
Rodolfo Miguel de Figueiredo
Da Astrologia. Do Tarot. Da Filosofia. Da Literatura. Das Religiões.
terça-feira, 1 de abril de 2025
Calendário Astrológico: Abril de 2025

sexta-feira, 28 de março de 2025
Reflexões Astrológicas 2025: Eclipse Solar Parcial (Lua Nova em Carneiro)
Reflexões Astrológicas
Eclipses
Eclipse Solar Parcial
(Lua Nova em Carneiro)
Lisboa, 10h47min, 29/03/2025
Sol-Lua
Decanato: Marte
Termos: Vénus
Monomoiria: Sol
O
Eclipse Solar Parcial de 8 de Abril ocorre no signo de Carneiro, com Caranguejo
a marcar a hora (hora de Lisboa), no primeiro grau e apenas a quatro minutos,
no Segmento de Luz (αἵρεσις) do Sol, com os luminares acima do
horizonte, na X, no lugar daquilo que se faz, da Práxis (πράξις),
embora a culminação caia na IX (casa-signo ou signo inteiro), e cerca de quatro
horas e vinte minutos após a hora de alba, no decanato de Marte, termos de Vénus
e na monomoiria do Sol. Os eclipses
solares anteriores ocorreram junto ao Poente, já o actual encontra-se a caminho
da culminação. Este elemento de análise consagra o sentido deste eclipse como
marco de transição, pois é o último do ciclo no signo de Carneiro. O eixo nodal
vai fixar-se no eixo Virgem-Peixes. O próximo eclipse solar de 2025 será no
signo de Virgem, ou seja, define-se uma via de sentido que corresponde a metade
do ciclo zodiacal.
Nesta
senda nodal de Carneiro a Virgem, lembrámo-nos dos versos inaugurais da Divina Comédia de Dante: “Nel mezzo del cammin di
nostra vita/ mi ritrovai per una selva oscura,/ ché la diritta via era smarrita.” (No
meio do caminho em nossa vida/eu me encontrei por uma selva escura/ porque a direita via era perdida. Inferno I, 1-3, trad. Vasco Graça
Moura. Venda Nova, 2000: Bertrand Editora).
No entanto, Carneiro não chega a Virgem pela “direita via”, o caminho nodal é
uma via de retorno e terá de passar por Peixes sem o integrar o seu sentido.
Caminha até à parte sem tomar como sua a totalidade, a finalidade do caminho. A
identidade do eixo Carneiro-Balança segue uma via de sombra onde terá de enfrentar
os seus fantasmas e aqui também no sentido etimológico do termo, ou seja, terá
de se destruir e recriar a partir das suas próprias imagens. A “selva escura” é
o lugar onde o humano e a humanidade podem ver o maior dos seus medos. Nesse
lugar, vêem-se a si mesmos. A visão do espelho é assustadora. É como Dorian
Gray a deixar o pano que cobre o objecto misterioso que esconde o seu
verdadeiro eu. O olhar para si mesmo, seja para o humano, individualmente, ou
para a humanidade, é aterrador e é assim que deve ser, pois a iniciação nasce
desse medo, nessa “selva escura”.
Como já
constatámos anteriormente, Jasão, o herói de Ares (Marte,
domicílio) precisa do favor de Apolo (Sol, exaltação) para que a finalidade da
viagem seja alcançada, ou seja, precisa da luz para encontrar o fim, para
chegar ao velo ou tosão de ouro (Κρίος
Χρυσόμαλλος), a
pele do aríete ou carneiro imortal (Carneiro), filho de Posídon (Neptuno,
regente moderno de Peixes). A ligação nodal entre
os dois eixos (Carneiro-Balança e Virgem-Peixes) leva-nos, pela via do destino
e da necessidade, pelo corpo do Dragão da Lua, numa viagem que terá de
estabelecer uma ligação de sentido, um elemento de passagem, entre a identidade
e a integração. Curiosamente, os dois eclipses solares de 2025 fixam-se do lado
desses eixos onde os elementos estão separados. São a unidade (Carneiro) sem a
dualidade (Balança). São a parte (Virgem) sem o todo (Peixes). Essa ausência é
a sombra sobre o sentido, é a ocultação da finalidade.
Num eclipse solar, é a luz que sofre o avanço da
escuridão, pois o seu manto de sombra cobre o alcance dos raios. Ora isso
acontece, todavia, por decreto da Providência. É o destino a operar e a
necessidade a determinar. A este respeito, Séneca diz-nos o seguinte: “Que a nossa alma, por tanto, se habitue a
entender e a suportar o seu destino, a saber que nada é interdito à fortuna,
que esta tanto se abate sobre os impérios como sobre os imperadores, que tanto
poder tem sobre as cidades como sobre os homens. E não devemos indignar-nos
contra as desgraças: nós entramos num mundo que se rege precisamente por esta
lei. Se a lei te agrada, obedece-lhe; se não, sai deste mundo pelo processo que
quiseres! Indigna-te, sim, com alguma iniquidade que o destino te tenha feito somente
a ti; mas as leis que regem o mundo constrangem tanto os grandes como os
humildes, e por isso deverás reconciliar-te com o destino: ele dará solução a
tudo! Não deves avaliar os homens pelos túmulos, pelos monumentos fúnebres que,
uns maiores outros menores, se erguem ao longo das estradas: reduzidos a
cinzas, todos os homens são iguais. Desiguais no nascimento, todos somos iguais
na morte.” (Ep.91.15-16; Cartas a
Lucílio, 2ª ed,, trad. J. A. Segurado e Campos. Lisboa, 2004: Fundação
Calouste Gulbenkian).
A lei de Adrasteia, senhora do inevitável, impera sobre o
mundo e um eclipse solar tende a recair mais sobre impérios e imperadores do
que sobre o comum. A estes, só a lei das Meras (Moiras) afecta o seu destino,
ou seja, só o grau do eclipse tende a afectar o tema natal, pois moira (μοίρα) é em grego tanto o destino
como o grau. A Lua é a vida e o Sol a consciência da vida, daí que um eclipse
lunar anuncie mais a vida planetária e um eclipse solar a sua consciência, ou
seja, a organização política e social. Os eclipses solares vão pesar mundanamente
sobre a humanidade. O peso do destino, a sombra, recai sobre o que se faz
colectivamente. Este sentido é particularmente expressivo no tema do eclipse.
