quinta-feira, 22 de junho de 2017

O Espírito do Sacerdote

O Sacerdote
Tarot Rider-Waite

O Sacerdote é a plenitude do humano que, através da renúncia de si, envereda no caminho de sentido único do amor e do espírito.

O Sacerdote é o humano que compreende que a palavra é vida e o intelecto, poder, pois a ordem precisa de sentido e a sabedoria de valor.

O Sacerdote é a humanidade que respira, que recebe o dom do Espírito, consciente da dualidade do mundo, do binómio que oculta a unidade.

O Sacerdote é a vontade que conhece o limite, que se encontra no limiar do humano e se abeira da totalidade e do divino.

O Sacerdote é aquele que procura conciliar a verdade que é com a verdade em que se acredita, tornando-se assim na cura da ferida da dualidade.

O Sacerdote é o símbolo de religião que une a Trindade, o Pai, a Mãe e o Filho, ao feminino criador, à Natureza que tudo gera.

O Sacerdote é aquele opera a magia do amor, o princípio universal, e aquele que indica a força da hierarquia vertical, do caminho que sobe e eleva.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

O Poder do Imperador

O Imperador
Tarot Rider-Waite

O Imperador é o princípio do poder, o senhor do trono outorgado pelo feminino, entregue pela Imperatriz.

O Imperador é aquele que funda a ordem no humano, na natureza, tornando-se a origem da humanidade e do seu governo.

O Imperador é o Filho da Vontade e da Sabedoria, o Amor como acto e a Razão como valor e sentido.

O Imperador é aquele que segue, não a sua vontade, mas a autoridade da Lei, o dever de se entregar ao trono, à ordem da natureza.

O Imperador é a ausência de superficialidade, de vã vaidade, é o poder sem força e o governo desapegado.

O Imperador é aquele que encontra a liberdade num propósito, numa missão que não é sua, e entrega os seus desejos à cruz da realidade.

O Imperador é a solidão de governar a própria existência, sem corte, nem vassalos, resumindo, na acção e na vontade, a consciência de si mesmo. 

quinta-feira, 8 de junho de 2017

As Partes Herméticas a partir de Paulo de Alexandria


  As Sete Partes Herméticas

Lua
Parte da Fortuna (Týkhê)

Diurna: Ascendente + Lua - Sol

Nocturna: Ascendente + Sol -Lua

Sol
Parte do Espírito (Daímôn)

Diurna: Ascendente + Sol - Lua

Nocturna: Ascendente + Lua - Sol

Mercúrio 
Parte da Necessidade (Anánkê)

Diurna: Ascendente + Parte da Fortuna - Mercúrio 

Nocturna: Ascendente + Mercúrio - Parte da Fortuna

Vénus
Parte de Desejo (Éros)

Diurna: Ascendente + Vénus - Parte do Espírito 

Nocturna: Ascendente + Parte do Espírito - Vénus 

Marte
Parte da Coragem (Tólma

Diurna: Ascendente + Parte da Fortuna - Marte

Nocturna: Ascendente + Marte - Parte da Fortuna 

Júpiter
Parte da Vitória (Níkê)

Diurna: Ascendente + Júpiter - Parte do Espírito 

Nocturna: Ascendente + Parte do Espírito - Júpiter 

Saturno
Parte de Retribuição (Némesis)

Diurna: Ascendente + Parte da Fortuna - Saturno 

Nocturna: Ascendente + Saturno - Parte da Fortuna

Método de Cálculo

  A fórmula de cálculo de uma Parte, A + B - C, embora simples, permite que se criem estruturas complexas de sentido entre os vários componentes do mapa astrológico. Ora o método mais simples de calcular é aquele que, tal como Paulo de Alexandria descreveu, atribui a cada zôdion 30 graus. O princípio matemático inicial tinha uma componente geométrica, o que seria natural, pois uma Parte implica sempre um carácter espacial, é o "lugar de", porém o princípio acabou por se tornar algébrico, o que não comprometeu esse carácter espacial. 

