segunda-feira, 15 de abril de 2019

Ciclos Planetários (ou Anos Planetários)



  Os ciclos planetários ou anos planetários permitem que se utilize duas importantes técnicas da prónoia astrológica: a determinação dos chronocratores (regentes do tempo) e a determinação da duração da vida. A tradição em torno destes anos planetários é algo obscura, pois nem sempre se compreende a razão de ser das atribuições. A sua origem é igualmente incerta. Conseguimos, porém, estabelecer algumas relações entre os anos planetários e certos fenómenos astronómicos. Na verdade, a astrologia, enquanto sistema de representação, de mímesis, firma-se nesta relação que, por vezes, é essencialmente simbólica.

  Nos ciclos maiores, é necessário destacar o valor atribuído ao Sol, 1461 anos (ou 1460, se excluirmos a diferença entre o calendário egípcio e o calendário gregoriano), que indica o ciclo sotíaco, ou seja, a relação entre o nascimento ou ascensão helíaca da estrela Sírio (Sothis) e o ano egípcio (360 dias + 5 dias epagomenais, ao qual se pode somar 1 dia a cada 4 anos, tal como propôs Ptolomeu III Evérgeta, embora este não seja o cálculo tradicional, que atrasava um 1 dia a cada 4 anos). Esse nascimento helíaco progride um 1 dia a cada 4 anos, completando o ciclo em 1460 anos (4 × 365 = 1460) ou em 1461 anos (4 × 365,25 = 1461). Os ciclos maiores, à excepção do que concerne ao Sol,  não surgem, porém, na astrologia antiga, tratando-se portanto de uma introdução posterior. 

 Já os ciclos grandes derivam do sistema egípcio de termos, uma vez que os valores indicados para Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter e Saturno são, na verdade, a soma do número de graus que lhes fora atribuído nos termos de cada signo. A soma destes valores perfaz trezentos e sessenta, o número de graus de um círculo e o valor-base do ano egípcio (cf. Os 7 Sistemas de Termos da Astrologia Antiga (3): Sistema Egípcio). Ora este aspecto, embora a origem dos números seja incerta, contraria a visão de Ptolomeu acerca do sistema egípcio de termos (Apotelesmática, I, 21, cf. Os 7 Sistemas de Termos da Astrologia Antiga (6): Ptolomeu), visto que existe, de facto, um princípio de coerência no modelo utilizado pela maioria dos astrólogos gregos (e.g. Nechepso e Petosíris Frag.3 Riess; Doroteu de Sidon II, 28-33 e Frag. 8 Stegemann; Vétio Valente I, 3, Fírmico Materno II, 6; Paulo Alexandria, Cap. 3; Heféstion de Tebas I, 1).

  No entanto, como os termos egípcios excluem os luminares, foi necessário atribuir-lhes um valor. O número de anos concedidos ao Sol foi 120 e à Lua 108. A origem destes números, bem como a sua razão de ser, não é possível de traçar, todavia podemos encontrar neles alguns indicadores do seu sentido. O primeiro resulta da subtracção dos dois números (120 - 108 = 12). Ora, para além do valor simbólico que este número encerra, o número 12 indica os graus de elongação média dos luminares, considerando-se que o Sol avança cerca de 1 grau por dia (00° 59' 08") e a Lua cerca de 13 graus (13° 10' 35"). O segundo resulta da soma dos dois valores (120 + 108 = 228). O número 228 corresponde ao número de meses solares do Ciclo Metónico (19 anos), que tem 235 meses sinódicos.

  Podemos também encontrar no sistema jyotisha um outro indicador para estes números, o qual, na verdade, pode apontar para uma influência do modelo de Chronocratores greco-egípcio. Dois dos mahadasha, sendo dasha (daśā) um período de vida ou período planetário, dizem respeito a períodos de 120 e 108 anos. O vimshottari dasha distribui os 120 anos da seguinte forma: Ketu (Nódulo Sul), 7; Shukran (Vénus), 20; Adityan (Sol), 6; Chandran (Lua), 10; Chevva (Marte), 7; Rahu (Nódulo Norte), 18; Vyazhan (Júpiter), 16; Shani (Saturno), 19; e Budhan (Mercúrio), 17. Já o astottori dasha distribui assim os 108 anos: Adityan, 6; Chandran, 15; Chevva, 15; Rahu, 17; Vyazhan, 10; Shani, 19; Budhan, 12; e Shukran, 21. Ketu não é considerado nesta distribuição.

