sexta-feira, 13 de julho de 2018

Biblioteca I: Dorian Gieseler Greenbaum, The Daimon in Hellenistic Astrology

Apresento aqui algumas sugestões para uma biblioteca astrológica. Contudo, como critério de coerência, não irei apresentar nenhum livro que não tenha lido. O objectivo é sobretudo apresentar títulos que permitam aprofundar os conhecimentos astrológicos e que, por norma, não sejam os mais comuns. Um dos piores erros em que pode cair um astrólogo é cingir-se ao superficial e cair no lugar-comum e na frase-feita. Deve-se portanto procurar como se nunca nada se encontrasse. Um livro lido deve assim servir de ponte para o seguinte.


Greenbaum, Dorian Gieseler, The Daimon in Hellenistic Astrology: Origins and Influence.
Leiden e Boston: Brill, 2015.
ISBN: 978-90-04-30621-9
Páginas: 574
Preço: 190.00 €


Comentário

Este livro reproduz a tese de doutoramento da autora, apresentada ao Instituto Warburg da Universidade de Londres. O conceito de daimon (daímōn) serve de base para toda a investigação. Ora este termo, bem como o de týchē, fortuna, como demonstra Greenbaum, estão na origem de alguns dos mais relevantes conceitos astrológicos, como por exemplo as casas V, VI, XI e XII e as partes da fortuna e do espírito. Greenbaum usa em epígrafe inicial o fragmento de Heraclito que serve de mote para toda a conceptualização em torno da palavra daimon: ēthosἦanthrópōi daímōn (O carácter é para o ser humano o seu destino). O termo daímōn surge aqui como indicador do destino, o que está em sintonia com seu significado primordial de demiurgo, de ser intermediário. 

Na primeira parte do livro, Greenbaum explora os conceitos de daímōn e de týchē enquanto representações culturais, religiosas e filosóficas e, recorrendo a um vasto número de fontes antigas, com especial destaque para Plutarco e Vétio Valente, analisa a relação entre os dois termos. Ora dessa relação nascem dois princípios duais: Agathós Daímōn e Agathē Týchē, de um lado, e Kakós Daímōn e Kakē Týchē, do outro. Estes princípios estão na génese das casas V e XI e VI e XII e da sua atribuição quer aos benéficos, Vénus e Júpiter, quer aos maléficos, Marte e Saturno. Estes dois conceitos, de extrema importância sobretudo no período helenista, foram como alicerces para a criação do sistema astrológico tal como o conhecemos. A astrologia foi sobretudo uma criação egípcia de matriz grega, tendo como suporte astronómico a evolução científica em torno da herança babilónica. A divisão da eclíptica, enquanto modelo conceptual, em casas, decanatos, termos, dodecatemoria ou monomoiria e as relações geométricas e simbólicas que resultam da presença dos planetas nesse modelo são um produto do helenismo alexandrino. As concepções filosóficas e religiosas em torno das ideias de daímōn e de týchē foram acolhidas pela astrologia que, por sua vez, renovou as suas significações.

Na segundo parte, é abordada a natureza do conceito de daimon enquanto mediador. A relação com a esfera divina traduz-se numa análise do neoplatonismo, do gnosticismo e mitraísmo, passado naturalmente pela noção do daimon pessoal. Nesta parte, aborda-se também a presença da ideia de daimon nos papiros mágicos e no corpus hermeticum ou hermetica. Aquando desta última fonte, Greenbaum firma nas estrelas  o nascimento dos daimones, o que está em estreita ligação com os últimos capítulos desta parte. O estudo em torno dos decanatos mostra o sentido profundo deste conceito astrológico que deve mais aos decanos egípcios que à ideia limitada de faces. Greenbaum analisa a forma como os vários autores antigos abordam este tema. A tradição que vai Teucro de Babilónia até Heféstion de Tebas, chegando até Cosme de Jerusalém, é fundamental para que a astrologia contemporânea construa uma teoria dos decanatos que se funde para além dos períodos de dez graus e das regências planetárias. Este parte termina com a análise da obra de Porfírio, em especial, no que à noção de oikeîos daímōn (daimon pessoal) concerne. Esta ideia permite o sentido astrológico que une a individualidade ao destino.

