quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Breves Notas Biobibliográficas: Antíoco de Atenas

Antíoco de Atenas

Monumento Filopapo
Um Antigo Mausoléu e Monumento Grego
dedicado a Caio Júlio Antíoco Epifanes Filopapo, 116 EC, Atenas
(Fonte: Wikimedia Commons).

Notas Biográficas

     Antíoco de Atenas terá nascido na segunda metade do século I EC e morrido em cerca de 114 EC, isto claro se seguirmos a tese que sustenta que o astrólogo é, na verdade, Caio Júlio Antíoco Epifanes Filopapo, príncipe de Comagena, irmão de Júlia Balbila, neto de Balbilo e bisneto de Trasilo. Antíoco, segundo esta genealogia, seria herdeiro de uma longa tradição astrológica, inspirada nos ensinamentos de Hermes Trismegisto, Nechepso e Petosíris.

     Outros preferem colocá-lo no fim da segunda metade do século II EC, sustentando-se na Introdução à Apotelesmática de Ptolomeu de Porfírio (51) e no Compêndio de Retório (15), que reproduzem, de uma forma quase idêntica, um capítulo que pode ser do livro de Antíoco e que refere Antígono de Niceia. Ora, uma vez que Antígono escreveu a sua obra depois de 138 EC, Antíoco teria de ser posterior. Contudo, dado que nome surge no início do capítulo, o texto pode ter ser sido editado por Porfírio, acrescentando o nome de Antígono e Ptolomeu, e reproduzido ipsis verbis por Retório, não se sabendo assim o que pertencia exactamente a Antíoco.

     Existem também uma tese, pouco seguida, que coloca Antíoco algures entre 130 AEC e 50 EC, fundamentada numa associação entre Antíoco de Atenas e o filósofo Antíoco de Ascalão. No entanto, e perante a ausência de vestígios textuais ou arqueológicos que confirmem qualquer uma das hipóteses, a tese de Antíoco ser descendente de Trasilo é, no mínimo, a mais interessante e atractiva, pois demonstra a continuidade histórica - e familiar - de um sistema astrológico de matriz hermética que influenciaria, mais tarde, autores como Vétio Valente, Fírmico Materno e Paulo de Alexandria.
  
     Segundo o que sabemos, Antíoco é o autor de duas obras astrológicas: Introdução (Εἰσαγωγικά) e Tesouros (Θησαυροί). Existe também a possibilidade de estas serem, na verdade, uma única obra, designada, mais tarde, de duas formas. É-lhe igualmente atribuído um calendário que é um parapegma que concilia a fase das estrelas com a informação meteorológica. Porém, a grande questão em torno das suas obras, em especial no que concerne aos textos astrológicos, firma-se no seu carácter fragmentário e na sua origem indirecta.

     A obra Tesouros chega até nós via Retório, estando incluída no seu Compêndio, o que dificulta a questão textual de se saber exactamente o que pertence a Antíoco e o que pertence a Retório. No entanto, esta obra de Antíoco tem, em termos astrológicos, um enorme valor, pois, contrariamente a outras obras que pressupõem o conhecimento prévio dos conceitos astrológicos por parte dos leitores, explica de forma introdutória os conceitos e as técnicas. Em Tesouros, encontramos pequenos capítulos acerca dos mais variados temas, como por exemplo: os signos masculinos e os femininos; o segmento dos planetas; o segmento e as triplicidades; os decanatos e a paranatellonta; os termos; os aspectos; as dodecatemoria; os lanceiros das estrelas; regência e regência recíproca; a aplicação; a Lua fora de curso; as partes; entre outros.

     A Introdução, como o que chegou até nós foram apenas os sumários ou epítomes dos Livros I e II, apresenta uma outra estrutura formal, em alguns dos casos muito sintética. No entanto, podemos encontrar neste texto referências importantes aos autores mais antigos e parágrafos de um imenso valor astrológico, nomeadamente o que descreve o dodekatópos e o que apresenta um thema mundi baseado nas exaltações planetárias. No caso específico da Introdução, convém referir-se que esta está incluída no célebre Librorum astrologicorum epitome Parisina ou Codex graecus 2425 no qual encontramos, por exemplo, sumários da Tábua de Trasilo, de um obra de Critodemo e dos Astrologómenos de Balbilo. Ora se excluirmos Ptolomeu que surge no início do códice, a maioria dos autores é, de facto, do século I EC, o que serviria a tese inicial de colocarmos Antíoco na segunda metade desse mesmo século.