  É a partir da posição de cada um dos três elementos da fórmula que se chega ao lugar que a Parte ocupa. Consoante o signo onde um dos elementos se encontra, somam-se os graus dos signos anteriores, ou seja, 0° para Carneiro, 30° para Touro, 60° para Gémeos, 90° Caranguejo, 120° para Leão, 150° para Virgem, 180° para Balança, 210° para Escorpião, 240° para Sagitário, 270° para Capricórnio, 300° para Aquário e 330° para Peixes. Por exemplo, para calcular a Parte da Fortuna de uma natividade nocturna deve-se proceder da seguinte forma:

Elementos

ASCENDENTE: 06° 35' de Sagitário = 246° 35' = 246,35
SOL: 10° 27' de Capricórnio = 280° 27' = 280,27
LUA: 23° 36' de Touro = 53° 36' = 53,36

Fórmula da Parte da Fortuna Nocturna

ASCENDENTE + SOL - LUA
246,35 + 280,27 - 53,36

Resultado 

473,26 - 360 = 113,26 = 23° 26' de Caranguejo 

    Alcançado o resultado da operação, deve-se ter em atenção três aspectos:
  • Se o valor final for superior a 360, que é o caso, então deve-se subtrair 360;
  • Se o valor final for negativo, pois a soma de A e B é inferior ao valor de C, então deve-se somar 360;
  • E, por fim, como os números decimais dizem respeito aos minutos dos graus, devemos assumir a unidade, ou seja, um grau, como 60 minutos e não como 100 centésimas. Assim, se no resultado final o valor decimal for superior a 60, então deve-se somar uma unidade e deixar o remanescente decimal. Por exemplo, se o resultado da Parte da Fortuna  fosse 99,61, então o valor a reduzir seria 100,01.
  Com o valor final já encontrado, resta apenas transformá-lo em graus e minutos e colocá-lo, já como Parte, num dos doze signos.

Paulo de Alexandria
(Século IV da E.C.)
Introdução
(Eisagôgiká)

Capítulo 23
Acerca das Sete Partes segundo o Panarétos

  Logo, esta confirma-se ser a origem das Partes, pois, de acordo com a sua natureza, a Lua torna-se (kathéstêken) a Fortuna, o Sol, o Espírito, Afrodite, o Desejo, a estrela de Hermes, a Necessidade, a de Ares, a Coragem, a de Zeus, a Vitória e a de Cronos, a Retribuição. O Hôróskopos age como seu juiz e mediador, tornando-se o sustentáculo (básis) de todo o universo.
  E a Fortuna (Týchê) significa tudo o que se relaciona com o corpo (sômatos) e as acções ao longo da vida. Tornou-se sinónimo de aquisições, reputação e privilégios.
  Sucede pois que o Espírito (Daímôn) é o regente da alma (psychê), do carácter (trópos) e da inteligência (phronésis), bem como de todas as faculdades e, em certos momentos, relaciona-se com a reflexão acerca do que cada um faz.
  O Desejo (Éros) significa os apetites e as aspirações que resultam de uma escolha e que são responsáveis pelas amizades (phília) e seus proveitos.
  A Necessidade (Anánkê) significa constrangimentos, submissão, conflitos e guerras (pólemos) e cria inimigos, ódios, condenações e todas as outras restrições que recaem sobre os homens desde o seu nascimento.
  A Coragem (Tólma) constitui a causa (paraitía kathéstêken) da ousadia, das conspirações e da força, bem como de toda a perfídia.
  A Vitória  (Níkê) constitui a causa da confiança (pístis), de um boa esperança, de contestação e de todas as formas de parcerias, mas é também responsável pelos empreendimentos (epibolê) e oportunidades (epitukhía).
  A Retribuição (Némesis) constitui a causa dos destinos subterrâneos (daimónôn kthoníôn), de todas as coisas ocultas e também denunciadas, da debilidade, do exílio, da destruição, da tristeza e do que é próprio da morte (poíotêtos thanátou).

