quinta-feira, 4 de julho de 2019

O Mito como Sentido das Estrelas - Manílio, Astronomica, II, 433-452 (Um Outro Excerto)


Manílio, Astronomica, II, 439-452:


  Hic animadversis rebus quae proxima cura?
noscere tutelas adiectaque numina signis
et quae cuique deo rerum natura dicavit,
cum divina dedit magnis virtutibus ora,
condidit et varias sacro sub nomine vires,
pondus uti rebus persona imponere posset.
Lanigerum Pallas, Taurum Cytherea tuetur,
formosos Phoebus Geminos; Cyllenie, Cancrum,
Iuppiter, et cum matre deum regis ipse Leonem;
spicifera est virgo Cereris fabricataque Libra
Vulcani; pugnax Mavorti Scorpios haeret;
venantem Diana virum, sed partis equinae,
atque angusta fovet Capricorni sedera Vesta;
e Iovis adverso Iunonis Aquarius astrum est
agnoscitque suos Neptunus in aethere Pisces.
hinc quoque magna tibi venient momenta futuri,
cum ratio tua per stellas et sidera curret
argumenta petens omni de parte viasque
artis, ut ingenio divina potentia surga
exaequentque fidem caelo mortalia corda. 


Tradução

Observadas estas coisas, qual a próxima diligência?
Conhecer de cada signo as divindades tutelares
e que deus a sua natureza lhes consagra,
quando dá às magnas virtudes a divina face
e coloca sob o sagrado nome as várias forças,
para que cada pessoa lhes imponha gravidade.
Guarda o Lanígero Palas e Touro, a Citereia,
os formosos Gémeos, Febo; o Cileno, Caranguejo,
Júpiter, com a mãe dos deuses, reges tu Leão,
A da espiga é da Virgem Ceres, forjada a Balança
é de Vulcano; ao bélico Marte Escorpião se junta;
protege Diana o caçador, mesmo com equina parte,
e as estreitas estrelas de Capricórnio favorece Vesta;
e, oposta a Jovis, é de Juno a constelação de Aquário,
já Neptuno reconhece no céu os seus Peixes.
Daqui surgirá o que se destaca no teu futuro,
quando a tua razão seguir as estrelas e as constelações,
procurando por toda a parte o método e as evidências
desta arte, para até ao poder divino elevar o engenho
e igualar à verdade do céu o coração humano.


Nota: Todas as traduções do grego e do latim, excepto quando em contrário indicadas, são da responsabilidade do autor. 


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O Mito como Sentido das Estrelas

...

Continuação do Excerto

O Mito como Sentido das Estrelas - Manílio, Astronomica, II, 433-452 (Excerto)


Ao observamos estas associações, constatamos que existe uma superveniência mítico-filosófica do sentido dos conceitos astrológicos, dos quais a formulação astronómica é meramente formal. Por exemplo, Júpiter indica mais as qualidades do deus dos gregos e dos romanos e as ideias de espaço e de justiça que as propriedades do quinto planeta a contar do Sol. É nesse sentido que Manílio afirma que é necessário impor gravidade aos nomes divinos (II, 444). O termo pondus, aqui traduzido por gravidade, tem o sentido de peso ou de massa, mas também de importância, influência ou autoridade, o que revela o sentido metafórico de enriquecimento conceptual que Manílio descreve. É a profundidade dessa transferência que confere o valor e a tradição aos conceitos astrológicos, pois foi, por exemplo, a gravidade conceptual que, na Antiguidade, se deu aos corpos celestes e aos fenómenos naturais que permitiu o desenvolvimento teórico de certos arquétipos ou complexos na psicanálise e na psicologia analítica. A raiz do mito na astrologia sustenta-se numa metáfora, entendida aqui na sua génese etimológica e no seu sentido filosófico. 


A metáfora, enquanto processo de transferência e condição de passagem de valor, resulta numa significação da realidade, pois, seguindo uma mediação de sentidos, permite a união dos opostos numa síntese simbólica. É por essa via que, partindo de uma base astronómica, as estrelas, os planetas, as várias formas de divisão de eclíptica, os aspectos e todos os outros componentes de cálculo e análise tornam-se metáforas, transferências simbólicas de sentido. Desta forma, a astrologia torna-se um sistema de representação, pois ao desenvolver-se uma teoria a partir das enunciações de Manílio pode-se reduzir muitas das críticas de que a astrologia foi alvo. A aproximação entre a astrologia e a filosofia permite dar à primeira um maior suporte conceptual. Na verdade, é isso que encontramos em Manílio. O seu poema didáctico é de facto um poema filosófico. Ramelli, embora desvalorize a astrologia, defende o aspecto filosófico do poema e também que o material mais técnico serve o discurso filosófico (162). Esse pressuposto comprova portanto a influência de Lucrécio em Manílio, onde no seu poema também esse material está dependente do discurso filosófico.