Na terceira parte, Greenbaum estuda a relação de daimon com as partes astrológicas, klēroi. Estas são, segundas as palavras da própria autora, uma das principais técnicas da astrologia helenista. Ao ler-se esta terceira parte, ninguém voltaria a designar as partes por partes arábicas. A parte da fortuna ou roda da fortuna,  como hoje a designamos, é em grego týchē e a parte do espírito é o daímōn. Estas duas partes, como representantes do Lua e do Sol, estão na origem do cálculo das outras partes, quer seja elas a pouco conhecida parte da base ou fundação (básis), as partes herméticas ou planetárias de Paulo de Alexandria ou as partes de Eros e da Necessidade de Vétio Valente. Segundo a tradição, as partes teriam sido criados por Hermes e passadas a Nechepso e Petosíris. A razão que origina as partes é mesma que se inscreve no procura da duração da vida. Greenbaum analisa, com erudição, os vários testemunhos e teorias sobre esta profunda relação entre as partes e a vida. O leitor pode, sem esforço, perceber que as partes são um importante legado da astrologia helenista e que têm uma aplicação mais integrada na linguagem astrológica que o uso que posteriormente lhe foi concedido. 

Nos apêndices, encontramos, numa primeira parte, uma síntese dos elementos da astrologia helenista e, numa segunda, a apresentação das principais fontes e das respectivas traduções. O livro de Greenbaum é um importante contributo para a dignidade da astrologia enquanto forma de conhecimento e é também a prova de que astrologia pode e deve ser estudada em meios académicos. Para o leitor menos familiarizado com a cultura clássica, a leitura pode ser um pouco densa, mas o que se ganha compensa o esforço. Este livro será sempre uma valiosa aquisição para uma biblioteca astrológica, seja ela física ou digital.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

A Justiça que permeia o Mundo

A Justiça
Tarot Rider-Waite

A Justiça é a eterna lei do equilíbrio e da harmonia que está guardada no centro da criação, no lugar onde o intelecto tudo vigia. 

A Justiça é o princípio que une a alma do mundo, o macrocosmo, ao humano, o microcosmo, que é a sua imagem e representação.

A Justiça é aquela força primordial que tudo domina e que tanto pode ser chamada de destino como de providência.

A Justiça é a eterna lei que conjuga a Vontade com a Providência, concedendo ao humano o dilema de dar liberdade ao destino.

A Justiça é o princípio universal da justa medida que, no universo, na natureza e no humano, balanceia o potencial e a acção.

A Justiça é aquela verdade que quando não é uma abstracção, torna-se naturalmente a unidade espiritual do perdão.

A Justiça é, para o ser humano, o equilíbrio entre o dom e o esforço, o mistério que permite o casamento do céu com a terra. 

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Um Fragmento Astrológico de Óstraca (Poesia)

Óstracon Demótico
(O. Chicago M. H. 3377)

Um Fragmento Astrológico de Óstraca

Num estilhaço se gravam
As estrelas e o destino
Num acidente de oleiro
Se cinge um futuro
Escrito no barro quebrado
Não se perde o papiro
Na sorte do comum
E abreviando se guarda
Uma vida inteira


19/05/2018 RMdF


Fonte da Imagem: Neugebauer, O., Demotic Horoscopes in Jounal of the American Oriental Society, Vol. 63, Nº 2, 1943, pp. 115-127

terça-feira, 19 de junho de 2018

As Asas do Anjo da História (Poesia)

Klee, Paul, Angelus Novos, 1920.

As Asas do Anjo da História 

E como um tornado de luz
Ou redemoinho de sombra
Tanto o humano seduz
Como o povo assombra
Sem seu trilho ou paisagem
A história é cinza ou poeira
Ora vestígio ora miragem
Pra quem vence soalheira
Dos vencidos sombra extensa
Dos escribas mais que alegoria
Outros julga e de si não pensa
Mas de ninguém os pecados expia

E como memória ou vendaval
Assim segue o anjo a sua via
Como vivente não se torna actual
E no seu coro ou seguia ou caia
Sem sua vontade o vento avança
Ora com força ora com graça 
Das asas vem toda a esperança 
E do humano se afasta a barcaça 
Sobre os estilhaços não há morte
Com o progresso tudo é passagem
É a fé de quem nos dados tira a sorte
Dos outros não deixa de ser viagem

Assim vai o anjo da história 
Assim chega o vendaval
Para o humano sombra ou glória
Da humanidade um outro mal

13/05/2018 RMdF

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Os Fragmentos são Poeira

Fuseli, John Henry, The Artist Moved by
the Grandeur of Antique Fragments
, 1778-79.