Tradução do Grego RMdF

Comentário

  As Sete Partes Herméticas, atribuídas a cada um dos sete astros e enunciadas por Paulo de Alexandria, são um importante contributo para a interpretação astrológica, bem como um marco na história da astrologia. Estas Partes permitem também que se termine com a nomenclatura errónea de Partes Arábicas, pois a sua origem, apesar de incerta, sendo provavelmente egípcia ou babilónica, serve as bases da astrologia helenista, logo anterior à astrologia árabe. Ptolomeu revelou algum cepticismo quanto a sua utilização, incluindo apenas no seu sistema a Parte da Fortuna, todavia elas criam analogias que servem um modelo de sentido assente numa linguagem de relações e afinidades. São as ligações que entre elas se estabelecem que aprofundam o seu valor e significado, uma vez que é o binómio Sol/Lua, ou seja, Parte do Espírito e Parte da Fortuna, que possibilita o cálculo das restantes cinco Partes. Outro aspecto que é também de referir é a predominância do Ascendente como base de cálculo. O Ascendente como ponto de origem da natividade e delineador do tempo representa a dinâmica da vida, daí que seja um denominador comum em todas as fórmulas de cálculo.

  Os gregos designavam as Partes como Klêroi, plural de Klêros e que tem o sentido de parte, lote, quinhão, parcela ou porção. Ora esta ideia de parte é idêntica à da palavra Moirai, que indica inclusive os graus de cada zôdion. Porém, as Moiras são também as três deusas do destino: Cloto, Láquesis e Átropo. Das Fiadeiras, é Láquesis que atribui a cada um o quinhão do seu destino. Desta forma, existe uma estreita relação entre a ideia de parte e a de destino. As Moiras, consoantes os mitos, são filhas ora da Noite, ora de Témis ou ainda, segundo Platão, de Anánkê. As várias hipóteses de progenitora servem sobretudo para complementar  a profundidade do conceito de parte do destino, pois da primeira herdou-se a noção de origem, de valor primordial, da segunda, a de justa medida e, da terceira, a de necessidade, de força incontornável. Logo, este preâmbulo etimológico reforça a importância das partes na análise astrológica, uma vez que destaca o seu valor, por um lado, de quinhão do destino e, por outro, de carácter relacional, dado que uma parte é uma estrutura com a tendência natural para criar interacções, contrária ao todo que só se relaciona consigo mesmo. Essa predisposição é visível no modo como é calculada. Uma Parte, em astrologia, não é um elemento em si mesmo, é sim o produto de uma relação, de uma soma e de uma subtracção, de um positivo e de um negativo. Uma Parte é uma síntese de sentido e uma imagem da realidade.
   
  Paulo de Alexandria escreveu na segunda metade do século IV da Era Comum e, embora não se saiba quase nada acerca da sua vida, sabemos quando estaria a ser escrita a sua obra, Eisagôgiká, também designada Elementa Apostelesmatica e traduzida como Introdução ou Elementos Introdutórios. No Capítulo 20, quando explicava o regente do próprio dia em que escrevia, refere o dia 14 de Fevereiro de 378 da Era Comum (20° de Mecheir, 94 anos desde Diocleciano). Apesar de Paulo de Alexandria apresentar complexas questões textuais, a sua obra é de extrema relevância em termos astrológicos e didácticos, pois a forma como os seus argumentos são enunciados é indiscutivelmente pedagógica. O texto não tem uma riqueza literária semelhante à  de Ptolomeu, todavia a sua capacidade de síntese e de explanação sistemática visava quase de certeza o ensino da astrologia. Este aspecto é deveras evidente quando define e distingue as estruturas conceptuais e teóricas por detrás da Parte da Fortuna e da Parte do Espírito.

