sexta-feira, 22 de maio de 2020

Reflexão Astro-Filosófica 6




Reflexões Astro-Filosóficas
Contributos para uma Filosofia da Astrologia



#6.

Manílio, no seu poema didáctico-filosófico Astronomica, diz-nos para “Conhecer de cada signo as divindades tutelares/ e que deus a sua natureza lhes consagra,/ quando dá às magnas virtudes a divina face/ e coloca sob o sagrado nome as várias forças,/ para que cada pessoa lhes imponha gravidade.” (II, 440-4: noscere tutelas adiectaque numina signis / et quae cuique deo rerum natura dicavit, /cum divina dedit magnis virtutibus ora, /condidit et varias sacro sub nomine vires, / pondus uti rebus persona imponere posset.). Estes versos apresentam uma relação que estabelece as fundações do sistema astrológico e cujo argumento contraria muitas das críticas, feitas ao longo dos tempos, à astrologia. Os signos ou os planetas da astrologia não são os corpos celestes da astronomia.

A partir do momento que a astrologia recorre a um elemento físico consagrado por um elemento numinoso, este deixa de ser o elemento físico primário, tornando-se uma representação que transcende a sua natureza primordial. Júpiter, por exemplo, deixa de ser apenas o maior planeta do sistema solar, com uma órbita e características próprias, para se tornar o deus-pai, senhor do Olimpo, líder de deuses e humanos, alguém a quem se atribui certas virtudes. Esta atribuição de valor, de significação mimética, constitui uma das bases do sistema de representação que torna a astrologia uma linguagem. Naturalmente, e uma vez que o elemento primário é de natureza física, a astrologia partilha conceitos e modelos interpretativos com a sua congénere epistemológica.

O sentido dos versos de Manílio encontra-se resumido no último verso. A ideia de que se impõe gravidade ao nome dos corpos celestes através do elemento numinoso é a chave de toda a interpretação. O imponere, este “colocar sobre”, bem como o termo pondus, que indica “peso”, “influência” ou “autoridade”, implicam uma alteração da condição inicial e uma transformação da realidade representada. A compreensão da transferência de sentido indicada por Manílio é fundamental para a construção de uma filosofia da astrologia.



Bibliografia

Goold, G.P., 1985, M. Manilii Astronomica. Leipzig: B. G. Teubner. 


Nota: A tradução do latim é da minha responsabilidade.

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