Se pensarmos que, no tema, a posição dos signos sobre os
lugares ou casas reproduz o Thema Mundi,
ou seja, com Caranguejo a marcar a hora, observamos que essa conciliação entre πράξις, entre aquilo que se faz, e o encontro
umbral dos luminares no signo de Carneiro se torna uma unidade de sentido. Ora
esta unidade vai acentuar uma pressão da sombra sobre a luz, ou seja, na
expressão ou na acção dos líderes
mundiais sobre as comunidades. O facto de Marte estar no signo que marca a
hora, Caranguejo, e Saturno estar junto ao Ponto de Culminação, em Peixes,
contribui para o carácter deletério dessa acção. Ao vermos hoje a acção
política assustadoramente centrada nos líderes, temos de trazer à memória
outros tempos, tempos em que os cultos da personalidade eram cultivados e
impostos. O sentido de comunidade tende então a perder-se
A ascensão recta dos luminares fixa uma influência
temporal mais intensa até pouco mais de seis meses, o que nos leva a
estabelecer um tempo electivo até ao eclipse solar de 21 de Setembro. No
entanto, a magnitude do eclipse pode estender o seu efeito até perto de um ano,
já as declinações dos luminares, em especial, a do Sol, determina uma extensão
dos efeitos até cerca dos três anos e meio. Aquilo que acontecer até Setembro
produzirá um efeito que se fará sentir até ao final de 2028. Em termos
espaciais, o centro do eclipse firma-se no Pólo Norte, no extremo norte do
Québec, numa área muito próxima da Gronelândia. Se pensarmos nas deambulações
megalómanas de um certo líder quanto ao domínio territorial desta zona do
planeta, o centro deste eclipse ganha um sentido mais consentâneo. O manto
umbral e penumbral estender-se-á, porém, pelo Oceano Atlântico até às áreas
ocidentais e mais a norte da Europa e de África, alcançando a Rússia.
Nas
regências geográficas antigas, o Sol e a Lua em Carneiro regem, segundo
Manílio, o Helesponto (Estreito
de Dardanelos), Propontis (Mar de Mármara), a Síria, a Pérsia e o Egipto (Astronomica, IV, 744-817). Já Vétio Valente (Antologia I, 2) diz-nos que o signo exerce influência sobre as
seguintes regiões: a Babilónia, Elymais ou Elamais (Cuzistão, província do Irão), a
Pérsia, a Palestina e as regiões circundantes, a Arménia, a Trácia, a
Capadócia, Susã (cidade antiga, capital do Elão ou Susiana, hoje sudoeste do
Irão), o Mar Vermelho e o Mar Negro, o Egipto e o Oceano Índico. Heféstion resume
as regências dizendo que, para Ptolomeu, rege a Britânia, a Galácia, a Germânia, a Palestina, Edom e a
Judeia e, para Hiparco e para os antigos egípcios, rege a Babilónia, a Trácia;
a Arménia, o vale da Pérsia, a Capadócia, a Mesopotâmia, a Síria, o Mar Vermelho (Apotelesmática I, 1).
O
actual eclipse pertence à série Saros 149. É 21º eclipse de um total de
setenta. Deve-se assinalar que este é o último eclipse parcial antes da fase de
eclipses totais que se inicia com outro eclipse no signo de Carneiro (9 de
Abril de 2043). A série Saros 149 teve o seu início a 21 de Agosto de 1664, com
um eclipse no signo Leão, e terminará a 28 de Setembro de 2926, com um eclipse
no signo de Balança. No eclipse-matriz, o Sol, a Lua, Mercúrio, Vénus e a Caput Draconis estavam em Leão, no mesmo
elemento do eclipse actual. Marte estava em Balança e Saturno em Sagitário. Júpiter
e Neptuno encontravam-se em Capricórnio. Em Aquário, estava Úrano e a Cauda Draconis e, em Gémeos, Plutão.
Balança marcava a hora e Caranguejo culminava (hora de Lisboa).
No
ano de 1664, aquando do eclipse-matriz, temos de assinalar a vitória dos
portugueses sobre os espanhóis, na Batalha de Castelo Rodrigo (7 de Julho), um
feito essencial na Guerra da Restauração. A 1 de Agosto, também antes do eclipse,
dá-se a Batalha de São Gotardo onde o exército habsburgo derrota o exército
otomano. Por outro lado, a 27 de Agosto é fundada a companhia francesa das
índias orientais. A 8 de Setembro, Nova Amsterdão rende-se a uma esquadra naval
britânica, liderada por Richard Nicolls. A cidade capturada será então renomeada,
em homenagem ao Duque de York, o futuro rei Jaime II, passando a chamar-se Nova
Iorque. O enquadramento histórico do eclipse-matriz serve sobretudo para
acentuar a intensa expressão político-militar desta série. Ora este carácter
bélico vai evidenciar o seu lado mais negativo pelo facto da posição original
dos maléficos estar em aspecto quadrangular à posição actual (Marte em Balança
e agora em Caranguejo e Saturno em Sagitário e agora em Peixes). Se tivermos dúvidas
da repetição da história, podemos afirmar com certeza a repetição do humano.
O
eclipse solar de 29 de Março é o terceiro de três eventos astrológicos que
mereceram uma reflexão, tendo sido o primeiro o eclipse lunar de 14 de Março e
o novo ano astrológico com o ingresso do Sol em Carneiro a 20 de Março. Se
observarmos os três temas, podemos concluir que as retrogradações de Mercúrio e
Vénus são as principais diferenças. No caso de Vénus, existe inclusive um
reingresso no signo anterior, em Peixes.
A retrogradação de Mercúrio obriga a um pensar
ou repensar da palavra que nos poderia levar até Epicteto quando este diz o
seguinte: “Sinais de quem progride: não
recrimina ninguém, não elogia ninguém, não acusa ninguém, não reclama de
ninguém. Nada diz sobre si mesmo – como quem é ou o que sabe. Quando, em
relação a algo, é entravado ou impedido, recrimina a si mesmo. Se alguém o
elogia, se ri de quem o elogia. Se alguém o recrimina, não se defende.” (Encheiridion 48.b1, trad. A. Dinucci & A. Julien, 2014: 64. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra). Mercúrio em Carneiro dá uma certa
impulsividade à palavra. Ora a retrogradação neste signo conduz ao domínio
dessa pulsão o que combina perfeitamente com a lição de Epicteto.
A retrogradação de Vénus até ao
signo da sua exaltação, embora não de volta ao grau exacto, mas colocando-a
conjunta a Neptuno, o seu regente moderno, vai firmar primeiramente a
reformulação daquilo que se deseja, estabelecendo uma necessidade de foco que
se estenda para além da identidade e, de uma forma mais profunda, que
restabeleça a gravidade do amor. A dádiva de Vénus, neste olhar de novo, é um
tesouro de vida, pois que permite que se olhe uma outra vez para o lugar onde o
amor caiu, onde a sua gravidade se fundou. É uma bênção que não deve ser
ignorada. Por outro lado, a senda de uma Vénus que sai de Carneiro para voltar
a Peixes e para, por sua vez, regressar renovada a Carneiro tem um sentido
profundo. O amor sai dos perigos da identidade, da frágil ponte entre unidade e
dualidade, para regressar a imersão do todo, à integração da totalidade. Ora
nessa viagem o amor pode perder-se e afundar-se ou pode dar à costa, brilhante,
com um sentido de finalidade, de propósito. Neste tempo, podem estabelecer-se
intensas afinidades electivas e conexões para lá da vida e da morte.
