quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Breves Notas Biobibliográficas: Balbilo

Balbilo

Colossos de Mémnon,
Duas estátuas de Amenófis III.
Egipto: Luxor
(Fonte - Wikipedia)

Notas Biográficas


            Balbilo (Tiberius Claudius Balbillus), filho do gramático, filósofo e astrólogo Trasilo (Tiberius Claudius Thrasyllus) e da princesa Áca (ou Áca II) de Comagena, filha de Mitrídates III e irmã de Antíoco III, terá nascido entre 1 AEC e 3 EC, provavelmente em Alexandria ou em Rodes, e morrido entre 79 e 81 EC. Se seguirmos a tese de que Antíoco de Atenas, ou Caio Júlio Antíoco Epífanes Filopapo, era seu neto, concluímos então que pertenceu à única linhagem de astrólogos da corte que se conhece. A dificuldade dos editores e copistas grafarem o seu nome gerou algumas confusões, sendo referido, sobretudo em textos mais tardios, como Barbilo ou Babilo. Com esta confusão de nomes, Balbilo pode até ser o astrólogo Sula, referido por Suetónio (Calígula, 57). É portanto seguro afirmar-se que as várias referências textuais dizem respeito ao astrólogo do século I EC.   

            A actividade do pai decorreu nos reinados de Augusto (63 AEC - 14 EC) e de Tibério (42 AEC - 37 EC), mas sobretudo no deste último e a partir do momento em que este se refugiou em Rodes (1 AEC – 4 EC). Depois da morte de Trasilo, em 36 EC, Balbilo tê-lo-á substituído na corte de Tibério. Balbilo conseguiu ser astrólogo e conselheiro de pelo menos quatro imperadores romanos: Tibério, Cláudio (10 AEC – 54 EC), Nero (37 – 68 EC) e Vespasiano (9 – 79 EC). Poderá até ter estendido a sua actividade ao tempo de Tito (39 – 81 EC) e dos primeiros dias ou meses de Domiciano (51 – 96 EC).

            A morte de Tibério e a ascensão de Calígula (12 – 41 EC) que, na verdade fora patrocinada por Trasilo, em detrimento da pretensão de Tibério Gemelo, não lhe fora favorável. Curiosamente, poderá ter cometido o mesmo erro que o pai ao favorecer Nero em vez de Britânico. Balbilo, no ano de 37, provavelmente logo após a morte de Tibério, a 16 de Março, foge para o Egipto, onde permanece até ao assassinato de Calígula. A sobrinha de Balbilo, Énia Trasila, que fora inclusive amante e pretendente de Calígula, é forçada a suicidar-se, juntamente com o marido, Macro, perfeito dos pretorianos, tornando-se assim mais uma vítima do novo imperador.

            Em Alexandria, Balbilo começa a igualar a fama de erudito do pai, de tal forma que é por essa razão que integra e chefia, juntamente com Quéremon e Arquíbio, a embaixada a Roma, após a subida de Cláudio ao trono imperial. Na carta de 10 de Novembro de 41, em resposta a essa embaixada, Cláudio define Balbilo como amigo (Pap. Lond. 1912). De facto, a família de Trasilo terá estado entre os poucos apoios que o jovem Cláudio terá tido. Um erudito egípcio como Trasilo poderá até ter ajudado a curiosidade intelectual do improvável imperador.

            Foi, desta forma, no reinado de Cláudio que se deu uma evolução meteórica na carreira de Balbilo. Nenhum astrólogo antigo alcançou a proeminência política de Balbilo, exceptuando talvez os imperadores que eram também astrólogos amadores, como por exemplo Tibério ou Adriano. Balbilo terá deixado o Egipto e passado a integrar o grupo de conselheiros do imperador Cláudio. A primeira honra que terá recebido foi a incumbência de tratar das embaixadas e de elaborar a respectiva resposta imperial em grego. Esta função concedeu-lhe laços de amizade com as gentes de Pérgamo e Éfeso, comprovadas por várias inscrições.

            Em 43, durante a campanha militar, Balbilo acompanhou Cláudio à Britânia com o cargo de tribunus militum, pertencendo à XX Legião e chefiando o corpo de engenharia (praefectus fabrum). Após a vitória, Balbilo recebeu das mãos de Cláudio a coroa hasta pura e pela mesma altura, ou até antes, tornou-se sumo-sacerdote do templo de Hermes em Alexandria, cargo que lhe daria a responsabilidade sobre todos os edifícios imperiais do Egipto, inclusive sobre o Serapeum e o Museum. Como agradecimento, Balbilo criou na Biblioteca de Alexandria o Instituto Claudiano, onde as obras do imperador seriam lidas uma vez por ano.

            Balbilo terá casado entre os anos 40 e 50 e, embora não se conheça a identidade de sua mulher, teria por certo uma ascendência social de relevo. Do casal conhece-se apenas uma filha, Cláudia Capitolina, que, do primeiro casamento, com Caio Júlio Arquelau Antíoco Epífanes, filho de Antíoco IV de Comagena, teve dois filhos: Caio Júlio Antíoco Epífanes Filopapo, provavelmente o astrólogo Antíoco de Atenas, que foi tornado cônsul, em 109 EC, pelo imperador Trajano e Júlia Balbila, a poeta que foi também dama de companhia da imperatriz Sabina, mulher do imperador Adriano, e que os acompanhou na sua longa viagem pelo império. Depois dos seus netos, desconhece-se a genealogia da família.