  Os ciclos médios, que apresentam anos intermédios entre os ciclos pequenos e os ciclos grandes, são os que, na Antiguidade, têm um menor número de referências textuais, sendo, dessa forma, os ciclos menos utilizados nas técnicas astrológicas antigas. Já os ciclos pequenos são os mais utilizados e os que apresentam um maior número de referências textuais tanto no ciclo inteiro, ou seja, na totalidade dos anos planetários, como nas subdivisões desses mesmos anos. Estes ciclos, contrariamente aos ciclos grandes que se baseiam numa técnica astrológica, os termos, têm a sua origem em elementos astronómicos.

  Nestes ciclos, à semelhança dos ciclos grandes, existe também uma diferença entre os que se referem aos luminares e os que se referem aos planetas, sendo que estes últimos dizem respeito ao retorno sinódico dos mesmos, ou seja, o tempo que determinado planeta demora a reaparecer no mesmo lugar ao longo de várias conjunções com o Sol. Este ciclo sinódico difere do ciclo sideral, pois considera a Terra, e não o Sol, o ponto central. No entanto, é necessário dizer que o número de anos dos ciclos pequenos indicam valores aproximados que não contemplam nem a excentricidade, nem elipticidade orbital. Por outro lado, o cálculo baseia-se no ano egípcio, isto, em unidades de 365 dias (360 + 5) e não de 365,25 e, no caso de Mercúrio e Vénus, o número de anos fixado tem também em consideração as fases heliacais. Vénus é aliás o planeta que, nestes ciclos, melhor traduz o sentido que deles se depreende, uma vez que a sua órbita é quase circular, demonstrando portanto uma maior regularidade. No entanto, apesar desta última técnica revelar alguns pequenos desvios, o princípio que sustenta os ciclos é não só coerente como dinâmico.

  Os valores atribuídos ao Sol e à Lua derivam, ou têm por base, a lunação (29,53 dias ou 29 dias, 12 horas, 44 minutos e 2,9 segundos), também conhecida por mês ou período sinódico da Lua, e, por essa razão, adquirem uma funcionalidade que não é apenas astronómica e astrológica, mas que também se aplica à medição do tempo e à calendarização. Os anos planetários do Sol (19) traduzem o Ciclo Metónico, assim denominado em honra do astrónomo e matemático grego do século IV AEC, Méton de Atenas, que desenvolveu e computou um ciclo que já era conhecido pelos babilónios no século VI AEC. No entanto, foi a elaborada formulação matemática que os gregos lhe deram que fez com que fosse incluída numa maravilha do mundo antigo, a Máquina de Anticítera. O Ciclo Metónico diz-nos que, depois de 235 lunações (6939,55 dias), a Lua Nova ocorrerá no mesmo dia. Por outro lado, os anos planetários da Lua (25) reúnem 309 lunações. No caso da Lua, o cálculo tanto pode partir da lunação, tal como podemos observar na tabela acima indicada, como do ano egípcio, ou seja, 365 dias (360+5), dado que em 25 anos de 365 dias existem 9125 dias (na tabela 9124,77 dias), ou seja, 309 lunações de 29,53 dias. 

  Os ciclos planetários são um importante elemento do sistema astrológico, sobretudo nos modelos que procuram a previsão astrológica da duração da vida ou do arco da vida (aphesis) e da regência do tempo e dos seus períodos. Na astrologia contemporânea, estes ciclos caíram em desuso, sobretudo pela predominância dos trânsitos nas técnicas astrológicas de previsão, o que conduziu, por consequência, ao desaparecimento de conceito de distribuição. Este conceito que tem a sua origem no verbo grego ekbállo, que significa lançar, liberar ou distribuir, permite que, a partir do tema natal, se conceda um sentido electivo ao tempo, marcando os períodos temporais com uma determinada regência planetária ou estelar. Esta técnica permanece, no entanto, actual, sobretudo pela sua pluralidade interpretativa. 