     Antíoco de Atenas, independentemente do período temporal em que o inserimos e apesar da estrutura fragmentária das suas obras, é um nome incontornável da Astrologia Antiga.
                        


Bibliografia

Fontes Primárias

Textos

Antíoco de Atenas, Calendário ou Acerca da Ascensão e Declínio das Estrelas nos Doze Meses do Ano (Περὶ ἀστέρων ἀνατελλόντων καὶ δυνόντων ἐν τοῖς ιβ΄ μησὶ τοῦ ἐνιαυτοῦ). Boll, F., 1910, Griechische Kalendar 1: Das Kalendarium des Antiochos, Sitzungsberichte der Heidelberger Akademie der Wissenschaften, Philosophisch-historische Klasse, Jahrgang 1910, Abhandlung 16, Heidelberg: Carl Winter's Universitätsbuchhandlung

Antíoco de Atenas, Introdução (Εἰσαγωγικά): Resumo dos Livros I e II. Boudreaux, P., 1912, CCAG VIII/3, 111–119. Bruxelas: Henri Lamertin.

Antíoco de Atenas, Tesouros (Θησαυροί). Olivieri, A., F. Boll, F. Cumont & W. Kroll, 1898, CCAG I, 140-164 . Boll, F., 1908, CCAG VII, 107-128. Bruxelas: Henri Lamertin.


Texto e Tradução


Ruiz, R. C. S.-H. B., 2006, "Una Paráfrasis Inédita de los Tesoros de Antíoco de Atenas: El Epítome IIa. Edición Crítica, Traducción y Notas" in MHNH 6, 177-242.

Traduções

Schmidt, R. & R. Hand, 1993, Antiochus of Athens: The Thesaurus, Greek Track, Volume 2B, Project Hindsight. Berkeley Springs: The Golden Hind Press.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Consultas de Tarot - Três Questões Concretas



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segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Casa III: A Deusa (Um Excerto de O Δωδεκατόπος: As Doze Casas)


Poussin, Nicolas, Selene and Endymion, c.1630.
Detroit: Institute of Arts.
https://www.wga.hu

Casa III: A Deusa

(Um Excerto de O Δωδεκατόπος: As Doze Casas)


A terceira casa, embora nem sempre o seu nome seja indicado, é tradicionalmente designada por Deusa (θεά ou dea). Existe pois um eixo do sagrado que une a Casa III, Deusa, à Casa IX, Deus, preservando assim a ligação umbilical do Sol à Lua. Esta correspondência perdeu-se, porém, na astrologia contemporânea, deixando os assuntos do sagrado entregues sobretudo à Casa IX. Esta união nunca unida, pois a sua existência resulta da separação, do facto de serem diametralmente opostas, deixou de ter uma correspondência. Desapareceu essa harmonia dos contrários e criou-se, a partir do círculo zodiacal e através da regência de Caranguejo e Leão, um simulacro desse sentido, optando-se, dessa forma, por colocar a Lua na Casa IV e o Sol na Casa V. No entanto, essa justaposição não contempla a dinâmica dos opostos presente nas casas III e IX, embora preserve, no thema mundi, uma posição espacial relevante e indicadora de uma outra significação original.

Acerca desta casa, Paulo de Alexandria afirma o seguinte:
Τὸ δὲ τρίτον ἀπὸ ὡροσκόπου χρημάτων ἐστι περι-
ποιητικόν. σημαίνει δὲ καὶ τὸν περὶ ἀδελφῶν λόγον. κα-
λεῖται δὲ θεά, τόπος Σελήνης καὶ ἀγαθὸν ἀπόκλιμα.
τὸν δὲ περὶ φιλίας πατρωνίας κεκλήρωται λόγον, ὁτὲ δὲ
καὶ ξενιτείς παραίτιος γίνεται, ὅτι διάμετρον τοῦ περὶ
θεῶν ζῳδίου τέτευχε τοῦ σημαίνοντος τὸν περὶ ξενιτείας
λόγον. ἐν δὲ τούτῳ τῷ ζῳδίῳ Σελήνη μόνη παρὰ πάν-
τας τοὺς ἀστέρας χαίρει. (...)