A actualidade é estar no tempo sem ser tempo, é soprar para longe as fagulhas da história e inspirá-las quando o vendaval as devolve. Viver a actualidade é como caminhar numa ponte sem lugar sobre o abismo da memória, sem olhar para o sol que cega, para a luz divina.

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A hipótese do nada é sempre melhor que a pretensão do todo, pois a hipótese alberga o seu contrário e a pretensão tem por por hábito negar tudo o que está para além de si. Nessa arrogância da certeza, acaba sempre na ignorância.

&

Não foram os grilhões que mataram o feminino, foi a vergonha. Aqueles que o calcaram, pisando a luz e a aura, destruíram a harmonia dos opostos.

&

O livro que vive no tempo é aquele cujo desfolhar permanece na frequência do acaso. Sem sentido, encontra-se o único sentido e por livre vontade firmamos-nos no não-lido, no vislumbre de uma palavra solta.

&

O mistério segreda a luz, o enigma solve e resolve.

&

A guerra é essa força que ignorante avança e destrói e oprime, negando a palavra e o texto. A guerra nem sempre é armada, por vezes, serve-se apenas da intolerância.

&

A actualidade é o presente a validar o passado, é um abeirar-se das suas ruínas, um acto que se estende no tempo, no limiar do abismo.

&

Os mitos não morrem, adormecem, repousam entre o sonho e a imaginação, à espera de um novo despertar. O mito não teme a razão, mas sim um longo esquecimento, um sono profundo.


&


Quanto maior a sabedoria, maior será a tormenta. E a tormenta é a via única para a felicidade. Já a ignorância conduz à dormência e a dormência é o caminho para o prazer, pois este luta contra outra, embora sem nunca a vencer.

&

A arrogância e a vaidade intelectual desejam a sabedoria, mas deitam-se sempre com a ignorância.


Fragmentos Escrito entre 2017 e 2018 RMdF

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Os 7 Sistemas de Termos da Astrologia Antiga (7): Yavanajātaka



   A tabela de Sphujidhava é, segundo Pingree, a mais simples e, embora não exista registo dela no ocidente, deriva de fontes egípcias e gregas (1976, II: 216). Este defende também que todos os autores indianos seguiram este modelo, indicando-nos as seguintes referências: Mīnarāja, 1, 22-23; Satya, citado por Utpala em Brhajjātaka, 1, 7; Parāśara, Pūrvakhanda, 3, 5; Varāhamihira, Brhajjātaha, 1, 7 e Laghujātaka, 1, 10; Kalyānavarman, 3, 20; Vidyānavarman, 3, 20; Vidyāmādhava, 1, 17; Gunākara, 1, 18; Jyotishprakāśa, citado em Jyotirnibandha, p. 59; Pseudo-Prthuyaśas, 1, 19; Vaidyanātha, 1, 13; e Mantreśvara, 1, 19. Pingree estabelece, desta forma, uma tradição em torno deste sistema de termos. Ora esta ideia está intimamente relacionada com o valor que este atribui ao Yavanajātaka, considerando-o o texto sânscrito da união dos conhecimentos astronómicos e astrológicos da cultura greco-egípcia e indiana-védica mais antigo. 