No tema do eclipse solar de 29 de
Março, Vénus vai voltar a reunir-se com Neptuno, com Saturno e com a Caput Draconis. Os sentidos do passado
são recuperados, todavia, não é um regresso ao mesmo, é uma renovação. No rio
do tempo, as águas que passam não são iguais. A união de Vénus e Neptuno vai
dar ao princípio do amor a imaginação criativa, o que potencia a sua acção natural
e criativa. Quando se une a Saturno, o que em Peixes não tende a ser muito
negativo, Vénus vai conciliar a gravidade do tempo com a ardência do desejo. A Caput Draconis conjuga com estes a
possibilidade de elevação face à força da necessidade. Esta é uma bênção quase
oculta em pleno eclipse solar. Numa viagem pela sombra, é possível trazer
do todo a unicidade de si.
No eclipse lunar era Plutão em Aquário o astro
mais alto agora é Saturno em Peixes. Da lição da morte passamos para lição do
tempo. Na verdade, não existe verdadeira aprendizagem sem a integração destas
duas lições. Se a vida não pedisse estas duas lições, as pulsões dos planetas
pessoais dominariam e iriam corromper a natureza a um ponto de não retorno. A
morte e o tempo fazem com que se dê valor às coisas, às pequenas coisas, às
coisas importantes. Nós, humanos, somos a soma dessas pequenas, unidas em algo
único, na felicidade. Na sua origem etimológica, a felicidade consiste é ter em
si uma bom estado demiúrgico, ou seja, ter um bom elemento de passagem. Ora
essa viagem só possível com a consciência íntima da morte e do tempo e, por
outro lado, pela elevação que só o amor e a sabedoria concedem.
Neste
eclipse solar, esta senda é uma subida de Marte em Caranguejo até Saturno em
Peixes e é nessa viagem que o manto umbral se estende, escondendo os luminares.
A quadratura destes, e de Mercúrio retrógrado, a Marte revelam o medo da origem
e a violência de regressar ao passado. Ora, sabendo nós de uma maior influência
geopolítica nos eclipses solares, este sentido torna-se mais vivo e mais
actual. Estamos a viver, quer queiramos, quer não, tempos sombrios. Na verdade,
a humanidade que almejava por progresso vê-se hoje à beira do princípio. Os
sinais estão lá. As Meras falam nos astros e indicam os lugares de todas as
encruzilhadas, sim porque, sob a égide de Hécate, numa das vias reside, como
sempre, a esperança. Esta é a razão pela qual no fim do caminho zodiacal,
naquele de Carneiro a Peixes, se encontram os dois benéficos: Júpiter no seu
domicílio, Vénus na sua exaltação. Com o manto de sombra em Carneiro, esse fim
do caminho não é vislumbrado. Vivemos tempos em que a verdadeira esperança
tende a perder-se.
A
beleza da vida diz-nos sempre que a luz da esperança gosta de se ocultar nas
ruínas, pois é sob a cinza e a poeira que se escondem as pequenas luzes que
salvam o mundo. Os sextis de Júpiter em Gémeos e de Plutão em Aquário aos
luminares em Carneiro permitem ver elementos potenciais de transformação. Estes
são aspectos que trazem consigo a potencialidade da busca, da procura, de ver
entre os fragmentos da realidade a luz que ilumina e transforma. Esta é uma bênção
da vontade, do ímpeto salvífico. Já a quadratura entre Vénus em Peixes e
Júpiter em Gémeos traz consigo a estruturação do bem. Curiosamente, esta são
duas constelações representadas de forma mitológica pelo amor: em Peixes,
Afrodite e Cupido; em Gémeos, Castor e Pólux. O trígono entre Marte em
Caranguejo e Vénus em Peixes que antecede, na já enunciada via de culminação, o
mesmo aspecto mas com Saturno vai servir de apelo ao caminho do meio, à via da
moderação. Actualmente, a prudência, a temperança é tão esquecida quanto
necessária. A arte e a nobreza de colocar racionalidade nas pulsões são por
vezes o que resta à humanidade e, em especial, aos seus líderes. Se não
existirem, o abismo torna-se mais próximo.
O eclipse solar de 29 de Março, o último do actual ciclo nodal no signo de Carneiro, apresenta-nos os riscos de colocarmos as nossas angústias e os nossos anseios em certas lideranças. O manto de sombra cai hoje de forma muito notória nos perigos de semear as autocracias no seio das democracias modernas. Existe também, apesar de certos esforços ilusórios de paz, um perigo iminente de continuação e alastramento de certos conflitos mundiais. Quando é mais fácil dar dinheiro para o armamento e a guerra do que para a pobreza e a desigualdade, revelamos uma humanidade doente. No entanto, antes e depois da sombra, temos de continuar sempre a procurar a luz.
quarta-feira, 19 de março de 2025
Reflexões Astrológicas 2025: Ano Novo Astrológico
Reflexões Astrológicas
2025 – Ano Astrológico
Lisboa, 09h02min, 20/03/2025
Sol
Decanato: Marte
Termos: Júpiter
Monomoiria: Marte
O início do Ano Astrológico ocorre, por
convenção vernal e por influência da tradição astrológica do hemisfério norte,
com o ingresso do Sol no signo de Carneiro, logo no decanato de Marte, nos
termos de Júpiter e na monomoiria de
Marte. Note-se, neste ponto preliminar, que se fosse seguida a tradição do Thema Mundi, então o início do Ano
Astrológico aconteceria com o ingresso do Sol em Caranguejo, o que estaria em
harmonia com os primórdios da espiritualidade pagã e com a relação primordial
do humano com a luz celeste. Os solstícios e as lunações são as celebrações
mais antigas e mais enraizadas nessa relação. No entanto, a tradição vernal do
hemisfério norte tornou-se dominante e essa é a que de forma mais agregadora aqui
se segue.
A Lua encontra-se, neste ingresso,
fora do seu segmento, em Sagitário, no mesmo elemento do que em 2024, em Fogo, quando
se encontrava em Leão, e no decanato de Mercúrio, nos termos de Júpiter, tal
como em 2024, e na monomoiria de
Saturno. A presença da Lua num signo masculino e no elemento Fogo não lhe é
naturalmente favorável, pois constitui uma desarmonia que não conduz à
expressão das suas qualidades primárias e inatas. Para a hora de Lisboa, Touro
está a marcar a hora, colocando assim o Sol na XII, no Lugar do Mau Destino (κακόν δαίμων), e a Lua no Lugar da Morte (θάνατος). A
luz, embora sob olhar triangular, encontra-se assim em debilidade, pois a
natureza dos lugares que ocupa enfraquece a sua expressão.