O pensamento filosófico de Manílio, que é também o astrológico, assenta primeiramente em três pilares: a ideia de deus, o conceito de destino e o valor do humano. Ora esses princípios estão sintetizados na última parte do excerto aqui traduzido (II, 448-452; Cf. Albrecht II: 975-977; Colish I: 313-314). Manílio começa por definir o acto de "stellas et sidera curret" como uma arte, o que está de acordo com a teoria da representação. De seguida, como anteriormente observámos, impõe a essa arte uma metodologia racional, ou seja, torna a arte uma ciência de rigor. Naturalmente, nesta alusão husserliana, sustentamos o conceito de ciência na sua origem etimológica e clássica e não na sua corrupção iluminista e positivista, pois, graças a Nietzsche, o irracional também serve a verdade. Na visão de Manílio, porém, a faculdade que permite alcançar o conhecimento do céu, que é também o conhecimento de deus, é o intelecto ou a inteligência, daí que diga "ut ingenio divina potentia surgat". Ora o ingenium, aqui traduzido por engenho, tem também, entre outros, o sentido de capacidade ou disposição natural, génio, carácter ou inteligência, estando portanto de acordo com uma faculdade noética. O intelecto tem assim em Manílio uma natureza demiúrgica. Por fim, o poeta dá ao conhecimento e à arte de seguir o céu e as constelações a possibilidade de exaequentque fidem caelo mortalia corda. O último verso introduz a concepção maniliana de fazer do humano um microcosmo do divino.


Manílio reforça essa ideia tríplice de deus, destino e humano, bem como de procura do conhecimento, quando diz: 

quod quaeris, deus est: conaris scandere caelum 

 fataque fatali genitus cognoscere lege 

 et transire tuum pectus mundoque potiri.



 O que procuras, deus é: tentas escalar o céu,

 sob o destino nascido, queres conhecer o destino

 e, ao passar pelo teu espírito, obter o mundo

(IV, 390-392).

Nestes versos, a influência estóica é explícita e, embora se encontrem na Astronomica vestígios da influência dos pré-socráticos, de Platão e Aristóteles, esta é a principal fonte de Manílio. Encontramos várias referências ao estoicismo antigo, em especial, a Cleantes de Assos e a Crisipo de Solis, mas também ao estoicismo intermédio, sobretudo a Posidónio de Apameia (Colish I: 315; Ramelli: 166-168). Cícero, embora não seja um estóico, foi provavelmente uma fonte de Manílio, através do qual pode ter conhecido Lucrécio. No entanto, de Cícero não parece ter conhecido a tradução de Arato, que deve ter lido no original grego, nem do seu amigo e astrólogo Nigídio Figulo, a Sphaera Graecanica et barbarica (Albrecht II: 974; Ramelli: 176). Contudo, o pensamento de Manílio não se limita a reproduzir as teses dos filósofos estóicos, pelo contrário, encontramos, à semelhança da diversidade da filosofia estóica, passagens de profunda originalidade, com por exemplo em duas das suas digressões antropológicas (IV, 387-407; 866-935; Albrecht II: 982).


O poeta procura estabelecer uma identificação entre aquilo que se procura e o divino, ou seja, existe um paralelismo entre a acção do intelecto e deus. Este aspecto é também revelador do optimismo de Manílio, sobretudo no que concerne à disposição para a aprendizagem, docilis sollertia (I, 95: dócil inteligência; Ramelli: 176). Porém, refere também que impendendus homo est, deus esse ut possit in ipso (IV, 407: sacrificado é o humano, para que deus nele possa existir). O ser humano deve sacrificar-se, entregar-se ao conhecimento e escalar o céu, para que a divindade habite nele. A vontade de conhecer aplica-se também ao destino. Manílio, nestes últimos versos, apresenta uma dupla relação do ser humano com o destino, pois, por um lado, temos a determinação dos seus decretos aquando do nascimento e, por outro lado, a vontade de conhecer as suas leis. Ora ambos os aspectos são consentâneos com a aceitação estóica da astrologia natal ou genetlíacal. 


Em Manílio, o conceito de divindade é o sustentáculo conceptual do seu pensamento filosófico e astrológico. Encontramo-lo, em especial, nos proémios de cada livro. Por exemplo, no Livro II, o autor da Astronomica afirma o seguinte:

namque canam tacita naturae mente potentem

infusumque deum caelo terrisque fretoque

ingentem aequali moderantem foedere molem,

totumque alterno consensu vivere mundum

et rationis agi motu, cum spiritus unus

per cunctas habitet partes atque irriget orbem

omnia pervolitans corpusque animale figuret.



Cantarei pois da tácita natureza, do intelecto governada,

o deus que permeia o céu, as terras e o mar

e que, com a mesma moderada lei, rege a matéria imensa;

e como todo o universo vive em mútua concórdia 

e a razão lidera o movimento, com um único espírito 

por todas as partes habita e o mundo inunda,

por tudo passando, com a forma de um corpo animado

(II, 60-66).