   Na edição de Pingree, baseando-se sobretudo na informação do cólofon, os últimos três versos do Capítulo 79, denominado Horāvidhih, concluiu-se que o Yavanajātaka, ou seja, A Horoscopia dos Gregos, era uma versificação de Sphujidhvaja de uma tradução em prosa de Yavaneśvara de um texto grego, provavelmente alexandrino. A versão de Sphujidhvaja dataria de 269/270 E.C. e a tradução de Yavaneśvara seria de 149/150 E.C (1976, I: 3). Convém antes de mais referir que o termo Yavana, que está na base do título da obra e do nome do tradutor original, designa grego, num sentido etimológico próximo de iónico. Pingree defende também que Yavaneśvara e Sphujidhvaja, designados pelo título rājā, eram homens que exerceram alguma forma de poder nas colónias gregas nos domínios de Kshatrapas Ocidental. Os Śakas ocidentais, embora tenham uma origem indo-cita, foram contaminados, como aliás foi todo a área geográfica entre a Macedónia e a Índia, pelo império de Alexandre Magno e a cultura grega. Ora essa influência estendeu-se no tempo. Pingree afirma inclusive o Jyotisha deriva dos conhecimentos do império aqueménida e, posteriormente, dos do império de Alexandre (1973: 1-13). 

   O Jyotisha (astronomia/astrologia) é um dos seis vedangas, ou seja, das seis disciplinas que auxiliam o estudo e a compreensão dos Vedas, sendo as outras Shiksha (fonética), Chandas (prosódia), Vyākarana (gramática), Nirukta (etimologia) e Kalpa (instruções rituais). Dentro do Jyotisha existem, por sua vez, três ramos (skandhas): horaśkandha, horoscopia; samhitā, astromancia, semelhante à do Enūma Anu Enlil sumério; e ganita, teoria astronómica de origens greco-babilónicas e desenvolvidas pelas obras astronómicas do tempo de al-Bīrūnī (Pingree 1978, I: 5). No entanto, seria errado concluir que o Jyotisha deriva exclusivamente de fontes externas. A cultura indiana exerce, por seu lado, um influência predominante, como aliás o próprio Pingree reconhece. Estas relações são contudo importantes para demonstrar que o conhecimento, neste caso o conhecimento astrológico, não pode ser compartimentado de forma separá-lo do seu todo, pois deve ser sempre considerada a interacção entre os povos e a transmissão cultural. Não podemos portanto concluir que o desenvolvimento da astrologia se deve apenas uma herança ou uma raiz, daí que a integração histórica das doutrinas astrológicas seja tão importante. 

   Desde os anos 70 que a edição de Pingree tem sido a referência para o estudo do Yavanajātaka, todavia, a análise das suas fontes, um microfilme do manuscrito Kathmandu I 1180, conhecido por N, escrito em folhas de palmeira no início do Século XIII, tem levado algumas questões. Bill Mak, através de Michio Yano, tomou conhecimento de um manuscrito alternativo do Yavanajātaka que põe em causa as conclusões de Pingree a partir do cólofon (2013: 4). Segundo Mak, Pingree baseou-se num microfilme de má qualidade de um manuscrito bastante danificado, o que o levou por diversas a extrapolar a interpretação textual. Ora o novo manuscrito nepalês, identificado como Q, permite retirar outras conclusões. No que à datação diz respeito, Mak defende que a composição de Yavanajātaka se situa entre 22 E.C. e o início do século VI, sendo, todavia, provavelmente, dos séculos IV a VI (2014: 1104). Face a esta datação, a progenitura do Yavanajātaka de outras obras posteriores Jyotisha torna-se assim questionável. Mak afirma inclusive que o Vrddhayāvanajātaka de Mīnarāja é anterior ao Yavanajātaka, dado que Pingree, que o colocou no século IV, traduziu o prefixo vrddha como aumentado e não como antigo (2014: 1103). É também de notar que a obra do erudito Varāhamihira, Brihajjātakam, do século VI, não revela qualquer conhecimento do Yavanajātaka, pondendo-se pois especular que a circulação do texto seria muito limitada e que só depois de Varāhamihira é que se expandiu. Por outro lado, Mak duvida da tese dos dois autores e acredita que possam ser apenas um (2013: 16), pois refere que Bhāskara, no seu comentário ao Āryabhatīya, cita duas verso 55 e atribui-o a Sphujidhvajayavaneśvara e que Utpala, em todas as citações do Yavanajātaka, designa Yavaneśra como seu autor (2013: 16, n.43). 