  A origem e o conhecimento das Partes advêm, segundo Paulo de Alexandria, da obra, Panarétos, Todo Virtuoso, atribuída a Hermes que, mais que um autor determinado, tornou-se símbolo de um tradição literária e sapiencial, usado em amiúde como referência de validação. Essa obra, hoje perdida, terá sido escrita entre o final do século I e o século II Antes da Era Comum. Na esteira desses textos fundadores da astrologia antiga, estão também as obras atribuídas a Nechepso e Petosíris. Vétio Valente identifica Nechepso como sendo um faraó ou rei e Maneton refere-o como tendo sido um faraó da XXVI Dinastia, provavelmente Necho II que governou de 610 a 595 Antes da Era Comum, o que coincidiria com a data dos fragmentos das suas obras. Petosíris é , por norma, descrito como sendo um sacerdote, quiçá o vizir do faraó, e a quem são atribuídos um tratado denominado Hória, Definições, e uma carta, dirigida a Nechepso. Estes dois míticos autores são aqui referidos pelo facto de serem considerados, sobretudo por Valente, os criadores da Parte da Fortuna. Porém, em termos cronológicos, Hermes teria a precedência criativa, mas essa não é questão mais relevante, pois o valor reside sim na profundidade filosófica das Partes Herméticas.

  Quanto à tradução propriamente dita convém ressalvar os seguintes aspectos: primeiro, optou-se por traduzir apenas a parte do Capítulo 23 que diz respeito às Sete Partes Herméticas, ignorando as outras partes enunciadas no fim do capítulo; segundo, em vez de apresentar a tradução do método de cálculo, preferiu-se uma abordagem mais esquemática e didáctica, que facilita a compreensão das referidas Partes, mesmo para o leitor que não esteja familiarizado nem com a astrologia grega, nem com o grego antigo; e terceiro, tentou-se, sempre que possível, a escolha de palavras que se relacionam com a linguagem astrológica, permitindo que pluralidade de sentidos da língua grega se torne perceptível. Se recorrermos a uma leitura comparativa das traduções, poderá verificar-se que, neste capítulo, recorreu-se a alternativas bastante diferentes das utilizadas nas versões de Robert Schimdt e de Dorian Gieseler Greenbaum. A expressão paraitía kathéstêken é exemplo disso mesmo, pois foi traduzido tanto por constitui a causa, como por é responsável. O termo paraítios pode ser traduzido por ser em parte causa de, como cúmplice ou responsável ou simplesmente algo ou alguém que partilha a culpa. Este termo ligado ao verbo kathístêmi, que significa estabelecer, erigir, apresentar-se, tornar-se, vigorar ou constituir, permite que se forme um elemento de definição das Partes, pois, logo no início do excerto aqui traduzido, Paulo de Alexandria diz que a Lua torna-se a Fortuna e verbo utilizado é kathístêmi. A Lua não é a Fortuna, ela torna-se, ela constitui-se ou estabelece-se como a Fortuna, ou seja, existe um carácter transformativo na ideia de Parte. Este aspecto coaduna-se com a ideia de lugar de, permitindo, por exemplo, que a natureza temporal da Lua, pois a astrologia é uma linguagem do tempo, se transfira para a forma espacial da Parte da Fortuna. 

  É na distinção entre a Parte da Fortuna e a Parte do Espírito que podemos encontrar a génese das Partes Herméticas. Segundo Paulo de Alexandrina, a Fortuna, Týchê, relaciona-se com tudo o que diz respeito ao corpo e, neste sentido, aproxima-se do significado do Ascendente. Este aspecto leva a que se possa designar a Fortuna como o Ascendente da Lua, visto que qualquer um deles, leia-se Ascendente, Lua ou Fortuna, apontam para o corpo e para a vida. A relação entre estes três elementos e a vida, sendo que a Parte da Fortuna é o lugar onde a vida flui, faz com que, tanto no ocidente como no oriente, sejam designados como marcadores da hora. Valente, por exemplo, defende que, se colocarmos a Parte da Fortuna no lugar do Hôróskopos, ela possuirá o seu poder, o da vida. Desta forma, a Fortuna torna-se o Ascendente e, se a seguir a ela atribuirmos trinta graus a cada zôdion, podemos construir uma carta dos céus, uma roda da vida. Pelo contrário, a Parte do Espírito não servia de marcador da hora, dado que representa o regente da alma (psychê) e assim torna-se o Sol. 

