sexta-feira, 29 de maio de 2020

Reflexão Astro-Filosófica 7




Reflexões Astro-Filosóficas
Contributos para uma Filosofia da Astrologia


#7

Plutarco, no livro Sobre a Face Visível no Orbe da Lua, diz o seguinte: “Então, quando o Sol volta a semear o intelecto com a sua força vital, a Lua recebe-o, e a Terra acrescenta o corpo, em terceiro lugar. Depois da morte, a Terra não dá nada, mas apenas restitui o que tomou com vista ao nascimento, o Sol não toma nada, senão o intelecto que ele próprio dá, ao passo que a Lua toma e dá, compõe e divide, de acordo com cada um dos poderes que possui” (945 C). O texto de Plutarco permite-nos compreender a qualidade intermediária ou demiúrgica da Lua e a sua função criadora, daí os astrólogos antigos lhe tenham atribuído, juntamente com o Horóscopo, a capacidade de animar, de dar a vida, regendo assim o corpo e as funções biológicas. Algo que é extensível à Parte da Fortuna, por vezes designada de Ascendente ou Horóscopo da Lua. A relação da Lua com a vida, logo com o Horóscopo, pode ainda ser astrologicamente compreendida pela Trutina Hermetis, tanto na sua formulação clássica como árabe, que lhe concede o poder sobre a concepção e o nascimento.

   A descrição de Plutarco assenta, porém, numa outra atribuição, que está também ela relacionada com a função vital. A Lua é o lugar da alma. A sua intermediação entre o Intelecto e o Corpo, entre o Sol e a Terra, conserva o seu potencial criador, uma vez que a capacidade de compor e dividir, de unir e separar, é por excelência uma condição vital. A vida surge desse binómio de harmonia e conflito, dessa guerra dos contrários, e, embora a vida nasça do Intelecto, do Sol Criador, é a Lua que a anima, que permite que a vida surja no corpo. Plutarco afirma, desse modo, que “A alma é modelada pelo intelecto e modela, por sua vez, o corpo, envolvendo-o completamente” (945 A). A relação entre o Intelecto, a Alma e o Corpo é apresentada na astrologia antiga pelo tríptico Sol, Lua e Horóscopo.

   A qualidade demiúrgica da Lua é astronomicamente apreendida pelo facto de não possuir luz própria, mas sim por reflectir a luz do Sol. No entanto, sem a presença física da Lua, não existindo portanto Dia e Noite, a luz solar tornar-se-ia abrasiva, logo destruidora. É, desta forma, redutor reduzir a lua à sua função psicológica, ao seu domínio sobre as paixões. A Lua não se limita a expressar as emoções e os sentimentos e a guardar os medos e os complexos internos. A Lua é uma deusa criadora.


Bibliografia

Plutarco, 2010, Obras Morais: Sobre a Face Visível no Orbe da Lua, trad. B. Mota. Coimbra: Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos (Universidade de Coimbra - Faculdade de Letras).

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