   O aspecto é mais relevante, seja qual for a datação ou qualquer que seja o autor, é que o Yavanajātaka, bem como as outras obras similares, demonstra a influência greco-egípcia na astrologia indiana, particularmente no que concerne aos termos. O sistema descrito pelo Yavanajātaka é também um reflexo dos princípios fundamentais que regem todos os sistemas. No entanto, neste caso, a sua base conceptual ou teórica sustenta-se na distinção entre signos ímpares e pares, masculinos e femininos. A distribuição dos termos é constante, variando apenas segundo essa distinção formal. Naturalmente, não existe neste modelo uma preocupação com os totais planetários. Acerca deste sistema, o Yavanajātaka, na edição de Pingree que é a única de que dispomos e sendo o mais fiel possível à tradução inglesa, diz o seguinte: "Nos signos ímpares, cinco graus (constituem os termos) de Marte, cinco (os) de Saturno, oito (os) de Júpiter, sete (os) de Mercúrio e cinco (os) de Vénus; nos signos pares, a sua ordem é a inversa" (1, 42, Ed. Pingree, Vol. II, p. 4, trad. do inglês). Observa-se portanto uma valorização de Júpiter e do conjunto central de termos, contrariando o imperativo dos primeiros termos. Mercúrio também sai reforçado em número de graus. Por outro lado, Vénus tem aqui a sua qualidade de benéfico algo diminuída. Já os maléficos dominam os primeiros dez graus nos signos masculinos e os últimos dez, nos signos femininos. Em resumo, este modelo, à semelhança daqueles que seguem as triplicidades, apresenta uma grande coerência formal, mas não o potencial do sistema egípcio e do sistema ptolemaico. 

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Os 7 Sistemas de Termos da Astrologia Antiga (6): Ptolomeu


   O sistema de Ptolomeu, praticamente sem adeptos durante a Antiguidade, foi aquele que imperou sobretudo após a Alta Idade Média, primeiro em alguma astrologia árabe e depois na Europa Cristã. Este é o modelo expresso por William Lilly e seguido por grande parte dos astrólogos tradicionais contemporâneos. No entanto, os termos aqui apresentados diferem em alguns elementos daqueles defendidos por Lilly. O modelo aqui transcrito segue a lição de Heféstion de Tebas, que nasceu a 26 de Novembro de 380 E.C. e que completou o seu livro, Apotelesmatika, em cerca de 415, cerca de dois séculos e meio após a morte de Ptolomeu. Heféstion, no Capítulo 1 do Livro I, que contempla uma das mais completas descrições dos doze signos e a mais extensa descrição dos decanatos egípcios, inclui o esquema dos termos egípcios e ptolemaicos. 

   A questão dos termos de Ptolomeu deve-se sobretudo ao facto da recepção do Tetrabiblos se sustentar em manuscritos tardios. O manuscrito mais antigo data do século XIII e existem dois ou três do século XIV, destes só um é completo. A maioria dos manuscritos é dos séculos XV e XVI. Este constrangimento no número de manuscritos foi compensado pelo manuscrito do século X da Paráfrase de um Pseudo-Proclo, datada entre o século V de Proclo e o período bizantino e traduzida por Allatius, à qual se juntou um texto em grego anónimo, um comentário ao Tetrabiblos, atribuído também a Proclo e publicado em 1559 por Hieronymus Wolf. No caso da língua inglesa, até à tradução de Robbins (1940) todas as traduções seguiram a Paráfrase. O problema, na verdade, não está na fidelidade da Paráfrase ao texto de Ptolomeu, pois, exceptuando o caso de ter sido escrita num grego mais simples e acessível, o seu conteúdo está muito próximo do original. No entanto, na questão dos termos e, em especial na tabela de termos, a Paráfrase apresenta uma dupla atribuição de termos: uma principal, em caracter maior, e outra supra-escrita, em caracter menor (Houlding: 270-1). Esta opção, que resulta provavelmente ora da ambiguidade do próprio sistema de termos, ora da inconsistência das fontes, levou a que existisse uma necessidade de escolha, de modo a fixar um sistema passível de ser posto em prática. É por essa ordem de razões que existem tantas variantes nos termos. 