  Se, por um lado, a Fortuna indica os bens materiais, a carreira, a reputação e os privilégios sociais, por outro, o Espírito representa o carácter, a inteligência e todas as faculdades da alma. Porém, o termo que designa o Espírito não é pneuma, o mesmo que encontramos no Novo Testamento, mas sim daímôn. Ora daímôn, para além de ter derivado no termo demónio, significa demiurgo, o ser intermediário entre o humano e a divindade, daí que a Parte do Espírito simbolize tudo o que permite ao humano transcender-se, caminhar para além dos seus limites, olhar para si e de frente a divindade. Quando Paulo de Alexandria diz que o Espírito relaciona-se com a reflexão acerca do que cada um faz, está a referir-se a uma semente do conceito de consciência e, nesse sentido, a consciência participa desse carácter transformativo, desse movimento, inclusivamente humano, de superação dos limites. É na continuidade dessa distinção entre Fortuna e Espírito que os mesmos elementos se aplicam à saúde, pois a Fortuna rege a saúde do corpo e o Espírito a da alma. Dessa forma, seguindo o sistema clássico, se, por exemplo, a Fortuna encontrar o seu lugar no Descendente e se nesse lugar residirem elementos negativos, pode dizer-se que esse lugar será de debilidade e doença. O mesmo acontecerá se em vez da Fortuna lá se encontrar o Espírito, mas neste caso a doença afectará a mente, o discernimento e as emoções, isto que porque o Descendente opõe-se à vida, ao Ascendente, e é casa onde o Sol se põe, onde a sua luz termina. Em suma, o Espírito e a Fortuna são o lugar do Sol e da Lua.

  É a partir do Espírito e da Fortuna, do Sol e da Lua, qual Deus e Deusa, que as outras Partes nascem. Se olharmos com atenção para as fórmulas dessas Partes, podemos concluir que três delas nascem da Fortuna e duas do Espírito. Da Fortuna, nasce a Necessidade, a Coragem e a Retribuição e do Espírito, o Desejo e a Vitória. Ora esta distinção deriva, por essência, da natureza e qualidade da luz dominante, onde a luz da Lua domina, a Fortuna ocupa o seu lugar e, onde o Sol é rei, o Espírito ocupa o trono. Esta é quiçá a principal razão para o cálculo das Partes recorrer sempre a fórmulas distintas para dia e para a noite. É o valor da luz que determina essa alternância e é a luz que atribui a qualidade da Parte, daí que as Partes de Mercúrio, Marte e Saturno tenham uma qualidade negativa, de luz reflectida, e as de Vénus e Júpiter, uma qualidade positiva, de luz directa. No entanto, essa mesma qualidade, de positivo e negativo, não deve ser linearmente atribuída ao Espírito e à Fortuna, pois estes são elementos primordiais, logo têm um carácter neutral. A eles podemos, todavia, associar outros dois conceitos que vão verter o seu sentido para as restantes Partes, pois a Fortuna depende do Destino e o Espírito, da Vontade. Logo, as Partes que utilizam a Fortuna resultam do quinhão determinado, da sorte que destino fiou, e as que usam o Espírito promovem a vontade e a liberdade.

  A atribuição mais controversa é aquela que Paulo de Alexandria concedeu a Mercúrio. Este astro foi na maioria das vezes definido como possuindo um carácter neutral e uma natureza andrógina, porém aqui o significado de Necessidade e o cálculo a partir da Fortuna conferem-lhe uma qualidade maléfica. A última frase da definição de Paulo resume o sentido da Parte da Necessidade, dizendo que é responsável por todas restrições que recaem sobre os homens desde o seu nascimento. A Necessidade surge como a génese da guerra e dos conflitos, sendo, na verdade, a origem do mal. É devido à Necessidade que o anjo se torna demónio, contudo, ela é um sentido desconhecido, um mistério velado. Entre os gregos, Anánkê é um decreto imemorial dos deuses, do qual não se consegue escapar e, segundo a Suda, nem os deuses conseguem lutar contra ela. Ésquilo, no Prometeu Agrilhoado, diz que a Necessidade não permite resistência e que os seus timoneiros são as Moiras e as Erínias. Com o mesmo sentido, Platão defende, na República, que as Moiras são filhas de Anánkê, determinando em conjunto o quinhão que cabe a cada mulher ou homem.