A teologia de Manílio revela-se assim nestes versos. O seu deus permeia o mundo. Está presente no céu, na terra e no mar e inunda toda e qualquer parte do cosmos com o seu espírito, com o seu intelecto. Zenão de Cítio, o fundador do estoicismo, defende que a substância de deus é todo universo e, em particular, o céu  (SVF I, 163 = Diógenes Laércio, VII, 142). O misticismo de Manílio tem como modelo o Hino a Zeus de Cleantes, sobretudo quando identifica Zeus com a phýseōs archēgé e o koinón lógon, ou seja, a causa primeira da natureza e o logos universal (SVF I, 537 = Long e Sedley: 54 I; cf. Albrecht II: 975; Ramelli: 163). A divindade, embora não seja transcendente, não deixa de ser o agente activo. Porém, Manílio não invoca o deus olímpico como Cleantes, pois para ele o principal rosto de deus é o céu. Deus é o mundo, é a sua faculdade dominante (hēgemonikón), a sua razão (De Natura Deorum I, 39 = SVF II, 1077). 


Em Manílio e no estoicismo, devido à imanência de deus, a teologia e a cosmologia fundem-se numa única forma de conhecimento. Essa unidade é perceptível nos seus próprios textos. Nesta última passagem, deus é a mente, o intelecto do universo e esse é o princípio dominante que rege a matéria. Ora Crisipo, no Livro I da sua obra Sobre a Providência (SVF II, 644), e Posidónio, no Livro V da sua obra Sobre os Deuses (Frag. 23), defendem que o princípio dominante do universo é o céu, mas, por seu lado, Cleantes diz que é Sol (SVF I, 499) e Antípatro de Tiro que é o aethēr (Diógenes Laércio, VII, 139). A divindade está assim presente, sem mediação, no próprio universo e, em especial, num determinado princípio. Encontramos, no Livro II do De Natura Deorum de Cícero, uma das melhores sínteses da teologia estóica. Cícero enumera, por exemplo, as seis razões que, segundo Cleantes, permitem a concepção de deus na mente humana (II, 12-15 = Long e Sedley: 54 C). Destas, a sexta resulta da observação do movimento, da revolução dos céus, da individualidade, utilidade, beleza e ordem do Sol, da Lua e das estrelas. Manílio expressa a mesma ideia quando diz:

quis caelum posset nisi caeli munere nosse,

et reperire deum, nisi qui pars ipsi deorum est?



Quem pode conhecer o céu sem ser pelas suas dádivas 

e encontrar deus sem ser ele mesmo parte de deus?

(II, 115-116).


A concepção de deus enquanto alma do mundo (Manílio, I, 247-254; Albrecht II: 975) não é contrária à mitologia, desde que esta, porém, não seja entendida de forma literal, pois no politeísmo os deuses são acima de tudo expressões da natureza. Um outro fragmento estóico mostra isso mesmo, pois une o nome das divindades a uma derivação etimológica ou conceptual (SVF II, 1021 = Diógenes Laércio VII, 147; Long e Sedley: 54 A). Nesse fragmento, a respeito do conceito de deus, Zeus (Día) é a causa de todas as coisas (di'hón); Zēna é a causa da vida (zēn); Atena estende o seu princípio dominante até ao aēther (aithéra); Hera espalha pelo ar esse princípio (aéra); Hefesto impregna o fogo (pýr), que é seu instrumento, desse princípio; Poseídon concede a sua mistura (hugrón); e Démeter permeia a terra (gēn) com ele. 


Da alma cósmica enquanto princípio divino e intelecto do universo, derivam duas concepções que estão intimamente ligadas: o princípio da mudança permanente e o princípio da simpatia. Manílio acolhe os dois princípios na sua obra. Na verdade, no que à mudança cósmica concerne, Manílio é único autor latino a incluir os conceitos de ekpýrōsis e diakósmēsis (III, 818-865; Colish I: 315; Ramelli: 163). No entanto, no fim da Astronomica, Manílio rejeita a ekpýrōsis. Convém também salientar que o ciclo cósmico estóico (SVF I, 28, 98 e 102; II, 581, 605; Posidónio, Frag. 13) é um herdeiro natural e legítimo das cosmogonias de Heraclito, Pitágoras e Empédocles (Hahm: 187-199). O tempo cósmico enquanto movimento harmonioso e circular de destruição, nomeadamente pelo fogo, e criação, de fundação de uma nova ordem, é um importante marco da cosmologia antiga, logo Manílio não lhe podia ser indiferente. Contrariamente, o princípio de simpatia cósmica podia ser naturalmente acolhido, pois, por um lado, é concordante com uma divindade imanente e, por outro, está relacionado com a noção estóica de providência ou destino (Manílio, II, 63-86; SVF II, 441 e 719; Cf. Hahm: 123 e 163). É também de um ponto vista astrológico que este sistema filosófico se expressa, pois todos estes conceitos permitem que se aprofunde o próprio sistema filosófico. Desta forma, o valor astrológico da obra de Manílio adquire uma outra qualidade, pois concede à astrologia um sistema filosófico que se coaduna com a sua prática, proporcionando-lhe uma teoria conceptual de base.


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Fim do Excerto


Bibliografia


Fontes

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Edição Crítica Utilizada:

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Edições e Traduções:

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