sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Breves Notas Biobibliográficas: Antígono de Niceia

Antígono de Niceia

Busto de Mármore do Imperador Adriano,
Museo Archeologico Nazionale di Venezia.
 Fonte Imagem: Wikipedia

Notas Biográficas
  

     Antígono de Niceia terá vivido no século II EC, mas da sua vida pouco se sabe. Existe porém a tentativa de o identificar com um médico com o mesmo nome e do mesmo período, o que poderia fundamentar a sua crítica ao método astrológico tradicional de determinar o momento da concepção (T3 Heilen). No entanto, essa hipótese não tem merecido um grande acolhimento académico. A informação que sobre ele dispomos advém sobretudo dos três horóscopos literários que se encontram na Apotelesmática de Heféstion de Tebas (26/11/380 - século V EC). Segundo a edição crítica de Heilen, o legado da vida e obra de Antígono resume-se a oito fragmentos e cinco testemunhos. Um número que, embora diminuto, não traduz a sua importância, nem, na verdade, a sua dimensão. Os horóscopos de Antígono, os seus estudos astrológicos de três natividades, são os mais extensos da astrologia antiga, em especial, o horóscopo do imperador Adriano, o que conduz a uma outra hipótese, sem confirmação possível, de este ter sido um astrólogo da corte. É pela data da morte de Adriano, e também de Pedânio Fusco, a quem pertence o terceiro horóscopo, que colocamos Antígono depois de 138 EC., uma vez que as suas mortes, ocorridas no mesmo ano, são referidas no texto. Antígono teve portanto de ter escrito o seu manual depois de 138 EC

     Existem duas referências textuais que complementam a fixação temporal da vida e obra de Antígono. O primeiro autor a referi-lo é Porfírio. No entanto, o capítulo 51 da Introdução à Apotelesmática de Ptolomeu, que surge,  mais tarde, numa reprodução quase idêntica no capítulo 15 do Compêndio de Retório (F7 Heilen), pertence à excerpta Antiochorum, ou seja, aos capítulos que se encontram em Porfírio e Retório e que pertencem à obra de Antíoco de Atenas Tesouros (Θησαυροί). O problema reside no facto de se tentar conciliar temporalmente Antígono e Antíoco, pois, uma vez que é difícil escrutinar o que pertence a Antíoco (século I-II EC) e o que Porfírio (c.234 - c.305 EC) e Retório (séculos VI-VII EC) acrescentaram, não se pode assumir com base neste único elemento textual que um é anterior ao outro. Porém, a referência em Porfírio leva a que se coloque o manual de Antígono num tempo anterior ao seu. O outro autor a referir Antígono é o Anónimo de 379, a quem pertence um manual sobre as estrelas fixas e que menciona, por ordem, a autoridade de Antíoco, Valente e Antígono acerca deste tema (T2 Heilen). Ora esta referência, se disposta cronologicamente, colocaria Antígo a seguir a Antíoco e a Valente (8/2/120 - 175 EC). Desta forma, perante as dificuldades textuais, o mais prudente é colocar Antígono entre o século II e o início do século III EC.

     Do manual de Antígono, sabemos que seria constituído, no mínimo, por quatro livros (T5 Heilen) e que incluíra horóscopos ou temas natais (F1-F6 Heilen). Um outro aspecto, e que é quiçá o mais importante, é a inclusão de Antígono na tradição astrológica de origem egípcia, seguindo assim os ensinamentos de Hermes Trismegisto e Nechepso e Petosíris (F1 Heilen). O fragmento 6 é porventura o que melhor traduz essa influência. Heféstion informa-nos que Antígono resume o conteúdo dos livros do Salmeschoiniaka tal como lá se encontraria. O Salmeschoiniaka, ou com as grafias alternativas Salmeschniaka, Salmeschiniaka ou Salmesachanaka, é um livro, provavelmente do século III AEC, logo anterior a Nechepso e Petosíris e pertencente ao período mais antigo do corpus hermeticum (séculos IV-II AEC, ou numa perspectiva mais ousada, séculos VI-II AEC),  sobretudo o de teor astrológico, que trataria do tema dos decanos/decanatos egípcios. O livro perdido e quase mítico chegou até nós através de referências em três fontes: Porfírio, Carta a Anebo (36); Jâmblico, Dos Mistérios (VIII, 8); e Heféstion, Apotelesmática (II, 18.74-75). Antígono, ao ter sido leitor do Salmeschoiniaka, torna-se assim herdeiro de um dos elementos astrológicos mais antigos, os decanos/decanatos egípcios, que se relaciona com a iatromatemática, a astrológica hermética medicinal que associa as divindades tutelares com certas partes do corpo ou com certos humores ou paixões, uma parente próxima da antiga melothesia babilónica. O manual de Antígono incluiria assim os decanos/decanatos (F6 Heilen) de forma conciliada com a utilização tradicional das estrelas fixas na interpretação astrológica (F5 Heilen), o que aliás pode ser deduzido pelo testemunho do Anónimo de 379 (T2 Heilen).