A terceira a contar do Horóscopo é produtiva na procura de riquezas. Indica os sinais do que diz respeito aos irmãos. É designada de Deusa, Lugar da Lua e Bom Declínio. Especifica o que concerne à amizade e ao patrocínio, todavia, é, por vezes, responsável pela vida no estrangeiro, uma vez que se encontra diametralmente oposta ao zōidion dos deuses, que é um indicador da vida no estrangeiro. Neste zōidion, apenas a Lua, entre todas as estrelas, rejubila
(Cap. 24, Boer 55.5-12).

Os nomes desta casa são os melhores indicadores da sua natureza. O primeiro dos quais, θεά  (Deusa), tal como já referimos, funda a qualidade deste lugar num eixo essencial de contrários. A Deusa e o Deus, a Lua e o Sol, são assim o par divino primordial que determina a vida e a sua continuidade, daí que estas casas criem relações de harmonia com o Horóscopo, o lugar do nascimento e da vida. O segundo termo, τόπος Σελήνης  (lugar da Lua), estabelece a regência deste espaço electivo e do hemisfério inferior, pois é a Lua que governa a casa como domicílio e o hemisfério inferior como segmento nocturno, conjugando, dessa forma, dois princípios essenciais da astrologia antiga: a regência domiciliar (οἰκοδεσποτεία) e o segmento de luz (αἵρεσις). Este portanto é o lugar onde a Lua rejubila (χαίρει). Por fim, a terceira definição, ἀγαθόν απόκλιμα  (bom declínio), apresenta a posição deste lugar em relação ao ponto cardeal do quadrante e ao Horóscopo, que, neste caso, são o mesmo. 

A divisão do δωδεκατόπος em quadrantes, determinados pelos pontos cardeais ou angulares (κέντρον), determina a primeira distinção, à qual se segue a divisão pela posição relativa, ou seja, em κέντρονἐπαναφορά e ἀπόκλιμα  (cardinal, sucedente e cadente). Desta forma, a Casa III é um declínio, porque tanto a sua posição como o seu movimento são determinados pelo Horóscopo, o ponto cardeal do primeiro quadrante, ao qual se segue a Casa II, a sua sucedente. Se, por um lado, a sua posição no quadrante fixa a sua qualidade, por outro, a sua relação com o Horóscopo e com os outros declínios designa o seu valor. O termo ἀγαθός, bom, define o carácter desta casa devido à harmonia que estabelece com o Horóscopo – leia-se um sextil –, a qual, no conjunto dos declínios, só é superada pela Casa IX que com ele faz um trígono. 

Quanto à presença dos planetas, Paulo de Alexandria é mais sucinto nas primeiras casas e que nas subsequentes. No entanto, refere que se, nesta casa, os benéficos estiverem no seu segmento, indicará um aumento no modo de vida e na acumulação de riqueza, ἐπαύξησιν βίου καὶ χρημάτων περίκτησιν (Cap. 24, Boer 55.13-14), e a avaliação acerca dos irmãos torna-se vantajosa e benéfica. Ter-se-á muitos amigos e irmãos e obter-se-á deles os melhores favores. Por outro lado, se nesta casa estiverem os maléficos, então o resultado será o inverso. 

 Uma vez que este é o Lugar da Lua e que Paulo refere a necessidade dos planetas se encontrarem no seu segmento, convém frisar que a posição de acordo com o segmento é, para a astrologia antiga, a primeira de todas as dignidades. O termo αἵρεσις, que se optou por traduzir como segmento, pois este preserva a dimensão geométrica do seu objecto, tem também o sentido de aquisição, eleição, escolha, disposição e facção. Ora, como já foi referido, Trasilo, sustentado em Hermes, dividiu o δωδεκατόπος em dois segmentos: diurno e nocturno (CCAG VIII/3: 100.19-25). O dia é regido pelo Sol e a noite, pela Lua. Ao Sol, junta-se Júpiter e Saturno e, à Lua, Vénus e Marte. Mercúrio, ao ocupar o Horóscopo, partilha os dois segmentos. Desta forma, por exemplo, numa natividade nocturna, devemos observar em primeiro lugar a Lua, pois esta é senhora do segmento, e, de seguida, Vénus e Marte, uma vez que estes estão favorecidos pela qualidade da luz. Contrariamente, o Sol, Júpiter e Saturno, como estão fora do seu segmento, têm o alcance dos seus raios diminuído. Já Mercúrio segue o segmento dominante e a fase helíaca, todavia, dado que a sua posição é sempre próxima do Sol, o seu carácter merece particular atenção se um estiver num segmento e o outro noutro, ou seja, separados pela linha do horizonte.