  O autor antigo que melhor reproduz esta pluralidade é Vétio Valente, pois encontramos na Antologia um grande número de aplicações dos Ciclos Planetários, destacando-se, por exemplo aquela que conjuga os Ciclos Planetários com os Tempos de Ascensão dos Signos (VII, 2; 3; 5; 6; cf.Tempos de Ascensão dos Signos para Portugal Continental e Ilhas). Por outro lado, Valente recorre também à subdivisão dos ciclos (IV, 1) em anos, meses, dias e horas (IV, 10), em quartas-partes  (IV, 30) ou em metades, um terço ou dois terços de ciclo (VII, 6). Um outro recurso a esta técnica é aquele que distribui a partir da Parte da Fortuna ou, em alternativa, a partir da Parte da Espírito (III, 11; VII, 4), mostrando que a concepção antiga destas partes era bem mais profunda que a actual. Em suma, os Ciclos Planetários quer se analise a sua fundamentação essencial, quer se estude o seu potencial na prónoia astrológica são um contributo indispensável para o todo o sistema astrológico. 

3 comentários:

  1. Caro Rodolfo seria um favor grande se me conseguisse explicar a razäo do ciclo mâximo de Saturno ser de 265 anos?
    Encontrei 256 anos aqui: https://aldebahran-astrologia.blogspot.com/2017/05/os-anos-planetarios-por-clelia-romano.html?fbclid=IwAR0ZOivPKj0-YpIKTN0aVWiB892lF0A6huaqb8Z1BpllY6NSpixZDhLylqM

    e tambêm um astrôlogo Português, JoÄo Medeiros, fala em 256 anos, dos anos mâximos de Saturno como base da regência das dinastias e baseia toda a histôria ciclica de Portugal, considerando esse facto. A primeira vez que vi essa evidência, fiquei 'apaixonado' razäo pela qual agora, pesquisando o seu artigo, lhe escrevo. https://books.google.fr/books?id=C4Y9DwAAQBAJ&pg=PT33&lpg=PT33&dq=ciclo%20anos%20màximos%20saturno&source=bl&ots=gk3xJwMvNn&sig=ACfU3U2-lA7TOecSFcBcwFJ1uzPKn3lm8g&hl=pt-BR&sa=X&ved=2ahUKEwi0kZ-uzu3oAhWJ2hQKHasXDC0Q6AEwDXoECAwQKQ&fbclid=IwAR2kAfRg5BEHO07PsQG1cEy5AnVIdswWjlnYTvsvM5cCll3HGWe4jHKKp9M#v=onepage&q=ciclo%20anos%20màximos%20saturno&f=false

    Enfim, säo duas questöes, que caso possa lhe agradeço a atençäo:
    1) Se todos os anos mäximos dos outros seis (6) planetas estäo correctas com a tabela que voçê apresenta, porque sô os anos mâximos de Saturno, diferem em 9 anos (Dif. 265-256) ?
    2) Existe mais informaçäo sobre este tema, dos Anos Mâximos de Saturno e o Tempo mäximo das Dinastias Reais ?
    --------------
    Obs: Outros lins sobre este tema ???

    Muito Grato
    Jorge Jaloto

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  2. SOu o Jorge Jaloto da mensagem precedente.
    E-mail: é jmadu36@gmail.com
    facebook: emmanuelle madhu (jorge jaloto)

    Grato :)

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  3. Boa tarde,
    Os 256 são os anos sinódicos. Poderá consultar, por exemplo, a origem babilónica destes ciclos em

    de Jong, T. A study of Babylonian planetary theory I. The outer planets. Arch. Hist. Exact Sci. 73, 1–37 (2019). https://doi.org/10.1007/s00407-018-0216-0

    https://link.springer.com/article/10.1007/s00407-018-0216-0#Sec2

    Aqui encontra, por exemplo, a origem dos ciclos e a diferença entre os ciclos cujo centro é a Terra e os que cujo centro é o Sol. A astrologia helenística não utilizou os ciclos maiores ou máximos. As suas principais referências surgem na astrologia árabe, por exemplo, em Abū Maʿšar ou em Māshā'allāh. Grato pelos seus comentários.

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