sexta-feira, 17 de abril de 2020

Reflexão Astro-Filosófica 1



Reflexões Astro-Filosóficas
Contributos para uma Filosofia da Astrologia


#1. 

   Séneca, na segunda epístola de Cartas a Lucílio, satisfeito com o comportamento de Lucílio, diz o seguinte: “não viajas continuamente nem te deixas agitar por constantes deslocações”; acrescentando que “um semelhante deambular é indício duma alma doente: eu, de facto, entendo que o primeiro sinal de um espírito bem formado consiste em ser capaz de parar e de coabitar consigo mesmo” (2,1). Ora Séneca atribui nesta epístola uma sentido ao movimento, tornando a viagem um processo de se estar em si, parando, suspendendo a acção exterior e transferindo o movimento para interior.

   Na astrologia, em especial na astrologia antiga, encontramos, por exemplo, esse valor filosófico da viagem no eixo que une Gémeos e Sagitário e as casas III e IX. Num sentido imediato, existe um gradação de valor no significado do eixo, seja por lhe atribuirmos a viagem, a passagem da terra-mãe para o estrangeiro, a terra estranha, ou por fixarmos nela a aprendizagem, o ensino ou a cultura. No entanto, o sentido que os antigos davam às casas III e IX caracteriza o movimento interior referido por Séneca, pois a III é a Deusa, a Lua, e a IX o Deus, o Sol, ou seja, este é o eixo do sagrado, da experiência iniciática do mistério do par divino. A alma apreende assim, nessa coabitação consigo mesmo, a unidade de uma dualidade, a harmonia dos opostos.

   O filósofo estóico resume a mensagem, afirmando que “Estar em todo o lado é o mesmo que não estar em parte alguma” (2,2). O acto, por vezes difícil, de suspender a realidade exterior, de parar a dispersão do comum, e centrar a alma em si mesma é um processo essencial. E esse torna-se o verdadeiro sentido da viagem. Séneca, logo na primeira epístola, recomenda-nos o seguinte: “reclama o direito de dispores de ti, concentra e aproveita todo o tempo que até agora te era roubado, te era subtraído, que te fugia das mãos” (1,1). A possibilidade de se dispor do tempo e a viagem enquanto coabitação consigo mesmo traduzem uma realidade filosófica e astrológica.



Bibliografia

Séneca, 2004, Cartas a Lucílio, 2ª ed,, trad. J. A. Segurado e Campos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

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