     Os horóscopos de Antígono são, todavia, o principal vector de análise da sua obra. No horóscopo do imperador Adriano, Antígono justifica o sucesso do nativo pelo facto dos luminares estarem no Horóscopo, junto a Júpiter, sendo os luminares lanceiros (δορύφορος) de si próprios. Já Vénus está na sua exaltação e Marte está na sua triplicidade e nos seus próprios termos. A sabedoria e boa educação do nativo são justificadas por Mercúrio estar em ascensão matutina e Saturno estar na XII como lanceiro do Sol. Segundo Antígono, uma Estrela da Manhã produz sempre algo desde a juventude enquanto uma Estrela da Tarde mostra uma actividade que se adquire progressivamente. Refere também a necessidade de examinar o regente do MC, vendo se a sua posição é oriental ou ocidental. Antígono indica também, a partir do horóscopo de Adriano, como determinar o número de casamentos, bem como o número de irmãos. Explica, por outro lado, o facto de Adriano não ter tido filhos pela relação do Sol com o Horóscopo. Nos três temas natais analisados, o seu autor refere igualmente a importância de se observar o 3º, o 7º e o 40º dia da Lua. O segundo horóscopo, a quem já foram atribuídas várias identidades (e.g. Públio Élio Adriano Afer, Lúcio Júlio Urso Serviano, Marco Cornélio Nigrino Curiácio Materno, Lúcio Licínio Sura e Públio Acílio Aciano), é o que nos elementos inicias apresenta um maior número de dados: posição dos luminares, horóscopo e planetas; termos; situação acrónica de Saturno; fase helíaca; dias da Lua; e o Regente da Natividade. Este horóscopo justifica também a orientação sexual do seu nativo, bem como a duração da sua vida. Por fim, o terceiro horóscopo, que pertence a Pedânio Fusco, o jovem que seria o principal candidato à sucessão de Adriano, mas que, pela sua traição, acabou condenado à morte, embora não indique os termos, nem os graus das posições, é o mais preciso nas fases helíacas. Em síntese, os três horóscopos revelam como eram feitas as análises astrológicas.

     Antígono é um dos astrólogos da Antiguidade que merece uma maior atenção, pois o seu contributo, tanto para o astrólogo contemporâneo como para o historiador da astrologia, fixa-se na teoria e na transmissão da prática astrológica. Os seus fragmentos e os testemunhos demonstram que a astrologia antiga não se resume apenas à visão de Ptolomeu e àquela que a partir deste se desenvolveu.     



Bibliografia


Fontes Primárias


Edição Crítica e Tradução

Heilen, Stephan, 2015, Hadriani genitura: Die astrologischen Fragmente des Antigonos von Nikaia. Berlim: Walter de Gruyter.

Nota Bibliográfica

Por ser em alemão a edição crítica, o leitor poderá ler em língua inglesa os fragmentos 1-6 na edição da Apotelesmática de Heféstion de Tebas de Robert Hand e Robert Schmidt para o Project Hindsight:

  • Schmidt, R. & R. Hand, 1998, Hefestion de Tebas, Apotelesmatics, Book II (Greek Track, V15, Project Hindsight). Berkeley Springs: The Golden Hind Press.

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