À semelhança daquilo que se enunciou
na reflexão astrológica do ano passado, a questão do regente do ano, tal como é
simplisticamente colocada pela astrologia de massas, assenta ou em premissas
erradas ou em metodologias incoerentes. Dever-se-á considerar, deste modo, como
primeira premissa, a força planetária dominante aquando do início do ano
astrológico. A análise das dignidades revela, excluindo-se primeiramente os
transaturninos, um enfraquecimento de todas as forças planetárias. A Lua, pelas
condições já referidas, vê então a sua natureza feminina e essencial
comprometida. Os benéficos estão ambos nos signos do seu detrimento, Vénus em
Carneiro e Júpiter em Gémeos. Depois tanto Vénus como Mercúrio encontram-se
retrógrados e sob os raios do Sol. Sobram assim os maléficos. Marte está em
Caranguejo, no signo da sua queda. Saturno, não estando favorecido, é o que se
encontra numa posição menos desfavorável. Para o tema de Lisboa, Saturno
encontra-se na XI, no Bom Destino (ἀγαθόν
δαίμων), e numa via ascendente, só suplantada
por Plutão que se encontra conjunto ao Ponto de Culminação. Desta forma,
segundo a premissa das dignidades, Saturno tem sobre o ano astrológico de 2025
uma força mais dominante.
Um outro critério de análise é o dos
ingressos anuais. Ora os planetas de Mercúrio a Júpiter, inclusive, pela
duração dos seus ciclos são compreensivelmente excluídos. Depois de Saturno a
Plutão, com a excepção deste último que permanecerá em Aquário, vão todos
ingressar no signo seguinte: Saturno e Neptuno em Carneiro e Úrano em Gémeos.
Este critério, em conciliação com o anterior, intensifica a predominância de
Saturno. Porém, pelo tempo que cada um permanecerá nesse signo, o ingresso de
Neptuno em Carneiro e de Úrano em Gémeos são, do ponto de vista da astrologia
mundana, de grande importância. A retrogradação levará, todavia, a que esta
mudança seja para já um anúncio, pois ambos vão retornar, em 2025, ao signo de
partida. Neste ponto, também Saturno retornará a Peixes.
Em 2025, a influência de Saturno,
quer em Peixes, quer em Carneiro, torna-se assim uma expressão do tempo, do
destino e da necessidade, uma que se vai relacionar necessariamente com os
novos ciclos de Úrano, Neptuno e Plutão, mas também com a mudança do eixo nodal
de Carneiro-Balança para Peixes-Virgem e por conseguinte com os eclipses anuais.
Por outro lado, o ingresso de Júpiter em Caranguejo permitirá que, durante o
período em que Saturno estiver em Peixes, os dois se unam triangularmente. Esta
é a uma bênção que diverge das quadraturas Júpiter em Gémeos e Saturno em
Peixes e Júpiter em Caranguejo e Saturno em Carneiro. Existe também uma outra
dádiva que é a união dos benéficos no signo de Caranguejo. Nesse momento, a
Grande Mãe, a Deusa da qual tudo nasce e à qual tudo retorna, dar-nos-á a
possibilidade de receber as suas bênçãos. Nesses dias, as potencialidades do
signo de Caranguejo vão alcançar uma expressão maior.
Epicteto,
nas suas Diatribes, diz-nos o
seguinte: “Onde, então, está o progresso?
Se algum de vós, ao afastar-se das coisas exteriores, voltou-se sobre a sua
capacidade de escolha, aperfeiçoando-a e exercitando-a, de modo a torná-la
harmoniosa à natureza, elevada, livre, desimpedida, desembaraçada, leal, digna;
e aprendeu que não é possível ser leal e livre quem deseja ou evita as coisas
que não estão sob seu encargo, mas é necessário modificar-se e vagar junto com
elas, bem como sujeitar-se aos que podem provê-las ou impedir o acesso a elas.”
(I.4, 18-9, trad. Dinucci, 64-5.
Coimbra, 2020: Imprensa da Universidade de Coimbra). A lição de Epicteto é importante
neste ponto, pois fixa a liberdade no que depende de si. Essa é a dádiva. O
destino coloca o seu peso, a sua gravidade, sobre o humano, trazendo fortuna ou
infortúnio, logo não é nos acontecimentos, nas coisas exteriores, que reside a
liberdade. A liberdade pertence ao carácter, pertence à alma, está nas mãos do
humano que se volta para si mesmo e aí encontra o seu livre arbítrio. Colher a
luz da dádiva e receber a Grande Deusa, o poder da origem, é uma escolha.
Bebendo de Dante, no Inferno, somos sombras e sombras vemos, mas no Paraíso,
diante da Rosa Mística, elevamo-nos no amor que move o céu e as estrelas.
A leitura do Segmento de Luz (αἵρεσις) favorece também a acção benévola de Saturno, pois
estando no seu próprio segmento e acima do horizonte vê a força maléfica
contida. No caso dos maléficos, poder-se-ia dizer que o Segmento confere um
carácter de luz de maximus minimus e minimus maximus, ou seja, o maléfico que
pelo segmento tem uma luz maior, tem uma acção malévola menor, e o que tem uma
luz menor, tem uma acção malévola maior. Desta forma, no tema do novo ano
astrológico, Saturno concede as bênçãos do tempo e da necessidade e Marte fere
com tensão e discórdia. Este factor vai firmar a influência predominante de
Saturno no ano de 2025. Lembremo-nos que, face à sua retrogradação, Marte
oferece um caminho de repetição nos signos de Caranguejo e Leão.
Um outro aspecto que também deve merecer
a nossa atenção é o facto de, tanto no tema do ano astrológico de 2025 como no
de 2026, Mercúrio se encontrar retrógrado. No tema de 2026, Mercúrio passará a
directo cerca de 5 horas após o ingresso do Sol em Carneiro. Estas
retrogradações de Mercúrio vão acentuar, por um lado, as dificuldades de
comunicação e a corrupção do poder da palavra e, por outro, uma vez que em 2025
Mercúrio está em Carneiro e em 2026 em Peixes, vão relevar a necessidade de reintegrar
os sentidos profundos e anteriores na construção de um novo pensamento e de um
novo discurso, ou seja, a memória servirá o pensamento futuro. O desafio
apresenta-se também por passar de uma mensagem que fere e que cria divergência
para uma que agrega e que imprime um valor de totalidade. Algo que é tão
difícil nos nossos tempos.
Existe uma certa tendência
astrológica contemporânea para fixar a maioria dos sentidos da astrologia
mundana nos movimentos planetários de Úrano, Neptuno e Plutão, transformando-os
depois numa realidade astrológica individual, quando, na verdade, Júpiter e
Saturno são os maiores indicadores dessa significação e, neste caso, com uma
melhor conciliação entre o individual e o colectivo. Séneca dizia que “Um
homem que entende o dever como limite rigoroso ao poder, pode exercer o seu
poder sem perigo para os demais.” (Ep.90.4;
Cartas a Lucílio, 2ª ed,, trad. J. A. Segurado e Campos. Lisboa, 2004:
Fundação Calouste Gulbenkian).