            Para além da amizade com o imperador Cláudio, a proximidade com Agripina, a Jovem, mulher de Cláudio e mãe de Nero, foi determinante para Balbilo. Terá sido por sugestão do astrólogo que Agripina convenceu o imperador a fazer regressar Séneca do exílio para se tornar tutor do jovem Nero. Quéremon, o mesmo que chefiara com Balbilo a embaixada de 41, terá tido também a mesma função. A educação do futuro imperador foi, desta forma, determinada por três homens de grande relevo na sua época: Séneca, Quéremon e Balbilo. O astrólogo terá sido, juntamente com Agripina, um importante defensor da pretensão de Nero ao trono imperial. A casa de Trasilo mostrou-se sempre fiel à dinastia júlio-claudiana e aos seus sucessores naturais.

            Apesar de terem sido anos conturbados, Balbilo beneficiou com o reinado de Nero, sobretudo nos primeiros anos. De 55 a 59, o astrólogo foi elevado ao cargo de Perfeito do Egipto e terá sido nestes anos que Balbilo escreveu a sua obra astrológica Astrologómenos. No entanto, a partir de 59, a instabilidade começou-se a assentar na sua vida. No mesmo ano, morre Agripina. A imperatriz Cláudia Octávia, sobrinha-neta do imperador Tibério e de quem Balbilo também era próximo, vê-se ameaçada pela ambição de Popeia Sabina. Nero, apesar de a sua decisão ser profundamente impopular e de ameaçar a estabilidade política, divorcia-se de Cláudia Octávia, que morre num suicídio encenado, e casa com Popeia em 62 EC. A nova imperatriz traz consigo o astrólogo de Otão, o seu anterior marido e futuro imperador. Ptolomeu Seleuco, que ficou para a história como oportunista e de quem nada se sabe, terá antagonizado Balbilo e com a nova imperatriz terá impedido o erudito de se refugiar no Egipto.

            O destino exerceu, todavia, o seu papel na vida de Balbilo. A passagem do cometa de 64 EC e a morte de Popeia e fuga de Ptolomeu Seleuco para a Lusitânia, para junto de Otão, em 65 EC, firmaram a sua influência e garantiram a sua segurança e a da sua família. O tema dos cometas, embora partilhado por outros, nomeadamente Séneca e Quéremon, fora determinante para a Casa de Trasilo. Em 64 EC, terá sido Balbilo a apontar como alternativa a morte de romanos nobres para atenuar o efeito negativo do cometa. Se assim foi, podemos concluir que a concepção de destino não era tão absolutamente predeterminada como se fazia crer. O destino podia ser alterado. Para corroborar essa ideia, basta lembrarmo-nos de Olímpia que terá atrasado o trabalho de parto para que Alexandre nascesse no tempo eleito ou de Seleuco que terá esperado por esse momento electivo para criar a Selêucia.

            Com o assassinato de Nero, Balbilo desaparece. De a 68 a 69 EC, desconhece-se o seu paradeiro. No entanto, uma vez que as tropas de Vespasiano estava aquarteladas no Egipto e como Balbilo desejava permanecer neutro, Éfeso fora provavelmente o seu destino. O período atribulado da ascensão e queda de Galba, Otão e Vitélio não se revelou favorável a Balbilo. Já a subida de Vespasiano ao poder, que conhecia da corte de Nero, ter-lhe-á dado uma nova oportunidade. A aproximação de Balbilo a Vespasiano ter-se-á iniciado quando influenciou Antíoco IV de Comagena a dar o seu apoio militar ao futuro imperador. Este enviou o seu próprio filho, Antíoco Epífanes, o genro de Balbilo, como comandante das suas tropas. Balbilo, e anteriormente Trasilo, patrocinaram sempre a relação entre Roma e Comagena, isso não impediu, todavia, que Vespasiano depusesse Antíoco IV e anexasse o reino de Comagena. Em 73 e 74 EC, Balbilo terá, porém, tentado favorecer o destino da família real que pôde viver em paz na Grécia, daí que o seu neto, Antíoco Epífanes Filopapo, surja em Atenas, em 109 EC, como cônsul sob os auspícios de Trajano e da sua mulher Plotina.

          É possível que Balbilo tenha sido a fonte da interpretação do cometa de 79 EC, e provavelmente também do de 76 EC. Esta ideia de a passagem de um cometa não ser sinal de desgraça fora também defendida por Séneca e Quéremon. Já a respeito dos eclipses, Balbilo influenciara Cláudio a publicar, em 45 EC, um édito imperial que fixava a possibilidade de um eclipse não ter um efeito negativo. Ora esta ideia era particularmente relevante tanto para quebrar certas superstições entre os soldados como para atenuar a hipótese de um imperador nascer num eclipse, como tinha sido o caso de Cláudio. No entanto, independentemente da interpretação benéfica, Vespasiano morre pouco depois da passagem do cometa de 79. Depois disso deixamos de ter registo da actividade de Balbilo. O astrólogo pode, contudo, ter sido o autor da previsão da morte precoce de Tito e não Apolónio de Tiana, como refere Filóstrato (6.32), e, desta forma, Balbilo pode ter vivido para além do ano 79, mas é pouco provável que tenha morrido depois de 81.

