sexta-feira, 17 de julho de 2020

Reflexão Astro-Filosófica 14


Reflexão Astro-Filosófica 14 - Rodolfo Miguel de Figueiredo


Reflexões Astro-Filosóficas
Contributos para uma Filosofia da Astrologia



#14.

   Platão, na República, diz-nos o seguinte: “Assim que todas as almas escolheram as suas vidas, avançaram, pela ordem de ordem da sorte que lhes coubera, para junto de Láquesis. Esta mandava a cada uma o génio que preferira para guardar a sua vida e fazer cumprir o que escolhera. O génio conduzia-a primeiro a Cloto, punha-a por baixo da mão dela e do turbilhão do fuso a girar, para ratificar o destino que, depois da tiragem à sorte, escolhera. Depois de tocar no fuso, conduzia-a novamente à trama de Átropos, que se tornava irreversível o que fora fiado. Desse lugar, sem se poder voltar para trás, dirigia-se para o trono da Necessidade, passando para o outro lado. Quando as restantes passaram, todas se encaminharam para a planura do Letes, através de um calor e uma sufocação terríveis” (620d-621a). No Mito de Er, Platão concede ao destino uma matriz que é tanto escatológica como teleológica. A Necessidade opera os seus desígnios com uma finalidade que é essencialmente didáctica. A alma evolui, avança num caminho que se afasta do esquecimento, da ignorância, e trilha a via da sabedoria e da verdade.

   Numa perspectiva astrológica, poder-se-ia dizer que a proposta de Platão é determinista, todavia, a acção da alma demonstra uma liberdade pedagógica, pois é ela que escolhe a vida que irá ter e o génio (δαίμων) que ajudará a realizar esse destino. A presença deste génio estará marcada no tema natal nas casas XI, o Bom Espírito (ἀγαθὸς δαίμων), e XII, o Mau Espírito (κακὸς δαίμων) e na Parte do Espírito. A verdade no sentido grego da palavra ἀλήθεια implica uma anulação do esquecimento, uma reminiscência do destino por nós escolhido, ou seja, para conhecer a verdade que o nosso destino revela temos de recordar aquilo que, em liberdade, escolhemos. O livre-arbítrio não é mais do que a possibilidade de não seguir a via electiva, de não cumprir a proposta didáctica de evolução. Não é, na verdade, uma mudança do destino. É o acto possível de rejeitar o caminho da alma. No essencial, a Necessidade é, porém, irreversível.


Bibliografia

Platão, 1996, A República, 8ª Edição, trad. M. H. da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

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