A união do Dever (Saturno) ao Poder (Júpiter) representa
assim um desafio político e civilizacional de todo o ciclo astrológico. Quando
Marte actua sobre o dever, transforma-o em raiva e em vingança e quando actua sobre
o poder, transforma-o em ganância e em crueldade. Por isso, diz o estoicismo
antigo que devemos dominar as paixões. A alma serena sabe cumprir o seu dever enquanto
a alma prudente serve o poder sem se servir. Ora isto não se implica apenas aos
líderes. Num tema, exercemos domínio e controlo sobre as potencialidades de
Mercúrio, Vénus e Marte e
entregamo-nos às de Júpiter e Saturno.
Em 2025, vai-se firmar a passagem do
eixo nodal de Carneiro-Balança para Peixes-Virgem, ou seja, de um eixo de
identidade para um de integração. Dos quatro eclipses anuais, três ocorrem
neste segundo eixo e um acontece ainda no anterior. Primeiramente, devemos
lembrar-nos que o Dragão da Lua transmite um sentido que se estende da
compreensão do destino, da gravidade daquilo que não pode ser mudado (Cauda Draconis), até à revelação da
necessidade, de que existe um propósito, uma finalidade, em tudo o que acontece
(Caput Draconis). Os eclipses lunares
de 14 de Março e de 7 de Setembro, com o primeiro com a Lua em Virgem e o
segundo em Peixes, trazem consigo o peso da sombra, da escuridão, da ocultação
da luz, sobre o sentido da integração da parte no todo e do todo na parte. Já o
eclipse solar de 21 de Setembro, com o Sol e a Lua em Virgem, vai acentuar o
obscurecimento do valor da parte, ou seja, a parte não encontra o seu lugar na
visão do todo, no sentido da totalidade. Pelo peso da sombra, as coisas separadas
perdem-se, desintegram-se.
Para além da mudança do eixo nodal,
as mudanças de signo de Júpiter e Saturno trazem uma marca distintiva ao novo
astrológico. A 25 de Maio, Saturno ingressa em Carneiro, onde permanecerá até 1
de Setembro, e a 9 de Junho, Júpiter ingressa em Caranguejo. Saturno em
Carneiro absorve a agressividade e a impetuosidade do seu novo lugar. Este é
certamente o Cronos da Titanomaquia, da guerra entre a velha e a nova ordem. Os
Titãs são deuses elementais que nascem de Gaia (matéria) e de Úrano (forma),
enquanto os deuses do Olimpo tornam-se progressivamente deuses ideais ou arquetípicos.
Esta é uma luta de sentido, de poder ou fundamento espiritual. Já Júpiter em
Caranguejo indica o regresso do princípio masculino à sua origem, ao Divino
Feminino. Encontramos aqui relação de Zeus com Reia, sua mãe, e com Gaia, sua
avó. É o jovem Zeus que vemos, por exemplo, em Creta a iniciar-se nos mistérios
do feminino.
Quanto aos transaturninos devemos
destacar, em primeiro lugar, o facto de que com os novos ingressos vão estar os
três em signos masculinos, o que, juntamente com o ingresso de Saturno em
Carneiro, vai definir um novo elemento distintivo. A sua acção será mais
expressiva, revelando, em termos colectivos, um potencial maior tanto em termos
criativos como em termos destrutivos. Quando se encontram em signos femininos,
a sua acção é mais subtil, porventura até mais refinada. São portanto de
esperar transformações geracionais mais radicais e, em certa medida, mais
violentas. Por exemplo, a conjunção de Saturno e Neptuno em Carneiro
tornar-se-á uma força motriz para novos nacionalismos e para novas expressões
ideológicas e governativas do autoritarismo e do totalitarismo. A ilusão do
poder e da guerra fere a acção humana.
Neptuno entra no signo de Carneiro a
30 de Março, regressando a Peixes a 22 de Outubro. Já Úrano ingressa em Gémeos
a 7 de Julho e regressa a Touro a 8 de Novembro. Os movimentos planetários
directos e retrógrados, em 2025, vão ser particularmente significados,
encerrando um sentido passagem entre o progresso e a consolidação, sem que por
isso exista um quadro valorativo inato. Nuns casos, essa passagem fundamenta a destruição
e a discórdia, noutros, a transformação e a inovação. Ora Úrano estará
retrógrado de 6 de Setembro a 4 de Fevereiro de 2026, Neptuno de 4 de Julho a
10 de Dezembro e Plutão de 4 de Maio a 14 de Outubro. Já Júpiter estará
retrógrado de 11 de Novembro a 11 de Março de 2026 e Saturno de 13 de Julho a
28 de Novembro. O poder da potência, a serenidade do sábio, poderá ser mais
forte que o poder da acção, a perícia do guerreiro.
Paralelamente, o ingresso de Úrano
em Gémeos vai fomentar sobretudo um novo paradigma comunicacional e
tecnológico. Vai passar-se do paradigma da sustentabilidade, das alterações
climáticas e da economia verde para o da inteligência artificial e da
destruturação dos media tradicionais, contaminados pelo facilitismo da
desinformação e pela permeabilidade aos interesses político-económicos e
incapazes de acompanhar a velocidade da informação. Por outro lado, o
imediatismo dessa mesma informação, animado pelas dicotomias geminianas, levará
necessariamente à perda de rigor e à corrupção da verdade.
No que aos transaturninos concerne, existirá
a marca de um intenso período de transformações. A marca da guerra e dos
conflitos está sobre o horizonte. Os dois sextis que unirão Plutão em Aquário a
Neptuno (e Saturno) em Carneiro e este a Úrano em Gémeos vão ser um elemento
distintivo dos tempos que se avizinham. São como a ponta de uma seta que fere a
acção humana e as suas escolhas, ou seja, é como se já existisse uma tendência
natural na possibilidade. Em certo sentido, apesar da primordialidade do bem,
existe uma propensão visceral para o mal.
Quanto à geometria de aspectos no
tema do ano novo astrológico deve-se olhar primeiramente para os aspectos ao
Sol. Já referimos o olhar triangular do Sol e da Lua e a presença de Mercúrio e
Vénus sob os seus raios. A quadratura do Sol em Carneiro a Marte em Caranguejo
tem um sentido que se espelha na quadratura da Lua em Sagitário a Saturno (e
Neptuno) em Peixes. Os maléficos que se olham triangularmente fixam o seu
olhar, como com o gume de uma espada, nos luminares. A luz recebe a acção
transformadora da destruição e da discórdia. Nem sempre o bem é o motor da
transformação.
A acção dos maléficos produz, por
vezes, a base, o substrato radical, de uma revolução, de uma transformação
profunda. A humanidade nunca mudou com gestos de assentimento e conformação. Ora
a quadratura da Lua ao Dragão da Lua, embora não no funesto grau do ângulo
recto, vai produzir algo semelhante, mas neste caso por acção da Providência,
da força conjunta do destino e da necessidade. Os antigos astrólogos alertavam
para o perigo deste posicionamento, considerando-a pior que a conjunção à Cauda Draconis. Júpiter em Gémeos também
se une quadrangularmente ao Dragão da Lua, fazendo com que o destino restrinja
a sua dádiva e colocando assim a Lua em Sagitário em oposição.
