sexta-feira, 22 de março de 2019

A Dodecatemoria de Ptolomeu ou a Transmissão do Micro-Zodíaco Babilónico

Ptolomeu e a Astronomia in Margarita Philosophica
de Gregor Reisch, 1503.


Ptolomeu, Apotelesmática (Tetrabiblos), I, 22, 1-2, 81.1190-3 e 82.1194-8, Ed. Hübner.



Tradução:

I, 22: Acerca dos Lugares e de cada um dos Graus

1. Alguns dividem também as regências em subdivisões ainda mais pequenas que estas, dando-lhes o nome de lugares e graus. Colocados os lugares sob a influência da décima segunda parte da décima segunda parte, isto é, dois graus e meio (2° 30'), concedem-lhes o poder segundo a ordem dos signos. Outros seguem outras sequências ilógicas e concedem, de novo, cada grau, desde o início [dos signos], a cada uma das estrelas de acordo com a ordem caldaica dos termos.

2. Estas [divisões], uma vez que a sua razão de ser é apenas plausível e não natural, senão mesmo infundada, serão excluídas. (...)


Edição Utilizada:

Hübner, W., 1998, Claudii Ptolemaei opera quae exstant omnia, Vol. 3, 1, Apotelesmatika. Estugarda / Leipzig: B. G. Teubner.

A tradução do grego é minha.


Comentário:

Ptolomeu, neste excerto do Capítulo 22 do Livro I da sua Apotelesmática, indica duas importantes técnicas ou elementos do sistema astrológico antigo: a dodecatemoria e a monomoiria. A primeira foi tratada, pelos astrólogos antigos, de três formas que, embora distintas, são espectros da mesma tradição: a primeira, divide um signo, uma parcela de trinta graus, em doze partes de dois graus e meio e distribui-as pelos doze signos, iniciando-se no signo que é dividido em doze; a segunda, consiste na multiplicação dos graus onde se encontra um planeta, luminar, casa ou parte por doze e cujo valor, somado ao número inicial, é lançado ao longo dos signos ((12 x n) + n); e, por fim, a terceira, que pode até ser uma corrupção da anterior, multiplica apenas a posição de um planeta, luminar, casa ou parte por doze e lança esse valor na ordem dos signos (12 × n). As duas primeiras técnicas, o micro-zodíaco e a multiplicação por treze ((12 x n) + n), são uma herança babilónica, comprovada por elementos textuais cuneiformes. 

A outra técnica referida por Ptolomeu é a monomoiria, ou seja, a atribuição de um planeta ou luminar a cada um dos graus do Zodíaco e que já foi aqui abordada em Os Dois Esquemas de Monomoiria de Paulo de Alexandria I: Tradução do Grego e Os Dois Esquemas de Monomoiría de Paulo de Alexandria II: Tradução do Grego. Este excerto mostra também o cepticismo de Ptolomeu por técnicas que são uma parte integrante da prática astrológica, presentes em horóscopos em papiro e óstraca, e de uma tradição que remonta às suas origens, o que pode, em última análise, demonstrar que Ptolomeu não era um astrólogo profissional. Embora esta não seja uma posição consensual, podemos afirmar, porém, que Ptolomeu não foi um exerceu a astrologia da mesma forma que Vétio Valente e que os seus antecessores, o que aliás pode ser comprovado pelo seu desdém pela tradição astrológica. No entanto, a sua obra não deixa de contribuir para uma reconstrução do sistema astrológico antigo.

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