Trasilo, embora lhe atribua a avaliação daquilo que se faz e do que concerne aos irmãos, não menciona o nome desta casa, mas Antíoco refere-a como o Lugar da Deusa e um indicador dos amigos (CCAG VIII/3: 117.3-5). Por outro lado, Valente afirma, no texto aqui traduzido, que a Casa da Deusa indica a mãe, o que é contrário à tradição, todavia poder-se-ia estar a referir a duas coisas: a atribuição resultaria do sistema do οκτοτόπος, embora neste caso referir-se-ia provavelmente à esposa e não à mãe, ou a ideia de mãe estaria na continuidade da regência da Lua. De qualquer das formas, o sentido tem valor, pois, tendo em conta em sua regência, a natureza do eixo que une as casas III e IX encaminharia o significado para a avaliação da mãe e do pai, sem que por isso comprometesse o carácter da Casa IV ou os sinais que podem ser encontrados no hemisfério superior (as casas X e XI). A associação da Lua e da Casa III à mãe é portanto natural e consequente.

Já Fírmico Materno diz o seguinte acerca deste lugar:
Ex hoc loco de fratribus et de amicis cuncta dicemus. Huic loco Dea  nomen est; est autem peregrinantis locus. Hic primus cum horoscopo tenui societate coniungitur; respicere enim horoscopum de exagono videtur.

Esta casa dedicamo-la a tudo o que diz respeito aos irmãos e aos amigos. O seu nome é Deusa, todavia, é a casa dos viajantes. Esta é  a primeira casa a unir-se ao Horóscopo num aspecto débil. Observa-se pois, olhando para trás para o Horóscopo, um aspecto de sextil
(II, 19, 4, Kroll, Skutsch & Ziegler I, 61.27-62.3).
Materno, nas características deste lugar, está em sintonia com os outros autores, tanto na designação de Deusa (Dea) como na qualidade de casa dos viajantes (peregrinantis locus) ou na atribuição dos irmãos ou amigos. Contudo, a sua gradação do sextil entre esta casa e o Horóscopo, que adjectiva de tenuis, difere, por exemplo de Paulo. Ora tenuis, traduzido como débil, tem o significado de fraco, ténue, superficial, inferior, magro, fino ou pequeno. Neste sentido, Materno estaria em sintonia com Doroteu, quando este afirma, no texto aqui traduzido, que esta é uma casa má, mas estaria em oposição a Paulo de Alexandria, pois este diz que a Casa III é considerada um bom declínio (ἀγαθόν ἀπόκλιμα). Esta diferença resulta, em especial, do valor que se atribui ao sextil entre o Horóscopo e esta casa, uns consideram-no um aspecto fraco, sobretudo quando comparado com o trígono, outros, um aspecto benéfico. O facto de estar abaixo da linha do horizonte condiciona também o valor que alguns lhe concedem.

Por fim, Manílio, seguindo o seu modelo distinto, afirma o seguinte acerca da Casa III:
(…)  Huic adversa nitens, quae prima resurgit
sedibus ex imis iterumque reducit Olympum,
pars mundi fratrumque vices mortisque gubernat;
et dominam agnoscit Phoeben, fraterna videntem
regna per adversas caeli fulgentia partes
fataque damnosis imitantem finibus oris.
Huic parti Dea nomen erit Romana per ora,
Graecia voce sua titulum designat eundem.