   O modelo preservado por Heféstion obedece, em primeiro lugar, a um critério de antiguidade e de maior proximidade temporal ao autor. Deve-se salientar que a sua Apotelesmatika serve de compêndio para a astrologia antiga, pois preserva, numa primeira ordem, as obras de Doroteu de Sidon e de Ptolomeu e, numa segunda ordem, um vasto conjunto de referências, de autores como Nechepso e Petosíris, Critodemo, Anúbio, Antíoco de Atenas, Antígono de Niceia, Trasilo de Mendes e muitos outros. Torna-se assim compreensível a preferência pela sua lição. No entanto, a preferência tem também um critério substantivo, visto que, tal como Houlding refere no seu artigo, as escolhas de Heféstion têm uma maior adequação aos pressupostos metodológicos de Ptolomeu. Ao modelo de termos expresso por Heféstion correspondeu também uma tradição. A astrologia árabe, embora não siga as suas indicações à letra, conservou a sua herança. É nessa linha conjunta de Ptolomeu e Heféstion que encontramos a tradução árabe do Tetrabiblos de Hunain ibn Ishaq (809-873 E.C.), a qual serviu de base à tradução para latim de Plato de Tivoli, em 1138. Nesta tradição árabe, temos também a tradução anónima de 1206 e o Comentário do século XI de Ali ibn Ridwan, conhecido por Haly e traduzido no século XIII por Aegidius de Thebaldis. Estas referências são importantes para a questão dos termos, pois a tradição árabe dos termos ptolemaicos, seguida na Europa Cristã por Guido Bonatti, via Plato de Tivoli, revela algumas diferenças daquela que culminará em William Lilly. As tabelas comparativas podem ser encontradas no artigo de Houlding.

   Ptolomeu coloca este sistema no fim de uma linha argumentativa, iniciada pela exposição crítica do sistema egípcio e desenvolvida pelo sistema caldeu. Porém, este sistema não surge como sendo da autoria de Ptolomeu e, apesar das inconsistências apontadas, não deixa de dizer que o sistema egípcio é o mais comum. Já sobre a génese daquele que ficou conhecido como o seu sistema, Ptolomeu diz o seguinte: "Contudo e sem mais demora, encontrámos uma cópia de um manuscrito antigo e muito deteriorado da sua [termos] ordem e quantidade e que, ao mesmo tempo, apresenta a tabela de graus das já referidas natividades e do valor das somas, o qual se encontra em concordância com a disposição dos antigos" (I, 21, 1127-1132, Ed. Hübner, trad. do grego). Do manuscrito referido por Ptolomeu não existe qualquer registo ou referência, o que leva a crer que a história do manuscrito pode ter sido um artifício textual para escapar à dificuldade de justificar filosoficamente o sistema de termos. Por outro lado, a descrição do manuscrito revela uma grande semelhança com o sistema egípcio, pois a questão dos totais planetários apresenta-se como determinante, o que aliás é observável nos termos retidos por Heféstion. À excepção de um pequeno erro nos termos de Sagitário, onde existe uma inversão no número de termos de Marte e Vénus, os totais planetários concordam com os do sistema egípcio. Desta forma, podemos concluir que toda a edição dos termos ptolemaicos que não reproduza estes totais está errada. Plato de Tivoli e Guido Bonatti, ao discordarem de certas disposições de Heféstion e ao corrigi-las, acabaram por prescindir do imperativo dos totais. Convém lembrar que estes totais servem para os anos planetários, os quais, por sua vez, são utilizados para o cálculo da duração da vida, logo, embora Ptolomeu afirme que não compreende a razão por detrás dos termos egípcios, está consciente do seu potencial.

   Ptolomeu define do seguinte modo as premissas metodológicas para criação de um modelo termos: "Para a sua ordem dentro de cada signo (dôdekatêmórion), são consideradas as exaltações (hypsómata), as triplicidades (trígôna) e os domicílios (oikoi). De um modo geral, a estrela que no mesmo signo tiver duas destas regências (oikodespoteías) é colocada em primeiro lugar, mesmo que seja um maléfico (kakopoiós). Porém, se não se obtiver esta condição, os maléficos serão sempre colocados em último, os regentes das exaltações em primeiro, de seguida, os regentes das triplicidades e depois os regentes dos domicílios, seguindo um após o outro a ordem dos signos. Mais uma vez aqueles que possuem duas regências devem ser preferidos face àqueles que, no mesmo signo, possuem apenas uma" (I, 21, 1140-1149, Ed. Hübner, trad. do grego). As directrizes são bastantes claras, todavia um critério no método proposto esteve na origem de uma confusão que persistiu no tempo. Ptolomeu diz o seguinte: "Contudo, uma vez que não são  atribuídos termos aos luminares, Caranguejo e Leão, que são os domicílios do Sol e da Lua, são distribuídos pelos maléficos por não terem a sua parte na ordem, Caranguejo a Marte e Leão a Saturno, nos quais preservam o seu lugar na ordem dos signos e dos domicílios (oikeía)" (I, 21, 1149-1154, Ed. Hübner, trad. do grego). Foi esta atribuição que gerou a mais significativa diferença nas tabelas dos termos ptolemaicos. 