            Vespasiano atribuiu ao astrólogo uma última honraria. Em Éfeso, a partir de 85 ou 86 EC, começou-se a celebrar a Balbileia, um festival com jogos em sua homenagem, que realizar-se-ia a cada quatro anos. Talvez por ter passado esse mesmo período temporal desde a sua morte. Deste festival, temos registo pelo menos até ao século III EC. A actividade de Balbilo, enquanto astrólogo e conselheiro de imperadores, tornou-se de tal forma célebre que levou a sua neta, Júlia Balbila, quando acompanhou o imperador Adriano e a sua mulher Sabina na sua visita ao Egipto, a gravar na perna de um dos Colossos de Mémnon um epigrama que refere os seus avôs: “o sábio Balbilo e Antíoco o rei”. Desconhecemos, no entanto, se as mulheres da sua família também seriam versadas na sua arte. A falta de informação dever-se-á mais à misoginia da história que à probabilidade de não serem astrólogas.

            No que à sua obra concerne, o tempo não foi tão generoso. Da obra Astrologómenos, chegaram até nós apenas um epítome, elaborado por Palchus (c. 500 EC), e um conjunto de fragmentos, a maioria de autoria duvidosa, conservados em três manuscritos gregos: cod. Paris gr. 2425, f.265v; cod. Paris gr. 2524, f.90; e cod. Paris 2506, f.80. Existem dois elementos que, embora não figurem directamente nos fragmentos, são fundamentais para se compreender a vida e obra de Balbilo. São eles o estoicismo e o mitraísmo. Do pai Trasilo, Balbilo terá herdado fortes concepções platónicas e pitagóricas, todavia, o meio em que viveu e aqueles com quem conviveu tê-lo-ão encaminhado por certo para o seio do estoicismo. Dois dos seus amigos mais próximos eram reconhecidos filósofos estóicos: Séneca e Quéremon. No entanto, qualquer um dos sistemas filosóficos era particularmente simpático para com a astrologia. O outro elemento é igualmente importante, pois também ele acolheu no seu sincretismo romano os modelos astrológicos, em particular, o thema mundi e as ordens planetárias. Acredita-se inclusive, embora seja difícil de determinar, que terá sido Balbilo o primeiro a integrar as concepções astrológicas no mitraísmo romano.

            No epítome da obra Astrologómenos (CCAG VIII/3: 103-4), dos cinco tópicos que resumem o texto de Balbilo, dois dizem directamente respeito à duração da vida ou aos tempos da vida (ζωῆς χρόνων) a partir do apheta e do anaireta e outros dois podem derivar dos anteriores, pois apenas o último apresenta um conjunto de temas diversos. Dos sete fragmentos atribuídos ao astrólogo (CCAG VIII/4: 232-43), o único fragmento que, com alguma certeza, se pode considerar que é da autoria de Balbilo diz também respeito à duração da vida (CCAG VIII/4: 235-8), explicando-o através de dois exemplos, ou seja, através de dois horóscopos. Ora esse aspecto firma a certeza de que esta seria a sua especialidade e o principal foco do livro. Na verdade, os métodos para se determinar a duração da vida seriam necessários para qualquer astrólogo antigo, mas eram particularmente relevantes para astrólogos da corte como os da Casa de Trasilo.

            O sistema astrológico de Balbilo, como o de seu pai, derivaria de uma matriz hermética, a mesma que está na origem da astrologia, e a sua herança, embora escassa, continua a justificar o seu estudo e análise.                             


Bibliografia

Fontes Primárias

Edição Crítica

Balbilo, Astrologómenos. Boudreaux, P., 1912, CCAG VIII/3, 103–104. Bruxelas: Henri Lamertin. Boudreaux, P., 1921, CCAG VIII/4: 232-243. Bruxelas: Henri Lamertin.
Fragmentos:
1 - Epítome dos Astrologómenos de Balbilo a Hermógenes (CCAG VIII/3: 103-104);
2 - Método de Balbilo para a Duração da Vida a partir do Apheta e do Anaireta (CCAG VIII/4: 235-238).
Fragmentos Dúbios:
A - CCAG VIII/4: 232 (Palchus 82);
B - CCAG VIII/4: 241-242 (Palchus 84);
C - CCAG VIII/4: 242-243 (Palchus 85);
D - CCAG VIII/4: 243 (Palchus 86);
E - CCAG VIII/4: n. 234-35 (atribuição Cumont);
F - CCAG VIII/4: 240-241 (atribuição Cumont).


Traduções

Schmidt, R. & R. Hand, 1995, The Astrological Record of the Early Sages in Greek, Project Hindsight, Greek Track, Vol. X, 66-71. Berkeley Springs: The Golden Hind Press

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