqento pÚlaj Kark…non kaˆ A„gÒkerwn oƒ qeolÒgoi, Pl£twn ddÚo stÒmia œfh: toÚtwn d Kark…non mn enai di/ oá kat…asin aƒ yuca…, AƒgÒkerwn ddi/ oá ¢n…asin. 'All¦ Kark…noj mn bÒreioj kaˆ katabatikÒj, A„gÒkerwj dnÒtioj kaˆ ¢nabatikÒj.


As posições dos signos do Zodíaco têm a seguinte ordem, desde Caranguejo até Capricórnio: em primeiro Leão, o domicílio do Sol, a seguir Virgem, o de Mercúrio, Balança, o de Vénus, Escorpião, o de Marte, Sagitário, o de Júpiter, Capricórnio, o de Saturno; em sentido inverso, desde Capricórnio, Aquário a Saturno, Peixes a Júpiter, Carneiro a Marte, Touro a Vénus, Gémeos a Mercúrio e, por fim, Caranguejo à Lua. Os antigos cosmólogos estabeleceram assim estas duas portas, Caranguejo e Capricórnio, já Platão referia duas bocas. Delas, Caranguejo é por onde as almas descendem, Capricórnio por onde ascendem. Caranguejo é pois ainda setentrional e apropriado para se descender, já Capricórnio é meridional e apropriado para se ascender. 


Porfírio, Sobre a Caverna das Ninfas na Odisseia:
Seminar Classics 609 (J. M. Duffy, P. F. Sheridan, L. G. Westerink & J. A. White), 1969, Porphyry, The Cave of the Nymphs in the Odyssey. Buffalo (N.I.): Arethusa Monograph 1, Department of Classics, State University of New York at Buffalo.

Nota: As Traduções do Grego e do Latim são minha responsabilidade.