Os tempos sombrios tendem a ser, ao
longo da nossa história, o prelúdio de grandes transformações. No entanto, para
que se alcance o progresso civilizacional, é necessário passar por períodos de
tensão e obscurantismo. A noção de propósito e finalidade, do sentido da
Providência, mesmo que através da destruição, é corroborado pela conjunção de
Saturno em Peixes à Caput Draconis e
pelo trígono de Marte em Caranguejo a esta co-presença. Por outro lado, como
nem tudo nasce de tensões, a acção do bem também faz o seu caminho, o sextil do
Sol (e de Mercúrio e Vénus) em Carneiro a Júpiter em Gémeos e o trígono da Lua
em Sagitário a Vénus em Carneiro surgem como dádiva e caminho.
Existe hoje uma certa astrologia que
teme a designação de benéficos e maléficos, uns porque a consideram,
erradamente, maniqueísta, outros que, num espírito new age simplista, pensam que é tudo arco-íris e unicórnios, que só
existem tendências, que tudo pode ser mudado, que tudo tem um lado bom. Infelizmente,
a realidade não é assim. Só se pode compreender o valor da dádiva, de uma
bênção, se se interiorizar o valor da sua ausência e do caminho de agruras para
a alcançar. E sim o mal existe. A ignorância é, por exemplo, o maior dos males.
Vénus em Carneiro e Júpiter em
Gémeos trazem-nos as bênçãos do amor em acto e da bondade da palavra. Nos
nossos tempos, nestes tempos sombrios, estas são duas dádivas com um potencial
imenso, todavia, como qualquer tesouro, exigem primeiro disponibilidade e
depois demanda, o que nem sempre é fácil. Curiosamente, existe um outro
tesouro, o Sol, Mercúrio, Vénus e a Lua unem-se hexagonalmente a Plutão em
Aquário que, por sua vez, se une triangularmente a Júpiter. Esta é a bênção que
permite encontrar os vestígios da luz e do bem por entre os destroços, nas
ruínas da realidade, porque sim Plutão é morte e destruição, não é o festival
hippie que nos querem vender. Encontrar uma semente fértil na terra queimada é
uma bênção de Plutão. Hades e Perséfone guardam no interior da Terra a dádiva
da semente que germina. Neste novo ano astrológico, esta será assim uma dádiva
no caminho.
O Ano Astrológico de 2025 é, em suma, um tempo de desafios, de tensão e discórdia. Em termos pessoais, podemos encontrar marcadores benévolos de transformação, mas, em termos mundanos ou globais, este será um ano de limiar em que os conflitos, a guerra, a ignorância definem o peso do destino e o modo como a necessidade força a humanidade a mudar, a tornar-se mais consciente do espírito e dos valores que revelam o humano. Somos humanos, mas escolhemos ser humanidade.
segunda-feira, 17 de março de 2025
Reflexões Astrológicas 2024 - Citação 2
quinta-feira, 13 de março de 2025
Reflexões Astrológicas 2025: Eclipse Lunar Total (Lua Cheia Virgem-Peixes)
Reflexões Astrológicas
Eclipses
Lua
Decanato: Mercúrio
Termos: Marte
Monomoiria: Saturno
Sol
Decanato: Marte
Termos: Marte
Monomoiria: Sol
O Eclipse Lunar Total de dia 14 de Março
ocorre com a Lua no signo de Virgem e com o Sol no de Peixes, com Leão a marcar
a hora e num momento quase coincidente com o nascer-do-sol (hora de Lisboa),
logo no Segmento de Luz (αἵρεσις) do Sol, estando este acima do
horizonte, na I, no lugar do Leme e da Vida (οἴαξ e ζωή), já a Lua está abaixo do horizonte,
na VII, no lugar do Poente (δύσις). A Lua encontra-se pois no decanato de
Mercúrio, nos termos de Marte e na monomoiria
de Saturno, enquanto o Sol encontra-se no decanato e nos termos de Marte e
na sua própria monomoiria. Pela
preponderância dos termos de entre as três dignidades, é fácil constatar o
poder que Marte exerce. Depois da sua retrogradação, Marte despede-se de
Caranguejo, numa posição actual cujos aspectos abraçam o eixo luminar umbral
(trígono ao Sol e sextil à Lua).
A questão dos eixos é bastante
evidente neste tema ao vermos entrelaçados o eixo luminar, o do Dragão da Lua e
o do horizonte. A sombra do eclipse deita-se sobre estes eixos restringindo os
seus sentidos, as suas potencialidades radicais. É também significativo o facto
do eixo luminar e nodal se encontrar agora nos mesmos signos, o que não
acontecera nos dois eclipses lunares de 2024. O eixo Virgem-Peixes, ou seja, o
eixo de integração torna-se agora assombrado. A sombra tolhe pois a integração
da parte no todo, deixando que o obscurecimento dracôntico recaia sobre o
sentido da parte e o valor da totalidade.
Epicuro, num dos seus fragmentos, diz-nos o seguinte: “Nunca pretendi agradar ao vulgo; daquilo que
eu sei o vulgo não gosta, daquilo que o vulgo gosta não quero eu saber.” (fragm. 187 Usener Οὐδέποτε ὠρέχθην τοῖς πολλοῖς ἀρέσκειν. ἃ μὲν γὰρ ἐκείνοις ἤρεσκεν, οὐκ ἔμαθον· ἅ δʼ ᾔδειν ἐγώ, μακρὰν ἦν τῆς ἔκείνων αἰσθήσεως. A tradução da minha
responsabilidade). A visão da totalidade não é
a visão do comum. Esta última pode sim assombrar aquele que procura a
totalidade pela via do vulgo. Entre o comum, o valor extraordinário está na
unicidade. É, por exemplo, uma experiência cada vez mais rara, por vezes surge apenas
uma vez na vida, mas felizes são aqueles que encontraram, no meio da multidão,
aquela pessoa que anula tudo o resto, que é a totalidade na unicidade. É uma
experiência que transcende o vulgo e que exemplifica nomeadamente a exaltação
de Vénus no signo de Peixes.
Neste sentido, e utilizando a significação radical do
eixo Virgem-Peixes, a totalidade não é uma mera soma de partes, permite que uma
parte ganhe a luz de totalidade, vencendo a perda de sentido que existe no
vulgo. Pode não ser consensual, mas é a ideia de que a totalidade não provém
nem do rebanho, nem da manada, daí a beleza da máxima de Epicuro. As ideias do
vulgo são como a sombra do eclipse, estendem-se e alastram-se não pelo seu
sentido e valor, mas sim pela sua extensão e permanência. Não é por acaso que a
visão da montanha, de Heraclito a Nietzsche, seja uma visão solitária. A sombra
quando colocada sobre o eixo Virgem-Peixes impede que a parte siga a luz da
totalidade e, por outro lado, a totalidade não chega às partes, não as torna sementes
da sua intuição radical. O actual eclipse adquire, desta forma, um sentido
profundo nessa significação.