(...)  A brilhar oposta a esta, como primeira
sede, a que, das profundezas, nos conduz de volta ao Olimpo
e governa a parte do céu da fortuna e morte dos irmãos.
Reconhece Febe como senhora, que observa o seu irmão
no reino que brilha nas partes opostas do céu, 
dando uma imagem de morte à face oculta do seu rosto.
Esta parte, na romana língua, terá o nome de Deusa.
A Grécia designa-a de igual forma na sua língua. 
(II, 910 – 917, Goold 58).
Manílio não se sustentou naquilo que, mais tarde, seria a diferença entre Paulo e Materno quanto ao valor desta casa, ou seja, o valor do sextil com o horóscopo. Por sua vez, optou por afirmar que esta é a primeira casa a ressurgir das regiões inferiores e a avançar, de novo, para Olimpo, afastando-se assim da face da morte, do Tártaro. Os versos didácticos de Manílio, na esteira de Vírgilio e Lucrécio, tornam-se perceptíveis se tivermos em conta a sua regência das casas, que difere da tradicional. Manílio coloca Saturno na Casa IV, no ponto subterrâneo, que indica a morte, logo, pois, seguindo o movimento do dia, da luz, quando entra na Casa III, avança para o horizonte, para o céu que se vê, afastando-se do tempo como fim que é sinal da morte. Desta forma, a noção de Olimpo resulta do facto de Manílio colocar o Sol (Casa IX), Vénus (Casa X) e Júpiter (Casa XI) acima do horizonte, em oposição, à Lua (Casa III), a Saturno (Casa IV) e a Marte (Casa VI), que estão numa posição subterrânea. 

Esta diferença na regência das casas permite que se compreenda o verdadeiro valor da Casa III, o Lugar da Deusa, enquanto caminho para a luz. É a Lua que detém essa qualidade luminosa. Manílio refere Febe como senhora desta casa. Ora Febe, a Brilhante (Φοίβη), é designada como a mais bela das titânides, a filha de Úrano e Gaia, do céu e da terra. A etimologia do seu nome associa-a à qualidade da luz (φοίβη, pura, brilhante ou radiante), à purificação (φοιβάω, purificar) e à profecia (φοιβάζω, profetizar). A sua ligação à Lua é portanto a mais ancestral e foi a partir dela que se instaurou uma linhagem matrilinear de divindades lunares. Febe é a mãe de Leto e Astéria, logo avó de Ártemis e Hecáte, as deusas que representam a luz e a sombra da Lua. É também tia de Selene, a personificação da Lua. Por outro lado, Febe é a terceira divindade a presidir ao Oráculo de Delfos, tendo sido a primeira Gaia, sua mãe, e a segunda Témis, sua irmã. A Febe seguir-se-á Apolo, seu neto. Convém ainda referir que Febe tornou-se também um epíteto das deusas lunares, idêntico a Febo, uma designação de Apolo, um deus solar. O recurso a Febe por Manílio não é inocente, nem se deve apenas a razões métricas, pois procura enunciar a dimensão mitológica e interpretativa da Lua enquanto arquétipo astrológico.

A Casa III é um bom exemplo da importância de se estudarem os textos dos astrólogos antigos, pois mostra, por um lado, como a astrologia estava em harmonia com as concepções filosóficas e mítico-religiosas do seu tempo e, por outro lado, que certos princípios se transformaram com o tempo e, nalguns casos, desapareceram, podendo ser, no entanto, recuperados pela astrológica contemporânea. A Casa III enquanto Lugar da Deusa é um desses casos.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

A Sombra da Vida (Poesia)

Caravaggio, Narciso, 1598-99.
Roma: Galleria Nazionale d'Arte Antica.
A Sombra da Vida


Como setas e dardos
                                     O vento nas folhas

Como espada e gume
                                     A onda no areal

Como sangue e ferida
                                     O fogo no madeiro

Como guerra e morte
                                     A ignorância no humano

Essa é a sombra da vida
                                     A sabedoria ausente


3 de Setembro de 2019
RMdF

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

O Sol e o Mistério da Luz

O Sol
Tarot Rider-Waite

O Sol é o arcano luminoso que, pela intuição íntima e radical, reúne em si a sabedoria e a inteligência.

O Sol é aquele princípio cooperante que coloca em harmonia os elementos distintos, permitindo a evolução na criação.

O Sol é o encontro com o centro, com o ponto intermédio que une e equilibra a luz e a sombra, o céu e o abismo.

O Sol é aquele caminho misterioso que concilia a morte na vida e a vida na morte, transformando a destruição em eternidade.

O Sol é a reintegração da consciência na alma do mundo, a via eleita da presença divina, da chama eterna.

O Sol é aquele limiar radiante da união mística do masculino e do feminino que transporta o divino para o humano.

O Sol é o mistério da luz e o milagre da criação, é a palavra inaugural e a origem do amor.