  Ora a mitologia serve aqui para reforçar o significado ancestral de Destino, que deriva das Moiras, e o de Justiça, que segue a ordem das Erínias, tornando a Necessidade próxima do conceito de Karma. As cosmogonias órficas colocam Anánkê na aurora da criação, junto de Cronos, senhor do tempo e seu parceiro, e Pausânias coloca o seu culto na Acrópole de Corinto, no mesmo templo de Bía, a personificação da força. É através destes dois conceitos, tempo e força, que a Necessidade se relaciona com as outras duas Partes determinadas pela Fortuna. A força associa-se a Marte e à Parte da Coragem e o tempo associa-se a Saturno e à Parte da Retribuição. Tólma é a coragem desmedida e imprudente, é uma força cujo movimento, que só ocorre no tempo, excede a Necessidade. Tólma não é Andreía, um outro termo grego para coragem, que tem mais o sentido de bravura ou virilidade. Aqui a Coragem é um excesso, uma hýbris, e naturalmente uma fonte de maldade e violência. Do outro lado, está Némesis, a Parte da Retribuição, que, na verdade, é uma expressão do destino, o seu aspecto mais cruel. O Destino é como uma balança, suportada nos braços da Necessidade, de um lado está Týchê, a Fortuna, e do outro Némesis, a Retribuição. Esta, em tempos mais longínquos, representava a reverência moral à lei, não a lei propriamente dita, mas o medo da culpa, da acção desmedida, daí que a falta resulte em retribuição. Segundo Hesíodo, Némesis é apenas filha de sua mãe. Nýx, a Noite, gerou-a sem pai, tendo nascido já criada e com o epítome de Adrásteia, a deusa de quem ninguém pode escapar. Adrásteia é também um outro nome de Anánkê, o que sustenta a relação entre  os dois conceitos. Némesis torna-se sinónimo de fatalidade e vingança. O facto de ser filha da Noite corrobora a ideia, descrita por Paulo de Alexandria, de ser a regente dos destinos subterrâneos, bem como do que é próprio da morte. A Noite governa o que não pode ser visto, o que se oculta da luz, todavia, se existir falta, Némesis é também aquela que denuncia e determina a sentença. A Retribuição só recai sobre o que foi feito ou ignorado. Desta forma, o sentido destas três Partes, embora distintas, revela uma unidade. É o Destino que reúne em si as Partes da Necessidade, da Coragem e da Retribuição.

   Do outro lado, na continuidade do Espírito, está a Parte do Desejo, o lugar de Vénus, e a Parte da Vitória, o lugar de Júpiter. O seu carácter benéfico resulta da Parte do Espírito, bem como da natureza de Vénus e de Júpiter, contudo existe um outro elemento que também ser considerado: o dôdekátopos, as doze casas. A lógica desta conclusão encontra-se em Trásilo de Mendes, o astrólogo do Imperador Tibério. Na sua obra Pínax, Trasilo apresenta um modelo para as doze casas. O dôdekátopos define a Casa III como a Casa da Deusa e a Casa IX como a Casa de Deus, às quais se atribuiu, mais tarde, a regência respectiva da Lua e do Sol. Ora este aspecto é relevante para o estudo das Partes Herméticas, pois a Lua e o Sol são os conceitos que fundamentam a Parte da Fortuna e a Parte do Espírito. Na continuidade do modelo de Trasilo, a Casa da Deusa relaciona-se com outras duas casas, uma de forma positiva e outra de forma negativa, e o mesmo ocorre com a Casa de Deus. Desta forma, a Casa da Deusa aproxima-se de modo benéfico da Casa V, a Boa Fortuna (Agathé Týchê), e de modo nefasto da Casa VI, a Má Fortuna (Kákê Týchê), pois com uma forma-se um sextil e com a outra uma quadratura. Já a Casa de Deus cria uma harmonia com a Casa XI, o Bom Espírito (Agathós Daímôn), e um conflito com a Casa XII, o Mau Espírito (Kákos Daímôn). No que diz respeito à regência, a Boa Fortuna pertence a Vénus, a Má, a Marte, o Bom Espírito, a Júpiter e o Mau, a Saturno. De fora, fica Mercúrio que rege o Ascendente e reforça dualidade do seu carácter, bem como a complexidade do conceito de Necessidade. Logo, tendo em consideração as Partes que falta analisar, podemos dizer que a Boa Fortuna é uma expressão da Deusa e o Bom Espírito, uma expressão de Deus, tornando as Partes dos seus regentes lugares de bênçãos. 