   Os primeiros termos de Leão foram consagrados, pela maioria, a Saturno. Heféstion, por seu lado, entrega-os a Júpiter. A tradução de Robbins segue essa via e Houlding justifica-a (287-8 e 295-8). No entanto, quase todas as edições desde a Paráfrase seguem a opção de Saturno. O erro parte de duas falsas premissas: uma confusão na dupla atribuição da Paráfrase e uma má interpretação dos textos de Ptolomeu acima traduzidos. A Paráfrase coloca Júpiter na posição de destaque e Saturno no lugar supra-escrito (Houlding: 271). À primeira vista, Júpiter seria a escolha certa, mas a maioria dos tradutores e astrólogos preferiram Saturno, falsamente guiados pelo texto do Tetrabiblos. Ptolomeu está somente a colocar Marte e Saturno nos domicílios de Caranguejo e Leão e não a atribuir-lhes ad hoc os primeiros termos de cada signo. A tradução da palavra oikeía é parte do problema, pois Robbins (1940) e Schmidt e Hand (1994) optaram por traduzi-la por "adequado" ou "próprio de", todavia, tal como o Liddell & Scott refere, a palavra indica também os signos domiciliários. Desta forma, podemos concluir que Marte, em substituição da Lua, é o domicílio de Caranguejo e Saturno, em substituição do Sol, é o domicílio de Leão. O caso de Caranguejo é mais fácil de compreender, visto que Marte já é o regente da triplicidade, tendo portanto precedência sobre o regente do domicílio, todavia, ao tornar-se também o domicílio acumula as tais duas regências que permitem a um maléfico ocupar o primeiro lugar. O caso de Leão é menos óbvio, mas também não deixa grande dúvida. Júpiter é o regente nocturno da triplicidade, logo, na ausência do Sol e porque Leão não tem exaltação, toma o seu lugar. Saturno não se poderia qualificar, pois, segundo as regras estabelecidas por Ptolomeu, o regente da triplicidade tem valor superior ao do domicílio e, por outro lado, para os maléficos ocuparem os primeiros termos teriam de reunir duas regências, algo que Saturno não reúne. Alguns ainda poderiam argumentar, dizendo, tal como Doroteu determinou, que Saturno é o regente co-participante ou cooperante da triplicidade, todavia, não existe qualquer referência à utilização desse tipo de regente na atribuição dos termos, pois se assim fosse, outros termos teriam de ser alterados. Desta forma, a lição de Heféstion é aquela que deve ser seguida.

   Quanto às sugestões propostas por Houlding, indicadas entre parêntesis na tabela, devemos fazer uma avaliação individual. Existe uma que já foi falada e que deve ser sempre aceite, pois determina os totais planetários, ou seja, a inversão dos totais dos graus de Vénus e Marte, passando Vénus a reger 6° e Marte, 5°. Depois é também razoável a inversão de Mercúrio e Vénus, e respectivos graus, nos signos de Caranguejo e Leão. Este pode até ser um erro, pois os glifos destes planetas em manuscritos antigos são ainda mais semelhantes que aqueles que hoje usamos. Quanto às outras sugestões, deve existir alguma reserva, pois comprometem os totais planetários, todavia a justificação que Houlding faz, signo a signo, deve ser considerada (299-305), pois consolida a preferência pela tabela de Heféstion. Em suma, o contributo de Ptolomeu para a doutrina dos termos é incontornável e, quer se siga o seu sistema ou qualquer um dos outros sistema, o seu esforço de teorização deve ser sempre estudado.