Com a Lua numa condição pós-poente, conjunta à Caput Draconis, estando esta acima do
horizonte, o destino força assim a sua gravidade sobre a luz de cada parte, de
cada partícula de estrela. A sombra, com o seu manto, cobre essa luz inata,
constrangido o seu potencial de totalidade. Contrariamente, o Sol sobe com o
manto umbral, elevando a mensagem da Caput
Draconis, da necessidade como razão de ser de tudo o que acontece e como
finalidade de tudo o que acontecerá. Os eclipses no eixo Virgem-Peixes têm o
valor de ciclo, de eterno retorno, uma vez que, dado a natureza do movimento do
Dragão da Lua, iniciou-se um novo ciclo da integração à identidade, ou seja, de
novo, retornando, até ao eixo Carneiro-Balança. De acordo com a herança
estóica, é uma nova possibilidade de integrar a Alma do Mundo na alma humana,
pedindo-se assim uma compreensão da simpatia universal.
O eclipse lunar de dia 14 terá uma influência temporal,
se atentarmos à declinação dos luminares, próxima dos dois meses e meio. Já se
observarmos a duração do período umbral e total, excluindo-se o tempo
penumbral, o tempo de influência fixar-se-ia entre um mês e cerca de três meses
e meio. No entanto, o período até ao eclipse solar de 29 de Março e depois todo
o mês de Abril será o mais intenso. Os eclipses lunares trazem um influxo de
sombra à relação primordial entre a Lua e a Terra, o que pode levar, como já vimos
em diversos momentos, a desastres naturais e, dada a concentração planetária no
eixo Virgem-Peixes, os sismos com origem no mar e as erupções vulcânicas com
origem semelhante, por exemplo, o vulcão submarino Columbo em Santorini ou
Thera, estão potenciados. Por outro lado, os surtos de certas doenças podem
também tomar umas proporções maiores, sobretudo quando ligados à vacinação. Por
exemplos, os surtos de sarampo, devido a uma diminuição da vacinação por
loucura ideológica, podem aumentar, tais como os de outras doenças cujas vacinas
tinham tornado o número de casos residuais.
A influência geográfica do eclipse de dia 14 tem o seu
centro no Oceano Pacífico, ao largo das Ilhas Galápagos. O manto umbral e
penumbral expandir-se depois pelas Américas, pela Europa e pela África. Nestes
dois continentes, o manto penumbral tocará apenas as áreas ocidentais. Segundo
as regências geográficas antigas, Vétio Valente (Antologia I, 2) diz-nos que Virgem rege a
Mesopotâmia, a Babilónia, a Grécia, a Acaia (Grécia), Creta, Cíclades (Grécia),
Peloponeso, Arcádia, Cirene (Líbia), Dória (Grécia), Sicília e Pérsia ou Parsa
(Irão). Manílio, por seu lado, afirma que a Jónia (Turquia), a Cária (Turquia),
Rodes e a Grécia estão sob a sua influência (Astronomica IV, 763-8). Já Peixes exerce influência sobre o
Eufrates e o Tigre, a Síria, o Mar Vermelho e o Mar Arábico, a Índia, a
Média-Pérsia e as regiões circundantes, o rio Borístenes ou Boristene
(Dniepre), a Trácia, a Ásia e a Sardenha. Manílio, por seu lado, concede a
Peixes o Eufrates, o Tigre e o Mar Vermelho, as terras da Pártia, a Báctria, a
Etiópia, a Babilónia, Susa e Nínive (Astronomica IV, 800-6).
Se compararmos estas áreas de
influência com o avanço do manto umbral e penumbral, observamos que as mudanças
estão próximas da divisão das placas tectónicas dessa área geográfica,
começando na Placa de Nazca, passando pelas várias placas americanas e
terminando no início da placa africana e da placa euro-asiática. De um ponto de
vista astrológica, os temas dos dois eclipses de Março mais a passagem de
Saturno e Neptuno de Peixes para Carneiro vai agravar a acção destrutiva de
Gaia. As regências antigas vão colocar o nosso olhar sob a Grécia, a Turquia e
a Sardenha, sem que Portugal e Marrocos percam a atenção. O sentido desta
análise não é catastrofista, pois foca-se, pelo contrário, na ideia estóica de que
o cosmos se renova por conflagração e dilúvio. Estes movimentos da cosmologia
de Cleantes, de uma διακόσμησις, e de uma transformação elemental de
fogo para ar e de ar para água, não têm um carácter valorativo ou axiológico
original, ou seja, não podemos dizer que é bom ou mau. Desta forma, é preciso
ver em Gaia vida e morte, criação e destruição, e amá-la de todas as formas,
não esquecendo que quanto maior for a agressão humana, maior será a reacção.
O eclipse lunar de 14 de Março
pertence à série Saros 123, sendo o 53º eclipse de um total de 73. É o 23º
eclipse dos 25 eclipses totais da série, o que já revela uma maturação da sua
proposta significativa. Como já considerámos por diversas vezes, o eclipse
inicial serve de matriz de sentido para toda a série. Ora o primeiro eclipse
desta série ocorreu a 16 de Agosto de 1087 (Calendário Juliano). A Lua estava
em Peixes e o Sol em Virgem, já o Dragão da Lua estendia-se de Aquário (Cauda) a Leão (Caput). Mercúrio e Vénus estavam em Virgem, Marte em Capricórnio,
Júpiter em Gémeos e Saturno em Touro. No transaturninos, Úrano estava em Carneiro,
Neptuno em Caranguejo e Plutão em Peixes. Nesta data e na hora de Lisboa, Touro
marcava a hora e Capricórnio culminava. A série Saros 123 terminará a 8 de
Outubro de 2367, com um eclipse no eixo Carneiro-Balança, ou seja, com a Lua em
Carneiro e o Sol em Balança.
O tema do eclipse-matriz apresenta-nos vários indicadores
de sentido do eclipse de dia 14. A inversão do eixo luminar face ao actual é
assinalável, bem como a relação com o período anterior ao que vivemos, ou seja,
com marcadores no eixo Carneiro-Balança. Veja-se, por exemplo, que é neste eixo
que termina a série. Na génese, Plutão em Peixes revelava o potencial de
transformação, da destruição que antecede o lugar da semente e que assistimos hoje
com as presenças astrológicas neste mesmo signo. Já Júpiter em Gémeos, tal como
agora, transporta-nos para o valor da dádiva. Estamos nos últimos meses desta posição
benéfica, pois, a 9 de Junho, Júpiter ingressará em Caranguejo, trazendo-nos
depois outras bênçãos.