A partir da lição de Trasilo, concluímos que o Desejo e a Vitória, devido à sua associação com o Espírito e com as Casas da Deusa e de Deus, indicam um caminho para o humano se transcender. A Parte de Vénus, Éros, que se optou por traduzir como Desejo, apresenta uma natureza benéfica e indica os apetites e as aspirações, mas é sobretudo a possibilidade de escolha, o livre-arbítrio, que se destaca, pois é da vontade que as amizades e os seus benefícios nascem. A escolha de Desejo como tradução de Eros pretende que o sentido se coloque para além da dimensão erótica, não a excluindo, mas intensificando o seu carácter de pulsão e de procura, de foco de vontade. Se seguirmos o Espírito, o Desejo torna-se uma via da liberdade, pois o Amor, enquanto princípio universal que se esconde por detrás do Desejo, representa a união, o movimento que agrega e reúne. Mais uma vez a mitologia retrata essa finalidade, daí que exista entre a astrologia e a mitologia uma afinidade conceptual. Hesíodo não o refere claramente, contudo, sugere, mas tanto Safo como Nono de Panópolis afirmam que Eros nasceu de Afrodite e Urano, pois quando Cronos, o tempo, separou Urano de Gaia, o céu e a terra, cortou os genitais ao seu pai e, da espuma que fizeram ao caírem no mar, nasceu Afrodite. No entanto, na descrição de Nono, dado que Afrodite brotou das águas já como mulher, traria no seu ventre a semente de Urano. Eros tornou-se pois tal como sua mãe, um princípio de equilíbrio e harmonia, que fomentava  o desejo e  o união, de modo a compensar a separação promovida por Cronos. Em Empédocles, Eros opõe-se à Discórdia, pois o que um une o outro separa. Já Platão torna Eros filho de Póros, a abundância, e de Pénia, a pobreza. Ora Póros é filho de Métis, a Sabedoria. Assim, qualquer que seja a genealogia que se siga, o princípio da união e da liberdade estará presente e proporcionará um elemento de transformação e transcendência.

De igual forma, a Parte da Vitória, Níkê, fomenta a liberdade da vontade e a superação dos limites. Segundo Hesíodo, Baquílides e o Pseudo-Apolodoro, autor da Biblioteca, Níkê é, tal como Zélos (Zelo), Krátos (Poder) e Bía (Força), filha de Pallas e de Styx. Esta, aquando da Guerra contra os Titãs, colocou os seus filhos ao serviço de Zeus (Júpiter) e Níkê destacou-se de forma que Zeus acolheu-a no Olimpo. Assim, quando Tífon cercou o Olimpo e todos outros deuses fugiram, Níkê permaneceu junto de Zeus e motivou-o com um discurso inflamado. A relação entre a Vitória, Júpiter, o Espírito e a Casa de Deus sustenta pelo valor supra-racional do mito e confirmada pela descrição de Níkê que encontramos na Suda. O léxico bizantino faz uma distinção entre a Vitória alada e a desprovida de asas. A Níkê alada indica a vitória através do pensamento, visto que a irracionalidade e a imprudência não podem ser a causa do sucesso. As asas representam aqui a perspicácia e eficácia da mente. Contrariamente, a Níkê sem asas é sinal de paz, de tranquilidade e comunhão com a terra florescente. A definição de Paulo de Alexandria da Parte da Vitória revela uma afinidade de sentido com a sabedoria mitológica, pois quando diz, por exemplo, que a Vitória constitui a causa da confiança, da boa esperança, une o seu significado com o mito, sobretudo na relação entre Níkê e Zeus. A Vitória, embora descenda da liberdade, depende da confiança ou fé, pois o termo usado é Pístis, e da esperança, da boa esperança (elpídos agathês). Porém, a Vitória gera sempre contestação (agônos), senão mesmo inveja. Essa é outra face do sucesso e resulta sobretudo do facto de existir na Vitória um valor inalienável de liberdade, daí que as acções possam resultar em êxito ou em mera inveja ou contestação. Na continuidade do que foi abordado em relação à Parte do Desejo, Paulo defende que a Vitória é a causa de todas as formas de parcerias (koinônías), logo esta Parte adquire também um carácter unificador. Por fim, segundo o autor da Eisagôgiká, a Vitória é a origem dos empreendimentos (epibolês) e das oportunidades (epitukhías). Nestes dois termos, as traduções diferem um pouco, mas procurou-se acentuar aqui a dualidade dos dois conceitos, já que empreendimentos dependem da vontade e as oportunidades da fortuna. Desta forma, a liberdade e o destino ou o Espírito e a Fortuna participam em conjunto da Parte da Vitória.

  Em suma, as Partes Herméticas, enunciadas por Paulo de Alexandria, continuam a ser uma fonte de sentido e o seu significado não é nem simples, nem imediato. O seu valor, tanto na antiguidade como no presente, sustenta-se numa profundidade conceptual, repleta de ligações, analogias e afinidades. A recuperação dos clássicos da astrologia, sobretudo em Portugal onde são quase desconhecidos, apresenta-se como um caminho de recuperação do pensamento astrológico, em especial, nas universidades e nos meios académicos. Não será certamente pela via da subjectividade ou de aspirações erróneas que a astrologia regressará ao seu lugar de parte legítima do conhecimento. É fundamental que se considere a astrologia como uma linguagem, uma representação humana da realidade. A astrologia é mímesis e as Partes Herméticas são ainda hoje um importante objecto de estudo.



Bibliografia

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Maneton:
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Nechepso e Petosíris:
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Schmidt, Robert and Robert Hand (Ed.), The Astrological Record of the Early Sages in Greek. Project Hindsight, Greek Track, Vol. X. Berkeley Springs, The Golden Hind Press, 1995, 18-22.

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Schmidt, Robert and Robert Hand (Ed.), The Astrological Record of the Early Sages in Greek. Project Hindsight, Greek Track, Vol. X. Berkeley Springs, The Golden Hind Press, 1995, 57-60.

Vétio Valente:
Vettii Valentis Antiocheni Anthologiarium Libri Novem, Ed. David Pingree, Leipzig, Teubner, 1986.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Do Baú X: Da Universalidade da Pose

Da Universalidade da Pose
2014/X/14

Goya y Lucientes, Francisco de,
  Les Vieilles or Time and the Old Women, 1810-12.
Lille: Musée des Beaux-Arts

"Em todas as profissões cada um afecta uma pose conveniente ao que quer parecer. Desta feita, pode dizer-se que o mundo é feito de poses."

La Rochefoucauld, François de, "Máxima 257", Máximas e Reflexões Morais. Tradução Raul Mesquita. Lisboa: Edições Sílabo, 2008.


Mais do que a consciência de quem verdadeiramente somos as máscaras que colocamos e que redefinem a nossa identidade e a nossa expressão no mundo. Construímos uma pose, uma aparência, que se adequa a cada situação e à necessidade do momento. Somos construtores de aparências, criadores de imagens, daí que exista tanta dificuldade em descobrir quem somos. As máscaras fixam-se no rosto e a sombra sobe por nós, escalando a personalidade e trocando o único pelo comum. A consciência de si desvanece e nós tornámos-nos numa ilusão, numa miragem do que outrora foi - ou podia ser - uma identidade. O que somos é então um reflexo no espelho e essa imagem varia conforme o tipo de espelho, consoante a circunstância. Seja no trabalho, num relacionamento, com a família, com os amigos ou com desconhecidos a nossa pose muda, adopta-se ao que mais lhe convém. A cada dia que passa, o tempo estilhaça a identidade, a consciência de si e pode chegar o momento em que ninguém sabe quem é.