Do ponto vista histórico, aquando do eclipse-matriz,
podemos assinalar a morte de Guilherme o Conquistador, o primeiro rei normando
de Inglaterra, a 9 de Setembro. Este será sucedido pelo filho, Guilherme, o
ruivo, futuro Guilherme II, coroado na Abadia de Westminster. Ora este teve de
ser ágil a subir ao trono, pois não havia sido designado formalmente como sucessor.
Em Londres, um grande fogo destrói uma parte assinalável da cidade, inclusive a
Catedral de São Paulo, que será reconstruída em dimensões bem maiores. Por
outro lado, a 16 de Setembro, morre o Papa Vítor III, com apenas um ano de
pontificado. Um facto também assinalável neste período é a acção de Rodrigo
Díaz de Vivar, conhecido por El Cid, na estabilização da região em torno de
Valência que se havia revoltado contra o governante muçulmano Al-Qadir. Este
foi um ponto de viragem na guerra entre os espanhóis e os muçulmanos pelo
controlo territorial da Península Ibérica.
No tema do eclipse lunar de dia 14, estabelecido para a
hora de Lisboa, podemos observar que, face ao segmento de luz dominante, tanto
os benéficos como os maléficos têm posições muito bem definidas. Por ser um
tema em que segmento dominante é o do Sol, o grande maléfico é Marte em
Caranguejo que, como já se disse, se une por sextil à Lua em Virgem e por
trígono ao Sol em Peixes. Este Marte em Caranguejo une-se por sua vez também em
trígono a Saturno em Peixes. A união dos maléficos, mesmo que em trígono e
lembrando a lição de Petosíris, teve ser sempre considerada com atenção. Neste
caso, a tensão traduz-se como expressão do destino. Se pensarmos que Saturno em
Peixes é, por excelência, o Cronos do mito da Idade do Ouro e que Marte em
Caranguejo é o jovem deus ou herói sob a protecção da Grande Mãe, podemos ver
aqui uma proposta escatológica de sentido. Do mar primordial, a Deusa
ressurgirá. Com a tempestade, a humanidade terá de escolher a sua via.
Paralelamente, o benéfico potenciado pelo segmento de
luz, Júpiter em Gémeos, une-se quadrangularmente a cada do um dos planetas e
pontos astrológicos colocados no eixo luminar umbral. É como uma dádiva oculta
que serve de fiel da balança entre a luz e a sombra. Existe algo de voluntário
na ocultação desta bênção, ou seja, ela é visível, mas a humanidade escolhe
ignorá-la. Está portanto oculta, mas à vista de todos. A palavra que
transforma, que leva consigo o valor do bem é deliberadamente corrompida. A
comunicação serve hoje a corrupção de uma dádiva e, seja por esvaziamento ou
simplificação, seja por distorção ou malícia, a capacidade de mediar o eu e o
outro segundo os dons de Hermes vive hoje tempos sombrios. Se negarmos
continuamente essa capacidade e esses dons, a humanidade perde-se e a
bestialidade vence.
Úrano em Touro, ocupando no tema de Lisboa o Lugar da
Deusa, vem dar aos dons de Hermes a revolução da Terra. Ao unir-se em sextil ao
Sol em Peixes e em trígono à Lua em Virgem vai participar deste manto umbral,
concedendo pela sua mensagem as bênçãos do destino. Úrano em Touro vai
destruturar os padrões cristalizados e possibilitar um sentido de mudança.
Devemos ter também em consideração que, em 2025, Úrano vai ingressar pela
primeira vez em Gémeos (7 de Julho), logo o valor da sua presença ao deixar o
signo de Touro tornar-se-á mais evidente. O facto de ser encontrar em sextil
tanto com Marte em Caranguejo como com Saturno em Peixes acentua o elemento de
liberdade sobre os padrões negativos actuais, ou seja, só seguimos as
estruturas cristalizadas se quisermos. O pensamento ecológico e a necessidade
de uma economia verde, bem como o imperativo da criação de um novo modo de
vida, serão cada vez mais evidentes. O sextil com Neptuno contribui para que
juntos, Úrano e Neptuno, valorizem e promovam uma outra forma de estar, de
estar uns com os outros e estar no mundo, em especial, neste planeta. A
Mãe-Terra tende ser uma deusa benévola. No entanto, a quadratura com Plutão em
Aquário, ocupando a XII, o Mau Destino (κακόν
δαίμων), vem relembrar aquilo que os
gregos definiam por ὕβρις, a desmedida. A ignorância e os erros, a acção que fere o
limite, têm um preço e são a origem de uma reacção, uma que tendemos a
desvalorizar.
No
tema do eclipse, e face aos sentidos já enunciados, o facto de Plutão ser o
astro mais alto, aquele que se aproxima mais da culminação, traz consigo a
significação da máxima ou mote Et in
Arcadia ego, traduzida por E a morte
também vive na Arcádia. A possibilidade de acolher a morte na
bem-aventurança, no lugar idílico da Terra-Mãe, um lugar perdido, serve hoje de
elemento de transformação. A finitude torna-se também finalidade. A união por
sextil de Plutão em Aquário a Mercúrio e Vénus retrógrada em Carneiro e por
trígono a Júpiter em Gémeos partilha esse sentido de morte da semente como
dádiva da flor e do fruto. Existe uma acção (Carneiro) e uma mediação (Aquário
e Gémeos) nessa condição natural de possibilidade. O fim colhe a bênção da
morte, todavia, existe aqui um elemento de vontade, ou seja, temos de ser
levados pelo ar como a semente, mas como acolher voluntariamente as profundezas
da terra. Para ser a transformação, temos de ser, temos de escolher ser, a
morte e o renascimento.
Mercúrio e Vénus em Carneiro, com a Vénus retrógrada e
com Mercúrio prestes a iniciar o seu recuo (15 de Março), promovem o
significado da acção reflexa, da recuperação do acto suspenso. Existe uma
palavra que regressa, um amor que retorna. É como recuperar a linha na meada, a
linha perdida. Nessa via, a acção olha para si mesma e recupera o sentido.
Porém, o olhar quadrangular destes a Marte em Caranguejo coloca a tensão no
perigo de se perder de origem, de não se ver essa linha perdida e não se recuperar
o centro do novelo. Contrariamente, o sextil de Mercúrio e Vénus a Júpiter
dão-nos a possibilidade de escolher a acção de chamar o outro, de escolher quem
se une e enlaça nesse regresso ao sentido original. É a recuperação da via do bem.
O Eclipse Lunar Total de 14 de Março, assinalando uma transição entre o ano astrológico de 2024 e o de 2025 e também a mudança no eixo nodal, é um momento de passagem em que o manto umbral firmará a necessidade de integrar o valor de cada parte, de cada partícula de ser, no sentido do todo, na proposta de totalidade. Se somos sombra, sombra vemos, mas se somos luz, só a luz vemos.